Immortal

30 Um Xeque-Mate E Uma Ruptura!


Notas iniciais
Óia eu aqui traveiz! x)

O rosto desfigurado se escondia por detrás do largo capuz, encobrindo-o quase em totalidade. A sombra projetada pelo tecido camuflava as feias e extensas queimaduras que agora faziam parte de suas deformadas feições. O homem escolheu um lugar próximo ao balcão do bar que acabara de adentrar, ajeitando melhor a textura áspera do pano sobre a pele em contato.

O barman encarou a figura encapuzada com enorme desconfiança, trazendo para mais perto de si um pote de vidro que continha o trocado de várias gorjetas.

— O que vai querer? – perguntou taciturnamente, terminando de enxugar o último copo pendente no escorredor e em seguida descansando o pano de prato sobre o ombro, apoiando as mãos espalmadas sobre o balcão numa postura pouco receptiva.

— Sua bebida mais forte. – avisou, depositando vários dólares sobre a madeira, fazendo com que a feição rude do balconista se amenizasse – Dose dobrada.

— É pra já! – recolheu a quantia de prontidão, virando-se a fim de preparar a receita que ele mesmo criara, algo que pouquíssimas vezes servira em seus turnos, mas que sabia ter um efeito inicial um tanto... Arrasador.

Nesse meio tempo, dois novos clientes entraram no bar, cada um posicionando-se ao lado do homem de capuz, este disperso demais em seus próprios pensamentos para se dar conta dos semblantes conhecidos.

— Eu pensei que você fosse um pouco mais esperto do que isso... – a voz feminina que ele imediatamente reconheceu o saudou, encarando um ponto fixo nas prateleiras de bebida como se nada ali de fato a interessasse.

O coração de Paretta disparou num galope repentino e brutal, e seus olhos foram no mesmo instante atraídos para as íris verdes de Eve, a mulher que fizera dele aquele patético ser mergulhado em temores e receios.

— Como...? Como me encontrou? – o mutante perguntou por baixo do capuz, agradecendo o fato de que o medo certamente estampado em sua expressão estava bem escondido. Contudo, a fraqueza em sua voz lhe tirava essa pequena cortesia.

— Eu tenho um amigo que sabe farejar e que, por acaso, reconheceu seu cheiro. – ela sorriu, finalmente o encarando – E você foi estúpido o bastante para pisar no Instituto Xavier e continuar turistando pelas redondezas...

— Só foi preciso seguir o cheiro de queimado – Logan comentou repleto de humor negro do outro lado de Paretta, acendendo demoradamente um grosso charuto, deixando que a chama de seu isqueiro dançasse sobre o tabaco por muito mais tempo do que o necessário.

— O que vocês ainda querem comigo? – fez menção de se levantar, porém o medo o prendeu ali como uma presa entre as garras do predador.

— Dá só uma olhada nisso, grandão... Esse merdinha acha que pode atacar a Mansão e ainda usar esse tom atrevido quando vamos atrás do nosso direito de tirar satisfações!

— Tô vendo, guria. Talvez ele não tenha aprendido a lição da primeira vez... – Wolverine aspirou um longo trago do charuto, ilustrando suas palavras ao observar com exagerada atenção o toco incandescente no outro extremo.

— Eu me opus a esse ataque! – disse com rapidez afobada, os olhos intensamente arregalados fitando pouco mais do que imagens incompletas do casal, causadas pela projeção da touca que encobria sua visão. – Eu não queria! Tentei romper meus laços com a GlobalGen, mas já era tarde demais...!

— Cala a boca! – Hela revirou os olhos, entediada – A GlobalGen passou de todos os limites, e pouco me importa a sua participação nisso. Estamos atrás dos peixes grandes dessa vez! – avisou decidida, segurando o braço do homem num aperto constrito – Venha, vamos dar uma volta! – puxou-o, com Logan o arrastando pelo outro braço de modo igualmente firme enquanto venciam distância pelo espaço.

Os três saíram do bar, deixando extremamente confuso o barman que no minuto seguinte se virou para servir a bebida do curioso freguês. Coçou a cabeça já com princípio de calvície, dando de ombros ao não avistar qualquer indício do homem encapuzado e tomando ele mesmo o drink preparado. O seu expediente já estava quase no fim, de qualquer forma.

Sobre as ruas umidificadas pelas recentes chuvas, o trio caminhava num passo contido ao longo da mesma calçada que abrigava o boteco, Logan e Eve ainda pressionando com força a pele consumida por queimaduras do homem que apenas se deixava conduzir, sem muita escolha.

— O que vocês querem? – perguntou novamente, revezando olhares frenéticos entre Eve e Logan conforme sentia quase ser arrastado pelo casal.

— Precisamos que encontre alguém – Wolverine explicou, ainda indelicado no aperto que envolvia o braço do mutante.

— É a sua mutação, não é? – Hela averiguou, mesmo já conhecendo a resposta.

S-sim... Meu poder se baseia em sentir o teor de energia de cada mutante e...

— Na boa, não me interessa – a mulher o interrompeu, ríspida –, desde que você encontre quem eu quero, pouco me importa o que você sente durante o processo.

Paretta inspirou uma generosa porção de ar, receando o que viria a seguir.

— Quem vocês querem que eu busque?

— Magneto. – respondeu instantaneamente, não sendo capaz de ver a expressão aturdida no rosto encapuzado do mutante – Ele não deve estar longe, acho que não vai ser difícil.

— Certo. E depois?

— Depois o quê? – Wolverine quase rugiu de impaciência, tendo que controlar-se para não liberar as garras numa ameaça direta àquele detestável homem que tanto já lhe havia dado dor de cabeça.

— Depois que eu localizar Magneto, o que farão comigo?

— Confesso que ainda não pensamos muito a respeito... – Hela disse casualmente, trazendo o fogo para junto de si no brilho escarlate e fulguroso de suas íris agora rubras pelas labaredas que ali crepitavam – Mas já tenho uma ideia realmente muito boa do que fazer caso você crie problemas!

O mutante desviou o olhar, engolindo em seco, e a conversa findou ali, ainda que seus receios estivessem no comando de seu controle emocional. Percebendo não haver escolha, Paretta cedeu, e seus olhos se reviraram por completo em sua órbita, deixando visível apenas a brancura de sua esclera. Assim que sua visão se abriu ao desconhecido, deu-se início àquela caçada que ele conhecia tão bem e que era o ponto chave de sua mutação – sentir seus semelhantes. Mentalizou o poder peculiar de Magneto que o possibilitava de controlar qualquer tipo de metal e ainda exercer domínios diversos sobre campos magnéticos. A essência da mutação de Erik era forte, bem trabalhada e ainda melhor dominada. Bastou alguns poucos instantes para que Paretta descobrisse sua exata localização, vendo-o projetado com clareza em sua mente como se o talentoso mutante estivesse bem à sua frente, ou melhor, como se o próprio Paretta fosse mentalmente transportado à presença de Erik assim que solicitou o seu poder de rastreamento.

— Ele está em Nova York...

— Pouco específico, meu chapa! – Logan fechou os punhos, a graça de sua paciência o abandonando naquele instante. Eve tocou suavemente, quase sem perceber, o cotovelo tencionado de Wolverine, os verdes olhos encarando Paretta com interesse e pouco ciente do efeito tranquilizador que seu mero toque impensado exerceu sobre Logan. Seus músculos relaxaram, e sua tensão foi momentaneamente esquecida.

— Ele está escondido nos subterrâneos de uma estação de trem abandonada, a poucos quilômetros daqui, abaixo da prefeitura da cidade! – prosseguiu o seu relato, alheio à súbita raiva de Logan que quase o atingira. Seus olhos retornaram à posição original, a imagem de Magneto agora apenas em sua lembrança – Mas ele não está só. Uma mutante, de um interessante poder de camuflagem, o acompanha.

Mística... – Logan e Eve disseram em uníssono, encarando-se mutuamente, como se avaliassem a situação em pensamentos compartilhados.

— Por enquanto é só, Freddy Krueger! Mas antes da nossa despedida, isso fica de pagamento pelo legado destruído do meu pai! – Eve advertiu, lançando o joelho numa investida violenta contra o volume que havia entre as pernas do mutante, que imediatamente caiu ao chão numa posição de extrema agonia, levando as mãos involuntariamente à região latejante de seu membro viril enquanto observava com impotência os dois se afastarem.

Magneto e Mística caminhavam serenamente pelos trilhos abandonados de um subterrâneo que vinha funcionando como seu lar provisório. Desde a batalha travada na floresta, Fênix havia tomado o poder da Irmandade para si e se rebelado na infinitude de seu poder, e a Magneto só foi concedida a oportunidade de escapar de toda a destruição que a mutante pressagiava em seus arrasadores anseios. Desde sua apressada e mal planejada fuga com Mística, Erik não teve qualquer notícia a respeito dos resultados da batalha que certamente se delineou entre X-Men e o poderio da Fênix.

Contudo, era perfeitamente capaz de prever seu resultado, tendo em mente que nem mesmo todos os alunos de Xavier seriam capazes de se equiparar à força enérgica daquela que um dia fora chamada de Jean...

...E a certeza daquele palpite perdurou em Magneto até aquele exato momento, quando algo completamente inusitado ocorreu.

— Tenha cuidado, querida! – ele freou os passos de Mística ao colocar o braço à sua frente e impedir seu avanço, encarando pasmo o ambiente desordenado à sua volta – Não estamos mais sozinhos!

Ela olhou desconfiada para o ambiente que os cercava, indagando-se por um momento como Erik podia intuir a presença de alguém que não alcançava o seu campo visual. Até que a resposta chegou praticamente na mesma velocidade com que se fez a pergunta.

Wolverine!

A mutante se enrijeceu, tocando a tríade de cicatrizes que tinha logo abaixo do peito, passando a vistoriar com mais cuidado o recinto, porém os únicos acompanhantes visíveis no momento eram os ratos que chiavam entre si e corriam apressados por entre seus pés.

— Wolverine não será um problema! – Magneto avisou, já sentindo que dominava com enorme facilidade o adamantium que percorria toda a sua estrutura óssea – Mas temo que ele possa estar acompanhado – bateu no próprio capacete com o indicador, imaginando Charles tentando invadir a mente de Mística, já que com a sua não obteria sucesso.

— Eu sei me cuidar, Erik! – tomou para si uma posição defensiva, pronta para qualquer batalha que se mostrasse necessária.

Uma terceira voz se uniu à confabulação dos dois, aumentando ainda mais a surpresa de Magneto.

— Isso não foi muito receptivo de sua parte, Erik! – Eve disse, com evidente irritação, referindo-se à total paralisia que Magneto provocara em Logan.

— Também não me soa muito cortês a invasão de vocês, minha querida – disse, porém seu timbre parecia levemente divertido. Wolverine alcançou a capacidade de sua visão após novas meia dúzia de passos, antes escondido por um desabamento proeminente e antigo de terra – O que fazem aqui?

— Que tal me soltar primeiro, velhote? – Logan sugeriu ao seu modo rude, extremamente desconfortável com o absoluto controle que Magneto era capaz de exercer sobre ele.

— Ainda não, meu caro!

Mística sorriu amplamente, aproximando-se de Logan a um andar rebolado e suntuoso.

— Deixe-o assim por mais um tempo, Erik! – a mutante o rodeou, dispensando olhares desejosos que por um momento fizeram com que Hela esquecesse o real motivo da visita. O desagrado permeou com intensidade suas íris verdes, brilhando ainda mais pronunciado quando Mística prensou o próprio corpo às costas de Logan, falando sedutoramente ao seu ouvido – Você foi o único homem que conseguiu deixar sua marca em mim, sabia? – riu lascivamente, voltando a ocupar seu lugar ao lado de Magneto e novamente levando os dedos às cicatrizes que o mutante lhe deixou numa das tantas batalhas em que foram oponentes.

Eve o encarou com verdadeira fúria, e sem prévio aviso deu um severo soco no largo ombro de Logan, a ira nos olhos denunciando o repentino despeito que ela mesma jamais admitiria.

— Qual é o seu lance com as ruivas, babaca? – questionou-o com raiva, sentindo-se ainda mais possessa quando o percebeu conter um sorriso satisfeito ao reconhecer o indiscutível ciúme que despertara na mulher. Seus amendoados olhos a fitaram com crescente ternura, percebendo de repente o quanto se apegara ao seu jeito peculiar e desconexo de lidar com as situações e, principalmente, com os próprios sentimentos.

— Estão só vocês dois aqui? – Magneto interveio, pouquíssimo interessado no relacionamento dos dois para dar vazão às suas discussões.

— Só! – Eve respondeu simplesmente, mal-humorada, massageando os nós dos dedos que acabaram ficando doloridos com a abrupta investida.

— Então, parece que Charles não está de acordo com essa inesperada visita... Esperava que meu velho amigo estivesse na companhia de Wolverine quando senti o adamantium que rodeia seus ossos...

— Se você não tivesse fugido da Fênix feito um verdadeiro covarde mesmo depois de me prometer que ia enfrentar a ruivadia, saberia que “seu velho amigo” morreu nessa batalha! – lançou, quase furiosa.

Magneto estancou, parecendo de fato atingido por aquelas palavras, assim como Mística, de arregalados e expressivos olhos amarelos.

— Charles... foi morto?

— Foi. Como uma última cortesia da Fênix.

— Entendo... – Erik disse vagamente, o olhar pela primeira vez consternado – E o que os trouxe aqui?

— Viemos atrás de ajuda! – Wolverine complementou, só agora permitindo-se encarar Magneto ao invés da mulher de hipnóticos verdes olhos. Logan sentiu o controle de Erik sobre seu corpo vacilar por um instante, logo recobrando-se com a mesma intensidade de antes.

— Ajuda? – arqueou uma sobrancelha descrente – Que tipo de ajuda vocês podem ambicionar de mim?

— Leia isso! – Hela lhe passou os vários arquivos da GlobalGen que ainda estavam sob seu poder, e Mística se juntou ao idoso mutante na leitura.

Os minutos seguintes transcorreram no mais profundo silêncio, apenas com Magneto parecendo cada vez mais exultar-se com aquele material que tinha em mãos. Conforme o lia, seus olhos adquiriam um novo brilho ao perceber que suas intuições sensacionalistas sempre estiveram certas e que, afinal, havia uma conspiração contra os mutantes de proporções muito maiores do que ele mesmo já idealizara em seus mais delirantes devaneios. Eve relanceava olhares contidos a Logan, sentindo-se uma perfeita estúpida pelo breve espetáculo, porém ainda com raiva daquela concisa sombra do sorriso convencido que apareceu, por um mínimo segundo, em seus lábios.

Magneto passava de um documento a outro com verdadeira sede por mais informações, o azul de seus olhos saltando ágeis pelas linhas, e um enorme sorriso surgindo ao rosto por dispor daquelas informações registradas em forma de incontestáveis documentos. Somente quando terminou de ler e analisar todos os papéis que lhe foram confiados, Erik restituiu os movimentos de Logan, afastando-se do controle e devolvendo o comando do próprio corpo a Wolverine, finalmente convencendo-se das intenções daquela improvável visita.

— Fascinante! Me pergunto como vocês conseguiram ter acesso a todos esses documentos que seguramente eram estritamente confidenciais... – ponderou, levantando o olhar curioso para os dois, parecendo esquecer-se do luto por Charles.

— Longa história! – Wolverine dispensou a pergunta, caminhando até Eve e parando ao seu lado.

— Fascinante! – repetiu, ainda descrente, alisando as páginas que segurava com verdadeira adoração, como se acariciasse uma amante em sua intimidade.

— E então... Vai nos ajudar, ou será que você prefere ficar um pouco a sós com os documentos pra ter o seu orgasmo em paz? – Hela, já impaciente, cruzou os braços, encarando-o com olhos despudorados que sequer vacilaram quando Magneto arregalou o olhar espantado em direção a ela. Wolverine sorriu largamente ao seu lado, baixando a cabeça numa negação divertida.

— Que tipo de ajuda vocês têm em mente?

— Levar tudo isso ao conhecimento público! Atingir a GlobalGen de uma forma que ela nunca mais consiga se erguer. Você já invadiu a CNN uma vez com aquele seu pronunciamento insano – Hela lembrou-o –, e queremos esse espaço na mídia de novo.

— Interessante... – Magneto sorriu, aprovando a ideia. Seria, de fato, uma excelente primeira jogada, capaz de fazer um caos de proporções inimagináveis se estabelecer pelo país – E o que exatamente estamos esperando?

Foi graças ao talento de Mística na arte do disfarce que invadir o canal de notícias da sede nova-iorquina da CNN se mostrou algo relativamente tranquilo no pronunciamento que Magneto realizara em rede internacional. Desde a sua declaração, contudo, a segurança do prédio fora meticulosamente ampliada e revista. Se quisessem se infiltrar sem alarde, teriam que tomar o dobro de cuidado...

...Porém alarde era justamente o que eles queriam, por isso a invasão foi ainda mais fácil dessa vez.

— Com sua licença, meus caros! – Magneto alardeou ao entrar tranquilamente no famoso prédio após destruir as laterais metálicas de sua entrada, seguido de Mística, Logan e Eve – Receio informar que precisaremos usar de seu meio de comunicação uma segunda vez!

A balbúrdia imediatamente se instalou assim que se deu aquela triunfal entrada, e Eve percebeu no mesmo instante que vários funcionários já bipavam a central da segurança, pedindo por reforços imediatos ao reconhecer o invasor. Mística e Wolverine posicionaram-se em ofensiva, enfrentando, a partir de suas posturas de ataque, os homens paramentados que já se adiantavam em tomar providências quanto à incursão não autorizada. Os poucos seguranças que se dispunham na proximidade da entrada do prédio aglomeraram-se num bloco, levando os dedos a tocar no cabo de suas armas...

...Cabos metálicos, e Magneto não tardou a usufruir daquela cortesia sempre recorrente em seus ataques.

Homo sapiens... Será que vocês jamais aprendem? – perguntou de modo casual, fazendo com que as pistolas levitassem em pleno ar e apontassem para os seguranças que antes pretendiam portá-las contra os invasores. – Sugiro que acalmem os ânimos, senhores... – sorriu, satisfeito ao vislumbrar a hesitação temerosa dos homens que antes corriam para atacá-los.

Eve conjurou o elemento terra, fazendo várias raízes e gavinhas crescerem incontrolavelmente em cada entrada do prédio, isolando-os ali dentro por completo, impedindo qualquer tipo de passagem entre o interior e o exterior do edifício através daquela rústica barreira. Mais seguranças vieram ao auxílio daqueles que já estavam dominados, e logo esses também perderam seus revólveres para o poder de Magneto que, da mesma forma, fez com que os canos fossem apontados aos seus portadores. As travas das armas foram soltas, mantendo a mira certeira nos assustados seguranças.

— Não há necessidade de ninguém se machucar hoje aqui! – anunciou, olhando de esguelha para Wolverine, que ostentava perigosamente suas garras em meio a uma expressão ferina – Viemos apenas desfrutar de sua influência global. Caso queiram criar maiores problemas, saibam que será uma enorme perda de tempo e talvez até mesmo de vidas. A escolha é de vocês! – advertiu, aproximando ainda mais o poderio bélico sob seu comando dos funcionários, dando ênfase à ameaça.

Todos pareceram compreender o recado, ninguém disposto a dar o próprio sangue por aquele emprego, e o quarteto de mutantes avançou pela empresa sem maiores adversidades.

Alcançaram um dos últimos andares do prédio, onde a transmissão ao vivo era realizada. Magneto invadiu a sala de controle da CNN, substituindo o noticiário de ampla veiculação por chuviscos que indicavam que a programação estava temporariamente fora do ar. Mística expulsou os jornalistas de seu turno, deixando o local livre para os mutantes. Erik logo se juntou a eles, o olhar brilhando em expectativa pelos preparativos completamente improvisados que os levaram até ali.

— Temos que entrar logo no ar, antes que as pessoas comecem a mudar de canal! – o mutante idoso avisou.

— Então senta logo aí e sai falando tudo, colega... – Eve disse despreocupada, ajeitando os documentos sobre a larga mesa para que Magneto pudesse consultar possíveis referências em meio ao seu novo discurso.

— Eu não, Eve. Tem que ser você.

— Como é? – ela o encarou de súbito, os olhos escancarados em visível espanto.

— A minha imagem não é algo que inspire muita confiança, tampouco a de Mística. Mesmo que ela se passasse por outra pessoa, acho que não seria uma ideia apropriada. O ideal seria de fato alguém desconhecido, apenas revelando tudo o que descobriu. Ninguém melhor do que você, que esteve a par de todas essas falcatruas a mais tempo e, acredito eu, a viu com seus próprios olhos.

— Então coloque o Logan! – Hela replicou, já desconfortável só de se imaginar como o foco das câmeras. Magneto e Mística riram com vontade da sugestão.

— Logan espantaria qualquer plateia com suas grosserias pouco articuladas... E no final de seu discurso seria bem capaz de ele se deixar levar pela raiva e sair destruindo o cenário com suas garras e seu instinto animal! – comentou, risonho, arrancando um olhar mal-humorado de Wolverine.

— Sua imagem é a melhor mesmo, guria! – Logan concordou naquele aspecto, segurando carinhosamente o queixo da mutante entre seus dedos – Você vai se sair bem!

— Inacreditável... – sua voz despontou levemente mais aguda, quase histérica – Eu fui atrás de você, Magneto, justamente pra isso! Você sabe ser mais dramático do que uma criancinha remelenta que melecou as fraldas, então faça o favor de sentar a bunda idosa aqui e fazer aquilo faz de melhor!

— Nós entramos em trinta segundos! – Erik avisou, saindo da sala a fim de retornar ao estúdio para dar início à transmissão. Mística e Wolverine o seguiram para fora da sala, a fim de deixar o foco da filmagem apenas na mulher que em breve protagonizaria uma das notícias mais impressionantes a respeito do longo e violento histórico entre homens e mutantes.

— Merda... – Eve sentou numa das confortáveis cadeiras rotatórias ao se ver completamente só ali, o coração pulsando acelerado e a respiração aumentando proporcionalmente – Tá, tudo bem... – respirou fundo, ouvindo com aflição a voz de Magneto se propagando claramente até ali numa contagem regressiva da sala ao lado. Eve estancou assim que a contagem chegou ao fim, ficando paralisada por um momento que lhe pareceu uma eternidade. Estava ao vivo no ar, mas tudo o que conseguiu fazer foi engasgar pateticamente – Ah... Bom... – pigarreou, revirando os papeis em sua mesa com perfeita confusão – Todos podem me ouvir, certo? – deu um sorriso nervoso – Ah... Sentimos muito que a programação tenha sido alterada, mas um imprevisto... Uma notícia bombástica da porra... – fechou os olhos por um breve segundo, tentando se acalmar. A imagem de seu pai ocupou todo o espaço de sua mente, assim como seus incansáveis esforços em prol da comunidade mutante, e quando seus olhos se reabriram, estavam consideravelmente mais focados – Recentemente a comunidade mutante recebeu a notícia de que cientistas estavam trabalhando numa cura à nossa mutação, que tanto vem assustando os humanos.

“Contudo, esqueceram-se de noticiar que essa mesma empresa que pesquisou incansavelmente uma cura à doença nenhuma, na verdade, também se engajou num projeto extremamente oposto. Apresento a vocês, mutantes e humanos, a GlobalGen. Ninguém nunca sequer ouviu falar dessa empresa, porque por anos ela se escondeu no anonimato de uma cidade fantasma. Centralia. E acovardada nesse anonimato, cometeu os mais diversos crimes contra a comunidade mutante.

“Usados como cobaias de experimentos hediondos, vítimas de testes que culminaram em centenas de mortes, a GlobalGen vem estudando os mutantes das formas mais bárbaras possíveis, e ela é uma empresa sustentada pelo próprio governo dos Estados Unidos, que por décadas subsidiou todos os tipos de atrocidades cometida por essa corporação secreta, visando estudos que permitissem manipular e até mesmo reproduzir os poderes gerados por essa específica mutação...

“Assim, as atividades da GlobalGen variaram desde o recrutamento de mutantes que se mostravam vantajosos de alguma forma ao governo, como espiões, diplomatas que detivessem o poder de um convencimento de pura manipulação, soldados hábeis e com vários tipos de capacidade sobre-humanas para lutarem em suas guerras. E foi assim, povo americano, que o país prosperou e chegou a ser o que é hoje. Um país batizado com sangue mutante e valendo-se das bênçãos do nosso estimado presidente para isso.

“A Cura foi criada com o intuito de destituir tamanho poder de meros civis, e recentemente, a GlobalGen e o governo foram ainda mais longe, ainda mais fundo nessa questão. Criaram aquilo que chamam de Praga, um nano-vírus extremamente mortal que tem por intuito dizimar todos os mutantes que não sejam interessantes ao governo de alguma forma.

“E bom, sinto dizer que esse vírus criado em laboratório recentemente foi solto, já fazendo suas primeiras vítimas mutantes e prometendo apenas morte para nossa espécie... A Praga não tem cura, e agora só nos resta esperar que o governo distribua para a população a vacina que a GlobalGen criou para seus próprios mutantes, e quem sabe com isso reduzir o estrago feito em nossa comunidade”

Eve baixou os olhos por um momento, encarando as várias fotos arquivadas das necropsias que foram feitas em vários mutantes na sede da GlobalGen. A câmera pareceu acompanhar seu movimento por instinto, ainda fixando sua grossa lente na mulher que denunciava uma das maiores chacinas da História. Hela retomou seu discurso, um sorriso visivelmente triste arqueando seus lábios de forma sutil. Sirenes frenéticas se empertigavam do lado de fora do prédio, contudo Eve mal as ouvia.

— Sei que minha denúncia parece mera especulação, ou mesmo uma tentativa de desestabilizar ainda mais a situação já tão frágil entre humanos e mutantes. Infelizmente não é, e eu tenho como provar. Assim que eu sair do ar, projetarei ao vivo os principais documentos e fotos que comprovam tudo o que eu disse aqui, e então cada um poderá tirar suas próprias conclusões a respeito, seja humano ou mutante. Muitos de vocês certamente não estão sequer dispostos a acreditar em tudo o que foi dito agora, se deixando levar pelo famoso “sonho americano”, mas ele é uma farsa. Não somos “os escolhidos” de nada, não somos predestinados a nenhuma grandeza que nos prometeram quando crianças. Somos apenas mais uma sociedade corrupta que, como tantas outras, tira proveito do elo mais fraco em prol do mais forte.

Eve juntou os documentos da GlobalGen, encerrando seu discurso. Entrou na sala de controle ao lado, onde Magneto e Mística transmitiram tudo o que foi dito, enquanto Logan apenas a encarava com o corpo escorado à parede, risonho, como se não esperasse nada menos da mulher.

— Magnífico, minha querida! – Magneto a saudou com entusiasmo assim que a viu.

— É, tirando os primeiros dez segundos, talvez... – Eve riu de si mesma, entregando os papéis à Mística, que imediatamente projetou um dos primeiros documentos da GlobalGen que especificavam alguns testes feitos com doses diversas de radiações alfa, beta e gama nos mutantes prisioneiros, dando um close em seguida na nítida assinatura permissiva do presidente que governava na época, décadas atrás. Fotos nauseantes foram intercaladas aos dados e informações que dariam vida pública à GlobalGen.

— Até mesmo sua hesitação no início foi um golpe de mestre! – Magneto sorriu, satisfeito – Certamente ajudou a transmitir um sentimento de credibilidade.

— De qualquer forma... Está feito... – suspirou, entre o alívio e o cansaço.

— Mas está longe de acabar... – Logan constatou sabidamente, parecendo divagar em seus próprios pensamentos.

— De fato. Isso nos levará a um conflito sem precedentes com os humanos! – Magneto concordou, um sorriso satisfeito e quase perverso refletindo seu contentamento – O que você tem em mente fazer, agora que é apenas uma questão de tempo para a guerra eclodir?

— Essa situação tomou proporções gigantescas, Erik. Nossa melhor opção é aliar Irmandade e X-Men pra lidar com toda a merda que está por vir.

— Não sobrou muito da Irmandade, Eve... O que resta somos nós! – avisou, referindo-se à Mística e ele próprio.

— Podemos dizer o mesmo quanto aos X-Men. – sorriu tristemente, percebendo a loucura de tantas perdas e baixas no lado mutante.

— Seu grupo foi todo abatido pela Fênix? – Magneto perguntou, interessado, a mesma sombra triste que invadiu seus olhos ao saber da morte de Charles passando uma segunda vez por seu rosto.

— Não, Erik. Eu falei sério quando disse que a Praga foi solta! E as primeiras vítimas dela serão os X-Men.

Magneto, que julgou que essa parte do pronunciamento de Eve não passasse de um ardiloso blefe para angariar mais atenção sensacionalista para a causa mutante, encarou-a com olhos aterrorizados, e pela primeira vez em muito tempo sentiu-se de fato apavorado.

Seus olhos azuis refletiram um medo tão verdadeiro e desnorteado quanto no dia em que, ainda menino, fora brutalmente separado de sua mãe no campo de concentração. E nunca, desde então, se sentiu tão perdido quanto agora.

Notas finais
Esse capítulo estava pronto há bastante tempo, mas só consegui revisar hoje, porque parece que nem nas férias eu consigo realmente uma folga, heusehsueh! Espero que tenham gostado, e por favor, comentem o que acharam! Eu me esforço bastante naquilo que escrevo, e é essencial a opinião de vocês pra saber se estou conseguindo agradar ou não! Aliás, esse foi o antepenúltimo ou penúltimo capítulo da fic, ainda não pensei muito em como vou fazer a divisão dos próximos, mas só pra avisar que realmente já está no fim! Beijos, beijos, e até o próximo, seus lindos! ;*