Immortal
12 Keep Calm And... Oh My God!!!
Notas iniciais
A garçonete parou diante da mesa de Eve e Logan sem ao menos dignar-se a sorrir para os clientes, ao invés disso fazendo a tradicional pergunta, no tom mais seco que conseguiu reunir de seu timbre:
— Posso anotar seu pedido? – tirou do bolso do avental branco um pequeno bloco de notas e uma caneta que parecia ter vazado a julgar pela diminuta mancha azul no tecido do desleixado uniforme.
— Pode me trazer uma porção de batatas fritas, hnm... grande! Sim, pode trazer a porção grande, um x-bacon com queijo extra, muito bacon e muito molho, e pra beber a cerveja mais gelada que você tiver! – Eve pediu já com água na boca, pouco se importando com o olhar impressionado de Logan, que provavelmente imaginou que a mulher comeria uma salada ou qualquer porcaria do gênero – E se não for pedir muito, você poderia trazer também um papel e uma caneta, por favor? – acrescentou, fechando o cardápio e encarando a mulher que anotava e acenava positivamente sem ânimo algum.
— E o senhor, o que deseja? – ela perguntou com muito mais gentileza ao direcionar-se a Logan, chegando até a dispensar ao mutante um meio sorriso discreto enquanto se permitia analisá-lo, como se o gesto fizesse com que suas palavras ganhassem outro sentido.
— O mesmo que ela! – disse, sem sequer lançar um único olhar para a garçonete, mantendo sua atenção intrigada em Eve. Aquilo pareceu devolver o mau humor à funcionária no mesmo instante enquanto voltava a anotar. Assim que ela se distanciou com o pedido, Logan apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se para frente na direção de Hela – Papel e caneta? – perguntou, sem entender.
— Essa imagem que meu pai colocou na nossa memória não sai da minha cabeça... Eu preciso passar para o papel, e logo... Não consigo pensar em outra coisa – avisou, e meio minuto depois a mesma funcionária já se dirigia à mesa deles com a folha em branco e a caneta esferográfica pedida, saindo em seguida sem qualquer nova palavra.
Eve começou a desenhar furiosamente, recriando com perfeição cada traço do homem com riscos precisos e fortes. Gastou vários minutos na tarefa, e Wolverine apenas observava em um silêncio contemplativo a dedicação que dava um fulgor maior aos seus olhos, e o modo como ela mordia a ponta da língua ao se concentrar daquele jeito tão intenso que parecia dissipar o mundo à sua volta como se nada mais importasse. Por alguma razão o mutante sentia-se incapaz de desviar a atenção do rosto de Eve, pouco se importando com o desenho que já tomava forma e focando-se na extrema dedicação que a mulher destinava a um problema que sequer lhe pertencia. Permaneceu os longos minutos em que ela se limitava a desenhar fitando-a, de um modo simples e genuíno que sabia não ter feito até então, parecendo vê-la pela primeira vez desde que se conheceram.
Até que ele percebeu uma mudança em sua expressão, e isso o fez encarar o desenho, como se buscasse por uma resposta que explicasse os olhos arregalados da mulher. Não a encontrou no retrato extremamente preciso, e quando voltou a fitar sua companheira de viagem, o ar pareceu escassear ao testemunhar o enorme sorriso que Eve lhe oferecia.
— Eu não acredito no quanto fomos estúpidos! – ela disse alegremente, saindo de seu lugar e ocupando, afobada, o comprido banco estofado ao lado de Logan, levando o desenho consigo como se fosse um merecido troféu – Você chegou a prestar atenção no ambiente ao redor dessa lembrança? – questionou, cheia de uma expectativa quase incoerente, que apenas serviu para confundir Wolverine ainda mais.
— Não... Acho que não. Só me foquei no rosto. – respondeu, ainda perdido, tentando procurar por detalhes em sua memória, porém não os encontrou.
— Pois então olha só o que nós quase deixamos passar, grandão! – comentou, voltando a desenhar. Assim que concluiu o esboço, Logan inclinou-se para a reprodução da estática lembrança, notando a alteração feita. Na tela de um computador pousado numa mesa larga com tampo de madeira, Wolverine foi atraído para a imagem de plano de fundo do aparelho; uma enorme logomarca. Um símbolo arredondado com o nome de uma empresa, e agora que o vira, o mutante perguntou-se como não o havia percebido antes em sua memória projetada por Charles naquela cena... Agora era como se o rosto de seu provável criador não tivesse mais a mesma importância ao cenário, e tudo o que destonava dali era a logomarca da empresa GlobalGen*, aquele símbolo agora se traduzindo em sua melhor esperança de desvendar o passado e protagonizando a cena:

— Me tira uma dúvida aqui; eu sou um gênio, sim ou com certeza? – vangloriou-se, orgulhosa por aquela descoberta que até então passara despercebida e que era uma chave preciosa para a investigação, muito mais útil em sua busca do que o rosto que ocupava quase todo o espaço do cenário.
— Precisamos pesquisar isso! – anunciou o óbvio, aproximando-se mais do esboço criado por Eve como se naquele reles pedaço de papel residissem todas as respostas que tanto buscou ao longo dos anos em que sua memória se perdera, a vontade instantaneamente renovada pelo repentino e inusitado progresso, o maior que já tivera.
— Aposto que se você mostrar as pernas pra garçonete ela te arranja a ficha completa desse lugar e a lista de todos os funcionários – sussurrou rente ao ouvido de Logan, ansiando por provocá-lo. Contudo, o olhar do mutante ainda estava focado àquele ponto fixo em que estava desenhada a logomarca, e o entusiasmo que sentia florescer em seu íntimo o impediu de irritar-se com o comentário. Hela limitou-se a sorrir ao reconhecer a esperança nos olhos do mutante, sentindo certo orgulho por ser a responsável em fazer insurgir aquele sentimento em seu semblante normalmente intransigente. – Você já ouviu falar dessa GlobalGen? Esse nome te lembra algo? – perguntou cheia de expectativa, imaginando se algo obscuro e escondido de sua memória havia se despertado com aquela informação que acabara de vir à tona.
— Nada! – avisou, frustrado, tirando os olhos da logomarca pela primeira vez para encará-la – Não importa o quanto eu tente lembrar, não tem nada!
— Então vamos ver logo que droga é essa! – Eve tirou o celular do bolso, limpando rapidamente a tela cheia de marcas de digitais na barra da blusa, e rapidamente conectando o aparelho à internet, tão ansiosa quanto Logan para dar início àquela busca. Digitou com afobação ao longo do alfabeto touch do aparelho, e logo que a busca foi concluída, já estava pronta para clicar logo no primeiro link de sua pesquisa, porém o site de busca não encontrara absolutamente nada. – Não tem coisa alguma...! – avisou com evidente frustração na voz, procurando por algum erro de digitação acidental, mas não o encontrando. Logan aproximou-se ainda mais da mulher de modo que ele pudesse conferir o resultado tão bem quanto ela, seus corpos quase espremidos um contra o outro na busca pelas respostas. Hela mostrou-lhe a tela vazia, percebendo-o tão surpreso quanto ela mesma se sentia pela completa ausência de informações.
— Nenhum site da empresa? – Logan também parecia confuso, vasculhando o touch screen em busca de maiores informações, chegando a refazer a pesquisa como que para comprovar o resultado.
— É... Não faz sentido, mas não existe nada publicado... Uma empresa que não tenha uma ínfima divulgação é no mínimo estranho! Deveriam pelo menos expôr informações como linhas de pesquisa, colaboradores, cientistas envolvidos, local da sede, contatos, coisas do gênero! Sabe, se promover de alguma forma... – complementou, agora severamente desconfiada, por fim guardando o inútil celular no bolso, contemplativa, temendo que não conseguissem chegar a progresso algum – A não ser que...
— O quê? – o mutante não perdeu tempo em perguntar, inclinando-se ainda mais na direção da mulher e esperando ansioso pelo seu ponto de vista.
— Está na cara que você é um dos experimentos dessa GlobalGen... – umedeceu os lábios antes de continuar desenvolvendo o raciocínio, como se precisasse de um tempo extra para colocar os pensamentos em ordem, ou o mais próximo disso no meio da confusão de tais circunstâncias – As pesquisas devem ser totalmente voltadas à nossa mutação, e as cobaias só podem ser nós, mutantes... Acho que tudo o que esses caras menos querem é publicidade, nem nada que relacione o nome da empresa a qualquer uma de suas pesquisas... Não deve ser o tipo de lugar que abra as portas a excursões escolares... – Eve fez uma pausa, ruminando as próprias palavras – Pesquisas clandestinas que fogem aos códigos de ética...
Logan gastou inúmeros segundos a levar cada palavra em conta, e seu olhar pensativo logo se voltou às gemas verdes de Eve.
— Isso vai ficar perigoso, guria... – avisou, parecendo de fato preocupado com a segurança da mulher, como se visasse fazê-la desistir de acompanhá-lo naquela jornada incerta enquanto ainda estava em tempo, temendo pelas armadilhas que estivessem armadas ao longo daquele caminho certamente minado.
— Provavelmente vai... – ela sorriu ampla e ferozmente, o brilho vívido de seus olhos se intensificando de um modo que fez Wolverine vacilar em seus anseios. Não queria colocá-la em risco, principalmente por não saber o que seu passado o levaria a enfrentar, mas ao mesmo tempo desejava-a por perto, de uma forma que o desconcertou pela maneira repentina com que o percebeu, de um único e certeiro golpe. Hela fitou o desenho com empolgação crescente, parecendo dominada pelo entusiasmo. – E em pensar que meu primeiro ímpeto ao te ver foi te dar uma bela surra que acabasse com a sua raça, grandão...
— Mesmo? – Logan aproximou-se um pouco mais, fitando-a com um meio sorriso cheio de malícia que fez com que as pálpebras de Eve se estreitassem – A minha vontade foi bem diferente... – sussurrou a poucos centímetros de seu rosto, colocando uma mecha solta de seus fios castanho-dourados atrás da orelha ao passar os dedos pela face da mulher, o toque lhe arrepiando a pele conforme se prolongava.
Logan fitou-a com maior intensidade, procurando por qualquer recusa que pudesse reconhecer no semblante da mulher, já habituado àquele sentimento no olhar de Jean. Porém, tudo o que via em Eve era um olhar tão intenso como o dele mesmo deveria estar, seus lábios atrevidos arqueando-se num sorriso que ele não soube decifrar, mas que era extremamente convidativo.
— Assumo que isso ficou em terceiro lugar na minha lista de prioridades... – avisou num tom divertido e bem humorado, sua voz também saindo murmurada pela distância insignificante que os separava.
— Terceiro? – arqueou uma única sobrancelha de modo extremamente charmoso, como se estivesse cético ante o comentário – Qual foi o segundo então, guria?
— Te dar uma nova surra quando a primeira acabasse. Mas eu acho que posso perverter a ordem dessa lista sem grandes problemas – sorriu impudicamente, num convite silencioso.
Ele afinal cortou a distância, alcançando a boca de Hela com a sua quase como se sentisse sede. A mão masculina seguiu a linha bem conformada de seu cabelo preso, alcançando o coque e libertando os fios, fazendo-os descerem em cascata pelo ombro e costas da mulher e segurando-o entre os dedos enquanto seus lábios ainda travavam uma coreografia em comum.
Eve levou as mãos até a nuca de Logan, permitindo-se inebriar com o odor que exalava de sua pele e as respirações que se cruzavam no mesmo ritmo ousado do contato entre suas línguas.
Uma das mãos de Wolverine desceu até a delineada perna de Hela, pressionando-a de leve com os dedos antes de puxá-la mais para si...
...Ambos tão entretidos que sequer perceberam o par de olhos castanhos que fitava o casal, sem tentar ao menos dissimular a exagerada atenção destinada a eles, o lábio leporino se contorcendo em desagrado, quase furiosos.
Midnight, not a sound from the pavement
Has the moon lost her memory?
She is smiling alone
In the lamplight
The withered leaves collect at my feet
And the wind begins to moan
Memory, All alone in the moonlight
I can smile at the old days
Life was beautiful then
I remember
The time I knew what happiness is
Let the memory live again
Every street lamp
Seems to beat
A fatalistic warning
Someone mutters
And a street lamp gutters
And soon it will be morning
Daylight, I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I mustn't give in
When the dawn comes
Tonight will be a memory too
And a new day will begin
Burnt out ends of smoky days
The stale cold smell of morning
The street lamp dies
Another night is over
Another day is dawning
Touch me, It's so easy to leave me
All alone with the memory
Of my days in the sun
If you touch me
You'll understand what happiness is
Look a new day has begun
(Memory – Epica)
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