Immortal
3 De Encontro Ao Princípio
Notas iniciais
Noturno retornou ao Instituto ainda completamente imobilizado pelas enormes raízes que circundavam cada porção de seu corpo índigo, incapaz de discernir se o que prevalecia dentro de si era o sentimento de humilhação ou o de fracasso. Transportou-se diretamente para o seu quarto, disposto a não permitir que ninguém testemunhasse sua pérfida situação, mas logo se arrependeu ao perceber que não era capaz de se mover sozinho, tampouco livrar-se daquela armadilha sem ajuda.
Após vários minutos infrutíferos em que tentava afrouxar o aperto que inutilizava seus movimentos, Kurt suspirou frustrado, não vendo solução a não ser expor a própria e degradante situação. Àquela hora, sabia que seus companheiros deveriam estar em algum treino, então apenas fechou os olhos com força e engoliu o orgulho, teletransportando-se à sala de simulações.
Experimentou a tradicional sensação de suas moléculas se separando e se reagrupando logo em seguida no lugar que almejava chegar, sensação essa que no começo era extremamente incômoda, porém já se habituara a ela e até sentia que começava a gostar. Era como experimentar uma real liberdade, porém não naquelas circunstâncias...
Uma chuva de meteoros preenchia o céu escuro e enevoado, e um enorme carro prata capotava em pleno ar, vindo diretamente na direção do adolescente que mal conseguia mover-se, apenas grunhir em protesto. Assim que Xavier o viu aparecer naquele estado, pressionou um enorme botão vermelho no painel de controle à sua frente, e todo o cenário hostil se desfez em poucos segundos ao som de uma voz feminina e vibrante que se propagava pelo ar.
Simulação cancelada. Simulação cancelada.
De imediato, os X-Men não compreenderam o motivo de seu treino ter sido brutalmente interrompido ainda pela metade. Somente quando a imagem azulada de Noturno se sobrepôs ao cinza opaco do recinto, todos foram à sua volta, buscando por explicações para o seu estado.
Vampira foi a primeira a falar, a mecha branca projetando-se além de seu rosto conforme o inclinava para fitá-lo melhor.
– Kurt! O que... Como isso aconteceu?
– Hnm... – foi tudo o que conseguiu dizer, já irritado, seu tom soando como um rosnado inconformado.
Lince Negra segurou o punho de Noturno, fazendo as raízes da árvore deslizarem do corpo do amigo até o chão, despindo-o do incômodo aperto. Ele tossiu, e em seguida puxou uma longa arfada de ar enquanto massageava os próprios tornozelos. Wolverine encarava a cena ao longe, escorando o corpo à parede com os braços cruzados e uma expressão zombeteira lhe escapando diante da situação.
– Professor... – ele arfou, cansado – Eu preciso falar com o professor!
O que houve, Kurt? – a voz de Xavier soou apenas dentro da cabeça do adolescente, o professor fazendo o inimaginável para resistir à tentação de perscrutar sua mente e descobrir tudo por conta própria. Mas, a julgar pela forma como Noturno retornou, a notícia não podia ser das melhores...
– Ela... não me deixou falar! – contou, esquecendo-se de manter a conversa apenas dentro de sua mente e revelando-a aos outros – E mandou que eu avisasse o senhor que seus assuntos já acabaram há quatorze anos. Me desculpe, professor, não consegui convencê-la a vir, ela é completamente louca! – desabafou, apontando para o pedaço da árvore que repousava no chão, agora inofensivo.
Charles passou a mão ao longo da testa, o peito cada vez mais apertado. Esperava pela recusa, mas nem por isso ela doía menos. Pensou por alguns instantes, sem se importar com os olhares curiosos dos alunos e de Ororo a lhe fitar, apenas cogitando qual seria a melhor forma de agir. Não queria ele mesmo aparecer à porta de Eve e forçar uma situação de reencontro surpresa, contudo também não podia continuar a se manter omisso na vida da própria filha. Teria de forçar uma situação se quisesse ter uma nova chance com ela, mesmo estando ciente do quanto isso a irritaria.
Fora um crasso erro mandar Kurt àquela missão. Nem de longe o rapaz teria a menor chance com Eve... apenas um ali poderia estar de fato equiparado com os poderes de sua filha e, quem sabe, obter sucesso. Sua sede em revê-la ainda colocaria tudo a perder, mas dessa vez soube que fez a escolha certa.
– Logan... – Xavier o chamou antes que se permitisse mudar de ideia, tomando uma nova decisão por mais que esta não o agradasse. Mas de todas as opções, aquela seria a melhor – Eu preciso que você vá a Bay City e traga uma pessoa... – a qualquer custo, pensou apenas para si com certa angústia, mas disposto a prosseguir. Sabia que, com Logan, não seria necessário explicitar aquela última parte de seu pedido, apenas o fato de tê-lo escolhido para aquela missão já o sugeria.
– Um endereço e um nome, é tudo o que eu preciso, professor – Wolverine adiantou-se, dando um meio sorriso debochado ao passar por Noturno –, e antes que perceba, estarei de volta com quem quer que seja.
Charles tirou uma caneta e um cartão de dentro do paletó, rabiscando o endereço da filha e usando a própria cadeira de rodas como apoio. Entregou-o a Logan, demorando um pouco para voltar a encará-lo. Quando o fez, seus olhos pareciam implorar por algo inespecífico.
– O nome dela é Eve... – suspirou sem ânimo algum – Eve Xavier.

A mulher de intensos e grandes olhos verdes fitava entediada a apresentação de negócios explanada por seu chefe, que reunira todo o pessoal encarregado do marketing da DoubleTree – importante e luxuoso hotel local que todo ano atraía uma considerável gama de turistas –, para dar novas explicações e rumos sobre as inovações que pretendia implementar. Eve fazia parte da equipe que lidava com a propaganda da empresa, e apenas encarava o entusiasmo do gerente e limitava-se a revirar discretamente os olhos com cada redundância e comentário óbvio.
Após o término da reunião, os funcionários foram dispensados, já no final do expediente, e Eve agradeceu em seu íntimo por poder retornar a sua casa. Procurou pelas chaves de sua Mercedes cinza dentro da bolsa, e logo começou a costurar pelas ruas da cidade, pouco se importando se estava dentro dos limites de velocidade ou não.
Mal percebeu os quarteirões que ultrapassava, ou se o fazia rápido demais, apenas guiava o automóvel pelo caminho traçado diariamente, até que após alguns minutos avistou o seu imóvel, seu deprimente e solitário refúgio.
Eve estacionou o carro na garagem, permitindo-se alguns instantes extras dentro do veículo enquanto era dominada por uma sensação desagradável, como se seu sexto sentido lhe avisasse algo.
Foi quando o viu, encostado ao batente de sua porta e trajando uma jaqueta de couro tão despojada quanto seu aspecto. Eve imediatamente saiu do automóvel, olhos semicerrados e feição ferina.
– Perdeu alguma coisa aqui, grandão? – arqueou uma sobrancelha em desafio, não gostando nada de ver o enorme homem parado diante de sua casa.
– Você é Eve Xavier? – perguntou sem rodeios, aproximando-se da jovem mulher sem muitas expressões afáveis, apenas prático.
– Talvez... – encarou-o com atenção, entendendo de onde o homem viera assim que vislumbrou o elaborado ‘X’ impresso em seu casaco – E você deve ser outro garoto de recados a serviço do meu pai. Quer saber o que aconteceu com o último? – sorriu sadicamente, e, ao invocar mais uma vez o elemento terra, seus olhos ganharam o mesmo tom amarronzado da vez anterior.
– Nada disso, guria. Eu sou o garoto das entregas! – sussurrou perto do ouvido da mulher, dono de um tom de voz traiçoeiro ao suspendê-la com uma facilidade revoltante pelas pernas, fornecendo o largo ombro como apoio à cintura de Eve e lhe dando uma visão um tanto interessante da parte traseira de seu corpo.
– Me põe no chão agora, imbecil! – urrou, debatendo-se com vontade e ódio. Ele apenas continuou caminhando até o veículo que provavelmente o trouxera a Michigan, como se sequer pudesse ouvir os protestos indignados da mulher.
Eve rosnou enfurecida, completamente decidida a comprar aquela briga. Um brilho escarlate dominou os redondos olhos da mulher, como se as chamas que ela invocava de fato crepitassem ao fundo de seus olhos, as labaredas dançando em meio à vermelhidão alaranjada que cobria suas íris repletas de intensidade. Todo o corpo de Eve se esquentou várias dezenas de graus, e logo ela fez nascer enormes queimaduras ao longo do corpo do homem que ainda a carregava com mais firmeza do que ela gostaria.
O casaco de Logan derreteu quase que instantaneamente sobre sua pele, porém nada demonstrou a despeito da dor além de um breve e muito bem contido tremor. Foi com imenso desgosto que Eve constatou que, após provocar as queimaduras, elas se curavam no segundo seguinte, deixando as marcas de suas inúteis investidas apenas na vestimenta que se desfazia no robusto corpo do homem. A própria roupa da mulher estava agora chamuscada e esburacada em alguns pontos por conta da alta temperatura invocada.
– Desista, garota! – ele advertiu, indiferente às tentativas de feri-lo, como se nem mesmo a dor o abalasse. Abriu a porta do carro e colocou-a sem muito zelo sobre o assento estofado em couro. Em seguida fechou-a ali, indo em direção à poltrona do motorista.
Eve fechou os olhos com força, concentrando-se como nunca no uso dos seus poderes, até que cada pelo de sua nuca se eriçou em resposta. Tentou dar àquele homem o mesmo destino do rapaz azul que invadira sua casa, e conforme sentia-se evocar novamente as raízes por baixo da terra, era como se a sentisse fluir dentro de si, como se ela fizesse parte da árvore que sabia enroscar-se e engavinhar-se ao corpo do homem por seu comando.
Porém, toda a sua concentração se esvaiu ao ouvi-lo entrar no carro ao seu lado, os verdes olhos arregalando-se em desentendimento e o encarando cheia das mais profundas irritações ao notá-lo livre de qualquer armadilha.
Wolverine a fitou de soslaio enquanto batia a porta do veículo, chegando a ostentar um sorriso discreto de zombaria.
– Acho que isto ganha das suas raízes! – expôs a tríade de garras revestida e reforçada em adamantium, testemunhando a expressão desgostosa da inusitada mulher, que o fez debater avidamente consigo mesmo se o que prevalecia naquelas feições era beleza ou orgulho.
Ela virou o rosto em direção à janela, já sentindo o automóvel ganhar velocidade enquanto abraçava as próprias pernas e fazia o possível para esconder do desconhecido o quanto devia parecer uma menina perdida e assustada. Não demonstraria a fraqueza que notava invadi-la, mas tampouco se sentia apta a enfrentar o passado e ser forçada a encarar de frente a face cruel daquele tempo que ficara para trás. Não ainda...
Odiava, mais do que tudo, perceber esse sentimento em si. Logo ela, que fazia sempre tanta questão em demonstrar força e descaso, agora via-se fraquejar diante do que a esperava no Condado de Westchester, Nova York, seu antigo e adverso lar.
– Devia colocar o cinto, guria! – ele comentou, revezando olhares entre a pensativa mulher e a estrada.
Eve riu, recompondo seu original feitio de escárnio, encarando o moreno dona de uma diversão amarga.
– Meu pai realmente não contou nada ao meu respeito? – debochou, negando algo com a cabeça enquanto sorria. Voltou a encarar a paisagem para além da janela, mantendo a sombra do triste sorriso no rosto – Opa, me desculpe, eu esqueci que ele só dá as ordens e vocês cumprem como as boas marionetes que são...
Wolverine limitou-se a acelerar, seu rosto fechado enquanto encarava taciturnamente as ruas pouco movimentadas.
– Ninguém me dá ordens, garota.
– Percebi! – riu com maldade, vendo-o prestes a sair do sério – Afinal, você realmente deve ter muitos interesses em me levar à força. Com certeza há uma boa explicação que não seja sua mutação te tornar um completo pau mandado! – alfinetou, o sarcasmo se sobrepondo à raiva por um instante.
– Não sei o que aconteceu entre vocês, guria, e pouco me importa. A única coisa que sei é que seu pai me ajudou quando precisei, eu estava em dívida com ele.
– Ah, me poupe! O que ele fez de tão especial? Leu sua mente, descobriu seu passado como se lhe fizesse um favor e disse que ficaria tudo bem? – questionou, repleta de troça e veneno em suas palavras.
– Exatamente. – disse, em tom de quem encerra o assunto.
– Patético... Mas quem pode te culpar? Meu pai sempre foi genial lidando com mutantes. Sempre solícito, sempre presente e disposto a sacrificar o que fosse por eles. A não ser, é claro, que esse mutante tenha o seu sangue nas veias... – comentou num tom que beirava o sussurro, que fez Wolverine ter certeza de que não era com ele que ela desabafava, mas consigo mesma. Para o seu completo desentendimento, ela sorriu largamente, encarando-o com uma expressão agora misteriosa – Mas se meu pai faz tanta questão assim em me ver, acho que não posso chegar de mãos vazias... – seu sorriso ganhou um teor travesso e quase cruel que Logan não compreendeu.
Fale com o autor