Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
12 Capítulo 12
A escuridão do limbo rasgou-se com a violência de um golpe de lâmina.
O som do vento cortante e o gosto amargo de areia na boca retornaram com a força de um soco no estômago, arrancando o ar dos meus pulmões.
Até que... tudo escureceu.
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Os cílios rosados em meus olhos se abriram lentamente. Um teto enegrecido e polido trabalhada não trazia a umidade sufocante nem o cheiro de poeira antiga das catacumbas.
Aos poucos, a consciência voltou em fragmentos desconexos. Minha cabeça latejava em um ritmo cadenciado, e o corpo parecia ter sido esmagado por toneladas de pedra. A primeira coisa que senti não foi a dor, mas o contraste: a maciez do colchão sob minhas costas e o calor de cobertores pesados.
Rolei a cabeça devagar pelo travesseiro. A imagem do abismo escuro ainda queimava na minha retina. A voz altiva e profunda da outra Sakura, o peso de suas palavras me confrontando pela usurpação de sua vida... Cada sentença dela fora um golpe necessário.
Encará-la de frente foi terrivelmente... Eu não sabia como descrever em palavras. Contudo... Eu tinha uma certeza... eu não era a mesma.
Minha mente tentou encontrar as informações do livro, uma tentativa em vão de uma ínfima esperança de que tudo havia sido um sonho. Uma névoa cinzenta nublava meus pensamentos. Eu sabia que o livro existia... mas nem sequer uma palavra dele surgiu em minha mente. A Sakura original fora implacável: o preço do Selo do Norte e do meu retorno ao mundo dos vivos seria a devolução do conhecimento do futuro. As páginas do livro.
Eu aceitei o preço. Concordei. Eu não me lembraria jamais. A partir de agora eu estava sozinha e sobreviver seria por minha conta e risco.
Um arrependimento velado cruzou meus pensamentos. Eu não devia ter saído de onde eu vim... eu deveria ter continuado lá...
Perdi o ar.
Lá?!
Tentei buscar na minha mente a lembrança do meu mundo. A minha vida anterior, a minha rotina, quem eu era antes de cair nesta história...
Apertei os olhos, forçando a memória. Tentei resgatar uma rua, um rosto, o meu próprio nome real.
Nada... Nem o meu nome... Estremeci. Apenas a certeza de que eu não pertencia àquele lugar.
Um frio lento e silencioso correu pela minha espinha. Sakura havia levado o livro e, junto com ele, devorara até a última lembrança da minha vida passada. Era o custo inevitável. Eu aceitara o pacto e, agora, me conformava com a extensão da dívida.
Mas, em meio à névoa densa que apagou tudo o que eu conhecia, uma única certeza resistiu intacta. Um resquício ínfimo de realidade.
Sasuke.
A fisionomia dele, a firmeza do seu toque, o som da sua voz quando a escuridão das catacumbas me engoliu. Ele era o meu único ponto de fixação naquele mundo e no meu próprio caos. Eu só tinha as memórias a partir do momento em que acordara naquele universo.
Um cheiro familiar de madeira e couro envolveu meus sentidos.
— S-Sasuke... — chamei. Minha voz saiu um murmúrio firme, embora rouco e seco como areia.
Pisquei algumas vezes para focar a visão turva. Ele estava sentado na beira da cama, de costas para mim, com os ombros levemente curvados. Vestia uma túnica limpa de tecido escuro — o ferimento no ombro esquerdo que vi nas catacumbas tinha sido devidamente limpo e tratado. Ele parecia ter adormecido.
Ao ouvir minha voz, o corpo dele travou.
Sasuke se virou devagar. Por uma fração de segundo, vi a tensão acumulada de horas ceder lugar a um alívio contido. Ele se aproximou, e por um instante pareceu que estenderia a mão para certificar-se de que eu estava viva. Mas conteve o movimento no meio do caminho.
-Sakura — falou, com uma respiração funda. — Finalmente... eu pensei...
Ele não continuou. Os olhos cansados não se desviavam, como se eu pudesse sumir a qualquer instante.
— O que aconteceu nas catacumbas? — a voz dele veio baixa, controlada. — O seu coração parou... Quando te tirei daquele abismo... você estava fria.
Ele olhou para o meu braço, onde o bracelete metálico do Selo do Norte reluzia frio contra a minha pele, exibindo os três sulcos profundos da barganha. Sasuke não precisava perguntar. Ele entendeu que eu havia conseguido o selo.
— Me diga o que aconteceu lá dentro — continuou ele, num tom pausado. — Que preço você pagou?
Ajustei minha postura na cama, sentando-me de frente para ele. A vergonha e a culpa pesavam no meu peito como chumbo, mas recusei a tentação de desviar o olhar. Eu não usaria a fragilidade como abrigo. Era o momento de assumir a responsabilidade por minhas ações.
— A resposta para isso envolve tudo o que eu nunca te contei, Sasuke — comecei, a voz pausada, mas sem hesitação nas palavras. — E eu prometi a mim mesma que não usaria mais meias-verdades com você.
A menção à meias-verdades fez o seu maxilar travar. Ele continuou imóvel, os olhos negros cravados nos meus.
— Diga — ordenou ele, em um tom baixo e neutro.
A hesitação me paralisou por alguns segundos. Meu coração batia no peito como um tambor desgovernado, e um suor frio brotou na minha nuca.
O que eu estou prestes a fazer?, pensei, engolindo em seco.
Se eu contasse a verdade sem filtros, estaria confessando que era uma farsante. Que usara informações de um mundo distante para manipulá-lo desde o primeiro segundo. A antiga eu — a mulher prudente que chegou a este mundo calculando cada passo — teria inventado uma mentira perfeita. Teria criado uma fábula sobre espíritos ancestrais ou visões divinas para se manter segura e no controle da narrativa.
Mas aquela garota tinha morrido nas catacumbas.
Encarar a Sakura Original e sentir a vergonha do meu próprio egoísmo destruíra meu orgulho. Eu não queria mais mentiras, nem a falsa segurança de meias-verdades. Continuar enganando o homem que se arriscara por mim seria a verdadeira traição.
Soltei um suspiro longo, trêmulo, deixando os ombros caírem.
Respirei fundo, reunindo toda a coragem que eu tinha.
— Eu não nasci neste mundo — soltei o ar devagar, sentindo a garganta arranhar.
Hesitei por alguns segundos, mas me forcei a continuar.
— Eu não sou de nenhum reino e não tenho linhagem nobre... De onde eu vim, o Império, você, o Naruto, essa guerra... nada disso existia de verdade — engoli seco. — Era uma história. Um livro.
O silêncio que se seguiu no quarto foi sufocante. Sasuke não piscou. Não franziu o cenho. Não questionou minha sanidade mental. Ele era inteligente o suficiente para saber que eu sabia coisas demais... Até mesmo para alguém que morava na mesma casa que Sasori. Apenas continuou me encarando, mas a atmosfera ao redor dele congelou.
— Um livro — repetiu ele. Não havia ironia na voz, apenas uma calmaria perigosa. Apenas o seu lado estrategista analisando uma situação inesperada.
— Eu sofri um acidente no meu mundo e acordei presa neste corpo — expliquei, mantendo as mãos pousadas sobre os joelhos, os dedos apertando o tecido do vestido para conter o tremor interno. — Na pele de Sakura Haruno. Eu estava em um mundo hostil, sem saber lutar, sem conhecer ninguém.
Mordi o lábio inferior. A pior parte começaria ali...
-Eu tentei terminar o noivado com o Primeiro Príncipe, porque eu sabia que isso levaria ao meu fim — pronunciei, pesarosa — Sasori me castigou e me enviou ao baile imperial.
Fiz uma pausa, estudando a reação de Sasuke. Mas a cada som que saía da minha boca os seus olhos se tornavam mais inexpressivos.
-Você ja sabia que eu estaria ali — ele concluiu.
Meneei a cabeça.
-Naquele dia eu saí para o jardim — falei — Eu não sabia que te encontraria ali... foi coincidência.
Fiz uma pausa curta, puxando o ar com calma. Sasuke inclinou ligeiramente a cabeça, a expressão convertida em uma máscara inexpressiva de pedra.
— Coincidência — pontuou ele, a voz rastejando gélida. — Mas você sabia quem eu era.
A resposta dele foi pior que uma bofetada em meu rosto.
— Sabia — admiti sem rodeios, sustentando a culpa em meu tom. — Eu sabia das suas dores, dos seus planos contra o conselho e do que você precisava ouvir. — diminuí o tom de voz — E que você seria o único capaz de me livrar de Sasori e do Primeirl Príncipe.
Senti o ao ao meu redor reduzir alguns graus. A fenda que minhas palavras e ações criaram entre nós era quase palpável.
-Eu estava apavorada... E para garantir que você não me matasse ou me descartasse — falei, sentindo a secura em minha língua — Usei o que lembrava do livro... Usei o meu conhecimento do futuro como moeda de troca para sobreviver ao seu lado.
Então... um som pior do que um grito ecoou naquele quarto. Sasuke se levantou da cama, devagar e imerso em pensamentos. Não houve sobressalto nem passos ruidosos. Não houve absolutamente nada. Ele apenas caminhou calculadamente até a janela e... dando-me as costas. As mãos estavam presas atrás do corpo.
Cerrei meus dedos, que suavam frio.
O silêncio gélido se estendeu. O único som no quarto era o vento batendo contra o peito da janela. Eu queria que ele brigasse comigo como fez nas catacumbas. Eu queria que ele me questionasse. Queria qualquer coisa que pudesse me dar uma pequena esperança...
— Então — a voz dele veio baixa, arrastada, cortando o ar como uma lâmina fria — Tudo o que você fez até aqui...
Não...
-Tudo o que disse...
Não... Não
-Exatamente o que eu queria ouvir... exatamente o que eu precisava...
Minha mente gritava. Eu não queria que ele chegasse àquela conclusão.
-Nada daquilo era real. — a voz dele saiu sem um resquício de emoção.
Intervi, ajeitando o corpo na cama.
—Não é isso — disse, com pressa. — No começo... no começo foi por sobrevivência — declarei, mantendo o tom firme, embora o peito ardesse. — Mas o que aconteceu depois disso não foi encenação...
Engoli o choro. Minhas lágrimas não consertariam nada.
-O que eu senti... a lealdade que demonstrei no Conselho... A escolha de ficar ao seu lado foram reais — meu peito ardia como nunca antes e a garganta doía. — Nossos momentos... foram reais!
Ele se virou devagar. E foi ali, naquele exato segundo, que o chão desapareceu sob meus pés.
A mudança nele não foi uma explosão de fúria. Foi o apagamento absoluto de qualquer humanidade. O brilho irônico que costumava habitar o canto dos seus olhos — aquele tom provocador e cínico que só ele reservava para mim, o deboche sutil que me irritava e confortava ao mesmo tempo — simplesmente evaporou.
Em seu lugar, restou a casca fria e impenetrável de Imperador.
— Reais? — perguntou ele, o tom mantendo-se plano, monocórdico. — E como eu posso saber disso?
Um nó doloroso e cego se fechou na minha garganta. A voz dele era tão desprovida de sentimento que parecia vir de uma estátua de mármore.
— Se toda a sua presença ao meu lado foi erguida sobre um texto decorado... — continuou ele, dando um passo lento na minha direção —, quanto do que você fez foi escolha sua... e quanto foi só você atuando para manter o seu "protagonista" vivo e garantir a própria pele?
A palavra "protagonista" saiu da boca dele com uma secura devastadora. Meu peito afundou numa tristeza pesada e densa. Não era raiva do que ele estava dizendo; era o luto violento de perceber o estrago que eu fizera. Eu havia atravessado a linha do impensável. Traíra a confiança do homem mais paranoico e ferido daquele mundo.
— Você tem todo o direito de duvidar — murmurei, a voz fraquejando sob o peso da culpa. — Nas catacumbas... eu encontrei a verdadeira Sakura... Ela me confrontou pela minha arrogância de achar que podia jogar com a vida de vocês. Para me deixar voltar e salvar a sua vida da lâmina do Sasori... o preço dela foram minhas memórias.
Levei a mão ao peito, sentindo o vazio gelado onde antes ficavam minhas memórias.
— Ela tomou minhas lembranças, Sasuke. E levou junto tudo o que eu sabia do meu mundo original. — pronunciei — Eu não lembro meu nome real, não lembro minha casa, minha família... Minha mente sobre o passado é um deserto. A única coisa que ela não apagou... foi o que vivi aqui.
Encarei a opacidade dos olhos dele. Eu queria ver um resquício de choque, uma fagulha daquela raiva contida ou da cumplicidade que compartilhávamos. Mas não havia nada. Ele trancara todas as portas.
— Eu não tenho mais profecias. — ergui os braços, aceitando. — Não sei o que vai acontecer nas Terras da Areia. Perdi a vantagem que usava contra você. Eu menti... e se a sua decisão for me afastar, me trancar numa cela ou me banir por ter te manipulado no início... eu aceito. Não vou contestar o seu julgamento.
Sasuke ouviu minha entrega sem mover um único músculo do rosto. A notícia de que minha mente fora apagada não arrancou dele nem um sobressalto. Ele absorveu a informação e a arquivou com uma eficiência cirúrgica, descartando qualquer peso emocional.
Ele deu dois passos para trás, afastando-se mais da cama. A distância física era irrisória, mas o abismo moral que ele ergueu entre nós era intransponível.
— Você não vai para cela alguma — declarou ele, a voz firme, plana, desprovida de qualquer calor. — O Selo do Norte no seu pulso ainda é uma ferramenta estratégica. Você continua sendo útil para a campanha militar.
A palavra útil cortou meu peito como um estilete. Mas o golpe final ainda estava por vir.
Sasuke olhou ao redor do quarto — talvez se questionando por me trazer até ali sem saber quem eu era de fato — e encarou a porta.
— Vou mandar os guardas transferirem os seus pertences para as acomodações do ala leste — disse ele, a voz absolutamente burocrática, como se despachasse ordens de mantimentos. — A partir de hoje, você ocupará um quarto individual no setor dos oficiais. Não há mais razão para permanecer nesta ala do palácio.
Minha respiração travou. A transferência para a ala dos oficiais não era apenas uma mudança de cômodo; era a demarcação física do meu novo lugar. Ele estava me tirando da sua vida privada, devolvendo-me ao patamar de uma soldada de patente qualquer. Era o rompimento definitivo da intimidade.
Ele caminhou até a porta. Não houve hesitação em seus passos, nenhum milissegundo de dúvida ou desaceleração.
Acompanhei o movimento das costas dele — a postura ereta, os ombros alinhados sob o tecido escuro da túnica, o perfil impecável e inalcançável do homem que governava aquele Império. Esperei, num desespero silencioso que queimava na minha garganta, que ele parasse. Que virasse o rosto de soslaio. Que deixasse escapar ao menos uma fagulha daquela raiva contida, um resquício da postura defensiva de quem se importava o suficiente para estar ferido.
Mas Sasuke não olhou para trás.
Ele segurou o trinco de ferro, acionou o fecho e saiu. A porta se fechou com um estalo seco e definitivo, um som metálico que ecoou no quarto como o bater de um caixão. Nenhuma despedida. Nenhum aviso de até logo. Apenas o espaço vazio onde ele esteve segundos atrás.
Soltei o ar que nem percebera estar prendendo. As minhas mãos, pousadas sobre as coxas, tremiam levemente. Encostei a cabeça na parede fria atrás da cama e encarei o teto trabalhado. A dor que me esmagava não vinha em surtos dramáticos de choro; era um peso denso, um nó cego no centro do peito que tornava cada inspiração uma tarefa difícil.
Eu estava preparada para a fúria dele. Prepararada para ser questionada, ameaçada ou até trancada nas masmorras. Mas nada disso aconteceu. O que Sasuke me deu foi muito pior... o seu desprezo mais puro e eficiente: a indiferença.
Ele matara a nossa intimidade sem pronunciar uma única palavra de ódio. Destruíra cada ponte erguida entre nós com a precisão de quem simplesmente risca um nome desnecessário de um relatório militar.
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Antes das onze da manhã, um servo da casa imperial bateu à porta para me guiar e carregar meus parcos pertences.
Fui até o cabideiro de madeira e peguei o uniforme oficial da guarda que havia sido deixado ali. Vesti a calça de couro escuro e justo, feita para proteger da friagem cortante e das longas marchas, e ajustei as fivelas de ferro das botas pretas de cano alto. A túnica preta de gola alta e mangas compridas cobria com precisão o bracelete escuro do Selo no meu pulso direito. Vestir aquele uniforme parecia um ritual de blindagem: eu estava deixando para trás a garota acuada do palácio para me transformar em uma soldada.
Acompanhei o trajeto até a ala leste em absoluto silêncio. À medida que nos afastávamos dos aposentos privados do Imperador, o piso de mármore trabalhado dava lugar a corredores mais estreitos, de pedra bruta e iluminação escassa. O ar ali era visivelmente mais gelado, denunciando o inverno rigoroso do Norte.
O quarto novo era pequeno e impessoal. Uma cama de solteiro com um colchão fino, uma mesa de madeira rústica com uma jarra de água congelando na superfície e uma única janela alta que dava para o pátio secundário dos estábulos. Não havia tapetes, nem o aroma de madeira e tempestade que preenchia a ala principal. Era o alojamento padrão destinado aos oficiais da linha de frente.
O servo deixou minha bolsa sobre a mesa, fez uma reverência curta e saiu.
Caminhei devagar até a janela. Apoiei as mãos na soleira de pedra fria e olhei para o pátio lá embaixo, sentindo o vento gélido da montanha bater no meu rosto.
A simplicidade daquele quarto novo não me incomodava. O pior não era a mudança de cômodo. O pior era o significado por trás dela: a demarcação física do meu novo lugar. Ao me mandar para a ala dos oficiais, Sasuke não estava apenas reorganizando o espaço do palácio; ele estava me expulsando da sua vida.
Encostei a testa contra a pedra gelada, fechando os olhos.
Sentia uma falta avassaladora do tom irônico que ele costumava usar comigo. Sentia falta da sobrancelha erguida em desafio quando discutíamos planos, das provocações veladas quando estávamos a sós, do olhar atento que ele me lançava algumas vezes. Eu tinha me acostumado ao privilégio perigoso de ver o homem por trás da armadura do Imperador.
E agora... tudo isso fora varrido.
O pensamento mais aterrorizante da minha vida brotou na mente com a clareza de uma sentença: Acho que eu o perdi para sempre. Para o Sasuke, a pessoa em quem ele começara a confiar nunca existira. Eu matara aquela conexão ao confessar a farsa. E a dúvida que eu semeara no peito dele jamais seria totalmente arrancada.
Apertei os punhos contra a soleira até as juntas dos dedos ficarem brancas.
Não, pensei, engolindo a amargura seca. Isso não pode terminar dessa maneira.
Se a farsa do livro havia morrido, o que sobrava ali era eu. Sem profecias, sem mapas do futuro, sem atalhos mágicos. Se a única forma de provar que o que eu sentia por ele era real era encarar o sangue, o frio e tomar decisões leais na batalha... eu pagaria esse preço.
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Ao meio-dia em ponto, o sol pálido do Norte não conseguia aquecer a névoa fria do pátio principal.
Diferente de uma grande marcha com exércitos inteiros de milhares de homens, Sasuke tomara a decisão tática correta: não se avança às cegas para um território desconhecido como o deserto com uma tropa pesada. Ele reunira um contingente reduzido. Poucos homens, mas os melhores do Império — uma divisão seleta da Guarda de Ferro e os comandantes mais experientes.
Caminhei em direção às montarias. Por ser um grupo pequeno de elite, a sensação de isolamento era ainda pior. Não havia como se esconder.
Parei diante do cavalo designado para mim. A montaria era alta, forte, com o olhar inquieto diante do vento gelado. Um arrepio correu pela minha espinha. Nunca tinha feito aquilo antes... se tivesse, nem isso eu me lembraria mais. Aquela era a minha primeira vez em um selim real, e mininexperiência ia estar estampada no meu rosto.
Hesitei, as mãos congeladas perto das rédeas de couro.
Kakashi, que ajustava o equipamento da sua montaria ao lado, deu dois passos calmos na minha direção. Sem alarde, ele segurou a cabeçada do cavalo para mantê-lo firme.
— É a sua primeira vez num selim de guerra, não é? — perguntou Kakashi num tom baixo, sem nenhum deboche, com a leitura precisa de quem notava cada detalhe.
Engoli em seco e assenti levemente.
— Calma. Não deixe o animal perceber a sua hesitação — instruiu ele, a voz firme servindo como um ancoradouro no meio do meu caos interno. — Encaixe a ponta da bota esquerda no estribo e dê um impulso firme para passar a perna direita. As botas de cano alto dão estabilidade no frio. Quando estiver em cima, não puxe as rédeas com força demais e não aperte as costas dele com os calcanhares. Acompanhe o balanço do trote.
Segui as instruções dele. Firmei a bota preta no ferro e me lancei para cima, ajeitando-me no selim. O cavalo deu um leve passo para o lado, mas o corpo se assentou. A altura e a falta de prática me deixavam vulnerável, mas a orientação prática de Kakashi me deu a sustentação que me faltava.
— Obrigada, Comandante — murmurei, ajustando o couro na mão esquerda.
— Você vai aprender rápido — disse Kakashi com um aceno sutil de cabeça. Seus olhos, no entanto, passaram de mim para a figura à frente, notando a distância brutal e o silêncio pesado entre mim e o Imperador. Embora soubesse que a dinamicidade entre nós havia ruído, Kakashi ainda mantinha uma postura receptiva na minha presença ali. — Mantenha o foco no caminho.
Lá na frente, sobre sua montaria negra, Sasuke não se virou.
Ele não checou se eu consegui montar, não perguntou se eu aguentaria a travessia no frio. Quando sua cabeça se moveu de soslaio, foi apenas a verificação operacional de quem confirmava que o portador do Selo estava em seu posto na tropa. Eu deixara de ser sua confidente para me tornar apenas um recurso militar.
Apertei as rédeas, o vento gelado do Norte cortando meu rosto enquanto a dor daquela rejeição queimava por dentro.
Sasuke ergueu a mão direita, dando o sinal oficial para o pequeno grupo de elite.
— Em frente — ordenou ele, a voz gélida ecoando contra as paredes de pedra do palácio. — Cavalgamos para o porto do sul. As embarcações nos aguardam.
E a vanguarda avançou pela neve e pela poeira da montanha, rumo ao mar que nos levaria ao deserto.
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