Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
5 Capítulo 5
O silêncio do ambiente ao meu redor era diferente de tudo o que eu conhecia. Não havia o som constante das servas cochichando com desdém nos corredores, nem o eco dos passos pesados e ameaçadores de Sasori.
Abri os olhos devagar, ajustando-me à luz suave da manhã que filtrava pelas altas janelas arqueadas. A suíte anexa aos aposentos do Imperador era ampla, aquecida por dutos de pedra sob o assoalho e incrivelmente confortável. As cortinas pesadas de veludo escuro e a cama de dossel com lençóis de linho macio faziam o antigo quarto da Sakura original, na residência dos Akasuna, parecer uma cela fria e esquecida.
Tentei mudar de posição na cama, mas uma dor aguda fisgou minhas pernas e pulsos, fazendo-me soltar um pequeno suspiro e voltar a me deitar.
— Se eu fosse você, não tentaria nenhum movimento brusco agora. O médico imperial deixou ordens bem claras sobre o repouso.
A voz veio do canto da sala, perto da pesada porta de madeira que dava acesso ao gabinete do Imperador.
Virei o rosto devagar e encontrei uma figura alta, encostada de forma relaxada contra o batente. Ele vestia o uniforme inteiramente negro da Guarda de Ferro — ajustado, imponente e sem qualquer insígnia visível. Uma máscara de pano preto cobria a metade inferior de seu rosto e uma bandana enegrecida no olho esquerdo, deixando à mostra apenas cabelos prateados e espetados e um olhar de expressão tranquila, quase entediada, enquanto folheava um pequeno livro de capa escura.
Kakashi Hatake.
Eu o reconheci instantaneamente pelas páginas do romance que li na minha vida passada. Ele não era um guarda comum; era o lendário Lorde Comandante das Forças Especiais do Norte, líder da Guarda de Ferro, o homem a quem Sasuke encarregava apenas as missões mais difíceis e confidenciais do império. Além de ter sido quem o treinou desde a infância.
Espere... Kakashi Hatake guardando a minha porta?
Senti um arrepio de surpresa. Tendo lido o livro, eu sabia o quão absurdo aquilo era. O líder das Forças Especiais não fazia escolta pessoal de ninguém. Se Sasuke o havia colocado em pessoa para cuidar da minha suíte, a relevância que eu representava para o Norte era incomparavelmente maior do que eu imaginava.
— Ah... bom dia — murmurei, soltando um riso fraco e sincero enquanto relaxava os ombros na cabeceira. — Eu só queria ver se minhas pernas ainda funcionavam. Não pretendo ir a lugar nenhum desse jeito.
Kakashi fechou o livro com um estalo suave e guardou-o no bolso do traje, ajeitando a postura. O único olho visível curvou-se levemente no que parecia ser um sorriso amigável por trás da máscara.
— Fico feliz em ouvir isso. Geralmente, as pessoas que acordam numa fortaleza desconhecida tentam pular pela janela ou surtam — comentou ele, dando dois passos lentos em direção à mesa lateral. — Você é bem mais calma do que eu esperava.
— Depois de passar por uma tempestade e desmaiar num jardim, uma cama macia e um teto que não pinga parecem um luxo inacreditável — admiti, ajeitando o travesseiro atrás das costas com cuidado. — Como devo chamá-lo?
— Por enquanto, Comandante serve — respondeu ele de forma descontraída, puxando o pano que cobria uma grande bandeja de prata sobre a mesa. — Mas pelo seu olhar eu diria que não lhe sou desconhecido.
Dei um sorriso forçado. Esse era Kakashi...a perspicácia em pessoa.
-Quem não conheceria o famoso Cão Raivoso do Norte — falei.
Ele analisou por um breve momento.
-Poucas pessoas, eu diria — completou — E você sabe.
Ele estava certo. Ser um guarda de elite não é muito útil se todos sabem a sua identidade. E Kakashi realizava suas missões completamente com a cabeça coberta.
-Touché — confirmei. — Como vê...mais uma prova de meu valor para o Norte.
-De qualquer forma, o Imperador deixou instruções bem específicas para que você fosse alimentada assim que acordasse — mudou de assunto.
Quando o aroma da comida atingiu meu nariz, meu estômago roncou alto, sem qualquer cerimônia. Senti minhas bochechas esquentarem de vergonha.
— Meu Deus... desculpe por isso — disse, cobrindo o rosto com as mãos e rindo meio sem jeito.
Kakashi soltou uma risada curta e abafada por trás da máscara, aproximando a bandeja e acomodando-a cuidadosamente sobre o meu colo.
— Não se desculpe. Fome é o melhor sinal de que você está viva.
Na bandeja havia um banquete: ensopado quente de carne com ervas do norte, pães frescos, queijos curados e um frango assado dourado e extremamente apetitoso.
Segurei o garfo e a faca, mas assim que tentei aplicar um pouco de força para cortar a carne, uma fisgada violenta nos meus pulsos enfaixados me fez soltar os talheres com um estalo metálico sobre o prato.
Suspirei, encarando a bandeja equilibrada sobre as minhas pernas e meus pulsos devidamente inúteis.
— Quer saber? Que se lasque a etiqueta de nobre — murmurei.
Apanhei uma coxa de frango suculenta usando apenas as pontas dos dedos e dei uma mordida generosa, fechando os olhos de pura satisfação.
Kakashi encostou a cabeça para trás na parede, dando uma risada baixa e divertida.
— A etiqueta aristocrática durou exatamente três segundos. Impressionante.
— Tente comer com etiquetas medievais e os pulsos destruídos para ver se o senhor dura dois — rebati de boca cheia, dando outra mordida e rindo. — Além disso, a comida do Norte é gostosa demais para eu perder tempo bancando a lady.
Enquanto saboreava a refeição, um pensamento mais profundo passou pela minha mente. A Sakura original passara anos sendo humilhada pela Casa Akasuna, alimentada com sobras e mantida fraca. Agora, comer aquela comida quente em paz era um ato de justiça por ela.
Na minha vida anterior, eu era uma garota comum. Acordar no corpo dessa personagem trágica mudou tudo. Não tenho aquele temor religioso pela realeza deste mundo. Não tenho medo de Sasuke — ao ler a história dele, sabia que no fundo ele era uma das pessoas mais confiáveis do Império. O que me assustava era apenas o poder da coroa dele de me mandar executar se eu errasse a mão.
— Pela velocidade, vejo que o tempero foi aprovado — brincou Kakashi. — Sabe, Senhorita Haruno... eu conheço o Sasuke desde que ele era um garoto. Em todos esses anos, é a primeira vez que o vejo me designar pessoalmente para proteger uma hóspede na ala privada dele.
— É mesmo? — perguntei, limpando o canto da boca com o guardanapo. Fingi desconhecimento. — Achei que ele fizesse isso com qualquer um que chegasse com informações.
— Definitivamente não — Kakashi negou. — Ele é um homem extremamente reservado. E devo dizer... ver você corrigir o sobrenome que ele usou e peitar as perguntas dele ontem à noite foi um feito raro.
Arregalei os olhos de leve.
— Você estava lá ontem à noite? Eu não o vi no quarto.
— Sou um dos melhores no que faço — respondeu com um piscar de olhos brincalhão. — Pouquíssimas pessoas têm a coragem de encarar o Sasuke daquele jeito.
— Eu só estava tentando garantir minha sobrevivência — respondi, dando um sorriso fraco.
— Mas me diga... o que você acha que Sasori e o Príncipe Herdeiro vão fazer agora que você fugiu?
Era um teste. Ele queria informações ou, no mínimo, estudar minha reação. Mas eu não tinha o que esconder.
— O Príncipe Herdeiro quer me encontrar por pura conveniência — respondi devagar. — Ele tem um orgulho ferido, não aceita perder uma noiva daquele jeito e precisa manter a aliança política. — dei um suspiro pesaroso — Mas quem está em pânico de verdade é o Sasori. Ele sabe que passei anos ouvindo tudo no silêncio e que gravei cada segredo na memória. Ele não sabe o que vou fazer e, por isso, vai querer minha cabeça a qualquer custo.
— Uma análise perfeita — elogiou Kakashi. — A sua cabeça acabou de ser colocada a prêmio no reino vizinho.
Suspirei, encostando a cabeça na parede.
— Bom... pelo menos sei que fiz a escolha certa em correr até aqui.
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Ao cair da noite, o som de passos pesados ressoou pelo gabinete anexo. A porta de madeira maciça abriu-se, e a presença imponente de Sasuke preencheu o quarto.
Ele trazia a capa militar negra levemente salpicada pela neve. Sua figura era de uma imponência esmagadora: ombros largos, porte ereto e olhos negros exalando uma intensidade fria. Havia o cheiro forte de couro, cedro e neve vindo dele.
Kakashi fez uma breve mesura e recuou em direção à porta, permanecendo atento no limiar do corredor.
Senti o peso do cansaço voltar. Ter que medir cada palavra com um homem que segurava minha vida nas mãos era desgastante.
— Vejo que a Senhorita Haruno aproveitou a refeição — disse Sasuke, a voz grave.
Puxei o ar devagar antes de responder.
— A comida estava excelente, Vossa Majestade — disse, sustentando o olhar dele. — Mas imagino que seu regresso não seja sobre o meu apetite.
— A interceptação no Desfiladeiro dos Ventos foi um sucesso — declarou ele. — O comboio clandestino carregado de armas pesadas foi apreendido e a escolta de Sasori foi neutralizada.
Soltei uma respiração curta de alívio.
— Isso confirma... que a minha memória não falhou — respondi, fazendo uma pausa para engolir em seco enquanto a dor nos pulsos pontada sob as ataduras.
Sasuke deu um passo à frente.
— Confirma o carregamento, Senhorita Haruno. Mas armas apreendidas não provam lealdade. Sasori poderia ter sacrificado um arsenal apenas para plantar você como um cavalo de Troia na minha fortaleza.
A acusação me cansou. Fechei os olhos por dois segundos, respirando fundo para não fraquejar.
— Se Sasori tivesse capacidade de abrir mão de tantas armas só para me usar como espiã... — fiz uma pausa, ajustando a voz —, ele não teria deixado os segredos da conspiração ao meu alcance por tanto tempo. — perdi um pouco a paciência — Vossa Majestade é prudente, mas buscar uma traição aqui é desperdício de energia.
Sasuke observou minhas pausas dolorosas e a exaustão nítida no meu rosto, notando o esforço que eu fazia para me manter ereta.
— Pois bem — murmurou ele. — Se quer continuar sendo útil, precisamos tirar você dessa cama. Eu não posso negociar com alguém que mal consegue respirar sem sentir dor.
Ele chamou o médico imperial, que entrou trazendo um estojo de madeira. Um médico imperial era algo raro de se ver. Ele só atendia membros diretos da família do Imperador e demais pessoas apenas por ordem dele.
A técnica de cura por Chakra Imperial... lembrei-me das descrições do romance enquanto o médico preparava os instrumentos. Era uma arte ancestral e secreta, dominada exclusivamente pelas linhagens reais do Norte. Diferente da medicina comum, ela manipulava a energia vital para acelerar a regeneração celular em tempo recorde. Era milagrosa, mas diziam que a dor da fusão dos tecidos era quase insuportável.
O médico removeu as ataduras dos meus pulsos e pernas, expondo as feridas brutais. Quando a luz verde emanou de suas mãos e tocou minha pele, uma queimação avassaladora me atingiu.
Fechei os olhos com força, mordi os dentes e apertei os lençóis da cama até os nós dos dedos ficarem brancos. A dor nos pulsos e pernas parecia selar a carne a ferro quente. Concentrei-me apenas em puxar o ar e sobreviver àqueles segundos terríveis, recusando-me a soltar qualquer gemido.
Quando a luz esverdeada apagou e a dor cessou de repente, abri os olhos devagar. O médico fez uma reverência e se retirou em silêncio.
Puxei o cobertor para o lado e olhei estupefata para minhas pernas e pulsos. A pele estava imaculada, firme e lisa, sem um único arranhão, hematoma ou vestígio de dor. Sentia uma onda de energia limpa fluindo por todo o meu corpo. Sem dor. Inacreditável.
Uma euforia genuína tomou conta de mim. A sensação de estar completamente curada depois de dias de sofrimento foi tão esmagadora que esqueci totalmente o protocolo. Pulei da cama no mesmo instante.
— Meu Deus, funcionou de verdade! Sem dor nenhuma! — exclamei, rindo de alívio puro.
Levada pelo impulso e pela felicidade transbordante, dei dois passos rápidos e me lancei sem pensar para dar um abraço na pessoa mais próxima: Sasuke.
Apertei meus braços ao redor de sua cintura com força.
No segundo em que meu corpo colidiu com o dele, a realidade me atingiu como um raio. O peitoral de Sasuke era incrivelmente largo, rijo e denso como uma rocha sob o tecido da túnica militar. Ele tinha uma estrutura física atlética e profundamente musculosa, com ombros imponentes que faziam meu corpo parecer minúsculo em contraste. Havia uma firmeza física intimidante e um calor magnético emanando dele.
E para piorar... percebi imediatamente que eu estava vestindo apenas uma longa camisola de linho verde-claro. Isso era algo novamente impensável para uma dama naquele livro. Totalmente contra os protocolos da realeza, muito menos diante do Imperador.
O tempo congelou.
Sasuke paralisou por completo. Sua postura ficou rija, os braços estancados ao lado do corpo e os olhos negros arregalaram-se levemente, dominados por um choque puro e absoluto. Era evidente que ninguém jamais ousara invadir seu espaço físico daquela forma em toda a sua vida — muito menos uma mulher em trajes de dormir. Ele desviou o rosto instantaneamente e me afastou com delicadeza.
Do portal da porta, Kakashi, que observava a cena com a mão no queixo, inclinou a cabeça e soltou um tique de riso abafado.
— Bom... vejo que a técnica médica não só curou as feridas, mas também destruiu qualquer vestígio de etiqueta e modéstia da hóspede — comentou Kakashi, o único olho brilhando em pura diversão. — Sasuke, quer que eu chame os guardas ou você consegue sobreviver a um abraço?
O comentário de Kakashi me fez acordar do transe. Dei três passos desengonçados para trás. Senti meu rosto queimar de tanto ruborizar.
— Eu... ahn... Vossa Majestade! — engasguei, limpando a garganta e ajeitando o tecido da camisola com as mãos trêmulas, querendo que um buraco se abrisse no chão. — Por favor, me perdoe! Foi... o choque de ver o corpo são de repente. Eu esqueci completamente a compostura por um segundo.
Sasuke pigarreou baixo, recuperando o controle da postura com uma rapidez admirável, embora a rigidez nos ombros e o brilho intenso em seu olhar traíssem o quanto aquele toque o havia desestabilizado. Ele ajeitou o colarinho do manto, desviando o olhar por uma fração de segundo antes de encarar-me novamente.
— Vejo que a sua energia foi restaurada com excesso, Senhorita Haruno — disse ele, a voz grave carregando uma nota sutil de ironia contida. — Guarde essa mesma determinação para o nosso acordo.
Respirei fundo, forçando o sangue a sair das minhas bochechas e focando no jogo político para salvar o que restava do meu orgulho.
— Claro — respondi, erguendo o queixo e recompondo-me. — Como tínhamos combinado... eu lhe entregarei o nome do primeiro conspirador do seu conselho assim que o decreto imperial assinado com o seu sangue e garantindo a minha imunidade estiver nas minhas mãos. E a localização do Selo do Norte... continuará sob o meu segredo até a reunião.
Sasuke deu um passo em direção à porta. A distância entre nós parecia ainda mais carregada de uma tensão viva e magnética depois do incidente.
— O decreto assinado será entregue amanhã ao amanhecer — declarou ele, encarando-me fixamente. — Esteja pronta.
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