Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
11 Capítulo 11
A última coisa que vi antes da escuridão total foi a expressão de desespero estampada no rosto de Sasuke, estendendo o braço em um vão na tentativa inútil de me segurar. O chão das catacumbas cedeu de vez sob meus pés, ruindo em um estalo ensurdecedor.
A areia não apenas caiu — ela ganhou vida, agindo como uma criatura faminta.
Enquanto eu despencava no poço escuro abaixo das ruínas, a massa densa de grãos envolveu minhas pernas, puxando-me para baixo com uma força colossal. O ar sumiu dos meus pulmões quando a areia pressionou meu tórax, invadindo minha boca, narinas e olhos. O atrito áspero raspava minha pele, rasgando o tecido das minhas roupas enquanto eu era arrastada para as profundezas sufocantes da terra.
Debati-me desesperadamente, tentando encontrar qualquer ponto de apoio, mas não havia ar, não havia luz e não havia firmeza. Apenas o peso esmagador de toneladas de poeira e rocha se acumulando sobre mim.
O rugido surdo da terra cobrindo minha cabeça foi a última coisa que ouvi. O oxigênio acabou. O pânico cedeu lugar ao gélido abraço do sufocamento e, por um segundo, acreditei que aquele era o meu fim.
Então, o barulho da areia evaporou em um instante.
Não houve transição suave, nem o baque seco de uma queda no fundo das ruínas. Apenas o silêncio retumbante de um abismo sem fim. A areia que sufocava minha garganta desapareceu, e a pressão sufocante do deserto deu lugar a uma atmosfera sombria, imóvel e pesada.
Abri os olhos. Não havia catacumbas, nem dunas, nem vento. Apenas uma imensidão negra e reflexiva sob meus pés, como um espelho de água escura estendido ao infinito.
— Então... é essa a intrusa?
A voz veio das sombras. Fria. Seca. Carregada de um rancor tão antigo e denso que fez todos os pelos dos meus braços se arrepiarem.
Pisquei, a mente tentando desesperadamente racionalizar o que via. Minha primeira reação foi procurar uma explicação lógica: uma ilusão provocada pelo choque do desabamento? Uma miragem criada pela magia ancestral das catacumbas para testar minha sanidade?
Mas, quando a figura deu o primeiro passo à frente, qualquer hipótese de ilusão ruiu por terra.
Não havia a volatilidade flutuante de um sonho, nem o contorno diáfano de um fantasma. O impacto de cada passada na água negra do chão reverberava em uma onda física precisa, trazendo consigo o aroma metálico de sangue pisado e a aura de uma presença viva que já havia habitado aquela exata carne.
Ela vestia os trajes de Rainha do Império do Sul — um vestido longo e majestoso de linho e seda escarlate-profundo, ornamentado com escoras rígidas em ouro velho ao longo do peitoral e ombros, refletindo o poder do trono ao qual se unira ao casar-se com Naruto. A cauda pesada do vestido arrastava-se na água negra sem se molhar. Sobre seus cabelos rosados, presos em um coque suntuoso, repousava uma coroa fina de metal escuro, cujas pontas pontiagudas pareciam espinhos.
Ela parecia uma soberana coroada pela própria tragédia.
Diante de mim estava a figura de cabelos rosados e olhos verdes.
— Você... — dei um passo atrás, sentindo a água negra sob meus pés ondular levemente. — A verdadeira Sakura.
— "A verdadeira"?
Ela inclinou a cabeça devagar, a coroa de espinhos refletindo a penumbra do abismo. Um sorriso amargo despontou em seus lábios, sem que a curva alcançasse os olhos gélidos.
— Curioso você usar essa palavra. — Ela deu um passo lento em minha direção, o tecido pesado do vestido estalando no silêncio. — Você tomou meu corpo, usou minha voz e caminhou pelos meus passos. E fez tudo isso com uma facilidade nojenta.
A Sakura original mantinha uma postura impecavelmente altiva. A cabeça erguida, os ombros alinhados e o queixo suspenso em um ângulo severo. Seus olhos verdes eram de um ácido cortante — frios, analíticos e transbordando um desprezo silencioso.
Devagar, ela começou a caminhar em círculos ao meu redor.
O olhar afiado desceu pelos meus cabelos, demorou-se na minha postura recuada, avaliou minhas roupas rasgadas pela areia e parou na minha expressão atônita. Era um exame minucioso, da cabeça aos pés.
— Você veio de um mundo confortável. — A voz dela baixou, pausada, cada sílaba caindo como uma pedra. — Teve uma vida inteira com memórias, escolhas, uma rotina fútil...
Ela deu mais um passo, encurtando a distância até que eu pudesse sentir a aura fria que emanava do seu traje imperial.
— E quando caiu aqui, tratou a minha existência como um jogo ganho. Porque você conhecia o roteiro. — Ela fez uma pausa curta, soltando o ar pelo nariz em um riso amargo. — Você sabia exatamente o meu futuro.
Abri a boca para tentar dizer que não pedi por nada daquilo, que também estava assustada... mas ela não me deixou falar.
— Você usou o que sabia para bancar a inteligente! — a voz dela subiu de tom, trêmula de ressentimento. — Se livrou do casamento arranjado com uma frieza calculada... manipulou até mesmo as peças do Imperador do Norte como se jogasse xadrez numa tarde de domingo!
Meu coração gelou com o impacto de suas palavras. De repente, a Sakura original travou o passo.
As mãos dela — cobertas por anéis imperiais de ouro — começaram a tremer visivelmente. A compostura altiva da Rainha ruiu por um segundo quando os olhos verdes dela se arregalaram. Uma onda de terror puro, visceral e descontrolado atravessou o rosto dela.
Ela abraçou o próprio corpo, apertando o tecido escarlate do vestido como se tentasse se proteger de garras invisíveis. A respiração dela ficou curta, entrecortada.
— Você... você simplesmente escapou de Sasori... — murmurou ela, e a voz agora não era de uma imperatriz, mas de uma mulher quebrada pelo pânico. Ela deu um passo em falso para trás, quase tropeçando na cauda do vestido. — Você não faz ideia do cheiro da madeira podre e dos venenos dele... Você não sabe o que é sentir os dedos dele na sua garganta enquanto você implora por ar no escuro! — ela revirou os olhos — Para você, Sasori foi só mais um 'evento do livro' para desviar com esperteza!
Ela engoliu em seco, o peito subindo e descendo descontroladamente enquanto a lembrança do pavor e da tortura a sufocava ali mesmo no limbo.
— Enquanto eu chorava sangue e agonizava... você usou os meus maiores pesadelos para fazer cena! — Ela balançou os braços — Para passar por cima das minhas dores como se fossem degraus!
Assistir àquela cena me paralisou.
A vergonha e o horror me atingiram como uma lâmina quente no peito. Eu vi nos ombros trêmulos dela, nos olhos arregalados de pânico ao lembrar do veneno e na forma como ela segurava a própria garganta. Para mim, Sasori tinha sido uma 'fase do jogo'. Para ela, era um trauma inominável.
Dobrei os joelhos devagar e caí na água negra, ajoelhando-me aos pés dela.
— Me desculpa... — sussurrei, a voz tremendo e abafada pelo nó na garganta. — Por favor... me desculpa...
A Sakura original estancou.
Por um segundo, o silêncio do limbo tornou-se tão absoluto que o único som existente era o gotejar das minhas lágrimas caindo na superfície negra sob meus pés.
Ela inclinou a cabeça devagar. Um vinco suave formou-se entre suas sobrancelhas, como se estivesse tentando processar a combinação daquelas duas palavras. Então, o peito dela subiu em um suspiro curto... e ela riu.
Não foi um riso alto de imediato. Começou como um sopro de ar pelo nariz, um tremor contido nos cantos da boca. Mas logo se transformou em uma gargalhada aberta, seca e estridente que ecoou por todo o abismo.
Era um som horrível. Havia uma histeria amarga ali, impregnada de deboche e de um desprezo tão denso que fez meu sangue gelar nas veias. Ela cobriu a boca com a mão coberta de anéis imperiais, os ombros sacudindo devagar sob o linho escarlate do vestido, enquanto ria da minha cara como se eu acabasse de contar a piada mais absurda do mundo.
Aos poucos, a gargalhada foi morrendo.
Ela baixou a mão. O riso sumiu do seu rosto com a rapidez de um golpe de lâmina, deixando em seu lugar uma palidez gélida e um olhar de puro nojo.
— "Me desculpa"? — a voz dela veio baixa, quase um sussurro, mas cada sílaba carregava o peso de uma sentença.
Ela deu um passo lento à frente. A cauda do vestido de rainha roçou a água negra, produzindo um farfalhar suave.
— Você... — ela fez uma pausa longa, cravando os olhos verdes no meu rosto encostado no chão — ...acha mesmo que duas meras palavras limpam as noites em que engoli meu próprio sangue?
Ela parou diretamente diante de mim. Os dedos curvaram-se ao lado do corpo, apertando o tecido até as juntas ficarem brancas.
— Acha que essa sua palavra ridícula... apaga a sensação do veneno corroendo minhas entranhas? — A voz dela falhou por uma fração de segundo, engasgada pelo pavor que ainda residia na sua memória, mas ela recuperou o controle imediatamente, erguendo o queixo. — Acha que apaga a lâmina rasgando minhas costas no escuro... enquanto aqueles em quem eu confiava assistiam em silêncio?
O peso daquelas pausas me esmagou.
A gargalhada dela ainda ressoava nos meus ouvidos como um tapa na cara. Ouvindo a crudeza da voz dela e vendo a rigidez do seu corpo, a ficha caiu com uma violência devastadora: eu estava tentando resolver a dor de uma vida destruída com a etiqueta superficial do meu mundo antigo. Pedir "desculpa" não era um ato de nobreza; era a minha última tentativa egocêntrica de aliviar a minha vergonha e me sentir menos culpada.
A palavra evaporou da minha boca, parecendo cinza e poeira. Eu não tinha o direito de pedir nada. Nem perdão, nem alívio.
A Sakura inclinou-se devagar sobre mim, o rosto a poucos centímetros do meu. A coroa de espinhos projetava uma sombra escura sobre seus olhos.
— Você veio até aqui... ajoelhou na minha frente... e esperava que, com uma lágrima e um pedido de desculpas bonitinho, nós ficassemos quites? — Ela soltou um riso curto pelo nariz, gélido. — Que infantilidade nojenta, Mitsuko... Ainda pensa que estamos num conto de fadas? — sua boca cuspiu meu nome com raiva — Você continua achando que a vida é um livro onde basta dizer a frase certa no capítulo final para conseguir a redenção.
As palavras dela me atingiram com o peso de uma revelação brutal.
A ficha caiu não com raiva, mas com uma clareza aterrorizante que gelou até meu último fio de cabelo. Ela tinha razão. Na minha cabeça de leitora, Império das Cinzas era uma narrativa de duzentas ou trezentas páginas. A dor da Sakura cabia em três ou quatro parágrafos de prosa poética. A tortura de Sasori era resumida em um capítulo tenso; a traição no palácio era só um "ponto de virada" para manter a história interessante. Quando o livro ficava pesado demais, eu podia simplesmente fechá-lo e voltar para o meu café morno no Japão. A literatura cobria a crueldade com metáforas bonitas e ritmo narrativo. Mas a literatura era uma mentira higienizada.
Para a mulher parada na minha frente, aqueles poucos parágrafos de texto tinham sido dias infinitos de pânico puro, ossos quebrados e solidão sufocante em tempo real. Eu não tinha enxergado a pessoa; eu tinha consumido a tragédia dela como entretenimento e, depois, usado o roteiro para passar por cima de tudo sem arranhar a minha própria pele. Meu pedido de desculpas não passava da última ilusão de uma leitora mimada querendo um "fechamento bonitinho" para não ter que encarar a própria podridão.
A palavra "desculpa" murchou na minha garganta, parecendo cinza, ridícula e insultuosa. Fechei os olhos e encostei a testa na água negra do chão. Engoli cada lágrima. Não ergui a voz para me defender. Não procurei outra justificativa. Qualquer frase que saísse da minha boca seria apenas mais um ruído egoísta.
A Sakura ergueu-se de volta, ajustando devagar a gola ornamentada em ouro velho do vestido. A postura de rainha retornou, impecável e inalcançável.
— A sua culpa não me serve de nada — ela falou, a voz normalizada, dura e distante como pedra. — E o seu arrependimento não ressuscita o que eu perdi.
A Sakura deu meio passo à frente, inclinando o rosto para me encarar de cima. O olhar dela passou a brilhar com uma fagulha fria de invasão.
— Eu passei pelas suas memórias, sabe? — A voz dela veio num sussurro venenoso, carregado de um sarcasmo cortante. — Fui até a mais fundas de suas lembranças... Cavaquei cada canto da sua vida medíocre no Japão para tentar entender o que te dava o direito de ser tão arrogante. — deu de ombros — E sabe o que eu encontrei?
Ela soltou um arfar de riso debochado, balançando a cabeça devagar.
— Trauma? Dor de verdade? Nada. — vociferou — O seu maior drama no Japão era o quê? Um chefe um pouco mais rigoroso no escritório? O cansaço de uma rotina comum? Uma faculdade que não conseguiu fazer? Ou a dor de ver seus pais falecendo em um leito de hospital, velhos e cuidados? — Ela fez uma pausa contida, a expressão endurecendo numa raiva silenciosa. — Acorda! Pelo menos você conheceu os seus. Pelo menos você teve pais para segurar sua mão até o fim... Não tinha ninguém te controlando como uma marionete doentia.
Ela deu mais um passo, contornando meu corpo ajoelhado na água negra.
— E o que você fez assim que pisou aqui? — A Sakura soltou uma gargalhada curta e seca, sem ponta alguma de alegria. — Um dia no Poço com os vermes? -meneou a cabeça — Por favor... chega a ser piada! Você teve a sorte nojenta de se encontrar com o Imperador do Norte logo em seguida... porque já sabia que ele era confiável! Você usou as informações que roubou do livro para fazer com que ele te acolhesse, para que te protegesse... para te libertar do meu destino de ser a esposa desprezada e não amada do Sul!
O som das palavras dela chicoteava o ar gélido do limbo.
Eu continuei ajoelhada, a cabeça baixa, ouvindo cada acusação. E, pela primeira vez desde que cheguei a este mundo, não senti raiva, nem pavor, nem o impulso covarde de procurar uma desculpa inteligente. Eu não poderia mais fugir das minhas ações irresponsáveis.
Ergui o rosto devagar.
Meus olhos encontraram os dela. Não havia desafio no meu olhar, nem fingimento, nem a postura de alguém que tenta parecer uma vítima. Havia apenas uma honestidade nua e dolorosa. Eu não pisquei, aceitando a fealdade de tudo o que ela expôs.
— Você tem toda a razão — falei.
A minha voz não saiu alta ou dramática. Saiu baixa, quase sem ar, mas limpa de qualquer hesitação ou autodefesa.
Pela primeira vez desde que acordei neste corpo, não havia um pensamento calculado na minha cabeça, nenhuma estratégia para o próximo capítulo, nenhuma máscara de proteção. O choque de encarar a verdade me desnudou por completo. A Mitsuko que lia livros no conforto do quarto, que julgava escolhas alheias e achava que entendia o sofrimento humano... essa Mitsuko morreu ali, na água negra do limbo.
Ergui a cabeça e olhei diretamente nos olhos verdes da Sakura. Não desviei, mesmo sentindo o peso sufocante do desprezo que ela emanava.
— Ver meus pais morrendo na minha frente no hospital, consumidos lentamente pela doença... parecia a maior dor do mundo para mim — continuei, engolindo o travamento na garganta enquanto a realidade me massacrava. — Os meus problemas sociais no Japão, a minha solidão, a frustração com o meu trabalho... eu achava que sabia o que era sofrer. — continuei — Mas você está coberta de razão, Sakura: nada disso tem comparação com os seus dias de tortura pura, abuso e desespero nas mãos de Sasori. Nada do que vivi chega perto de ser trancada no escuro e engolir o próprio sangue enquanto as pessoas em quem você confiava assistiam.
Encostei as mãos no chão frio e me inclinei à frente, numa postura de submissão e entrega sincera. Sentir a fealdade do que eu tinha feito doía mais do que qualquer lâmina.
— Eu... fui uma covarde — admiti, encarando a ferida aberta da história dela. — Eu me achava superior porque tinha as respostas na palma da mão, mas a verdade é que eu era só uma parasita assustada. — assumi, com a vergonha atingindo em cheio o meu estômago — Eu peguei a sua vida tragada pelo sangue, a sua dor e o seu pesadelo... e usei tudo como um mapa conveniente para me salvar. — fechei os olhos por breves segundos imaginando a dor excruciante que ela havia passado por toda a vida — Eu não me importei com você por um único segundo... Eu só queria não sofrer.
Sustentei o olhar dela com uma serenidade triste, despida de qualquer fingimento.
— Você não me deve misericórdia, e eu não tenho o direito de pedir nada. Nem perdão, nem compreensão. — Fiz uma pausa, respirando fundo. Ela merecia tudo o que ela me pedisse. — Se o seu único desejo é me destruir agora, se você quer tomar o seu corpo de volta e deixar minha alma apodrecer neste abismo... faça. — encarei suas orbes verdes opacas — Eu não vou resistir... Não vou gritar... não vou tentar me explicar e não vou guardar rancor de você. — continuei — Se a minha existência aqui é uma profanação da sua dor... então me apague.
O silêncio caiu como um golpe pesado entre nós.
A Sakura não respondeu de imediato. A expressão de deboche e sarcasmo que ela sustentava congelou. Os olhos verdes dela, acostumados à falsidade das cortes e à crueldade dos inimigos, varreram as linhas do meu rosto procurando a menor hesitação, a menor faísca de teatro ou manipulação.
Ela não encontrou nada. Apenas a casca vazia de alguém que finalmente entendeu a dimensão do estrago que causou — e que estava pronta para arcar com as consequências até o fim.
Por um segundo, os ombros rígidos da Rainha vacilaram. A fúria incandescente no peito dela deu lugar a um cansaço denso, ancestral. Ela piscou devagar, como se a pureza assustadora daquela rendição a tivesse pegado desprevenida.
Ela não ganhou uma batalha contra uma rival; ela assistiu à morte de uma ilusão.
Devagar, a Sakura deu um passo atrás. O farfalhar do escarlate quebrou a rigidez do momento. Ela ergueu o queixo, recompondo a postura solene e inalcançável. O desprezo azedo em seu olhar deu lugar a uma determinação fria, cortante como o aço de uma lâmina imperial.
— Se você realmente entendeu a podridão da sua covardia... então pare de chorar como uma criança no meu chão — decretou ela, a voz ressoando com a autoridade de uma imperatriz. — Eu não quero as suas desculpas e não me importo com a sua culpa. — estreitou os olhos — O que eu quero... é justiça.
Ela cravou as orbes em mim, inclinando-se ligeiramente.
— Naquela história que você leu, no final eu fui descrita e lembrada como a vilã... mesmo sem ser a verdadeira vilã de nada. — pronunciou — Fui pintada como a louca, a amargurada, a pedra no sapato dos 'heróis' enquanto sangrava no escuro e pagava pelos erros dos outros. E no fim... morta.
Um sorriso sombrio e afiado despontou nos lábios da Rainha, carregado de um senso de retribuição implacável.
— Pois então... assuma essa alcunha. — ergueu os braços — Seja a vilã que eles tanto esperavam... mas seja a vilã que vai fazer este mundo ruir para consertar o que está podre. — cerrou os punhos — Uma vilã firme, sem fraquezas, que não pede licença e que executa a justiça real com as próprias mãos.
Ela deu mais um passo à frente, e o impacto de suas palavras pareceu fazer o próprio abismo estremecer.
— Aqueles que me mutilaram... — a voz dela começou baixa, num sussurro rasgado que parecia raspar a própria garganta, como se reabrisse cicatrizes físicas na carne.
Ela ergueu uma das mãos cobertas de anéis imperiais. Os dedos tremeram no ar por uma fração de segundo, curvando-se devagar até se fecharem num punho rígido, tão apertado que o metal dos anéis estalou contra as juntas.
— Os conspiradores que arquitetaram cada tragédia do meu caminho... e aqueles que riram da agonia alheia no conforto do palácio enquanto andavam impunes... — O olhar dela fixou-se no meu, tóxico, denso e fulminante. A mandíbula de Sakura se travou e uma veia sutil despontou na sua têmpora. — Eles vão pagar. Cada um deles.
Ela deu mais um passo, encurtando a distância a ponto de a sua presença esmagar qualquer resquício de ar no meu peito. A sombra da sua coroa de espinhos cobriu parte do meu rosto.
— E é assim que você vai me pagar por ter tomado o meu corpo.
A voz dela baixou para um tom perigosamente calmo, mas carregado de uma autoridade implacável que fez a água escura sob nossos pés vibrar em ondas concêntricas.
— Você usou a minha pele, a minha voz e a minha existência para se salvar e viver confortavelmente. — ela disse — Pois agora, fazer Sasori engolir o próprio veneno e arrastar cada um dos verdadeiros culpados para a lama sem vacilar... é o preço da sua dívida. É a única razão pela qual eu não arranco a sua alma desta carne agora mesmo.
A Rainha ergueu a mão direita com autoridade suprema. Uma luz verde-esmeralda manou da penumbra do limbo e se materializou no ar, moldando-se na forma de uma delicada pulseira de metal escuro, cravada com uma pedra esmeralda viva.
— O Selo do Norte é seu — decretou, a voz ecoando como uma sentença irrevogável, pegando-me de surpresa. — Mas a conta é minha.
A pedra esmeralda brilhou e, diante dos meus olhos, três sulcos luminosos se acenderam na superfície da gema, como garras de luz.
— Três vezes — cravou ela, implacável. — Três utilizações extremas do Selo. Cada vez que você invocar o poder profundo deste artefato para salvar sua pele ou alterar o rumo das coisas, uma das marcas se apagará, consumindo uma fatia direta da sua força vital. — continuou — Se a terceira marca se apagar... este corpo morre definitivamente, e sua alma se dissolverá no mesmo nada onde eu descanso.
Antes que eu pudesse emitir qualquer som, a Sakura original avançou e segurou firme o meu pulso direito.
A pulseira queimou. A carne do meu pulso chiou com o calor fulgurante, fundindo o metal e a esmeralda à minha pele em um estalo doloroso. Uma dor avassaladora subiu pelo meu braço. Aguentei o tranco de queixo erguido, engolindo o grito e aceitando aquela dor física como a primeira parcela do preço que eu devia a ela.
A Rainha curvou-se sobre mim, sustentando meu rosto pelo queixo enquanto o calor da jóia selava o pacto.
— E o conhecimento sobre o meu futuro... acaba agora.
Minha mente foi invadida por um turbilhão violento. Senti as memórias do livro Império das Cinzas — as táticas, os nomes dos capítulos, as soluções prontas, as fraquezas dos inimigos e as viradas da história — sendo arrancadas da minha cabeça como páginas queimadas ao vento. O futuro virava breu absoluto em tempo real.
— Chega de atalhos! — sussurrou a Sakura original junto ao meu ouvido, enquanto sua figura majestosa começava a se desintegrar em cinzas escurecidas e douradas. A expressão dela era severa, impassível. — Sinta o peso de cada escolha sem saber o amanhã... Pague a sua dívida, Mitsuko... Ou irá pagar com a sua vida.
Apertei os dentes contra a dor queimante do Selo no meu pulso. Encarando aqueles olhos verdes que agora refletiam não mais ódio, mas o peso de um destino compartilhado, forcei minha voz a sair limpa e firme do fundo do peito:
— Eu vou fazer. — A minha fala saiu curta, rasgada, mas carregada de uma determinação absoluta. — Vou arrastar cada um deles para a lama... Pela justiça... e pela sua memória.
Ao ouvir minhas palavras, a rigidez milenar do rosto de Sakura cedeu. O canto de sua boca se ergueu devagar num sutil, quase imperceptível, esboço de sorriso — um gesto sombrio, satisfeito e terrivelmente belo, pela primeira vez.
— Pague a sua dívida — sussurrou ela, enquanto sua figura majestosa começava a se desintegrar em cinzas escurecidas e douradas ao vento.
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