- E agora, o que você faz, hein?
Esse era eu, 15 anos, sentado em uma mureta com a cabeça doendo. Não tinha ninguém do meu lado, eu estava vestindo um terno e meus pensamentos estavam muito rápidos. Ou era eu que estava devagar? Olhei para baixo entre as minhas pernas. Vômito.
- E agora, o que você faz, hein?
Não era meu. Puta que pariu, como fui parar aqui? Com tanto lugar para me sentar e escolhi logo este. Levantei-me e fui para longe dali. Comecei a olhar em volta e tinha bastante gente, todos falando alto. Sentei-me novamente. Era a festa da minha amiga. Todos pareciam ocupados demais gritando para me perceber ali, mas eu não estava triste. Por que mesmo que eu não estava?
- E agora, o que você faz, hein?
Eu me lembrei, mas como podia ter esquecido? Eu acabara de fazer o que eu mais desejava desde maio, talvez junho. Que mês era agora? Eu não me lembrava muito bem, mas provavelmente foi ela que tomou o primeiro passo. Eu não tinha ideia de como começou, mas duvido que algum dia esqueça do que aconteceu. A gente estava conversando realmente perto, com todo aquele mundo gritando fica difícil de escutar algo. E próxima coisa que eu sei é que a gente estava se beijando. Eu pisquei, como isso foi acontecer? Cacete, Matheus, faça algo! Coloquei a mão na cintura dela e a próxima coisa que lembro sou eu sentado na mureta. Falando nisso, e o vômito? Olhei pro lado e continuava lá, tinha um casal do lado que não parecia se importar muito com ele. Talvez fosse deles.
- E agora, o que você faz, hein?
Certo, pense em um plano de ação, para onde ela foi? Olhei em volta. Nada. Caralho, da onde saiu tanta gente? Eu vi um grupo passando um cigarro, cada um dava uma tragada e passava adiante. Por que eles tão fazendo isso? Foco! Cadê ela? Mas eu tava com muita sede e não conseguia enxergar direito. Vou tomar um copo d'água e vou atrás dela. Eu senti algo subindo pela garganta e nem fiz esforço nenhum para parar o que é que fosse. Vômito. Puta que pariu, puta que pariu.
- E agora, o que você faz, hein?
Eu estava de pé ao lado de uma árvore. Três pessoas em volta de mim.
- Você tá bem?
- Tô sim — Porra, como fui parar aqui? Qual é a chance de ter três pessoas em minha volta e nenhuma delas ser a que eu quero? Impossível isso, tem algo muito errado por aqui. — Escuta, já tô bem. Cadê a Lívia? Eu já ia saindo, nem olhei para eles enquanto falava, se eu não sabia onde ela estava não eram eles que iriam me ajudar. Um braço me segurou.
- Calma aí, cara. A gente já chamou os meus pais, daqui a pouco eles chegam.
- É, fica calmo. Toma aí um gole, disse a garota.
Como era feia. Eu não tava com sede, por que ela tava me oferecendo água? Não, muito obrigado. Toma aí, vai te fazer se sentir melhor. Eu não quero. O copo tava quase no meu nariz. Cacete, como eu odeio isso, essas pessoas que ficam insistindo até morte. Tomei um gole. Pronto, disse e devolvi o copo. Toma mais. Se eu quisesse tomar mais eu tomava! Fiquei emputecido e virei o copo. Meus dois amigos de certa forma acharam isso muito engraçado.
- E agora, o que você faz, hein?
Eu já estava no carro.
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