Immortal
9 Aproximações – Parte III – Professor
Notas iniciais
Charles, e apenas ele, sabia o quanto aquela decisão lhe martirizava.
A mera sugestão do pensamento que firmou-se em sua mente parecia programada para o desalento e desesperança, e por vários minutos o professor não soube como proceder, até que a única resposta plausível emergiu, e encheu o fundo de sua garganta de sabores cruéis.
Há tempos não chorava, mas naquela noite uma pequena gota salgada deixava um rastro úmido por seu rosto, que apenas transmitia desistência. Ouvira demais... Bem mais do que lhe era devido.
A dor que a mente vívida de Eve transbordou no momento em que Wolverine a fez sangrar imediatamente atraiu a total atenção de Xavier para o episódio na enfermaria. Seu corpo longe, mas sua mente tão próxima quanto poderia estar, acompanhou tudo o que se seguiu dali por diante, incapaz de conseguir desviar a atenção da mente de Logan e sua filha.
E, ao se fazer presente em silêncio na conversa, soube que jamais reconquistaria o posto de pai que o laço genético lhe conferia, mas que lhe era negado pelo afetivo inexistente que a filha parecia nutrir por si desde a morte de Dana. Charles secou a lágrima solitária em sua feição assombrada, os pensamentos ainda vagando longe, além do alcance de qualquer pessoa.
Sabia o que precisava ser feito, mas a coragem lhe faltava, negada como um dom não merecido. Perderia de vez sua chance com Eve, e talvez sequer voltasse a vê-la... Retornaria aos tempos patéticos em que usava o Cérebro para vislumbrar imagens difusas da filha, migalhas daquilo que ele perdeu...
...Mas esse era o preço a se pagar por ter errado tanto. E o destino era um credor cruel quando se tratava das dívidas que cobrava.
Respirou fundo, fechando os olhos antes que se permitisse desistir do que estava prestes a fazer. Perscrutou a mente da primogênita por alguns segundos hesitantes antes de se mostrar presente.
Eve – chamou-a por telepatia, tentando esconder o desânimo na voz sem muito sucesso –, preciso falar com você, com urgência. Estarei esperando em meus aposentos.
Em seguida, transmitiu a mesma mensagem a Logan, sentindo que o mutante ainda estava na presença da filha. Não esperou pela resposta de nenhum dos dois, e tudo o que lhe restou em seguida foi aguardar, incapaz de definir se a angústia da espera poderia se sobrepor ao desgosto da ação.
Não demorou mais do que poucos minutos para ouvir passos nos arredores, e não teve qualquer dificuldade em adotar uma expressão séria. O pesar o garantiu de que assim seria.
Logan deu dois socos na porta envernizada, esperando pela autorização para que pudesse entrar, porém Eve adiantou-se em empurrar a maçaneta antes que Charles desse a permissão. Típico da filha, mostrar descaso até mesmo em pequenezas como aquela...
– Não fui eu. – Eve avisou ao entrar, sem ao menos saudá-lo antes, como se o pai já a tivesse acusado de algo – Bom, na verdade provavelmente foi, mas pouco me importa... – sorriu descaradamente, mas apesar de toda aquela máscara hostil, Charles era perfeitamente capaz de ver o quão frágil era a filha, como se ainda fosse a mesma criança que segurou nos braços pela primeira vez após nascer, a imagem tão nítida como se houvesse acabado de acontecer. E já naquela época, achava-se um verdadeiro fracasso como pai, temendo cada vez que aquela pequena e frágil vida era confiada ao seu colo desajeitado.
– De fato não foi você... – sugeriu, um tanto cansado.
– Algum problema, professor? – Logan perguntou, parecendo estranhar a apatia na voz do cadeirante. Nos últimos meses, ele parecia cada dia mais exausto com todas as notícias acerca da Cura e o confronto certo que o assunto ainda geraria, mas Wolverine desconfiava de que as olheiras arroxeadas e intensas abaixo de seus olhos detinham outro motivo. E o motivo, ele sabia, estava bem ao seu lado, o brilho esmaltado num tom musgo dentro de seus olhos brincando em zombaria e desafio enquanto encarava o pai.
– Não exatamente, Logan. Ao menos não para vocês... – respirou profundamente, soltando o ar inspirado de uma única vez, como se controlar o ritmo de esvaziamento e enchimento dos pulmões pudesse lhe munir das certezas que lhe faltavam – Sinto muito tê-la trazido para cá, Eve. Agora eu percebo que foi um erro submetê-la a isso.
– Oi? – a mutante estreitou as pálpebras, tentando imaginar até aonde aquela conversa os levaria – Sente muito? Desde quando? – cruzou os braços, desafiadora.
– Pensei que podíamos ao menos tentar consertar alguns erros e, quem sabe, perdoá-los, mas parece um pouco tarde demais para você, e eu não a culpo. Não foi certo trazê-la contra a sua vontade, e agora eu percebo o quanto isso apenas serviu para piorar as coisas entre nós...
– Ah, muito obrigada! Até que enfim um pouco de consideração com os meus desejos. Aliás, provavelmente eu já perdi o meu emprego em Bay City, era esse o seu plano, afinal? Me levar à falência, me obrigar a morar aqui de favor e ainda esperar que eu me sentisse grata por tudo?
– Eu jamais esperaria algo do gênero, não se preocupe! – sorriu frouxamente com o leve cinismo em sua resposta, algo incomum para Charles, porém a única linguagem que sua filha parecia compreender. Mas não poderia culpá-la... Toda aquela frieza tinha um histórico, e o principal culpado era ele – A questão é que este é o tipo de falha que ainda tem como ser reparada. – direcionou sua atenção para Wolverine, percebendo o quanto o mutante parecia incomodado em presenciar aquela conversa que não o incluía – Por isso eu o chamei, Logan. Eu estou a par do que vocês planejam fazer, de irem em busca do seu passado.
– Você ouviu nossa conversa? – ela perguntou, entre chocada e irritadiça.
– De todos, esse foi o meu menor pecado, Eve! – direcionou à filha um olhar exausto, sentindo-se velho demais para discutir, como se o peso dos anos dobrasse sobre seus ombros não tão idosos, porém fatigados além dos limites de sua verdadeira idade – Eu os chamei aqui para dizer que apoio esse plano! – exclamou, notando no mesmo instante o quanto ambos ficaram surpresos com aquela adesão totalmente inesperada de sua parte, ainda mais para Eve, que sentia como se a compreensão daquela atitude simplesmente não concernisse ao seu entendimento.
– Você... vai simplesmente nos deixar ir? Sem nenhum sermão irritante, nenhum sentimentalismo, nada? – ela inquiriu, o semblante banhado em dúvida e desconfiança.
– O que esperava que eu fizesse? Que a trancasse em seu quarto e a impedisse de seguir suas próprias escolhas? Não, Eve. Esse tempo já passou. Você é adulta, já tem sua vida própria, e foi um grande erro te afastar dela contra a sua vontade. Sinto muito por isso. Mas eu tenho algo a pedir em troca...
– Sabia... – Hela resmungou, cruzando os braços em meio a expressão mais tediosa que conseguiu criar.
– Só peço que vocês partam sem alaridos, assim como vocês já planejavam fazer quando acreditavam tratar-se de uma fuga. – sua voz, sempre lamentosa, fez o rogo, sabendo que ele seria acatado simplesmente por já fazer parte de suas intenções iniciais – Prefiro que os meus alunos desconheçam as suas intenções e que não saibam que vocês partiram antes que de fato o tenham feito. Peço apenas isso.
– Não se preocupe, professor – Logan interveio, percebendo Eve atônita demais para responder, novamente dona de feições confusas, como se tentasse entender o verdadeiro intuito do pai, porém incapaz – Partiremos de madrugada, assim que a Mansão estiver adormecida.
– Obrigado! – repuxou os lábios num sorriso de alívio, grato por não se ver obrigado a presenciar a cena da partida de sua menina, e realmente indisposto a responder às perguntas que seus alunos certamente fariam acerca dessa viagem, a curiosidade adolescente normalmente não conhecendo os limites a se ultrapassar.
– É só isso? – os olhos verdes se estreitaram, duvidosos, à espera de mais alguma condição que certamente embargaria as intenções em comum de Logan e Eve. Xavier demorou-se em encarar a filha, como se em silêncio lhe dissesse um último e penoso adeus, sabendo que provavelmente ela jamais retornaria.
– Vocês viajam ainda hoje? – perguntou, talvez como uma forma de procrastinar ao máximo o inevitável, visando adiar aquele conhecido vazio que já ameaçava invadir seu peito sem a menor condolência.
– Assim que o caminho estiver livre! – Logan avisou, dando a resposta que Charles não queria ouvir.
– Muito bem. Antes de vocês partirem, tem algo que eu preciso lhes mostrar, que talvez ajude na sua busca... Durante as nossas sessões, Logan, eu consegui extrair muito pouco do seu passado, meu único verdadeiro progresso foi identificar os traços daquele que estava no comando da operação ao qual você foi submetido. Infelizmente, fica impossível discernir o quão antiga é essa memória, então não dá para saber ao certo se essa pessoa ainda possui a mesma feição, ou se o tempo já a distorceu. Sei que é uma ajuda bem subjetiva, e que muito provavelmente sequer seja de grande valia, mas é tudo o que eu posso lhes oferecer! – disse, e instantaneamente uma imagem foi nitidamente projetada na mente de ambos.
As linhas faciais de um homem já na meia idade tomou espaço na memória de Wolverine e Hela, os fios de cabelo e a barba por fazer esparsamente grisalhos e curtos em meio aos mais recorrentes fios negros. Seus olhos intensamente azuis se focavam com infinita admiração numa cena à frente, provavelmente em Logan, e um meio sorriso brotava de seus lábios finos e cheios de expectativa. Se a imagem não fosse estática, Eve apostaria que os lábios do homem estariam trêmulos, como se submetidos a pequenos espasmos de ansiedade.
De fato, talvez de nada ajudasse aquele simplório retrato mental, mas já era um começo. Muito mais do que a grande porção de nada que Logan tivera em sua inútil busca pelo passado. Ao menos agora, conhecia o rosto de seu criador, e sabia que não era um rosto que esqueceria com facilidade.
– Isso é tudo! As portas do Instituto estarão sempre abertas para vocês. Se quiserem retornar... – completou, sem querer demorando o olhar na filha, que parecia realmente perplexa com a atitude do pai. Ambos se encararam por longos segundos, e Charles precisou unir todo o seu autocontrole para não invadir os pensamentos de Eve e descobrir como aquele olhar do mais genuíno espanto se traduzia. – Desejo-lhes sorte! – concluiu, virando a cadeira de rodas de modo a ficar de costas para ambos, indicando o término do assunto.
Eve entreabriu a boca, como se tencionasse falar algo, mas voltou a fechá-la antes que qualquer palavra impensada escapasse. Pela primeira vez, desde que era capaz de se lembrar, o pai fez algo que nunca antes fizera em toda a sua convivência com a filha; surpreendeu-a. Da forma mais inusitada para a mulher, que parecia nunca imaginar uma atitude daquelas partindo do homem que a criara... Ao menos, não para ela...
Ainda permitiu-se hesitar por algum tempo no quarto de Charles, como se realmente o assunto não estivesse concluído em sua mente. Contudo, acabou obrigando-se a sair, não sem lançar um último olhar inquisidor em sua direção antes que o perdesse de vista por completo ao se afastar. Logan a acompanhou, reparando em silêncio na significativa reação da mutante, que parecia até mesmo ter se esquecido de usar suas habituais ferroadas contra o professor como normalmente fazia.
Por fim encostaram a porta, e Xavier permitiu que sua cabeça pendesse de modo derrotado na palma da mão, sentindo uma estranha mescla de desamparo e confiança perdurando dentro de si...
Porque por mais difícil que aquilo tenha sido, o professor finalmente sentiu que acertou com a filha, e tal pensamento arrancou-lhe um sorriso triste e enfadonho dos lábios. Mas era um sorriso, afinal.
“No fear, no pain
Nobody left to blame
I'll try alone
Make destiny my own
I learn to free my mind
Myself I now must find
Once more
Once more
If I could fly
Like the king of the sky
Could not tumble nor fall
I would picture it all
If I could fly
See the world through my eyes
Would not stumble nor fail
To the heavens I sail
If I could fly
So here I am
In solitude I stand
I've got dreams inside I need to realize
My faith has grown
No fear of the unknown
No more
No more
If I could fly
Like the king of the sky
Could not tumble nor fall
I would picture it all
If I could fly
See the world through my eyes
Would not stumble nor fail
I could ravage my jail
If I could fly
If I could, if I could, fly
If I could, if I could, fly
If I could,
If I could fly
Like the king of the sky
Could not tumble nor fall
I would picture it all
If I could fly
See the world through my eyes
Would not stumble nor fail
To the heavens I sail
If I could fly
Like the king of the sky
Could not tumble nor fall
I would picture it all
If I could fly
See the world through my eyes
Would not stumble nor fail
I could ravage my jail
If I could fly”
(If I Could Fly – Helloween)
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