Immortal
11 Não Se Trata Mais De Uma Guerra Fria...
Notas iniciais
Passou mais algum tempo seguindo a rota da interestadual, apenas observando a rapidez com que o sol, pouco a pouco, subia pelo horizonte e espantava os tons mais escuros dos limites do céu. Até que o sono pronunciou-se de um único golpe, e Eve percebeu que seus olhos ameaçavam fechar sem que ela consentisse, as pálpebras cada vez mais pesadas e desobedientes pronunciando o cansaço vigente de seu corpo, protestando avidamente contra a teimosia de Hela em manter-se acordada.
Ela esfregou os olhos com uma das mãos, mantendo a outra firme ao volante que parecia mais duro de comandar ante a moleza de seus músculos cansados, que imploravam por repouso. O único som que se ouvia era o tremor baixo do motor e a respiração ressonante de Logan, ambos os sons contribuindo ainda mais para a sonolência evidente da mutante.
Eve suspirou, ligando o rádio numa estação qualquer a fim de se distrair das incansáveis investidas do torpor que a cada minuto ganhava mais espaço contra a sua consciência. Reconheceu a música de imediato, obrigando-se a ajeitar sua postura largada sobre a poltrona do motorista, e decidindo que já era hora de trocar de lugar com Logan. Aguardou pacientemente até que a canção alegre chegasse ao refrão, e logo que o reconheceu lançou um rápido olhar travesso na direção do mutante antes de aumentar o volume ao máximo e começar a cantar a plenos pulmões, acompanhando o trecho a berros desafinados e fazendo Wolverine pular de susto ao seu lado por conta do barulho repentino e destoante que o acordara daquela maneira tão brusca.
— I wanna rock and roll all night, and party every day...— ecoou, sua voz vibrante incapaz de conter o riso ao perceber o tamanho do susto de seu recém-acordado companheiro de viagem, o olhar alarmado de Logan arrancando-lhe uma crise de uma longa gargalhada. Assim que Wolverine recobrou o discernimento (que demorou alguns segundos extras para acompanhar o despertar de seu corpo), o mutante imediatamente diminuiu o volume até que apenas um sussurro pudesse ser ouvido. Eve se sentiu bem mais acordada, quase disposta – Hey, eu estava ouvindo isso, grandão! – reclamou, mas nem mesmo o largo sorriso em seu rosto fazia oposição à atitude carrancuda de Logan.
— Onde estamos? – perguntou, a voz levemente rouca pelas horas de sono contínuo. Ajeitou-se na poltrona, semicerrando os olhos incomodados pela claridade matinal e permitiu-se um longo bocejo.
— A umas duas horas de Cleveland, se o tráfego ajudar... – ilustrou, buzinando com irritação para o motorista do carro à frente que parecia ser rebocado por tartarugas mancas – METE O PÉ, IMBECIL! – gritou por fora do vidro semiaberto enquanto buzinava novamente, bufando de impaciência – Aliás... onde vai ser o ponto final?
— Iowa – sua resposta soou cheia de má vontade, como se ele amaldiçoasse o lugar apenas por dizer o nome em voz alta. Talvez o temperamento matinal tipicamente instável ajudasse a confeccionar aquela expressão irritada ao longo de suas feições.
— Por quê? O que tem lá? – questionou, sentindo-se estranhamente desperta agora.
— Foi lá que eu acordei sem nenhuma memória do meu passado. É o único lugar que me parece fazer algum sentido como primeira parada... pode não existir nada lá, mas é tudo o que eu tenho por enquanto! – divagou, parecendo falar mais consigo mesmo do que com Eve – Encoste o carro, guria. Você está horrível! – avisou, notando o quão pronunciadas estavam as olheiras sob os atraentes olhos musgo da mulher. Em resposta ela acelerou bruscamente o automóvel, ultrapassando o motorista à frente que ainda mantinha-se num ritmo irritantemente lento. Ao passar, expôs o dedo médio pela abertura da janela ao som de novas buzinadas inconsequentes, parecendo embravecida o suficiente para não ter ouvido o comentário de Logan.
— Ainda não... – respondeu por fim, mantendo o olhar fixo na estrada agora livre, acelerando continuamente como se tentasse compensar o tempo perdido – Antes de dormir eu preciso comer. Pensei em parar em alguma lanchonete, tem uma cidadezinha a uns quinze ou vinte quilômetros daqui... Se não fosse por essa lesma do Porsche azul já estaríamos lá! Ninguém tão lerdo devia ter autorização pra dirigir uma máquina dessas, sinceramente, é um puta desperdício! – bufou, referindo-se ao carro que acabara de ultrapassar, o tom cheio de repulsa e impaciência criando um meio sorriso quase imperceptível nos lábios de Logan, que parecia cada vez mais divertir-se com a instabilidade da mulher.

Charles passeava aleatoriamente ao longo da enorme mansão, dono do mesmo semblante pensativo que adornou seus traços com o decorrer dos últimos meses. Fazia uma adorável manhã naquele ensolarado domingo, contudo o dia não poderia estar mais repugnante para o professor...
A noite que passou em claro serviu para que ele digerisse o peso de suas escolhas, e já se sentia profunda e completamente arrependido por consentir de forma tão branda a partida de sua filha com o igualmente irresponsável Logan. Sabia que provavelmente nunca os veria de novo, em especial Eve, e não precisaria ler mente alguma para chegar a tal conclusão sozinho.
O Instituto cheirava à pipoca amanteigada, e Xavier sabia que a sala de estar deveria estar apinhada dos adolescentes para quem lecionava, os seus queridos alunos, os únicos capazes de mantê-lo firme e no rumo certo desde que perdera sua mulher para o vazio e sua filha para o mundo, tão mais convidativo e cruel. Há tempos não confraternizava com seus alunos fora das obrigações da sala de aula, e talvez retomar esse contato de fato o ajudasse a esquecer o quanto se sentia abalado pelos rumos sempre tão desviados de sua Eve, levando-a constantemente para além de seu alcance por mais próximos que estivessem...
... Talvez pudesse esquecer por ora que a distância que os separava não era nem de longe física, e do quanto ele estava longe de mudar essa realidade, por mais que se esforçasse em tentar.
Mudou o trajeto para o cômodo em que se fazia a confraternização, acatando aquela distração bem vinda da companhia dos jovens mutantes. Conforme se aproximava, discernia melhor os ruídos bagunceiros e os altos risos, e o efeito que tiveram sobre ele não poderia ser melhor, imediatamente lhe trazendo uma leveza gostosa.
A cena que presenciou era comum em seus dias, mas naquele em especial o fez sorrir, mesmo em sua simplicidade... Alguns alunos comiam pipoca antes que o filme começasse apenas para irritar aqueles que queriam economizar o petisco para as cenas de ação. Outros segredavam gracejos e piadas no ouvido dos amigos, fazendo-os rir de algo banal. E ainda havia aqueles de mãos entrelaçadas, formando casais ao longo do grupo de mutantes.
Xavier sorriu, e aquele simples gesto o liberou de um peso considerável.
— Professor! – Kurt chamou, animado ao vê-lo entre eles – Chegou na hora certa! O filme está para começar – avisou, pondo-se a arrastar o sofá de modo que Charles acomodasse a cadeira de rodas numa visão privilegiada da televisão – Se manda, Bobby! – reclamou com o amigo, que estava sentado folgadamente na poltrona enquanto Kurt ainda tentava superar o atrito entre o sofá e o piso. O Homem de Gelo riu alto, colocando os pés sobre as almofadas que o cercavam, como se zombasse abertamente de Noturno. O adolescente cerúleo aceitou o desafio com um sorriso largo, os olhos amarelos brilhando traiçoeiramente no momento em que Kurt desapareceu junto com o sofá e Bobby caiu no chão com um estrondo, ao som da gargalhada de Noturno logo atrás, não mais do que um metro distante. E ao seu lado, o móvel estofado agora vazio.
— Eu estou confortável aqui, Kurt, não se preocupe! – Xavier avisou, incapaz de evitar o riso diante da cena bem humorada e tão típica de seus alunos nas horas de folga. Adorava ver a cumplicidade que tinham e a forma fraterna com que se relacionavam. Aquilo, por si só, era mais do que recompensa pelo esforço que dedicava na arte de ser o tutor daquelas crianças. Sabia que obtinha sucesso atrás de sucesso em formá-las, e não só em treiná-las no âmbito dos diversos poderes que detinham, e o trabalho em equipe era a sua principal e mais poderosa arma para aquele intuito.
Logo a algazarra começou a aquietar-se quando o filme anunciou o seu início, e todos os adolescentes comprimiram-se junto às travessas de pipoca e passaram a dispensar uma atenção à criação cinematográfica que impressionou Charles.
“Se eu conseguisse metade de todo esse interesse nas minhas aulas...”— pensou com certo humor sarcástico, ciente de que jamais poderia se queixar de fato da dedicação e aplicação de seus alunos durante as horas que passava compartilhando seus vastos conhecimentos. Eram, em sua grande maioria, muito receptivos às suas palavras, dedicando-lhe uma admiração que apenas aumentava sua responsabilidade para com eles.
Uma via de mão dupla, algo que Xavier jamais conseguira de sua filha.
O professor inibiu os devaneios assim que o filme de fato começou, e não demorou muito para perceber que este abordava um tema corriqueiro nos cinemas ultimamente; a derradeira e iminente destruição do planeta por conta do mau uso dos recursos naturais por parte do ser humano. O enredo até prendeu o interesse de Charles mesmo sendo clichê, chegando a surpreendê-lo pela atenção que conseguiu destinar à ficção mesmo com sua mente a mil.
Contudo, após cerca de três quartos de hora em que a história se desenrolava, a televisão saiu momentaneamente do ar, projetando uma imagem em seguida que fez o sangue de Charles gelar e ao mesmo tempo ferver.
Uma gravação de Magneto fora colocada no ar, substituindo a trama fictícia e dando a Charles uma overdose de uma realidade que ele preferia não ter de encarar... Erik parecia extremamente abatido enquanto voltava o olhar para a câmera direcionada a ele, e o impacto daquela cena foi igualmente grande para o professor. Seus olhos afundados na órbita lhe davam um estranho aspecto mortífero, assim como as pronunciadas rugas em sua pele ressecada, rugas essas que pareciam multiplicadas àquilo que Xavier se recordava, e no geral sua aparência o envelhecia muito além do que contavam os anos de sua real idade. A voz saiu tão fraca quanto o seu aspecto, rouca e fragilizada como Charles jamais percebera em seus longos anos de convivência.
“– Boa tarde, Estados Unidos da América” – principiou, fazendo uma longa pausa como se precisasse recuperar as forças gastas naquela simples saudação, dono de uma fraqueza tão desconcertante quanto o pronunciamento em si— “Sinto atrapalhar suas rotinas, mas não se preocupem, serei o mais breve que a situação permitir. É sabido por todos que os Homo sapiens têm se esforçado em demasia para criar aquilo que eles tão prepotentemente chamam de ‘Cura’. Uma cura que visa retardar a evolução, digo eu. Que se diz voluntária, mas que não passa de uma arma de extermínio...” – ele fechou os olhos, apoiando pesadamente a cabeça com uma das mãos, e Xavier percebeu um ligeiro tremor em seus dedos. Quando voltou a levantar as pálpebras, pareceu-lhe que o amigo estava ainda mais velho, acabado e, acima de tudo, exausto. Quase irreconhecível— “E agora é a vez do revide dos mutantes. Eu também ofereço a cura, irmãos! A cura para este ser retrógrado e obsoleto que ainda é maioria. A cura para essa raça que há muito já ficou para trás na escala evolutiva, mas ainda assim insiste em ocupar um posto que por direito não lhe pertence. Hoje eu digo, meus irmãos, que a cura somos nós, e eu vou limpar esse mundo da escória que nos atrasa. Minha obra já começou, e aviso aos mutantes que quiserem se juntar a essa luta para que se aliem à Irmandade, pois ela é a única que vai sobreviver ao que está por vir. Não haverá mais espaço para humanos e nem para mutantes traidores da própria causa. A Irmandade é portadora da verdadeira e única cura. E aos mutantes que discordam de nossos métodos, eu aviso; não se ponham em nosso caminho!” – Alertou, e Xavier sentiu pelo olhar incisivo de Magneto que aquele último recado era direcionado especialmente a ele e seus alunos.
O pronunciamento chegou ao fim, mas antes que a imagem de Magneto fosse novamente substituída pela programação anterior, foi possível vê-lo cambalear enquanto se levantava da cadeira que o sustentara, precisando do auxílio de Mística para conseguir manter-se em pé.
“O que você fez, meu bom amigo?”— Charles pensou, dono de mais pesar do que sabia ser possível possuir, e de repente sentindo-se tão velho quanto Erik aparentava aos seus olhos.
A guerra finalmente começara.
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