Immortal
23 Apenas Mais Um Pedaço Incompleto De Mim
Notas iniciais
Por todo o perímetro da extensa floresta em que a nave dos X-Men estava agora pousada, uma densa e barulhenta chuva retumbava pelo ambiente, acompanhada por bramidos esporádicos de trovões que dividiam o céu num vívido estouro de luz.
O chão lamacento cedia aos passos de Eve, travando o deslizar da cadeira de rodas do professor e dificultando sua passagem ao longo da terra encharcada. Embora um impetuoso vento se opusesse à passagem dos dois no cenário em que até mesmo a folhagem mais resistente se curvava aos caprichos da tempestade, pai e filha venciam distância pela inescrupulosa chuva que parecia alastrar-se até mesmo dentro de seus mais profundos pensamentos.
Contudo, ainda que o tempo parecesse desfavorável a qualquer criatura que estivesse à mercê de seu errático gênio, Eve sentia-se absolutamente fantástica. Ao menor contato com a natureza, cada átomo de seu corpo, cada poro, se recarregava numa vitalidade que chegava a ser desconcertante, tamanha a energia que a vida na floresta parecia compartilhar consigo, como se ela de fato fosse uma semelhante, digna do poder que fluía naturalmente de cada um dos elementos.
Mas mesmo que toda a sua sensibilidade estivesse plenamente voltada ao estonteante efeito causado pela floresta, o desconforto de Xavier era igualmente visível.
Ao perceber a dificuldade com que Charles arrastava a cadeira de rodas pela terra lodosa, uma pergunta que Wolverine lhe fizera há pouco tempo retornou à mente da mutante, ganhando um impressionante peso e significado, ainda mais potente por ser reproduzida com a atípica voz afável de Logan. Por que você nunca o curou?
A questão ecoou algumas vezes mais na mente em transe de Eve, lhe soando vil e mesquinha. Sentia-se extremamente miserável quando dispunha-se a refletir sobre esse assunto, jamais encontrando uma resposta àquela pergunta lançada.
Assim como o poder imprevisível do fogo, a fluidez tranquila da terra, a potência enérgica da água e o vigor confiável do ar, a mutante detinha também a dádiva da vida para abrandar um pouco a maldição da morte que também a habitava. Bastava um único toque seu somado à intenção de cura, e no segundo seguinte seu pai seria novamente capaz de andar, estando finalmente liberto dos ferros e rodas que tão intimamente dependia...
Sem ter plena consciência do que fazia, Hela piscou por um longo tempo, e ao novamente levantar as pálpebras, seus olhos já não eram mais verdes, e sim de um infinito e profundo lilás que aparentava ocultar todos os segredos mais densos da vida. Uma de suas mãos se moveu com lentidão em direção ao ombro de Charles, o movimento vagaroso e constante de seus dedos levando-os de encontro ao professor, quase próximos o suficiente para tocá-lo, e bastaria isso – apenas um único toque de vida...
Mas antes que pudesse avançar qualquer centímetro a mais em sua pretensão, ela cessou, tão brusca quanto sua inexplicável aparição.
– Nós já estamos bem perto. – o professor Xavier avisou, virando de leve o rosto banhado de águas pluviais ao encarar por cima do ombro a filha, que no mesmo instante recolheu a mão que pairava próxima ao pai, e seus olhos de imediato recuaram ao real tom musgo, antes que Xavier pudesse sequer desconfiar de sua intenção.
– Sem problemas... – concordou, ligeiramente sobressaltada pela interrupção e sem coragem o suficiente para uma nova tentativa – Mas será que a Irmandade não vai tentar atacar quando perceber nossa aproximação?
– Não creio que tenhamos qualquer desventura com eles. Erik espera por você há um bom tempo e a Irmandade está perdida sem sua liderança, mesmo que Mística seja uma substituta tão inflexível quanto.
– Eu não sei se eu posso ajudar... – fez uma pausa, reconsiderando seu comentário – Sinceramente, por tudo o que o Magneto fez, eu não sei se tem a menor chance de alguém conseguir ajudar.
– É aqui – Charles apontou para uma tenda alva, sacolejando às ordens daquilo que a tempestade decretava. O professor virou a cadeira de rodas em direção à Hela, suplicando pelo olhar – Você é nossa maior esperança, Eve! – disse, segurando a mão da filha entre as suas e apertando-a com afeto – O curso de tudo, daqui por diante, dependerá de como você conseguir lidar com Erik.
– O senhor não vai entrar comigo? – ajoelhou-se diante do pai para compensar a discrepante diferença de altura de seus olhares, correspondendo ao enlace de suas mãos, de repente tendo ciência do tamanho da responsabilidade que fora despejada sobre seus ombros – Você é a única pessoa que Magneto de vez em quando escuta...
– Dessa vez não, minha filha – sorriu de leve, claramente exultante e surpreso pela pequena, porém gritante, demonstração de apreço de Eve. – Tudo o que eu podia dizer a respeito do que ele fez, eu já disse, e não poucas vezes... não existe mais nenhum meio do qual eu possa me valer. Mas não há nada com o que se preocupar! Erik parece tão alarmado com sua própria condição quanto nós estamos assustados com o que ele provocou. Com o seu poder, minha querida, será fácil convencê-lo a abandonar esta estupidez.
– Ele está tão mau assim?
– Veja com seus próprios olhos...
Hela levantou, afastando o cabelo da proximidade dos olhos ao encarar mais uma vez a tenda de Magneto. Respirou fundo, tirando para si um pouco daquela peculiar energia que a natureza oferecia ao seu próprio favor. Sem permitir-se pensar mais no assunto, entrou, um pouco mais convencida de suas capacidades.
E o que viu, tirou-lhe o ar.
Magneto, seu padrinho, poderia facilmente ser confundido com um cadáver à beira da decomposição. Nenhum de seus magérrimos traços estava reconhecível... O corpo, em processo avançado de caquexia, caído sem qualquer vida numa cama fina; a boca – rodeada de pregas e rugas assim como cada porção de seu rosto – semiaberta, esforçando-se ruidosamente na busca por ar. Os olhos, corados apenas por um baço azul que mais lembrava catarata, estavam agora afundados em órbitas desidratadas, olhos que se esforçavam até mesmo em enxergar a mutante que acabara de entrar. A pele destacava-se por uma estranha tonalidade, que remetia a uma coloração próxima ao tom morto da cera.
Magneto pareceu realizar um bruto empenho ao mudar de posição sobre o fino acolchoado na tentativa de vê-la melhor. Eve percebeu, ao doloroso movimento do deteriorado mutante, os poucos músculos que ainda lhe restavam tremerem com violência, involuntários à vontade de seu padrinho.
Ela se aproximou, decidida, ignorando o quanto o interior da cabana parecia amplificar o chiado do lado de fora.
– Sempre se metendo em idiotices, padrinho... – sentou num espaço livre ao seu lado, estremecendo ao vislumbrá-lo mais de perto – Por que tudo isso, Erik?
– N...ós somos o fu...turo – a voz, antes altiva e imperiosa, agora não passava de um murmúrio sufocado e entrecortado, quase ininteligível. O timbre, assim como todo o mutante, parecia estragado e prestes a sucumbir.
– Eu não vejo um futuro muito longo pra você depois de toda essa estupidez. Meio delirante demais, não acha? Mexer com o campo magnético de um planeta chega a ser quase brega de tão exagerado... Eu bem que te avisei que bastava esse lance tosco de começar a usar capa que as extravagâncias tendem a ficar cada vez piores. – tagarelou, perdendo o rumo lógico da conversa – Erik, olha só pra você! Está tão mau das pernas quanto meu pai!
Magneto provocou um som engasgado que fez Eve imaginar se aquilo seria uma tosse seca ou a fracassada tentativa de uma dolorida risada.
– Deve...mos nos... impor – prosseguiu seu discurso dificultado, aspirando uma porção maior de ar a cada pausa forçada por seu escasso fôlego – E eu... preciso... de... você, Eve.
– Eu sei que precisa. Sem o meu poder é provável que você não passe sequer desta noite, não estou certa? – pausou sua fala, esperando pela resposta do padrinho. Ele apenas anuiu de leve com a cabeça, desamparado demais em sua autopreservação para dar voz ao típico orgulho que sempre guiou seus passos – A minha ajuda terá um preço, Erik, um preço justo. Eu te curo, e em contrapartida você para com essa estupidez. E me promete que nunca mais vai mexer com aquilo que desconhece! Dessa vez você deu sorte, mas eu posso não estar por perto numa próxima. Eu posso nem mesmo querer estar por perto.
– Não posso... – negou com mais afinco do que Eve poderia esperar de sua fraquejada força, dando ênfase apressada às palavras – Jean. É... é ela... ela que está... no meu lugar... Dando con...tinuidade ao que eu... comecei.
– Isso não me interessa! – disse com aspereza, incapaz de evitar que a raiva crescesse em seu peito ao ouvir aquele nome – Ela é assunto seu, você que se entenda com essa louca sozinho. O meu acordo é com você. Me dê a sua palavra, Erik, de que vai por um ponto final nisso tudo depois que eu te curar. É a minha única condição. É pegar ou morrer.
Magneto fechou lentamente os olhos, sem responder. Ficou tanto tempo em silêncio que Eve por um momento temeu que ele tivesse de fato falecido. Somente quando estava quase chegando ao ponto de intervir de algum modo, o mutante finalmente reabriu os olhos embaçados, fitando-a com um fiapo de sua antiga obstinação.
– Eu vou tentar... Prometo.
– Tentar é o teu cu – respondeu numa impaciência despudorada, já cansada de suas esquivas e meias promessas – Você vai cumprir o nosso acordo, Magneto, do contrário eu desfaço na mesma hora a minha parte nele. Não me interessa seus meios, só me interessa que eles sejam efetivos. Você nos meteu nisso, agora dê um jeito de consertar. E não se esqueça: aquilo que eu der, eu posso muito bem tirar. Me engane, e você volta a esse mesmo estado patético.
– A Fênix é... forte demais... Muito forte...
– Ela não é a única. Você sabe muito bem até onde meu poder pode ir. – deixou que seus olhos adquirissem a temida cor negra para ilustrar seus termos, e Erik pareceu perder-se dentro do infinito hipnótico das íris sombrias, parecendo extremamente tentado por aquela morte rápida e fácil, como se cogitasse tocar a afilhada enquanto ela predizia e exalava apenas morte...
...Mas num segundo que pareceu decisivo, lembrou-se de que ela também era a portadora da vida, e seu instinto de sobrevivência falou mais alto.
– Feito. – concordou, ansiando pelo que viria a seguir.
O negro tornou-se roxo, e Magneto, em sua pressa, segurou com força a mão de Eve, como um homem prestes a se afogar que de repente avista um salva-vidas bem à frente. Aos poucos, sua respiração deixou de ser difícil, e sua pele despistou vários anos que não condiziam à real idade vivida. Os olhos ganharam a mesma astúcia e brilho de antes, porém o cansaço mantinha-se impregnado no mutante, não importava o quanto Eve interferisse.
Parte das rugas sobressalentes havia partido, contudo algumas ainda persistiram, como um pequeno lembrete de sua prepotência ao lidar com algo tão maior do que ele.
– Pronto. Como se sente?
O mutante respirou fundo sem qualquer problema, repetindo algumas vezes o gesto apenas pelo prazer de fazê-lo.
– Incrível, minha querida! – beijou-lhe a mão, esbanjando a mesma força e destreza de que Eve lembrava tão bem – Não se preocupe, agora mesmo cumprirei com a minha parte no acordo...
– Não! – interrompeu-o de imediato, obrigando Erik a manter-se deitado – Existem coisas que nem mesmo a minha mutação pode curar. Você está exausto! Deve dormir o quanto seu corpo achar necessário, e só depois voltar à ativa.
– Eu passei tempo demais nessa cama, Eve...
– Por isso que algumas horas a mais não farão a mínima diferença. Eu sei o quanto essa Fênix é poderosa, Erik. Você precisa enfrentar a vadia em toda a sua capacidade, e ainda será pouco. Ao menos uma vez na vida escute alguém que não seja a sua “deusa interior”... descanse as horas que precisar, e garanto que você se sentirá bem melhor. E depois disso, pode apostar que eu vou cobrar por sua parte no nosso acordo.
Magneto deu um sorriso largo, de um jeito verdadeiramente sincero que Hela achou quase impossível associar àquela pessoa – que sempre dispensava apenas reações comedidas e muito bem planejadas, nunca francas.
– Você lembra muito a sua mãe, sabia? Não fisicamente, mas em todo o resto. Ela ficaria estarrecida com a semelhança... – comentou, aparentemente desistindo de resistir aos conselhos de Eve e aceitando ficar deitado, como um bom paciente acatando a recomendação de seu médico.
Por um momento, mais longo do que ela gostaria, a mutante ficou sem saber o que dizer.
– Se está tentando me amolecer pra fugir do que me prometeu, pode esquecer, pilantra! – preveniu, desconfiada da repentina gentileza gratuita.
– Não se preocupe. Minha parte será cumprida, assim como a sua foi.
– Espero que sim... – ratificou antes de sair cabana afora, de volta à tempestade que já parecia mais afável.

A madrugada que se seguiu àquele tormentoso dia, apenas iluminada por uma incompleta lua cheia que cintilava seu brilho na imensa floresta, estava calma e fresca. Eve, que agora banhava-se em uma pequena cachoeira, nem mesmo sentia necessidade de dormir. Estava completamente descansada, completamente em paz naquele lugar que potencializava todos os instintos mais enraizados de sua mutação.
Desde que colocou os pés na floresta, não deixou de explorá-la nem por um minuto. Apenas trilhava novos caminhos, sedenta por desbravar cada canto do fascinante local, e numa destas buscas às cegas, distante do acampamento por um ou talvez dois quilômetros, encontrou a diminuta queda d’água em seu sinuoso caminho. Pequena em extensão, mas de águas relativamente profundas, que no seu ponto mais fundo batia aos ombros de Hela.
Eve fechou os olhos, boiando seu corpo nu naquela cachoeira que mais lembrava uma lagoa pelas águas calmas, mesmo que existisse a singela queda d’água bem próxima à mutante. E sentir o bucólico ruído do fluxo de água, assim como os respingos que batiam pelo seu rosto, fez com que dentro dela se perdesse por completo a noção do tempo. A água gélida correndo por sua pele como um analgésico renovador, repelindo até mesmo os pensamentos que ela preferia não nutrir. Recordar Logan e todas as situações intensas pelas quais passaram em tão pouco tempo era angustiante, penosa demais ao descobrir como ele a via de forma tão dispensável, e a possibilidade de simplesmente não lembrar era uma verdadeira dádiva.
Ao menos enquanto se dedicava àqueles momentos únicos na floresta, explorando o teor de seu poder, conseguia desligar-se um pouco de todas as aflições que a perseguiam da forma mais perniciosa...
...Contudo, esse momento pacífico estava fadado a um rápido fim.
– Eve! – Logan chamou, parado à margem da água com um olhar insatisfeito e ao mesmo tempo magnetizado pela mutante que agora nadava de costas para ele, como se não o tivesse ouvido. Mas infelizmente ouvira, e a mera vocalização de Logan trouxe à tona seus recentes fantasmas.
– O que você quer? – perguntou ainda sem se virar, mal escondendo o ressentimento.
– Preciso falar com você. – anunciou, a voz irredutível parecendo apressada.
– Você tem noção da hora, grandão? – girou apenas o rosto em sua direção, o perfil de sua face parcialmente iluminado pelo luar que se estendia orgulhoso acima dos dois.
– Você não parece cansada... – rebateu, ainda com o olhar vidrado na mulher, que de algum modo lhe parecia... Diferente.
Ela suspirou, degustando o último sabor de sua paz, mas mesmo este desceu por sua garganta com um gosto amargo.
– Como você me achou aqui? – finalmente nadou na direção de Wolverine, erguendo o olhar verde e brilhante para as íris amendoadas do homem, ambos encarando-se com alguma reverência pelo que reconheciam no olhar do outro. Tudo entre eles poderia chegar a um fim, menos a indiscutível fascinação que um inspirava ao outro desde o começo.
– Farejei e segui seu rastro – explicou, sucinto, querendo chegar logo ao cerne da verdadeira conversa.
– Que sorte a minha... Posso? – arqueou as sobrancelhas, apontando para as peças de roupa estendidas no galho de uma árvore, a expressão carregada de audácia.
Logan, sem qualquer palavra, virou-se de costas para a mutante ao entender sua intenção. Cruzou os braços enquanto esperava, ouvindo com atenção enquanto Hela saía da água e buscava as próprias vestes.
O corpo escaldado da mulher no mesmo instante encharcou a regata clara e o jeans manchado que vestia. Manteve os pés descalços, como uma pequena lembrança de seus passeios do dia pela floresta. Andou sem pressa até o mutante, fitando-o com pesar conforme o ressentimento voltava a alojar-se em seu peito.
– O que você quer? – torceu o excesso de água do cabelo, evitando agora o contato visual.
– As pastas da GlobalGen sumiram! – avisou, perturbado com a ideia de não ter tido tempo de lê-las com detalhe, com medo de que aquele material tivesse caído em mãos erradas.
– Sumiram sim, porque se dependesse de você qualquer um podia ter acesso a esse material. Enquanto você gastava seu tempo se divertindo com aquela ruiva, eu escondi tudo. – respondeu perfeitamente calma, percebendo que Logan estancou ao comentário – Aliás, de nada. Me deve uma.
– Guria, você tem que entender que...
– Eu te levo até os portfólios agora mesmo já que você tem tanta pressa – interrompeu o mutante antes que o assunto mudasse irremediavelmente para aquela vertente irritante. – Mas eu, se fosse você, não ficaria tão afoito assim pela verdade, grandão. Ela pode ser mais escusa do que você imagina.
– Você leu? – perguntou, não como uma acusação, e sim com uma curiosidade que não mais podia ser contida.
– Cada palavra de cada parágrafo. Nada bom. Pois é, garotão... eu sei o que você fez no verão passado!
– O que dizia? – segurou-a pelos dois braços, uma postura de quem implorava pela verdade que há muito lhe era negada.
– Acho melhor que você mesmo leia... – opinou, desvencilhando-se com tranquilidade do toque de Logan.
– Não, Eve, chega de esperar. Me diz o que você sabe. Por favor! – pediu, seus castanhos olhos brilhando numa expectativa precipitada e temerosa daquilo que poderia ouvir. Eve sentiu-se a mais completa imbecil ao se pegar pensando que desejava ser capaz de retirar toda aquela aflição que transbordava do mutante.
– Você era um deles, Logan. – murmurou com receio, odiando ser a portadora daquelas notícias, mesmo ela estando profundamente entristecida com o mutante. Não soube como encará-lo a partir disso.
– Sim, eu sei. Isso o Stryker já contou quando disse que eu caçava mutantes pra GlobalGen... – replicou, confuso.
– Não, grandão. Essa é só uma parte da história, Stryker omitiu o principal dela por pura conveniência. Segundo os registros que eu li você caçava sim pra empresa, mas você era de fato um deles. Logan, você foi um dos fundadores da GlobalGen. – suspirou, umedecendo os lábios diante do choque do mutante – Você foi o idealizador do projeto.
– Mas... como? – perguntou, abalado, incapaz de aceitar mais aquele aspecto desgarrado de sua história.
– Acho que isso se explica pela sua infância – desviou o rosto, achando aquela uma das partes mais complicadas de ser abordada, ainda mais pela semelhança com a sua própria vida – Quando você era criança, acidentalmente você matou seu pai. Seu poder estava se manifestando naquela época, e da mesma forma que aconteceu comigo, você não tinha qualquer noção ou controle sobre ele, e o incidente... aconteceu. Desde então, de acordo com os documentos, você começou a alimentar um ódio cada vez maior pelos próprios poderes e pelos mutantes em geral. Você idealizou a GlobalGen em busca da Cura.
– Stryker disse que a GlobalGen foi bolada pelo topo do governo.
– Stryker só disse meias verdades. Tudo o que ele contou foi a ponta do iceberg pra tentar calar a sua boca e evitar que você continuasse procurando pelo passado. O governo tem parte nessa podridão toda, mas por intermédio seu.
– Como assim?
– Seus registros são realmente enormes, Logan. Muito interessantes, aliás. Parece que você, sozinho, conseguiu invadir a Casa Branca apenas com a roupa do corpo como proteção, e foi lidando com toda a segurança a caminho do presidente da época. Tiros te acertavam, mas você apenas permanecia avançando e se curava em seguida... Suas garras ainda não eram revestidas em adamantium, mas davam pro gasto. Depois de ferir toda a segurança, você se colocou em frente à mesa do presidente com as garras à mostra, sem mais ninguém que se interpusesse entre os dois, e quando o presidente achou que você iria matá-lo, ao invés disso você começou um discurso sobre como os mutantes eram uma ameaça, o que já estava ilustrado e comprovado pela sua invasão e suposto atentado. O governo então comprou a sua ideia de fundar a GlobalGen em busca da Cura e aproveitando para fazer todos os tipos de pesquisa que pudesse levar a um maior esclarecimento sobre os mutantes.
– Nesses papéis diz como eu perdi a memória? – questionou, atordoado com tudo o que era dito, extremamente aturdido com o fato de não reconhecer a si mesmo naquele relato.
– Foi mais ou menos como Stryker contou. Você de algum modo caiu em si quando percebeu a poderosa arma de extermínio mutante que a Cura seria, e começou a colocar empecilhos nas pesquisas e experimentos...
– Como isso aconteceu? Como eu mudei de ideia?
– Essa parte é a única que não foi registrada... – lamentou-se, também curiosa – Mas quando você percebeu que mesmo sendo contra ainda assim esse projeto seria levado adiante, você ameaçou destruir todo o progresso que já havia sido feito... Mas você não percebeu que as proporções da empresa já eram muito maiores do que você, que já existiam muitos envolvidos de nome importante. – abstraiu, parecendo até mesmo lamentar-se por aquele passado que não era seu – Você até chegou a libertar alguns mutantes que na época estavam sendo usados nas pesquisas, mas logo eles foram encontrados, e todos que você liberou foram mortos. Depois disso, a GlobalGen percebeu que você só traria problemas cada vez maiores e que precisavam dar um fim nisso.
– Foi quando minha memória foi apagada... – refletiu, horrorizado com a própria figura.
– Quase. Antes disso, eles te aproveitaram para uma experiência extracurricular... Quando revestiram seus ossos com adamantium, tinham por intenção que você morresse durante o procedimento, mas como não foi o que aconteceu, eles consideraram seu experimento por bem sucedido e deram um fim a todas as suas lembranças. E foi assim que você nasceu, Wolverine...
“Take me down to the river bend
Take me down to the fighting end
Wash the poison from off my skin
Show me how to be whole again
Fly me up on a silver wing
Past the black, where the sirens sing
Warm me up in the nova's glow
And drop me down to the dream below
'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see
Bring me home in a blinding dream
Through the secrets that I have seen
Wash the sorrow from off my skin
And show me how to be whole again
'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see
'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything else
I need to be
'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see
For you to see”
(Castle Of Glass – Linkin Park)
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