O cheiro de madeira queimada, ervas amargas e o estalar suave de uma lareira foram os primeiros sinais de que eu não estava morta.

Tentei mover as pernas, mas uma fisgada aguda perfurou minha espinha, arrancando um gemido abafado do fundo da minha garganta. Minhas pernas e pulsos não queimavam mais com a febre descontrolada do jardim; estavam limpos, cobertos por pomadas frias e envoltos em ataduras de linho impecavelmente alvas.

Não era o meu quarto na residência dos Akasuna, nem o poço de Sasori. As paredes eram de pedra escura e rústica, cobertas por estandartes pesados de veludo azul-noturno bordados com o brasão da Casa Uchiha.

— Se tentar se mexer agora, vai rasgar os pontos que o meu médico levou horas para dar.

A voz veio da penumbra ao lado da janela. Profunda, rouca e carregada de uma gravidade que fez cada músculo do meu corpo tencionar.

Virei o rosto devagar, o coração martelando contra as costelas. Quando a luz da lareira finalmente banhou a figura que se aproximava, meu fôlego simplesmente sumiu.

Não havia mais capuz. À minha frente estava o Imperador do Norte.

Os cabelos negros como a noite caíam com uma elegância austera sobre a testa, emoldurando um rosto de feições afiadas, esculpido com uma beleza fria e implacável. Mas eram os olhos que arrepiavam a espinha: duas orbes escuras, profundas e repletas de uma sobriedade inabalável. Ele vestia um traje militar negro com detalhes em prata no peito e uma capa escura sobre os ombros largos. A postura ereta e a imponência física exalavam a autoridade de um homem regido por um rigoroso código de honra.

Sasuke Uchiha.

No livro original que li na minha vida passada, este homem era o pesadelo de qualquer tribunal. Mas eu sabia o que as páginas não contavam à corte: Sasuke não buscava destruição por prazer, mas sim justiça pela morte trágica de seu irmão mais velho, Itachi. Ele era regido por uma honra ferrenha. E eu precisava usar exatamente essa honra para garantir a única coisa que realmente me importava neste mundo: continuar viva.

A verdadeira Sakura morreu tragicamente nas páginas daquele romance, condenada a uma sentença de morte por crimes que não cometeu, ridicularizada como uma vilã fútil. Eu não daria a este mundo o prazer de repetir esse final. Eu faria justiça por ela... e sobreviveria.

— Onde... estou? — perguntei, a voz saindo rasgada e trêmula.

— Em uma fortaleza militar sob a minha jurisdição direta, na fronteira Norte — ele respondeu, dando dois passos lentos até a beira da cama. Ele cruzou os braços sobre o peito amplo, encarando-me de cima com um olhar que queimava de tão denso. — E a senhorita só está respirando porque cheguei a tempo de impedir que a infecção a matasse naquela fonte.

— Em uma fortaleza militar... sob a custódia direta de Vossa Majestade Imperial — murmurei, sustentando o olhar dele. — Devo me considerar uma hóspede de honra ou uma prisioneira diplomática?

— Isso depende exclusivamente da afiação da sua língua, Senhorita Akasuna — o Imperador devolveu, inclinando o corpo devagar em minha direção, apoiando as mãos na borda de madeira da cama. A proximidade repentina fez meu sangue gelar. — Antes de perder a consciência nos jardins do palácio, a senhorita murmurou o meu nome. Como sabia quem eu era sob aquele capuz?

Ajustei a postura no travesseiro, encarando-o com uma firmeza tranquila.

— Em primeiro lugar, Vossa Majestade erra o meu nome — corrigi, a voz baixa, mas afiada. — Eu não sou uma Akasuna. Sasori jamais se deu ao trabalho de me conceder o sobrenome da família nobre. Para ele e para a corte, eu era apenas a bastarda acolhida por caridade. Meu nome é Sakura Haruno. E prefiro ser chamada assim.

O Imperador arqueou uma sobrancelha, absorvendo a correção com surpresa diante do meu orgulho.

— Haruno... — ele testou o nome devagar, a voz grave fazendo o som ressoar denso. — Pois bem, Senhorita Haruno. Isso não responde como reconheceu o Imperador do Norte sob um traje de plebeu.

— Eu nao sabia que era Vossa Majestade — respondi. — Estava apenas falando o único nome que me veio à mente, com exército, honra e motivos suficientes para enfrentar a Casa Akasuna e o Príncipe Herdeiro.

Os olhos do Imperador estreitaram-se. Ele deu um passo em volta da cama, medindo-me como quem analisa um adversário em um duelo.

— Motivos? — ele indagou, a voz baixando um tom. — E a senhorita julga conhecer os meus motivos?

— A morte do seu irmão, Itachi — soltei as palavras com precisão cirúrgica.

No mesmo instante, a atmosfera do quarto ruiu. O Imperador congelou. A expressão dele transformou-se em uma máscara de fúria e choque absolutos.

A morte de Itachi e os verdadeiros culpados por trás da tragédia eram um segredo de estado absoluto, um mistério cuja investigação era o único motivo de o próprio Imperador ter arriscado infiltrar-se secretamente na capital vizinha. Ninguém fora do seu círculo mais restrito sabia que ele buscava respostas sobre aquela conspiração.

Ele avançou como um predador, apoiando os braços ao lado da minha cabeça na cama, encurtando a distância até nossos rostos ficassem a centímetros de separação. Seus olhos negros queimavam com um perigo mortífero.

— De onde... você tirou esse nome? — a voz dele veio num sussurro áspero. — Quem enviou você, Senhorita Haruno?

Sustentei o olhar dele sem piscar, a respiração rasa diante do calor e da imponência física que emanavam dele.

— Ninguém me enviou, Vossa Majestade — respondi, o tom firme. — Sasori e o Príncipe Herdeiro achavam que eu era apenas uma bastarda inútil. Por me julgar uma idiota sem cérebro, Sasori discutia a conspiração contra a Casa Uchiha a poucos metros de mim. Eu vi as cartas, memorizei os nomes dos conspiradores e sei exatamente qual general do seu próprio conselho foi comprado por eles para trair seu irmão.

Sasuke congelou. A menção a um traidor em seu próprio conselho atingiu-o profundamente.

— O Selo do Norte dará ao seu Império a vitória militar — continuei, inclinando o rosto levemente para frente, desafiando a proximidade dele. — Mas os nomes dos assassinos de Itachi darão a Vossa Majestade a justiça que procura. Eu tenho as duas coisas.

Um silêncio sepulcral tomou o quarto. Sasuke encarou-me por longos segundos, o olhar oscilando entre a fúria da traição e um fascínio sombrio e devastador.

— E o que a Senhorita Haruno pretende exigir em troca da memória do meu irmão e da segurança do meu império? — ele perguntou, a voz baixando para um tom rouco, os olhos negros percorrendo cada traço do meu rosto com uma atenção quase sufocante. — Vai me dizer que quer apenas 'liberdade'? Ou por acaso essas informações são uma armadilha sutil para me forçar a uma nova aliança? Uma oportunidade calculada para se tornar a Imperatriz do Norte através do casamento?

Senti o peso do teste. Ele queria saber se por trás do meu discurso havia a mesma ambição fútil que a corte lhe prometera.

Soltei um sorriso curto, frio e carregado de uma determinação inabalável, encarando-o bem no fundo dos olhos sem piscar.

— Vossa Majestade pode guardar a sua coroa e as suas alianças matrimoniais — declarei, e a paixão na minha voz fez o ar do quarto parecer subitamente escasso. — Eu passei a vida inteira presa na gaiola dos Akasuna, negociada como um troféu inútil para o Príncipe Herdeiro. Não escapei de um noivado para me acorrentar ao leito de outro soberano. Não quero um marido, Vossa Majestade. Definitivamente não quero me casar.

Sasuke piscou devagar. A provocação no olhar dele desfez-se, dando lugar a uma pausa densa. Ele se aproximou mais um centímetro, inclinando o rosto até que sua respiração morna roçasse a curva da minha bochecha, enviando um arrepio involuntário direto para a minha espinha. A proximidade era intoxicante; o cheiro de couro, cedro e neve fresca vindo dele parecia preencher todo o meu espaço.

— Uma mulher que recusa o trono do Império do Norte... — ele murmurou, a voz grave ressoando como uma vibração baixa bem perto do meu ouvido. — Se não quer casamento ou títulos de nobreza, o que exige de mim, Senhorita Haruno?

Lutar contra a tensão magnética que queimava entre nós exigiu cada gota do meu autocontrole. Sustentei aquele olhar hipnotizante sem recuar.

— Quero duas coisas muito claras — respondi, mantendo a voz firme. — A primeira é o direito de cobrar a justiça. Quero ver Sasori e o Príncipe Herdeiro ajoelhados antes de verem o império de mentiras deles virar cinzas. Quero um assento no seu conselho de estratégia para ajudar a derrubá-los.

Sasuke ouviu em silêncio, um brilho de aprovação perigosa reluzindo nos seus olhos.

— E a segunda condição? — ele questionou, os olhos descendo por um milésimo de segundo para a minha boca antes de voltarem para os meus olhos.

— Uma garantia inviolável selada pelo seu sangue e pelo seu selo imperial — declarei. — Prometa-me que, independentemente do que aconteça no futuro, Vossa Majestade jamais assinará uma sentença de morte ou de execução contra mim. Eu não escapei dos algozes do meu reino para morrer pela lâmina do seu.

Sasuke pareceu genuinamente impactado pela inteligência calculista da minha exigência. Ele percebeu que eu não estava apenas jogando com o presente; estava blindando meu futuro contra qualquer reviravolta política.

Ele não faz ideia de que meu maior medo é o destino de tragédia traçado nas páginas daquele romance... mas a reação dele provou que meu golpe foi certeiro.

​O Imperador ergueu-se devagar, ajeitando a capa sobre os ombros largos, mantendo o olhar cravado em mim.

​— A minha palavra de honra como Imperador é um pacto sagrado — ele avisou. — Mas palavras não cobrem o preço de uma crise diplomática contra a coroa vizinha. O que a senhorita tem a me oferecer hoje para garantir essa promessa?

​— A rota do comboio clandestino de armas que Sasori enviará pela fronteira amanhã ao pôr do sol — entreguei a oferta. — Se suas tropas interceptarem o carregamento, Vossa Majestade saberá que minhas informações sobre os conspiradores e sobre a chave do Selo do Norte são reais.

Analisou por alguns instantes.

— A senhorita pensa em cada detalhe de sua sobrevivência com uma frieza fascinante — ele disse, a voz baixando para um tom aveludado e íntimo. — Pois bem, Senhorita Haruno. Se o comboio clandestino de armas que você indicou for interceptado amanhã ao pôr do sol... eu concederei o seu assento no conselho e firmarei o decreto que lhe concede imunidade absoluta contra a pena de morte no meu império. A sua vida pertencerá unicamente à sua própria vontade.

— Temos um acordo, Vossa Majestade — afirmei, a respiração rasa diante da intensidade dele.

— Temos — ele confirmou, mas em vez de se afastar imediatamente, os dedos dele deslizaram devagar pelo contorno do meu maxilar, um gesto lento e consciente que fez meu sangue queimar antes de ele finalmente soltar meu rosto. — No entanto, não a deixarei solta no meu império. A partir de hoje, a senhorita ocupará a suíte anexa aos meus aposentos privados. A minha Guarda de Ferro fará a guarnição. Caso tente algo...

— Terei prazer em ser vigiada por Vossa Majestade — provoquei rapidamente, um meio sorriso surgindo no meu rosto pálido. A Guarda de Ferro era um grupo de elite com os melhores soldados do Norte completamente leais à Sasuke. —, desde que cumpra a sua palavra.

Um sorriso lento, perigoso. desenhou-se nos lábios do Imperador do Norte.

— O meu selo é a minha palavra, Senhorita Haruno — ele respondeu, dando dois passos para trás com uma elegância impecável antes de alcançar a maçaneta da porta. — Descanse. Amanhã à noite, o sangue dos seus inimigos começará a pagar a sua estadia.