Immortal

2 Tentando Reatar Laços Rompidos E Despedaçados


Notas iniciais
Queria agradecer à Beatrice e à glauciaqsp por se manifestarem no primeiro capítulo, muito obrigada mesmo! Sei que a categoria X-Men não é muito valorizada por aqui, mas eu sou teimosa e vou continuar tentando =]

Xavier encarava a imensidão de mutantes projetada ao seu redor pela maquinaria nominada ‘Cérebro’, cada mutante que ali se destacava apresentando proveniência de distintos lugares e donos das mais diferentes e exímias habilidades. Mas era um único ponto luminoso que chamava a sua atenção em meio a todos aqueles talentos e poderes...

...Um ponto específico localizado em Bay City, Michigan.

“Eve...” – pensou com amargura, levando alguns dedos na direção da jovem mulher como se pudesse tocá-la através daquela reles projeção de sua filha – “Um dia ainda poderá perdoar este velho tolo, minha doce menina?”

Charles sabia que a resposta àquela pergunta ainda se resumia a uma dolorosa e fria negação. A filha nutria e guardava profundos ressentimentos contra o pai, e este nem ao menos necessitava usar de seus poderes e ler a mente da jovem mulher para chegar a tal conclusão. Tinha plena consciência do quanto errara ao longo da paternidade, até que essas falhas culminaram na dolorosa tragédia que afastou de vez a menina que Charles tanto amou, mas que o excluiu de sua vida com uma facilidade dolente.

Ele desviou o olhar, removendo o capacete do Cérebro e desligando a complexa maquinaria ao perceber que não mais suportava sustentar a própria e adversa situação que viveu ao longo de todos os anos em que se manteve distante de sua primogênita, a fraqueza por vezes o fazendo procurar conforto na imagem de sua Eve através da tecnologia de ponta fornecida pelo Cérebro. Xavier suspirou longamente, quase sem perceber o indubitável peso que diariamente se agregava aos seus ombros, perdido em tristezas enquanto atravessava o corredor em direção à saída e ainda disperso nos próprios devaneios. Teria de arrumar uma forma de trazê-la de volta, de retomar a relação de pai e filha há muito perdida, ou recomeçá-la do zero, caso fosse preciso.

E principalmente, precisava tê-la por perto para protegê-la da guerra que se firmava entre mutantes e humanos... Com o conflito atingindo proporções cada vez maiores, Eve logo acabaria tomando parte e adentrando ao olho do furacão, mesmo que o evitasse. Por mais que o poder da filha fosse o mais complexo que Xavier já havia visto em todos aqueles anos dedicados aos mutantes, ainda temia pela segurança de sua menina, aquela que aos seus olhos seria sempre a garotinha indefesa que corria ao quarto do pai numa noite de trovões, pedindo proteção e alento junto ao seu colo.

Estava decidido. Teria de trazê-la de volta ao Instituto o quanto antes. E, acima de tudo, reconquistá-la e se reaproximar da única família que lhe restava.

– Professor! – Kitty exclamou, surpresa ao percebê-lo tão distraído a ponto de nem enxergá-la enquanto deslizava pelos corredores da Mansão X. Se não fosse pelo poder da adolescente de ultrapassar a matéria física, ambos teriam se esbarrado – O senhor está bem?

– Sinto muito, Kitty! Eu não a vi... – desculpou-se, ainda experimentando a mesma sensação de desalento que sempre o preenchia quando usava o Cérebro para ver sua filha por alguns instantes, ainda que fossem distorcidos – Diga-me, querida, você viu o Noturno?

– Ele está encrencado? – perguntou, receosa de acabar entregando o amigo.

– Não, não está! – Xavier sorriu de modo doce e tranquilo, um gesto que era capaz de apaziguar apenas os corações alheios, pois o dele parecia residir em eterna tormenta – Só preciso... pedir a ele um favor.

Eve espreguiçou-se ociosamente sobre a cama quando sentiu-se despertar ao comando da luminosidade copiosa que transpassava a vidraça de seu quarto. A cabeça latejou com incômodo quando seus olhos se abriram e captaram a alta luz, que já indicava o tardar da hora.

Sentou-se, esfregando o rosto e sentindo o próprio corpo rodar por conta da noite anterior. Sempre acabava se arrependendo dessas madrugadas passadas no bar, porém, em contrapartida, sempre as repetia, talvez como uma forma de tentar fugir da própria realidade.

Ignorou a cama abarrotada e limitou-se a vestir o hobby branco, dirigindo-se até a cozinha e já detestando os efeitos da sobriedade, que sempre lhe permitia sentir com mais intensidade.

“Nada como curar um porre com outro!” – pensou com amargura, exausta da rotina de suas dores, constantemente questionando a si mesma como seria o dia seguinte. Porém, no fundo, ela sabia que seriam exatamente como os dias já passados, e a mesmice a assustava com mais profundidade do que qualquer tragédia que pudesse abatê-la dali por diante.

Eve prendeu desajeitadamente o longo cabelo castanho-claro num coque, procurando em sua geladeira por uma cerveja sem nem ao menos preocupar-se em forrar o estômago antes. Pegou uma das garrafas geladas, preparando-se para remover o lacre, contudo manteve-se estática com o que se seguiu.

Bem ao seu lado, na bancada da cozinha, surgiu num estalo um garoto que devia beirar os dezessete anos, a pele completamente tingida de azul, os olhos amarelados e cabelo igualmente turquesa. Um rabo pontudo e longo dançava ao redor do corpo do garoto, e Eve apenas encarava a cena, boquiaberta.

– Ãh... – o garoto acenou, completamente sem jeito. Se não fosse a tonalidade azul de sua pele, Eve sabia que ele teria corado com intensidade – Alô!

– Rá, taí uma ressaca interessante... – Eve largou a cerveja no mesmo instante, decidindo que o mais apropriado seria tomar um café tão forte quanto amargo – Tô até vendo smurfs... – balançou a cabeça, enchendo uma generosa caneca com o líquido preto já preparado no dia anterior e esquentando-o no microondas. Natural demais para alguém que acabara de ver um homem azul se materializar dentro de sua cozinha, como se de fato a imagem fosse criada pelo whisky que ainda parecia embebedar sua mente desde a noite passada.

Tirou a caneca do aparelho, dando um longo gole no líquido fumegante e escorando o corpo à bancada.

– Sinto... sinto muito se a assustei! – a voz jovial despontou hesitante, ele parecendo um tanto quanto desconcertado com a situação – Eu queria me transportar à sua porta, não dentro de sua casa, me desculpe! Ainda é difícil controlar os poderes, e...

– Garoto, você tem dez segundos para se explicar antes que não consiga mais falar... Sugiro que gagueje menos! – avisou, tomando outro gole de café com ares despreocupados. Noturno percebeu, repleto de apreensão, que os olhos antes verdes da mulher agora detinham uma coloração castanha, apenas um pouco mais escuros do que o seu cabelo desajeitadamente preso. Desatou a falar, acordando do momentâneo transe.

– Eu... vim à mando do professor Xavier...

– Desculpe, tempo esgotado! – avisou assim que o nome de seu pai foi pronunciado, sequer permitindo que o rapaz usufruísse de seus últimos segundos de explicação. O castanho nos olhos de Eve se intensificou, como se ganhasse um brilho extra, e uma enorme raiz de árvore perfurou o piso da cozinha de baixo para cima, libertando-se das profundezas da terra e rodeando o corpo azulado ao comando da mulher, que apenas ultrajava um sorriso ao testemunhar o desespero do jovem invasor.

– Não, espere, eu tenho um recado do profess... – sua voz se perdeu quando a grossa raiz chegou com rapidez aos lábios cobaltos, prendendo-os numa forte e inexpugnável mordaça. Todo o corpo azulado já se inutilizava com a contenção firmemente criada, a grossa raiz emaranhando-se ao adolescente com a destreza de uma cobra – Hnnnm! – reclamou, aflito, a todo custo querendo concluir com êxito a missão de confiança dada por seu mentor.

– Já que você é o rapaz dos recados, leve um ao Xavier em meu nome. Lembre o seu professor que nossos assuntos acabaram há quatorze anos! – avisou-o, o tom caramelizado novamente retornando ao verde intenso enquanto o encarava com propriedade – Ainda está aqui, garoto? Suma da minha vista antes que eu faça essa raiz entrar onde o sol não bate! – o marrom novamente retornou às íris de Eve, e Noturno sentiu a estirpe da árvore cutucar de modo dolorido e íntimo o exato centro que separava seus glúteos e, tomado pelo desespero, sumiu ao som do mesmo estalido audível de quando chegara.

A mulher deu uma sonora gargalhada, levando novamente a caneca à boca e divertindo-se em silêncio ao fitar o furo bem no centro do piso de sua cozinha, único indício para lembrar-lhe da inusitada presença do mutante em sua casa.

Notas finais
Quem me conhece sabe que eu adoro usar figuras para indicar os 'quebra-textos' ao longo da história, e nada melhor do que um DNA pra uma fic cujo tema central é mutação. Podem me chamar de nerd que eu aceito =P Espero que tenham gostado do capítulo, mesmo que as coisas ainda estejam bem paradas. E eu não mordo, podem me mandar suas opiniões que elas serão muito bem vindas! Eu imploro para que não me façam implorar, hehehehe =]