Immortal
8 Aproximações – Parte II – Um Homem Sem Memórias
Notas iniciais
Logan encontrava-se na enfermaria, seu corpo distendido sobre uma maca que parecia reduzida em demasia para as largas proporções do mutante. O rosto franzido traduzia a aflição de sua mente, que ainda mantinha-se firme em bloquear as lembranças que Xavier tanto tentava extrair.
Novamente, o professor se viu como expectador de uma recordação que não lhe pertencia, contudo já decorada pela frequência com que a perscrutava.
Ele estava imerso numa estrutura retangular de água, completamente nu, um snorkel à boca para prover-lhe o ar necessário. Seus olhos apreensivos acompanharam o movimento das várias seringas que vinham ao seu encontro, as grossas agulhas penetrando a carne todas ao mesmo tempo.
E gritos instantâneos, fortes bramidos que soaram como bolhas de ar subindo à superfície.
O professor tremeu, sentindo que pela enésima vez era expelido da memória com um doloroso choque, a própria mente ameaçando vacilar e falhar ante aquela tarefa que se incumbiu, uma empreitada que a cada dia parecia convencê-lo com mais afinco estar fadada ao fracasso. Era o único fato extra que o professor conseguia concluir após analisar tais cenas repetitivas, sem qualquer avanço, não importava o quanto se esforçasse ou tentasse.
Levou novamente as mãos à cabeça de Logan, forçando-se a reencontrar a concentração perdida ao fechar os olhos e mais uma vez entrar aos domínios mentais do mutante, e uma nova cena – dona da mesma nitidez que caberia atribuir-se a um cenário ao vivo – se delineou à frente de suas pálpebras cerradas.
Wolverine estava ereto, o corpo não mais submerso agora oscilando ao comando de uma respiração indomada e bruta, indicando que o procedimento extremamente agonizante chegara ao seu fim. Garras metálicas saíram por entre os ossos protuberantes de seus dedos em meio a um ruído afiado, o brilho acinzentado do adamantium refletindo a luz do recinto fechado em ângulos perfeitamente uniformes.
Em seguida rugiu, munido da mesma ferocidade conferida ao mais selvagem dos animais.
Charles novamente foi afastado da lembrança, não conseguindo vistoriar nada além daquele fato e muito menos anterior a ele. Deixou-se pender na cadeira de rodas, notando a tensão agregada aos ombros fazerem-no arder por um longo percurso – que parecia clamar sua derrota numa voz vibrante e estarrecedora.
Baixou os olhos para as inúteis pernas, desistindo, ao menos por ora.
– Já basta por hoje, Logan... – Xavier avisou, rodeando a maca até que pudesse encarar seu rosto.
– O que descobriu? – sentou-se de um salto no fino acolchoado, incapaz de conter a curiosidade.
– Não mais do que ontem... – respondeu, perdendo-se na conta de quantas vezes frustrara o mutante e imaginando quantas vezes mais o faria em sua impotência. Tomou então a sua decisão – Acho melhor deixarmos nossas sessões de lado por um tempo.
– De lado? – pegou-se cerrando o punho, um gesto já impensado de tão corriqueiro e instintivo – Garantiu que me ajudaria, professor.
– E manterei minha palavra. Mas está claro que não chegaremos a lugar algum assim. Tudo o que eu tenho conseguido com essas tentativas é me exaurir, sua mente não me permite ultrapassar e nem retroceder em suas lembranças, não importa o que eu faça... é algo que eu nunca vi antes, admito, uma barreira impenetrável. Confesso que eu preciso de mais tempo para estudar como lidar com esse bloqueio e criar uma nova estratégia, por ora está além das minhas capacidades. – fitou-o com olhos dóceis, como se pedisse desculpas apenas com o gesto – Mas isso não quer dizer que eu não vou mais ajudá-lo no seu caso, Logan! Contudo, preciso que você tenha um pouco mais de paciência... A mente humana é repleta dos mais impenetráveis e infindáveis segredos e, muitas vezes, temos que esperar até que ela esteja pronta para se revelar.
Ao dizê-lo, virou a cadeira de rodas e partiu, parecendo de fato abatido pelo tempo de esforço transcorrido e, para o lamento de ambos, perdido, a estafa mental provocando-lhe uma terrível enxaqueca. Mesmo do lado de fora da enfermaria, Xavier pôde ouvir a fúria de Logan atravessar as paredes, tão animalesca quanto sua própria figura. Ao passar, Charles sequer notou que a filha estava sentada no chão, um grosso livro pendendo sobre as pernas cruzadas em forma indiana, e embora ainda se mantivesse inclinada às páginas, sua atenção agora residia no barulho dentro do recinto, antes em completo silêncio e calmaria.
Eve esperou o pai se afastar até que o perdesse de vista, e só então se permitiu conferir o que havia de tão errado dentro daquela sala ainda inexplorada por ela, todavia já conhecida de tempos passados. Pousou delicadamente o livro no chão, caminhando hesitante até a fonte do abafado estardalhaço.
Quando finalmente entrou, viu o mesmo homem que a trouxera de volta a Nova York atacando vários objetos da enfermaria com as garras que empunhava, nem ao menos se dando conta de que não estava mais sozinho. Surpreendeu-se ao perceber que o metal afiado deslizava pelo concreto como se este não oferecesse mais resistência do que um punhado de manteiga amolecida.
Eve se aproximou por trás, e de leve pousou uma das mãos ao ombro do mutante, sem compreender exatamente por que o fez.
– Você está bem? – verbalizou a pergunta que sabia ser totalmente retórica, não pensando em nada melhor do que aquilo em meio a tanta fúria. O homem virou-se para ela, dono de uma expressão tão bestial quanto indomada e, por puro instinto e ainda movido pelo ódio, enfiou as longas garras no ventre da mulher assim que sentiu o toque de seus dedos sobre a pele, trespassando-a com o adamantium de modo que as pontas afiadas saíssem à base das costas da mulher. Os olhos de Eve se arregalaram em meio à dor, e por um instante que pareceu uma eternidade, Logan ainda manteve as garras dentro dela, substituindo a antiga expressão por uma nova banhada em culpa e preocupação, repleto de apreensão e medo pelo que acabara de fazer. A boca da mulher mantinha-se semiaberta, e moveu-se quase imperceptivelmente ao reencontrar a voz: – Acho que é uma boa hora pra você recolher isso, bichano... – o timbre de Eve saiu rouco e cheio de dificuldade, referindo-se às três garras que ainda a penetravam tão profundamente quanto a dor que eram capazes de proporcionar.
Wolverine afinal caiu em si, refugiando novamente o adamantium para dentro de seu corpo e adiantando-se em dar suporte ao corpo da mulher, que pareceu bambolear por um instante. Sangue espirrava com força das três aberturas de sua pele, escorrendo ao longo de suas pernas e começando a formar uma poça indefinida e rubra no chão, ganhando mais e mais volume.
O mutante tentou desvencilhar-se da filha de Charles para chamar ajuda, porém ela segurava seus ombros com força, talvez incerta se seria capaz de sustentar o peso do próprio corpo sozinha. E foi quando seus olhos se transmutaram para uma tonalidade púrpura, seu brilho vivaz levando os lábios de Logan a boquiabrir-se. Eve sorriu frouxamente ao perceber a confusão estampada no rosto do mutante, que só agora notou que os ferimentos se curavam, porém a profundidade de tecidos lesados retardava o processo, e mais sangue se perdia.
– Guria, eu...
– Pode me chamar de Khaleesi! – interrompeu-o com um pouco mais de força na voz, o lilás intenso em seus olhos indicando que o elemento vida ainda fazia o seu trabalho de cura na mulher que o controlava. Finalmente o sangue parou de se esvair para além dos cortes, e agora os únicos indícios deles eram os três rasgos paralelos na blusa e o vermelho tingindo o tecido. Eve voltou a ter olhos verdes no segundo seguinte, e se afastou do apoio que criou em Logan, ainda com traços de palidez – Me lembre de nunca mais falar mal da Grey perto de você... – comentou com um meio sorriso debochado. Ao menos ele não parecia mais furioso, e sim cheio de pesar. Uma mudança um tanto quanto bem-vinda.
– Eu não queria...
– Eu sei, eu sei. Poupe-se do discurso. Sorte sua que eu não estou com o meu livro, se caísse uma gotinha de sangue nele você seria um homem morto a essa altura... – ameaçou tranquilamente, sentando-se numa das poucas macas que ainda estava intacta, notando com um quê de irritação a fraqueza pela perda de sangue enevoar a visão – O que meu querido pai fez que te descontrolou a tal ponto? – fitou a bagunça do lugar, tão vítima das afiadas garras quanto a própria Eve, inquirindo-o a fim de se distrair do quanto se via vulnerável naqueles termos, e tentando ignorar como detestava tal sensação.
– Eu... – suspirou, cansado. Tudo o que Logan menos queria era confidenciar aquele aspecto de sua vida, mas acabou cedendo, sentindo-se em enorme dívida com a mulher pelo incidente, mesmo ela tendo o poder de curar-se. Seus olhos ainda estavam em pânico pelo que fizera, e por fim ele sentou-se ao lado da filha do professor, encarando-a com tamanha intensidade, de modo a certificar-se de que não lhe causou nenhum dano realmente sério. Por fim, permitiu-se responder – O professor tem me ajudado a descobrir o meu passado. Eu não tenho qualquer memória desde que ganhei isto – expôs as garras brevemente, logo recolhendo-as, como se temesse feri-la uma segunda vez –, mas ao que parece, nem ele pode me ajudar.
– Você não se lembra de nada?
– Só alguns flashes de quando revestiram meus ossos com o adamantium – explicou, quase capaz de sentir os urros agonizantes daquele episódio ainda rasgando sua garganta.
Eve ficou em silêncio, contemplando o nada por vários segundos. Talvez tentando recuperar-se do susto, talvez apenas refletindo... Era extremamente difícil para Wolverine decifrar o par de intensos olhos verdes, provavelmente pela extrema facilidade com que ele se transformava.
– E por que você quer se lembrar? – ela finalmente questionou, como se não pudesse enxergar lógica alguma naquilo.
– Você não ia querer? – replicou com uma nova pergunta, achando curioso o ponto de vista da mulher.
– Vai por mim, você pode ter curiosidade em desvendar tudo agora, mas quando o podre vier à tona, vai sentir falta da ignorância e vai chamar por ela novamente, mas aí será tarde. – ao vê-lo dono de uma expressão cética, Eve ilustrou: – Por exemplo, vai que você acaba descobrindo que o seu nome verdadeiro é Edward Mãos de Tesoura, e que você ganhava a vida como cabeleireiro? Já pensou nisso? Ou então que você é o Elvis Presley e está condenado a usar costeletas até o fim dos tempos? Revire o seu armário, se tiver ao menos um terno branco cheio de brilho e baitolices do gênero é provável que eu esteja certa. Esse cabelo customizado nunca me enganou!
– Você não sabe o que é ser um passado em branco, guria. – desconsiderou a troça, retomando o rumo certo do assunto, admirado em ver que abordá-lo até lhe fazia bem. Ao menos serviu para suprimir seus impulsos raivosos ao ver-se descartado pelo professor.
– Não, não sei mesmo. Só sei que eu passei a minha vida inteira tentando esquecer, e você, pelo jeito, gasta a sua tentando lembrar. Olhe só para nós, dois perdedores sem muita oportunidade de sucesso...
– Fale por si. Eu ainda tenho muito mais chances de descobrir a minha história do que você de esquecer a sua. Está escrito no seu rosto que você remói tanto o passado que vive mais nele do que no presente... – seu rosto novamente foi carregado pelo pesar ao segurar uma mecha ensanguentada do cabelo de Eve, os fios tão longos que ainda alcançaram o sabor rubro do sangue – Me perdoe por isso!
– Não foi nada – trouxe a mecha de volta para si, tirando-a do alcance do mutante. Pela primeira vez ela não via hostilidade em seus olhos, e soube de imediato que teria de aproveitar o remorso que o homem sentia antes que passasse. Repentina, uma ideia dominou-a, e decidiu tirar proveito da situação – Escuta, se até meu pai parece não poder te ajudar, significa que você não está mais perto de descobrir a sua verdade do que eu estou de esquecer a minha. Você precisa encontrá-la sem a ajuda dele, ou o que vai acabar descobrindo não é o passado, e sim que gastou todo o tempo que podia ir atrás de respostas esperando que elas caíssem do céu. E então pode ser tarde. Nem todos são imortais. Aqueles que você procura podem não estar à disposição para sempre...
– Já há algum tempo eu penso nisso. – admitiu, encarando um longo corte disposto paralelamente em trinca, de sua autoria, que agora marcava a parede da enfermaria – Parece que só me resta mesmo ir embora... Você gostaria disso, não é, guria? – um meio sorriso sutil se formou no canto de seus lábios, reconhecendo em silêncio que a primeira impressão dela para com ele não poderia ter sido pior.
– Com certeza, grandão, porque eu vou com você! – avisou, decidida, sentindo-se mais forte apenas por programar sua partida em voz alta.
– Vai? Não me diga! – Logan não pôde deixar de rir da pretensiosa mulher e da convicção que lhe dava um ar totalmente seguro de si.
– Digo! – ratificou, sem se importar com o descrédito nas palavras do mutante – Eu enlouqueço se passar mais um dia aqui, e a culpa é tão sua quanto do meu querido pai, não se esqueça disso. E convenhamos, não é sensato que você se meta a besta de sair procurando sozinho pelas pessoas que lhe fizeram isso... – apontou para o local em que as garras saíam, e desferiu o seu último golpe. A cartada que sabia que o faria considerar a sério sua proposta – Você é um perigo, grandão, e precisa de ajuda. Se fosse qualquer outra pessoa a entrar nessa sala hoje, provavelmente ela já estaria morta, e nem mesmo todos os seus lamentos poderiam apagar a culpa. – teve que conter um sorriso vitorioso ao perceber que aquela verdade parecia abalar o forte homem que a encarava, agora extremamente sério – Eu sei por que o meu pai escolheu você para me trazer de volta. Seu poder é o único que pode resistir ao meu, e o meu é o único que sobrevive ao seu. Esqueça o orgulho, bichano, e aceite a minha proposta, ciente de que quem recebe a verdadeira ajuda sou eu, caso isso ajude a massagear seu ego. – seus lábios se repuxaram num largo sorriso ao finalmente enxergar uma válvula de escape. Era uma causa ganha, podia ver que a dúvida nos olhos de Logan o faria ceder, cedo ou tarde – Vamos embora, e garanto que juntos descobriremos o que tiver para saber a seu respeito, mais rápido do que pensa! E eu não vou desistir, prometo!
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