Immortal

4 Acasos Que Definem Novos Destinos


Notas iniciais
E aí, prontos para descobrirem o passado da Eve? =] Esse capítulo é todo um flashback, espero que curtam! E as minhas boas vindas a uma leitora muito especial que já me acompanhava na minha última fanfic do Batman, e que me deixou muito feliz por aparecer aqui também! Time Lady, muito obrigada por ainda me aturar, lindeza! ;*

Condado de Westchester, Nova York, quatorze anos antes.

Xavier caminhava pelo Instituto absorto em vários projetos e ideias, completamente envolvido naquela missão que dera a si mesmo de ajudar e, principalmente, ajustar os mutantes ao mundo, de modo que eles fossem capazes de controlar seus poderes e, dessa forma, conviver pacificamente com os humanos desprovidos daquela mutação em específico.

Ele já comprovara na própria pele o quão aversivo e cruel o mundo podia ser aos mutantes, e por isso optou desdobrar sua missão à surdina, sem que as pessoas realmente soubessem seu verdadeiro intuito. Por isso, fora das paredes do Instituto, todos acreditavam que Charles lidava com adolescentes superdotados. O que, de certa forma, não deixava de ser uma grande verdade com apenas alguns detalhes omitidos...

Agora Xavier estudava um caso em especial que lhe chamara muita atenção. Jean Grey. Uma criança de dez anos com uma capacidade impressionante de telecinese e telepatia que, de tão fascinante e complexa, seria certamente o maior dos desafios enfrentados pelo professor até então. E, se tudo saísse como o esperado, Jean se tornaria a quinta aluna abrigada no Instituto.

Ainda naquele mesmo dia, Charles viajaria com Erik rumo ao estado da Virgínia para visitar a garota e sua família a fim de lhes fornecer informações sobre as vantagens que poderia oferecer, tanto aos pais quanto à filha, caso estivessem dispostos a aceitar sua ajuda e seus serviços.

Bastava dar conta de alguns últimos preparativos, e logo ele e Erik pegariam a estrada, e travariam uma conhecida e árdua batalha para explicar a situação aos pais da mutante, no caso em questão, os Grey.

— Charles... – Erik chamou, notando-o completamente preso às anotações do perfil da menina Jean – Está na hora! – avisou, sugestivo.

— Sim, tem razão! – desvencilhou-se dos vastos papéis que lhe prendiam a atenção, caminhando ao lado de Erik até o carro, rumo a uma longa viagem, articulando animadamente sobre o caso que tinham em mãos.

Porém, a meio caminho do veículo, uma conhecida e vibrante voz feminina o parou.

— Charles, espere! – uma mulher esguia correu brevemente para alcançá-lo, carregando em sua expressão um toque perturbado, algo que se podia notar claramente no brilho azul de seus olhos aflitos – Ela piorou! A febre oscila, mas nunca esteve tão alta. Estou preocupada, Charles! – confessou, seu semblante cada vez mais cansado, os primeiros raios solares do dia iluminando fracamente seus traços de modo a intensificá-los.

Xavier fitou de esguelha o amigo que o acompanhava, voltando a encarar a esposa logo em seguida, apertando com força os dedos da bela companheira.

— Eu tenho um trabalho importante a fazer agora, querida, não posso adiar! Mas não se preocupe, eu retorno no fim do dia, no mais tardar amanhã, e se nesse meio tempo Eve piorar, você a leva ao hospital, está bem? Meu assunto em Virgínia não será demorado, acredito que até o anoitecer nós estaremos de volta.

— Certo... – concordou ainda que relutante, dando um suspiro conformado – Tudo bem, eu... eu dou conta.

— Obrigado, Dana! Resolvemos isso assim que eu voltar, está bem? E qualquer coisa me ligue! Até mais! – despediu-se, dando um apressado, porém doce, beijo nos lábios da esposa, e logo em seguida dando as costas e partindo com Erik.

— Até mais... – respondeu tardiamente, observando-o partir. Suas pálpebras exaustas se fecharam por um segundo, odiando cada momento em que notava Charles colocar a família em segundo plano, momentos esses cada vez mais corriqueiros em suas rotinas. Obrigou-se a espantar o pensamento, traçando o caminho até o quarto de sua filha com olhos distantes e ainda ressentidos.

Passadas algumas horas, Dana apenas espiou o recinto privado de Eve, vendo a filha tremer sob o farto edredom que a cobria. Sentou-se no canto da cama, afastando os dourados cabelos de Eve do rosto, as mechas úmidas por conta do suor que banhava sua pele.

— Como está, minha querida? Não melhorou nem um pouco?

— Difícil dizer... Parece que eu não sinto mais nada... – comentou com a voz tão trêmula quanto o seu pequeno corpo, tentando sorrir para a mãe em seguida. Dana encostou os dedos na testa da filha, e um vinco preocupado formou-se entre as sobrancelhas.

— Essa febre não baixa, não importa o que eu faça... Vamos logo a um hospital, Eve.

— Me carregue se for capaz... – zombou, ciente de que sequer conseguiria caminhar naquele estado de moleza, com crises estranhas de dor lhe brindando com cada vez mais frequência e potência. Mas isso Eve não contara à mãe. Podia sentir pelo embaçar de seus olhos que logo outra onda dolorosa a atingiria, talvez a pior de todas até então.

— Eu vou te dar um banho gelado pra ver se a febre baixa ao menos por enquanto, e depois vamos direto ao hospital! – avisou, decidida, tirando o edredom da filha e ignorando seus protestos causados pelo frio cortante que a invadiu.

Dana ajudou Eve a chegar até o banheiro, e por um momento não tão breve a pequena garota achou que desmaiaria. A dor estava à espreita, e não sabia quanto tempo mais poderia ignorá-la sem que a mãe notasse e acabasse se preocupando ainda mais.

A mulher ligou o chuveiro, rosqueando o registro até o máximo e certificando-se de que a água caía fria antes de despir a filha e posicioná-la embaixo da corrente de água, não sem um aperto no coração ao notá-la tremer violentamente. Mas manteve-se firme ali, sem ousar reclamar o quanto o frio parecia cortar sua pele arrepiada e febril.

Dana afastou o cabelo, agora encharcado, do rosto pálido da filha, esfregando as mãos ao corpo infantil numa tentativa de amenizar o choque térmico.

Foi quando tudo aconteceu, rápido demais.

Eve berrou, seu urro carregado de uma dor que nunca antes sentira, demais para se suportar. Seu corpo caiu, perdendo por completo a sustentação enquanto a menina sentia como se cada osso que formava seu esqueleto se partisse, trincasse, rachasse, como se estivesse à beira de desmanchar-se a mero pó. Agora não era pelo frio que tremia.

— Eve! – Dana exclamou, aflita e tão desconcertada quanto. Agachou-se junto à menina que ainda gritava sem jamais abrandar a intensidade, tirando-a da corrente de água e a acomodando em seu colo, imediatamente encharcando a si mesma.

Levou-a novamente ao quarto, providenciando uma toalha e sentindo grossas lágrimas subirem aos olhos com a própria impotência, a cada vez que berros indomados escapavam à garganta de sua filha. Secou-a, sentindo os músculos sacolejarem com violência.

Até que os berros cessaram, e a expressão de Eve se abrandou no mesmo instante. Os olhos agora fechados, como se apenas cochilasse.

— Eve? – Dana chamou, cada vez mais confusa e sem saber como agir. As pálpebras da menina se levantaram após segundos que pareceram intermináveis, fazendo o coração de Dana parar com a cena que presenciou. As íris da filha, antes donas de um característico tom verde-lima, agora estavam completamente negras, tão negras quanto a mais soturna das noites – Por Deus, Eve, o que está havendo...?

Dana segurou a mão da filha entre as suas e, instantaneamente ao contato, sentiu-se sufocar, com uma intensidade arrebatadora e inexorável, como se sua traqueia houvesse colabado de um segundo a outro, e soube que era seu fim. Puxar o ar para dentro dos pulmões não era mais uma opção, e cada músculo da mulher tornou-se rígido, assim como os nervos, como se toda a sua essência vital lhe fosse arrancada. E ela desfaleceu ali mesmo, com uma rapidez que apenas inspirava medo.

Os olhos de Eve retornaram ao verde, e ela encarou o corpo da mãe apenas sentindo o desespero crescer exponencialmente. Não havia mais febre ou qualquer outra aflição física nela, mas o grito que soltou naquele momento foi o mais martirizado de todos.

Naquele momento, ela não compreendeu o que levara à repentina morte da mãe, mas não havia qualquer dúvida em seu mais profundo íntimo de que ela era legítima... Sentia-se extremamente perdida e desamparada.

Eve deslocou-se até o canto oposto do quarto, abraçando as pernas em posição fetal e escondendo o rosto entre os joelhos, desatando a chorar lágrimas silenciosas e fartas. Fechou as pálpebras com força, temendo que seus olhos novamente fossem atraídos pela imagem mórbida de Dana, sua maior e mais completa imagem de família, já que seu pai nunca pareceu muito interessado por ela, não mais do que os estranhos alunos que viviam no Instituto.

A menina não soube calcular o tempo em que permaneceu naquela posição, o próprio corpo completamente exposto em sua nudez, na iminência de aflorar.

As horas transcorriam impassíveis à aflição que apenas emergia de seu íntimo, atroz...

Nem chegou a se importar quando reconheceu a voz do pai ao longe. Apenas o nome que ele chamava fez com que a dor retornasse em seu último e mais cruel grau. Seria ela, de alguma forma, a culpada pelo ocorrido? Mas como poderia, se tudo o que a mãe fez foi tocá-la?

— Dana? – Xavier tornou a ecoar, sua voz agora mais próxima. Eve apenas se encolheu, destinando mais força ao abraço que dava às próprias pernas. Mesmo que estivesse disposta a chamar pelo pai, não era capaz de encontrar a própria voz para o que quer que fosse...

...Mas ele a encontrou, trajando as mesmas vestes da viagem e trazendo um semblante cansado proveniente das horas de estrada. Ele encarou o dormitório da filha, demorando-se atônito na imagem de sua esposa, caída no chão num ângulo pouco compreensível.

Charles correu até ela, notando-a tão dura e retesada como uma perfeita e macabra estátua. Tentou ler a mente de Dana, mas ela estava vazia, uma condição que somente poderia ser atribuída à morbidez. Sua amada esposa não estava mais ali, se fora para sempre, de uma forma que ele jamais poderia tentar alcançar.

O desconsolo o arrebatou, e as lágrimas quiseram vencê-lo. Mas ainda havia algo a fazer antes que se permitisse recolher ao luto. Xavier percebeu Eve encolhida a um canto, imóvel, e por um milésimo de segundo chegou a temer por sua filha também. Mas ela estava lá! Podia sentir a mente da jovem menina pulsando na mais completa agonia e desconectividade.

— Eve, o que aconteceu aqui? Você está ferida, meu bem? Alguém a machucou? – lançou as perguntas uma atrás das outras, mas todas se mantiveram sem respostas. Charles notou-a despida, e enrolou o corpo da menina no casaco que antes o vestira – Conte ao papai o que houve, querida! – pediu, aflito, mas nada veio em troca, nem mesmo um olhar. Xavier então entrou na mente de sua primogênita, ele mesmo procurando pelas informações que queria descobrir. E o que viu, tirou-lhe todo o ar do peito – Meu Deus! – arfou, fitando a filha com preocupação.

Pegou-a gentilmente no colo, e correu até a enfermaria onde costumava estudar os casos de seus alunos mais intimamente, decifrando-os.

Sua filha afinal era uma mutante, e pelo que vira superficialmente em suas memórias, das mais perigosas.

Eve jazia numa maca, os olhos verdes fixos em nada, alguns eletrodos aderidos à sua cabeça de modo a monitorar a atividade cerebral. Xavier caminhava desolado pelo ambiente, acompanhado por Erik.

— Eu fui a fundo na mente dela, Erik, bem mais do que já me permiti ir com qualquer outra pessoa, e ainda não posso compreender com precisão o poder dela... – confessou em derrota ao melhor amigo, desejando mais do que tudo poder fechar-se à própria dor.

— O que você viu? – ele perguntou, destinando enorme interesse na afilhada, principalmente ao saber dos detalhes que Charles lhe contara de como Dana pereceu apenas ao mais leve toque destinado à filha.

— Ao que me parece, a mutação lhe deu o poder de controlar os elementos da natureza... – suspirou, exausto – Mas eu também vi vida e morte... Como isso pode ser possível...?

“A vida e a morte!” – Eve pensou consigo, entendendo a terrível verdade— “Eu matei a minha mãe... A culpa é minha!”

— Ora, meu caro, e por acaso existem elementos mais naturais do que a vida e a morte? Se ela de fato controla a natureza, o faz por completo! – constatou, mirando o olhar em Eve com cada vez mais sede – Ela é uma deusa em meio a insetos, Charles. Um novo patamar, até mesmo para os mutantes.

— Ninguém deveria ter tanto poder... – comentou, soando assustado – E ela só tem onze anos!

— Não seja piegas, meu amigo. A garota que trouxemos hoje tem dez.

— Eu cheguei a pensar que ela seria normal... Dana não era mutante, ah, Erik, como eu queria que minha filha não precisasse passar por isso!

— Não seja estúpido, Charles! – Erik esbravejou, agora ríspido – Eve tem um poder incrível, ela é absolutamente perfeita! Se a usarmos para lidar com nossas pequenas desavenças com os humanos... tudo estaria resolvido num instante!

“Me usar?” – Eve sentiu-se arrepiar, sem saber se o sentimento mais forte dentro de si era a ofensa ou a raiva.

— Não, Erik. Nós vamos estudá-la, até que descubramos um modo seguro de lidar com esse poder e controlá-lo.

“Estudar a mim, como se eu não passasse de uma aberração...”

— Esse sempre foi o seu problema, Charles. Ao invés de buscar um modo de aperfeiçoar os poderes da garota, você quer controlá-los, domá-los como se fossem um defeito... – falou com repúdio, bufando – Nós temos uma arma poderosa e indestrutível nas mãos, e você pretende detê-la como um covarde...

Arma... aquilo foi demais para Eve!

Ela sentiu uma indomável fúria preencher cada milímetro de seu corpo, e por ele percebia uma força e poder inigualáveis fluírem através de si, como se a sua mutação respondesse ao estado de seus nervos, como se de fato ela não passasse de uma arma, um instrumento bélico pensante e cheio das mais destrutivas vontades.

O monitor ligado aos eletrodos mostrou intensa atividade, chamando a atenção dos dois para a garota, que eles julgaram erroneamente estar alheia e inconsciente à conversa por conta de seu antigo estado catatônico.

Eve mal notou que seu corpo se prostrava flutuante sobre a maca, suas madeixas dourado-castanhas dançando em volta de seu rosto, tão ameaçadoras quanto as íris agora totalmente despigmentadas, tão alvas quanto o branco de seus olhos. Soube então que seu pai estava absolutamente certo. Ela controlava a natureza, e o elemento que chamava para si era o ar, dando-lhe a fúria de um furacão.

A enfermaria inteira parecia tremer, e Eve sequer podia ouvir ou se importava com os protestos lançados pelos dois homens. Sua primeira investida consciente se destinou ao padrinho, lançando uma forte rajada de ar contra o homem apenas o suficiente para afastá-lo de sua verdadeira ira. Erik foi violentamente arrastado pelo piso, até que sua cabeça se chocou a um empecilho qualquer – Eve pouco ligava – que o desacordou.

Em seguida sua atenção foi destinada a Charles, seu pai, e a fúria fez com que o teor de seus poderes parecessem se potencializar. E naquela figura, permitiu que todas as suas frustrações se libertassem, já não mais aguentando mantê-las tão interiorizadas, presas em seu peito por tempo demais. Toda a negligência do homem para com ela, o fato de sempre ocupar a prioridade de terceiros e quartos planos na vida do pai e, principalmente, a doentia culpa que sentia por ter matado a própria mãe. Se Charles estivesse ali para intervir, se demonstrasse ao menos um pouco da preocupação e dedicação que distribuía de tão bom grado aos seus alunos do Instituto, talvez tragédia alguma tivesse ocorrido naquela noite.

A culpa era tão dela quanto dele!

Eve lançou um verdadeiro tufão em direção ao pai, permitindo que todo o poder que sentia fluir em si fosse jogado contra o homem, esperando que cada aflição que não era capaz de verbalizar se fizesse entender com a investida.

Charles foi violentamente arremessado para um extremo da enfermaria, indo de encontro à outra maca de bordas metálicas, e antes de perder a consciência, pôde sentir uma vértebra de sua lombar se esmagar com a potência da batida.

E, daquele dia em diante, Charles Xavier perdeu completamente o comando das próprias pernas.

Notas finais
E então, o que me dizem do passado da guria?