Immortal
10 Em Busca De Novos E Melhores Horizontes
Notas iniciais
Já era passada das três da manhã quando finalmente Logan e Eve se permitiram partir da Mansão Xavier rumo ao completo desconhecido, em busca do borrão difuso que era o passado de Wolverine. A densa escuridão provocada pelo tardar da hora ainda permitia que algumas poucas estrelas teimassem contra o domínio do negrume alastrado, os esparsos pontos luminosos atuando como as únicas testemunhas da fuga autorizada do inusitado casal.
Hela demorou-se em observar a entrada do Instituto, como se ainda esperasse que o pai viesse ao encontro dos dois na tentativa de impedir a partida. Mas nada aconteceu. A única mudança no ar era causada pelos ventos frios da noite, que carregavam consigo a quentura de novas esperanças para ambos os mutantes, cada um deles carregando suas próprias razões.
Tudo permanecia no mais profundo silêncio. Até mesmo as folhas nas árvores, agitadas pela brisa sibilante, pareciam mudas numa contribuição plena à quietude daquele cenário quase mórbido.
Eve jamais saberia explicar por que tinha impulsos de chorar e gargalhar ao mesmo tempo, cada uma das vontades em igual e espantosa intensidade, talvez uma delas sendo a responsável pela mutante ainda se manter estática à frente da Mansão, como se tentasse decorar cada detalhe de sua conformação e, ao mesmo tempo, com uma indomável vontade de desviar de vez os olhos daquele lugar tão nocivo às próprias memórias e sumir dali o mais rápido possível.
Não entendia por que os seus sentimentos a respeito daquele lugar eram tão confusos e incertos, tão cheios de ódio e ao mesmo tempo carregados de um apego infantil que lhe dava a sensação de lar. Um lar que lhe agregou mais lembranças ruins do que boas, mas ainda assim... um lar.
Odiava a si mesma por isso... Por ainda ser capaz de enxergar naquele lugar um refúgio para aonde correr, uma rota secreta de fuga caso todas as outras falhassem.
E o seu pai... O que de fato sentia por Charles era outra questão que Hela jamais seria capaz de decifrar mesmo ao longo da imortalidade que seus poderes lhe conferiam, mesmo que gastasse cada década vindoura em busca daquela resposta que provavelmente sempre seria um amontado de perguntas.
Mas essas dúvidas de nada importavam. Não agora. Não estando tão perto de reconquistar sua liberdade e reaver sua solidão como única parceria. Por mais que a ambiguidade de todos aqueles pensamentos e sentimentos colocassem em dúvida suas verdadeiras vontades, Eve sabia bem que se afastar de todas as sombras ancestrais de seu passado era a melhor escolha, talvez sua melhor chance em manter-se sã.
– Você vem ou não? – Logan perguntou, já impaciente pelos preciosos minutos gastos naquela contemplação interminável que Eve destinava à estatura elegante da Escola. Por outro lado, mesmo sentindo-se inquieto com a demora, não pôde deixar de observar com certa curiosidade a postura pela primeira vez fragilizada da bela mulher, que a cada dia decorrido parecia tornar-se uma incógnita maior para o entendimento do mutante – Ainda temos muita estrada pela frente. – concluiu o óbvio, esperando apressá-la.
– Sim! – seus olhos de repente se iluminaram de um jeito desconcertante em conjunto com o sorriso irradiado da mulher, de repente dona de um entusiasmo que fez as batidas cardíacas de Logan retumbarem mais rápido em seu peito, como se fosse contagiado pelo repentino ânimo de sua mais nova companheira de viagem – E à propósito, eu dirijo! – avisou, quase correndo na direção de Wolverine e do carro prata bem ao seu lado.
– Nem pensar! – replicou, seu tom indignado e carrancudo se propagando alto pelo silêncio ensurdecedor da madrugada. Caminhou decidido até a porta do motorista como se ratificasse a recusa, porém uma rajada de vento nada natural em meio à calmaria fez a chave do automóvel escorregar de seus possessivos dedos, traçando o curso de uma parábola enquanto se afastava do mutante. Hela a pegou em pleno ar, desdenhando um sorriso satisfeito e metido no rosto enquanto suas íris despigmentadas retornavam ao tom verde, denunciando o uso de seus poderes com a pequena trapaça para fazer valer sua vontade.
– Não seja egoísta, grandão, ainda vamos nos revezar muito no volante! O primeiro turno é meu, eu estou agitada demais para descansar agora... Enquanto isso você dorme e sossega até a sua vez de dirigir! – entrou no carro sem esperar para ver se Logan estenderia a discussão, já adiantando-se em ligar o carro e inebriar-se ao sentir a lataria tremer ao menor comando do motor.
Wolverine caminhou até a porta do passageiro, vencido, sem esconder um meio sorriso ante a teimosia incorrigível da mulher. Um sorriso que só percebeu estar em seu rosto quando ela o encarou assim que o mutante ocupou o lugar ao seu lado.
– Você está animado demais para alguém prestes a ver todos os próprios podres virem à tona, e como se não bastasse ainda tendo uma testemunha que pode jogar isso na sua cara pelo resto da eternidade, literalmente! – brincou, passando a sorrir também e já conduzindo o carro para longe dos tijolos nocivos daquela realidade. Mas mesmo com o afastamento que tanto almejou, estranhamente, ainda queria rir e chorar por razões desconhecidas. Suprimiu ambos os ímpetos, concentrando-se apenas no asfalto e no vento que brincava com seu cabelo ao ultrapassar o vidro parcialmente aberto. Sua pele se arrepiou num efeito gélido instantâneo, e apesar da baixa sensação térmica, o toque da friagem a agradou. – E para aonde nós vamos? – perguntou, incerta do rumo que deveria seguir.
– Pegue a interestadual principal... – avisou de modo vago, não realmente respondendo ao que lhe fora questionado – Me acorde quando cansar, guria! – Wolverine pediu, inclinando o banco o máximo que conseguiu e permitindo que os olhos fechados se abrissem em convite ao torpor que parecia já rondá-lo em sua visível sonolência.
Ainda nas proximidades do Instituto, um homem de sobretudo discava números apressados na tela luminosa do celular ao mesmo tempo em que entrava num Porsche azul, sem saber se dava prioridade à chamada a se completar ou se dedicava a atenção às ruas que percorria, iluminadas unicamente pelas luzes dos vários postes dispostos a cada metro em sua periferia. Escolheu por fazer os dois.
Mesmo com a descortesia do tardar da hora, bastaram dois toques para que o homem atendesse a sua ligação. Sabia bem o quanto o seu superior estava ansioso por aquela chamada, e nem mesmo a inconveniência da madrugada poderia impedir o contato imediato entre os dois.
– Ela partiu! – o homem avisou com a sombra de um sorriso satisfeito no rosto – Não está mais com o professor Xavier. – ele calou-se por um instante, ouvindo a resposta de seu chefe, o timbre rouco de sua voz completamente desperto ao receber aquela notícia – Ela está com o experimento 626, eles deixaram o Instituto neste exato minuto. – avisou, como um pequeno inconveniente em seu plano. Esperava que Eve abandonasse a Mansão só, contudo aquilo não passaria de um breve contratempo... talvez até pudesse usar o mutante que a acompanhava em seu próprio benefício. A voz no outro lado da linha deu claras instruções, um tom vibrante de expectativa que parecia sorrir apenas pelo contentamento traduzido nas palavras – Não se preocupe, senhor! Eu não vou perdê-la de vista! – o lábio leporino do homem se abriu num sorriso ainda mais largo enquanto costurava pelas ruas quase desertas, que passavam como um borrão difuso em meio à rapidez projetada no velocímetro do automóvel, a pressa visando alcançar um desígnio antigo que até então lhe havia sido negado.

Eve mantinha-se seguindo a rota da interestadual já há algumas horas que não saberia determinar, aproveitando a pista livre para permitir que sua atenção vagueasse de um assunto a outro em sua mente, as mesmas questões inacabadas que sempre a perturbavam até mesmo em sonhos, quando a inconsciência se provava tão cruel quanto o estado desperto.
Seus dedos apertavam o volante com pelo menos o dobro da força necessária, e logo seus traços já pareciam os mais devaneados possíveis, quase como se não pertencessem a esse mundo. Respirou fundo, obrigando-se a destinar toda a sua atenção ao momento presente.
Permitiu-se fitar de soslaio a imagem adormecida de Logan, o corpo do mutante completamente largado sobre o couro do banco ao som de ressonares compassados, que escapavam de seu peito oscilante pela respiração calma e profunda, seu rosto sereno sendo fracamente iluminado pelos primeiros raios tímidos do romper da aurora. Sem saber a exata razão, a cena a fez sorrir.
Voltou seu olhar novamente para a estrada, imaginando consigo mesma até aonde aquelas escolhas em forma de bifurcações os levariam.
Fale com o autor