Immortal

5 O Lar De Antigos Infernos E Purgatórios


Notas iniciais
Mais um capítulo, jacuzada! ^^ Bom, infelizmente as minhas férias chegaram ao fim, o que quer dizer que muito provavelmente as postagens ficarão mais lentas daqui por diante... :/

A viagem seguiu-se em completo silêncio durante sua maior parte, as horas transcorrendo apenas com Eve fitando as ruas que passavam depressa, pensando consigo mesma que após tanto tempo fazendo o que estava ao seu alcance para evitar confrontar o passado, agora caminhava direto para ele naquela viagem sem escalas que terminaria em seu singelo inferno particular. Já Logan distribuía olhares que se revezavam entre a estrada e a mulher, talvez tentando imaginar que tipo de nuances se escondia além daqueles olhos genuinamente tristes e carregados.

– Você está bem, guria? – o mutante finalmente cortou o silêncio, julgando conveniente se certificar de que a mulher não passava mal por conta das sinuosas curvas ao longo da estrada.

– Você nem imagina o quanto... – sussurrou, ainda naquela mesma posição que lembrava um feto, como se aquilo pudesse ajudá-la a se sentir mais tranquila. Ledo engano – Você tem família, grandão?

– Não... – respondeu de má vontade, voltando a atenção novamente para a pista, parecendo arrependido por ter encorajado o assunto.

– Sorte a sua! Eu te invejo por isso... – olhou-o, as pálpebras semicerradas de modo a esconder parcialmente o intenso verde de seus olhos – Se você tivesse família, provavelmente não me levaria de encontro à minha... Provavelmente saberia o quanto isso foi baixo!

– Já disse, não me importo com o que levou vocês a se afastarem... – avisou uma segunda vez, seco e disposto a encerrar aquele princípio de discussão antes que fosse tarde.

– E eu também não vou me importar em fazer suas garras brotarem por novos orifícios quando tudo isso terminar, babaca. – lançou, tendo que dominar uma vontade quase incontrolável de atacá-lo novamente. Virou o rosto em direção à paisagem cada vez mais próxima de seu antigo lar, mostrada num borrão através do vidro da janela. Bufou, descontente.

Mas, sem dúvida, o que mais a irritava não era necessariamente o fato de aquele homem tê-la ‘raptado’, e sim as reações limitadas que percebeu em si, como se Eve se deixasse ser levada da forma mais passiva. Poderia ter criado um caos atrás do outro para impedir que aquele homem a levasse para sua velha casa, fazer daquela travessia um inferno inexpugnável. Uma gama considerável de ideias atravessava sua mente, desde capotar o carro até criar nevascas impenetráveis, mas ao invés disso ela apenas se limitava a observar a paisagem, descartando o uso de seus poderes para impedir que chegasse ao destino...

...Ao que parecia, ela mesma se via necessitada a novamente encarar a vida que teve. Quem sabe assim não estaria apta a colocar uma pedra sobre o assunto e permitir que o passado ficasse em seu devido lugar, e parasse de estragar seu futuro com os sentimentos azedos que aqueles anos lhe destilaram?

Querendo ou não, por mais desagradável que parecesse, aquela era sua última e melhor chance de se sentir capaz de superar o que ocorreu, e por isso, mesmo que lhe causasse um repúdio indescritível voltar ao Instituto de seu pai, ela apenas se deixava levar, sem nada fazer em seu próprio auxílio ou defesa.

“Me tornei um dos mutantes adestrados do meu pai...” – pensou com raiva, mordendo os lábios sem se dar conta do quanto os seus dentes o apertavam, furiosos.

Eve notou com apreensão o quanto já estavam próximos à escola para mutantes criada por seu pai, e foi incapaz de evitar a disritmia cardíaca que se seguiu àquele pensamento. Respirou fundo, tentando dar a si mesma uma calmaria que sabia não possuir.

– Antes de chegarmos ao Instituto, quero fazer uma pequena parada... – avisou, disposta a distrair sua mente das irrefreáveis dúvidas quanto ao próprio retorno. Encarou o homem novamente, obrigando-se a desenhar um sorriso travesso em seu rosto.

– Nada disso, sem pausas. Vamos direto à Mansão! – contestou com ares autoritários, sem nem ao menos lhe dignar um olhar inquisidor.

– Pois eu digo que não. – rebateu tranquilamente, e uma potente rajada de ar veio do sentido oposto ao deslocamento da lataria. A potência do vento atingiu proporções exorbitantes, fazendo com que o carro perdesse a velocidade gradualmente até parar por completo, mesmo que suas rodas permanecessem lutando em vão para ultrapassar o asfalto em meio à rotação dos pneus, que apenas se gastavam inutilmente naquele meio fumacento e cinza – O que as suas garras podem fazer agora, grandão? – a mulher perguntou em meio a um largo sorriso debochado, encarando o mutante ao seu lado com olhos completamente brancos, porém estranhamente brilhantes.

Xavier já estava ao lado de fora da Mansão X, fazendo as rodas de sua cadeira deslizarem por caminhos aleatórios ao longo do enorme jardim do Instituto, impaciente com a demora de Logan e Eve, caso o primeiro tivesse sucesso em trazer sua filha junto consigo. Coisa que, para Charles, parecia cada vez menos provável...

...Até que o professor a sentiu!

Sua mente, peculiar e levemente perversa, inconfundível até mesmo após tantos anos de distância e nenhuma convivência. Sentiu o corpo inteiro acima de sua cintura tremer de expectativa e apreensão conforme sentia que a distância entre eles se tornava cada vez mais irrisória. E vários medos o invadiram ainda com mais força do que a saudade que sentia da filha, quase tão grande quanto.

Não sabia o que esperar de tal reencontro. Sequer sabia descrever detalhes da feição de sua única filha, sua imagem se resumindo apenas àquela falha projeção criada pelo Cérebro quando ele a visitava em segredo. Mas agora finalmente a veria pessoalmente, e não podia distinguir com certeza qual sentimento o dominava com mais facilidade naquelas circunstâncias.

O carro que Logan guiava finalmente ficou visível, e logo já estava estacionado nas dependências da inusitada escola.

Ororo pousou uma mão cúmplice em seu ombro, apoiando-o em silêncio à medida que vários alunos do Instituto se aglomeravam com curiosidade para ver a filha de seu mentor, sua existência até então desconhecida por todos.

Eve saiu do automóvel apenas um segundo antes de Logan, carregando junto ao corpo uma sacola que parecia guardar uma caixa de papelão. Contra tudo o que Xavier esperava, Eve abriu um sorriso em sua direção, e por um momento Charles alimentou alguma esperança acerca daquele encontro. Logan, no entanto, saiu do veículo ainda mais carrancudo do que lhe era natural.

– De volta a Hogwarts... – ela suspirou ao dar uma boa olhada no lugar, já notando o peso do passado que vivera ali sufocar seu peito, como se em momento algum de sua vida houvesse abandonado aquele lar.

– Eve! – o professor sentiu a voz embargar ao notar sua filha já uma mulher feita, ele tendo sido o grande culpado por todas as fases que perdeu da vida de sua primogênita. Deslocou a cadeira de rodas até ela, quase se esquecendo da presença dos mutantes curiosos que ainda observavam a cena com interesse – Minha filha!

– Fala, velho! – cumprimentou de volta, sorrindo um breve sorriso ácido – Posso saber o que exatamente passou por essa sua careca ao mandar esse espécime de Ace Ventura bombado me raptar? – perguntou com certa irritação enquanto apontava para a imagem fechada de Logan, contudo não esperou pela resposta – Mas tudo bem, não interessa! Eu trouxe uma pequena lembrança para o senhor saber que eu não guardo qualquer ressentimento – envergou um meio sorriso cínico em direção ao pai, depositando a sacola em seu colo.

Xavier a encarou com desconfiança, mas não se recusou a abrir o presente dado. Fitou o conteúdo da caixa, um sorriso cansado se fazendo presente, entendendo de um único golpe o tamanho da mágoa da filha ao fazer aquele pequeno logro.

– Um tênis de corrida... – Charles comentou, um aperto se formando em sua garganta, sem saber exatamente a causa. A filha sempre fora do tipo que gostava de pregar uma peça, mas aquela, em específico, teve o intuito de unicamente atacá-lo, feri-lo aonde mais doía, fazendo questão de lembrar-lhe sob que circunstâncias o professor acabou parando naquela vil cadeira de rodas...

– E resistente a impactos. Protege as articulações! – ela completou com falsa alegria, perguntando-se se o pai era capaz de ver a fúria através de seus olhos. Todos os alunos do Instituto a encaravam embasbacados, claramente enxergando a ofensa e tomando as dores do professor para si. Eve sorriu para todos eles em resposta – Aposto que estão com essas caras porque não acreditam no nosso parentesco. Não conseguem ver a semelhança? Olhem bem para o cabelo! – zombou, balançando as próprias mechas acastanhadas e longas, como se lhes desse a dica que faltava.

– Bom, creio que agora vocês já conheçam a minha filha. – Xavier pronunciou-se – Eve, permita que eu te apresente alguns dos meus alunos... – falou sem jeito, verdadeiramente machucado por notar que a visão que a sua pequena menina tinha de si ainda parecia ser a mais hostil possível – Esta é Kitty, aqui mais conhecida por Lince Negra. Bobby, o Homem de Gelo. Marie, a Vampira. Kurt, e também Noturno. – Eve acenou zombeteiramente ao reconhecer o adolescente todo cobalto que parecia extremamente desconfortável em encará-la de volta – E esta é Ororo, não mais uma aluna, mas uma formidável amiga e aliada, também chamada por Tempestade.

– Ora, então quer dizer que quem vive aqui tem que ter um codinome? – arqueou uma sobrancelha – Então podem passar a me chamar de Hela! – decretou, a expressão agora completamente endurecida enquanto encarava o pai, que apenas conseguiu deixar suas feições ainda mais tensas pelo apelido escolhido.

– Hela? – Vampira questionou, interessada pelo significado, desconhecido para a adolescente.

– A deusa da morte na mitologia nórdica – Eve explicou à garota, embora ainda mantivesse toda a sua fria atenção voltada ao pai.

Eve, a culpa não foi sua! – a voz de Charles se propagou com exclusividade na mente da filha, como se suplicasse.

Não mesmo, Chewbacca! A culpa foi toda sua! – ela respondeu alto na própria cabeça e sem hesitar em nenhuma das palavras, e a dor que o professor notou ali era gritante, profunda e impenetrável em toda a sua angústia. Nunca poderia imaginar tamanha intensidade de fúria e rancor...

E um pensamento o dominou, tão áspero e amargo que se tornava em nada palatável. Talvez, mesmo através de todos os seus esforços, Xavier nunca fosse capaz de reconquistar a filha, afinal.

“I'm home again, I won the war, and now I am behind your door.

I tried so hard to obey the law, and see the meaning of this all.

As you can see, when you look at me, I'm pieces of what I used to be.

It's easier when you don't see me standing on my own two feet.

I'm taller when I sit here still; you ask are all my dreams fulfilled.

They made me heart of steal, the kind them bullets cannot see, yeah.

Nothing's what it seems to be

I'm a replica, I'm a replica

Empty shell inside of me

I'm not myself; I'm a replica of me...

The light is green, my slate is clean, new life to fill the hole in me.

I had no name, last December, Christmas Eve I can't remember.

I was in a constant pain; I saw your shadow in the rain.

I painted all your pictures red, I wish I had stayed home instead.

Nothing's what it seems to be

I'm a replica, I'm a replica

Empty shell inside of me

I'm not myself, I'm a replica of me...

I fall asleep and dreamed a dream; I'm floating in the silent stream.

No-one placing blame on me,

But nothing's what it seems to be, yeah.

Nothing's what it seems to be

I'm a replica, I'm a replica

Empty shell inside of me

I'm not myself, I'm a replica”

(Replica – Sonata Arctica)

Notas finais
Quanto à Eve e ao Charles... Soltem suas apostas! xP E quem riu com o 'tênis de corrida' tem um lugar reservado nas profundezas do inferno, saibam disso! Haushaushuash ;*