— Regina... — Gritou ele, olhando ao redor sem resposta alguma. Seu olhar assustado não era diferente dos demais da cidade ao ver uma grande nuvem roxa cobrindo o céu.

— Eu estou aqui, David. — Ela apareceu caminhando para mais perto dele, com seus olhos avermelhados.

— O que está acontecendo? — Indagou confuso.

— Eu sinto muito. — Disse com aperto em seu coração. — David, me prometa que nunca irá se esquecer que tudo que vivemos foi verdadeiro.

— Por que está dizendo isso agora, Regina?

— Só me prometa... — Uma lágrima escorregou pelo seu rosto. — Por favor.

Ele a abraçou o mais forte que conseguiu, um ato impulsivo sentindo que algo ruim aconteceria até que tudo se escureceu.

Meses antes...

David trancava a porta do petshop onde trabalhava, quando a avistou não muito longe. Ela parecia irritada e a viu resmungar algo quando que por um descuido, bateu a sua cabeça no capô do veículo.

— Problemas com o carro? — Perguntou se aproximando e chamando sua atenção para si.

— Não quer pegar. — Respondeu de maneira rápida, olhando novamente para o motor. — Estou com o carro cheio de compras, e não foi um dia fácil.

— Vamos ver. — Ele se atreveu a abrir a porta do mesmo e tentou liga-lo sem muito sucesso. — Sua bateria acabou.

— O quê?

— Não tenho cabos de ligação, mas posso dar uma carona até em casa. — Se ofereceu gentilmente.

— Não, não. Eu não pediria.

— Eu insisto. A menos que queira ter um carro cheio de sorvete derretido. — Ela riu de seu comentário.

— Claro.

Quando menos imaginou, já estavam no jardim de sua mansão.

— Obrigada por ser meu cavaleiro em armadura brilhante. — Falou indo para a varanda acompanhada de David.

— Estou usando uma camisa de flanela, mas de nada. — Ele estava carregando uma sacola pesada com mantimentos, enquanto caminhava.

— Por que não fica para o jantar? Comprei mais que o suficiente para Henry e eu e... Vou fazer uma lasanha. — A pergunta dela o deixou um pouco surpreso.

— Eu não deveria — Recusou sem graça. — Está tarde e acordo cedo amanhã para o trabalho.

— Tudo bem. — Concordou e abriu a porta. O fraco sorriso que tinha em seus lábios se desfez enquanto subia a pequena escada do hall de entrada, limpando sua garganta. — Pode colocar as sacolas ali.

Apontou para uma mesinha ao lado, enquanto observava um bilhete na mesma, escrito "mãe". Regina o pegou lendo silenciosamente cada palavra.

— O que foi? — David questionou curioso ao ver sua expressão meio entristecida. Ela não o respondeu com prontidão, ainda desacreditada com o que leu.

— Henry... Vai jantar com Archie depois da sessão em vez de vir para casa. — Forçou um mero sorriso, não demonstrando que aquilo lhe feriu.

— Eu sinto muito. — Falou com sinceridade em sua voz.

— Parece que ele faz de tudo para evitar ficar comigo. — Suspirou. — Mas eu não deveria incomodá-lo com meus problemas. Você já me ajudou muito por hoje. Obrigada.

David apenas assentiu e fez seu caminho de volta, parando no percusso e olhando para trás. Percebeu o quanto ela estava chateada, com o olhar carregado de desânimo.

— Quer saber? — Quebrou a distância que tinha sido obtida entre os dois. — Amo mesmo lasanha! — Afirmou na esperança que aquilo lhe fizesse sentir melhor. E viu que seu pensamento foi correto quando um sorriso se fez em seus lábios.

Realmente a lasanha era uma ótima comida que fez David saboreá-la mais à cada garfada. O jantar foi tranquilo e bom, apesar do silêncio que se instalava entre eles uma hora ou outra. O tempo passou devagar, ela o olhou sorrindo de suas bobagens ditas à minutos atrás. Não soube explicar qual era a razão daquilo, mas se sentia bem e incrivelmente feliz.

— Gostou? — Ela perguntou assim que o viu terminar seu prato.

— A melhor lasanha que já comi. — Falou após limpar sua boca. — Você faz magia na cozinha.

O peito de Regina encheu-se de alegria ao ouvir aquilo.

— Deixe-me recolher os pratos. — Se levantou.

— Oh não, David.

— Não, não. É o mínimo que posso fazer.

— Você me salvou de chamar o reboque e agora está lavando a louça, não parece certo. — Riu o observando.

— Por favor. As últimas duas semanas não têm sido fáceis para mim, e você sempre esteve presente. — Lembrou andando até a cozinha.

— Bem, não posso evitar. Me sinto responsável por você, desde quanto eu... — Hesitou. — Te encontrei.

— Sabe, depois de todo este tempo, ninguém nunca me contou essa história. — Secou as mãos num pano branco após fechar a torneira.

— Que história?

— Sobre como você me encontrou. — Ficou ao seu lado com um olhar interessado.

— Provavelmente porque sou a única que sabe. — Soltou uma curta risada. — Eu estava trabalhando até tarde. Era uma noite fria. Devia estar uns 12° negativos. E a caminho de casa, percebi que tinha esquecido o telefone. Lembro de ter pensando em deixar para trás, pois não precisava dele mesmo, mas... Algo dentro de mim me disse para dar a volta e retornar. — Ela estava focada no que dizia.

— E foi quando me viu?

— Você estava do lado da estrada, inconsciente. Tão frio que parecia gelo. O médico disse que se lhe encontrasse 10 minutos depois, teria sido tarde demais. É incrível, não é? — David suspirou, assimilando as informações que recebeu. — Se eu não tivesse esquecido meu telefone, eu não estaria na estrada naquele momento.

— Sim, é quase... — Sorriu tentando achar a frase certa. — Quase como se o universo quisesse que me encontrasse.

Ela apreciou o que ouviu, como se tivesse esperando outras palavras a serem ditas. Regina não soube o motivo pelo qual ela queria fazer aquilo, apenas se aproximou mais ainda de David, numa tentativa de selar seus lábios nos dele. E quando ele recuou, percebeu a tremenda besteira que tinha acabado de fazer.

— Me desculpe. — Ele disse piscando algumas vezes, tentando entender o que tinha acontecido. Se sentiu mal por sua própria atitude. — Espero que não tenha uma ideia errada sobre mim. — Falou afim de concertar o seu ato.

— Não, lamento. Só me deixei levar pelo momento.

— Não tem que se desculpar. — O azul de seus olhos encontrou os dela, numa ideia de fazê-la perceber que estava tudo bem. — É que... Nós... É ótimo do jeito que está. — Ele disse com sutilidade, se afastando.

Colocou novamente sua jaqueta e virou-se para ela, já na sala de entrada da mansão.

— Agradeço novamente pelo jantar. — E foi a última coisa que disse ao atravessar a porta.

Alguns dias se passaram desde a cena ridícula em sua casa, não queria falar e muito menos vê-lo. Aquilo ainda era muito recente, e por mais estranho que pareça, estava com vergonha. Regina estava em seu escritório com um monte recibos, contas e mais algumas papeladas para organizar. Já se passava das duas da tarde, seu estômago clamava por algo. Por fim, resolveu encerrar o expediente para almoçar no famoso restaurante Granny's Diner. Foi andando até lá, já que pela segunda vez, seu carro estava no mecânico. Acabou descobrindo que o problema era mais que uma simples bateria acabada, quando a deixou na mão novamente.

A morena pode notar os olhares receosos sobre ela, quando adentrou e sorriu satisfeita. Odiava aquele lugar e muito mais aqueles pobres idiotas, mas sua fome estava acima de tudo agora. Sentou-se na mesa mais distante possível de todos e fez seu pedido com urgência. Todos naquele lugar sabiam como tudo funcionava, Regina sempre teve prioridade. Ela era fria e na maioria das vezes, grossa. Não permitia que vissem o seu lado "fraco" jamais, ela era uma Rainha. E uma Rainha não possuía fraquezas.

— Olha só quem encontro depois de tanto tempo. — Ela ouviu a voz animada soar atrás dela, suspirou se amaldiçoando por aquilo.

— Olá David. — Sorriu falsamente.

— Como está as coisas com o carro? — Ele se sentou na cadeira sem pedir licença, ficando de frente para ela. O tão encantador sorriso não saia de seus lábios.

— Aqui está o seu almoço, prefeita. — Ruby apareceu com o prato, os fitando.

— Obrigada, agora saia. — Falou impaciente.

— Vejo que não está em um dos seus melhores dias. — Comentou ele.

— Meu carro está no conserto. — Disse seca sem encara-lo.

— Sabe, eu acho que deveria retribuir o delicioso jantar. — Continuou, ignorando o mal humor dela.

— Não é necessário.

— Não vou desistir, você sabe.

— Se não se importa, gostaria de terminar meu almoço. Tenho coisas mais importantes para fazer depois daqui.- David notou seu tom de rispidez.

— Eu não queria incomodá-la, prefeita Mills.

Nolan ficou se perguntando os motivos pelos quais Regina o tratou tão friamente daquele jeito. Mil coisas passaram por sua cabeça, até perceber o verdadeiro motivo. Ela ainda estava constrangida por tudo que aconteceu naquela noite e não deixaria que isso estragasse seus planos. Dando meia volta, sentou-se novamente na mesa que ela ocupava e a viu revirar os olhos e se levantar logo em seguida.

— Aqui está, pode ficar com o resto. — Regina entregou a nota de dinheiro para Granny e saiu sem ao menos se despedir dele. David saiu logo após, a seguindo com passos apresados.

— Se for mais rápido, vai acabar caindo desse salto. — Argumentou alto no meio da rua, fazendo-a parar no mesmo instante.

— Se não percebeu, Senhor Nolan, tenho trabalho à fazer. — Aquela voz pronunciando cada palavra fez com que seu corpo se arrepiasse com tamanha autoridade.

— Eu também tenho.

— Então, por favor...

— Por que está me evitando, Regina? — David a interrompeu andando até ela, e encarando-a. Ele estava nervoso e sabia que falar sério daquele jeito com ela, era como desafiar a própria morte. Mas não estava mais aguentando essa situação.

— O que quer dizer com isso?

— Você sabe muito bem! — Disse convicto.

— As coisas estão exatamente do que jeito que eram antes.

— Não, eu não concordo. Naquele dia você estava tão...

— Eu só acho devíamos manter um limite. Você tinha razão, está ótimo do jeito que está.

— Regina, sobre isso... Talvez eu tenha me expressado de maneira errada.

— Eu realmente preciso ir. — Regina fugiu do assunto. — São muitas coisas que tenho que fazer nesta cidade ainda.

— Tudo bem, nós vemos em breve então. — David se aproximou dela, como se fosse dar um simples beijo em sua bochecha, mas não o fez. Ele recuou novamente, acenando levemente a cabeça e voltando ao seu caminho.

Regina o observou por um bom tempo, perguntando-se o que tinha acontecido. Ele despertou algo que ela não conseguia definir o que era, mas era bom, a deixava feliz.

— Cuidado, minha cara. — Sr. Gold apareceu repentinamente, assustando-a.

— O que você quer? — Questionou com desprezo.

— Não faça isso, não entre nessa estrada sem volta. O futuro não lhe reserva coisas boas.

— Do que está falando? — Franziu a testa. Ele sorriu ironicamente, pois sabia que ela tinha entendido.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Desde Use My Heart Out Of Both Us que não posto nada aqui, estava com tanta saudades. Agora só depende de vocês se eu continuo ou não essa história, me digam.