Immortal
6 Aquilo Que O Tempo Não Cura, Apenas Denigre
Notas iniciais
Ela concentrou toda a sua atenção em contar as próprias respirações, eximindo a si mesma de, por ora, digerir as várias faces traiçoeiras de sua estadia naquele passado que ainda fazia questão de se fazer presente em sua rotina.
Sentia-se completamente despida naquele lugar, sem qualquer defesa, subjugada pelas injúrias que marcavam seu passado tecido apenas pelas largas decepções da época em que ainda vivia no Instituto...
...Por isso, decidiu manter-se sempre na ofensiva, sem jamais abandonar a linha do ataque enquanto se visse submetida àqueles termos.
– Só pode ser castigo! – Eve exclamou ao adentrar na cozinha e vislumbrar o conteúdo da geladeira. Fitou o pai logo atrás de si com uma única sobrancelha arqueada, como se o acusasse de algo – Refrigerantes? Jura? Terei de passar por isso sóbria?
– Isto é uma escola, Eve! – Charles replicou, seu tom levemente endurecido pelo conhecimento do vício da filha – E eu apreciaria se você não trouxesse álcool para o Instituto. Aqui lidamos com crianças menores de idade.
– Oh, não se preocupe, querido pai! Farei o que estiver ao meu alcance para não desvirtuar seus amados alunos! – avisou, pegando um dos refrescos e batendo a porta da geladeira com raiva – Eu lembro bem o quanto eles são importantes para você, e não tenho qualquer intenção de passar tempo demais aqui. Não vale desperdiçar uma boa bebida nesse lugar, não tema.
– Não foi o que eu quis dizer...
– Vivi tempo mais do que suficiente ao seu lado para entender o que o senhor quis dizer. – a mulher sentou-se a uma das cadeiras dispostas ao redor de uma larga mesa, permitindo que seu olhar fosse nivelado à altura do pai, fitando-o com uma frieza acre que não seria capaz de despir de suas feições mesmo que tentasse – Mas me conte as novidades, pai! – sorriu, dando um longo gole no refrigerante – Não pude deixar de notar que aquela garota, como era mesmo o nome dela? Gray?
– Grey – ele a corrigiu, pesaroso – Jean Grey.
– Essa mesma! – assentiu, notando alguns alunos entrarem na cozinha, seguindo-a como abutres curiosos. Um deles era claramente mais velho, os óculos escarlates escondendo a verdadeira tonalidade de seus olhos. O único que mostrava visivelmente estar desinteressado pela mulher que carregava o sobrenome Xavier – Pensei que eu a encontraria aqui. Onde está a virtuosa Jean Grey, a preferida do senhor meu pai? – perguntou, tomando outro gole da bebida. O nome fez chamar a atenção de todos, em especial a do garoto mais velho de óculos escuros.
– Ela... ela se foi... – disse simplesmente, seu rosto parecendo tão ferido como Eve jamais vira.
– Se foi? – um vinco se formou entre as sobrancelhas, em dúvida – Nem ela suportou esse lugar?
– Não, não é isso... Ela se foi... – o professor repetiu, carregado de dor – Jean foi morta por uma forte inundação. Se sacrificou para salvar o resto de nós. – contou, e Eve cuspiu parte do refrigerante que tomava ao receber aquela notícia, e sua risada involuntária paralisou a todos.
– O senhor é mesmo muito azarado! – riu mais um pouco, pousando a garrafa já pela metade na mesa, o verde de seus olhos parecendo dançar em meio a um brilho frio – Perdeu a esposa, e agora a filha que nunca teve.
– Já basta, Eve! – Charles a repreendeu com seu tom duro, ofendido por ver os limites que a filha não se importava em ultrapassar para feri-lo.
– A ideia de me trazer aqui foi sua! – zombou com um meio sorriso – Não tenho culpa se já se arrependeu, e muito menos se todos os anos distantes fizeram o senhor esquecer a minha inconveniência! Então, quer dizer que a ruivinha está comendo capim pela raiz...?
– Como ousa falar assim? – o garoto de óculos rubros se exaltou, desferindo um soco na pia como que para controlar melhor a ira que se apossava de seus sentidos odiosos ao intrometer-se na conversa – Você pode ser filha do professor, mas isso não te dá o direito de sujar a memória da Jean com esse deboche!
– Creio que o senhor se esqueceu de me apresentar a esse ser simpático, pai! – Eve comentou com um sorriso despretensioso, pouco se importando com a agressividade do garoto.
– Este é Scott Summers, o Ciclope. E ele tem razão, Eve, a sua posição como minha filha não lhe confere o direito de...
– Sua filha está morta, Xavier. Você mesmo disse, ela foi engolida por uma inundação. – Eve contra-argumentou calmamente, sem deixar de sorrir em momento algum – E quanto a você, Scott, sinto muito ter ofendido o cadáver da sua paixonite. Tenho certeza de que a Jean teve uma morte nobre antes de servir de comida aos peixes!
– Nobre é pouco! A nave dos X-Men estava com vários problemas que não poderiam ser resolvidos antes que a inundação nos varresse dali. Jean se colocou entre um verdadeiro maremoto e a nave, usando sua telecinese para dar o levante inicial do jato e atrasar o fluxo de água ao mesmo tempo, pagando por nossas existências ao preço da própria vida. – discorreu como um perfeito tolo apaixonado e clichê.
– Retiro o que eu disse! – Eve contrapôs, incrédula ao conhecer a verdade – Aquela tonta morreu por pura estupidez... Nobre foi o maremoto de livrar a humanidade de tamanha paspalhice! Diga-me, Summers, por que não levitar o jato estando dentro dele? – disse o óbvio, arrancando apenas o silêncio como réplica, a única resposta aceitável para um amante incapaz de defender a musa de seus antigos dias – Bom, parece que meu pai não é um professor assim tão bom quanto dizem. Falta ensinar um pouco de bom-senso e lógica, mas a meu ver os mutantes daqui são bitolados a um ponto extremo... Levam anos para aprender a controlar os poderes para depois usá-los em seu próprio sacrifício! – riu fartamente, e sem esperar pela resposta, dirigiu-se à saída da cozinha, ainda balançando a cabeça em negação. Antes de sair, disse: – Sinto que os humanos têm uma pequena vantagem mental sobre essa geração de mutantes. Se realmente houver guerra, estamos fodidos, essa é a verdade. Nobre... – gargalhou, finalmente afastando-se da companhia dos outros mutantes, que se limitavam a encará-la com um misto de confusão e incredulidade.
Logan observava tudo do batente da porta, os braços cruzados sobre o peito e a expressão mais raivosa do que Eve já vira em toda a sua breve convivência. Ela passou por ele ainda sorrindo cinicamente, ansiosa por se libertar de todas aquelas companhias indesejadas. Já sentia uma falta enorme da solidão de Bay City, e de ser sua única companhia...
Revirou os olhos quando notou que o mutante a seguia rumo ao jardim, mas fingiu não se importar e apenas continuou caminhando, dando aos passos maior pressa.
– O professor não merece o que você está fazendo com ele! – comentou, muito mais irritadiço do que inspirava a situação.
Eve parou no meio do gramado, respirando fundo na tentativa de não perder o controle. Virou-se na direção do mutante, cortando a distância entre eles com passadas pesadas e expressão ferina.
– Pensei que você não se importasse com nossas rixas! – lembrou-o, já farta daquelas pessoas e da adoração que faziam questão de demonstrar pela figura de Charles – Você é outro estúpido! Defende meu pai como um cego, e nem percebe que você é só mais um capanga pra ele, fazendo tudo o que o estimado professor ordena sem nem questionar. Vocês ao menos recebem salário? – perguntou, zombeteira.
– Você não devia atacá-lo dessa forma. – ignorou seu último comentário, aproximando-se ainda mais da atrevida mulher de olhos verdes, sentindo faíscas do mais puro ódio brincarem ao longo de seu estômago – A perda da Jean ainda o fere, assim como a todos nós, esse não é um assunto que pode ser tratado com todo esse... descaso! Ela foi uma heroína, e ninguém pode dizer o contrário. Sem ela, nenhum de nós estaria aqui.
– Ah, entendi! – riu maldosamente, percebendo de imediato a procedência real da irritação do mutante – Outro fanboy... Diz aí, grandão, quem era o preferido dela? Você ou o moleque dos óculos escuro? Ou os dois, talvez? Vocês se revezavam, é isso? – um sorriso dúbio se formou em seu rosto, sempre dissoluto, sempre programado para golpear e esfolar.
– Você não vai usar a mim e a Jean como um dos seus deboches! – rugiu em fúria, segurando-a com brutalidade pelo braço, os dedos lhe apertando a pele como se almejassem estrangulá-la. A outra mão livre jazia em punho, e garras começaram a despontar por entre os dedos. Eve novamente gargalhou.
– Pretende usar isso contra mim, grandão? – apontou para o adamantium com o olhar, que gracejava e escarnecia – Eu por acaso feri os seus sentimentos de donzela? Peço desculpas! – sorriu ainda mais largamente, e a pressão em seu braço aumentou.
– Não pense que pode fazer o que bem entende só por ser a filha do professor...
– Eu não pedi salvo conduto. – interrompeu-o – Não é o meu nome que me protege, grandão. – avisou no mesmo instante em que seus olhos ficaram rubros, o brilho vermelho se traduzindo em chamas dançantes ao fundo de suas íris que não mais detinham o fulgor esverdeado – Nunca precisei do meu pai para defender meus interesses, e me espanta que ainda não saiba disso.
Logan, no mesmo instante, afastou o aperto que seus dedos proporcionavam ao braço incandescente de Eve, a palma de sua mão repleta de bolhas vermelhas pela queimadura de alto grau produzida. Porém, em apenas poucos segundos, a pele do mutante já estava curada e na tonalidade habitual, como se nada tivesse acontecido. Logan recolheu as garras, destinando um último olhar de ultimato à mulher, e sem mais nada dizer, partiu, tomando a direção oposta ao jardim, de volta à Mansão X.
A filha de Charles encarou o horizonte, sua expressão completamente transformada na solidão. Não havia mais a troça em seu sorriso. Sequer havia um sorriso. E seus olhos, novamente esmaltados pelo característico menta, apenas transmitiam o marejar que pareciam afogá-los.
Toda a força que fazia questão de emanar meramente se esvaía quando estava só, e por várias vezes sentia-se a mesma menina confusa e perdida que via a mãe morrer diante de seus olhos, repetidas e cruéis vezes. E nessas horas, mesmo que seus poderes lhe conferissem capacidades ilimitadas, a sensação de impotência a fazia sentir o mais fraco e patético dos seres, alguém digna de pena, que mais do que tudo precisava de ajuda. Uma ajuda que, ela sabia, não chegaria nunca em seu auxílio. Compreendia que o seu era um caso perdido, que nem ela mesma se sentia disposta a ajustar.
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