I'm Not a Hero
14 “You don’t think you deserve to be saved.”
Notas iniciais
"Desde que alberguemos uma única vez o mal, este não volta a dar-se ao trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança."
— Franz Kafka.
Quando bateram na porta àquela manhã, Sasuke esperava qualquer um e qualquer coisa. Shikamaru, exigindo maiores explicações sobre Naruto; ou talvez algum dos outros ninjas, curiosos e preocupados; ou então Hinata, mesmo que tivesse dito a ela que Naruto não iria querer ver ninguém por um bom tempo. Esperava qualquer um, menos ela. Por isso quando abriu a porta, já preparado para enxotar qualquer um, surpreendeu-se.
Sakura respirou fundo ao vê-lo. Por um instante, deixou-se perder no negro dos olhos dele como há muito tempo não fazia. Sentira falta daquilo. De olhá-lo. De saber que ele estava por perto.
Mas não fora até ali para visitar Sasuke.
— Vim ver Naruto. — comunicou com seriedade.
Ele arqueou as sobrancelhas para ela, pensando que Naruto tinha a enforcado tão forte que o oxigênio ainda estava tendo problemas em ir até seu cérebro.
— Está louca? Ele quase a matou ontem e você quer vê-lo?
— Preciso conversar com ele. — insistiu.
— Está tão ansiosa para morrer assim, Sakura? — debochou.
— Eu irei vê-lo e não será você a me impedir! — empurrou-o para o lado e entrou na casa. Surpreso, Sasuke ainda a encarou por alguns segundos antes de fechar a porta com um estrondo que a fez pular.
— O que você espera fazer? — estreitou os olhos. — Vai conversar com ele e, milagrosamente, Naruto se arrependerá de tudo e te implorará perdão de joelhos? Continua a mesma menininha estúpida e irritante de antes.
Esperava que aquilo a fizesse sair dali. Magoada, talvez, mas pelo menos ela sairia. Sakura, entretanto, apenas sorriu para ele com ironia.
— O que eu irei fazer quando vê-lo não é problema seu, Sasuke. — ele notou muito bem a retirada do sufixo em seu nome. — E por que você acha que eu me importaria com a sua opinião sobre mim? Se você não quer me mostrar onde ele está, tudo bem. Eu acho sozinha.
E simplesmente se virou e foi procurar por Naruto, não se importando com o que o Uchiha achasse. Não seria mais a idiota que corria atrás dele. Sasuke não significava — ou não devia significar — mais nada para ela além de lembranças da criança ingênua que fora, muito tempo atrás.
Não demorou muito para encontrar Naruto. A casa era bem pequena, com poucos cômodos e, na cozinha, havia uma porta dos fundos que dava para um dos antigos campos de treinamento. Naruto estava sentado à beira de um rio que passava por ali, quieto e sozinho.
Com passos hesitantes, a Haruno aproximou-se. Parou há alguns metros dele, não ousando se aproximar mais do que aquilo. Os acontecimentos do dia anterior ainda estavam bastante frescos em sua memória. Não sabia sequer se estava sendo sã ao ir até ali; muito provavelmente não. Ainda assim, continuou lá.
— Eu disse ao Shikamaru para manter todos afastados de mim. — a voz de Naruto soou baixa e rouca, como se ele não a usasse há algum tempo. Sakura olhou para o objeto que carregava em suas mãos, depois olhou para as costas do loiro.
— Eu sei. Ele informou a todos que não se aproximassem de você até que ele conseguisse descobrir mais sobre sua situação.
— E você veio aqui fazer o quê, recolher informações?
— Não. Não sei o que houve com você e sei que não tenho o direito de perguntar. — ela apertou o objeto que carregava. — Eu sei que você me odeia Naruto, e saiba que tem toda razão para isso. Fui a pior amiga que você poderia ter. Fui horrível, quando você sempre foi bom comigo. E eu sinto muito por isso. Muito, muito, muito.
Ela deu mais alguns passos até ele. Naruto permaneceu em silêncio.
— Sei também que nenhuma palavra minha pode apagar o quanto te magoei, mas quero que saiba que não houve uma noite — a voz dela falhou e as lágrimas queimaram seus olhos, mas não ousou chorar. — em que eu não sonhasse com você e com Sasuke de volta à vila. Não houve uma noite sequer em que eu não sonhasse com a gente voltando a ser o time 7 de novo, fazendo missões de novo, brigando e rindo e protegendo um ao outro como costumávamos fazer. Não houve uma noite sequer em que eu não tivesse pesadelos com Masao exibindo seu corpo frio e sem vida! Não houve — ela afastou com fúria uma pequena lágrima que teimou em descer. —, não houve um dia em que eu não me arrependesse de ter deixado você ir embora sem ter feito nada para impedir.
Ela deu os passos finais e finalmente ficou próxima dele. Naruto não se mexeu nem a olhou, mas não deu mostras de expulsá-la dali, o que a incentivou a continuar. Agachou-se para ficar da altura dele e lhe estendeu a mão direita, onde estava o artefato que a fizera superar qualquer insegurança e ir até ali. Naruto encarou o objeto; era um colar, muito parecido com o do Shodaime, aquele que Tsunade havia lhe dado quando era criança, mas o cristal, em vez de ser azul, era laranja.
— Isso pertence a você. — Sakura lhe disse com suavidade, balançando a mão. Ele pegou o colar.
— É parecido com o que eu tinha antes...
— Tsunade-sama estava o guardando. Quando descobriu que aquele primeiro colar havia sido destruído, ela fez de tudo para achar outro parecido. Foi quase impossível, mas no final ela conseguiu achar o neto do criador original. Pagou bem caro, segundo Shizune me disse.
— Por quê? — ele apertou o colar entre suas mãos e olhou para Sakura. — Por que ela faria isso?
— Tsunade-sama sempre confiou em você, Naruto. — respondeu. — Ela estava guardando o colar, esperando o dia em que você virasse Hokage. Ela sabia que você conseguiria. Quando... quando você completasse dezoito anos, ela passaria o posto para você.
Aquilo atingiu o Uzumaki de uma maneira terrível. Quando você completasse dezoito anos... Passara tão perto! Poucos meses e o seu mais profundo sonho se realizaria... Estivera tão, tão perto da felicidade que chegava a ser cruel.
— Então aquilo aconteceu. — ele murmurou.
Sakura baixou o olhar e assentiu e, após alguns segundos, levantou-se.
— Eu vou... Vou deixar você sozinho.
Foi só quando ela estava perto da porta dos fundos que a voz de Naruto a alcançou.
— Sakura... — ela se virou; ele olhava para o rio. — Obrigado.
Ele não podia ver, mas ela deu um pequeno sorriso. Virou-se para sair, mas sua mão travou na maçaneta da porta.
— Você me fez uma promessa muito tempo atrás. Prometeu que nunca esqueceria seus amigos. Não sei pelo que você está passando, mas seja lá o que for... nós não o esquecemos, Naruto. Nós ainda estamos aqui. Só... por favor, não esqueça isso. — e finalmente entrou na casa, deixando ele novamente sozinho com seus pensamentos.
A kunoichi surpreendeu-se ao ver Sasuke escorado ao lado da porta.
— Você estava espionando a conversa? — indagou exasperada.
— Conferindo se você não seria atacada. — corrigiu.
— Sim, claro, como se você se importasse. — girou, pronta para sair dali.
— Por que eu sinto uma hostilidade tão grande vindo de você? — ele debochou, fazendo-a parar e virar-se para ele, cética.
— Bem, nosso último encontro não foi muito agradável. Que eu me lembre... ah, sim. Você tentou me matar!
— Se eu bem lembro, foi você que tentou primeiro. — ele rebateu impassível. — E Naruto tentou a mesma coisa ontem. Por que só eu mereço o rancor?
Ela balançou a cabeça, encarando-o como se não acreditasse no que ouvia.
— Você... Você é tão... — ela virou-se novamente para ir embora, mas parou e tornou para ele. — Chorei por você tantas, tantas noites. Orei. Sasuke, eu orei por você, para deuses que nem sei se existem, orei para que nada de mal lhe acontecesse, rezei para que saísse desse ciclo sem fim de ódio e vingança, e que voltasse. Para Naruto, para Konoha. Para mim. Que voltasse e que tudo retornasse a ser como era antes, e que pudéssemos voltar a ser o velho time 7, fazer missões simples, brigar com Kakashi-sensei pelos atrasos, treinar juntos. Mas você não voltou. Eu esperei. Dias, meses, esperei anos por você. Esperei que Naruto o trouxesse de volta, sabendo que ele seria o único que poderia fazer isso, mas... — balançou a cabeça, sentindo a garganta fechada. — Você era o único que podia se trazer de volta. E você não voltou. Então não me venha com esse cinismo, por favor. Eu já sofri demais por você.
Eles se encararam por segundos que pareceram intermináveis, até Sakura quebrar o contato visual ao se virar e finalmente ir embora.
[...]
Gaara apoiou pesadamente a cabeça em uma das mãos, enquanto acabava de ler um dos vários papéis dispostos em cima da mesa. Ao seu redor, as pessoas em quem ele mais confiava naquela vila — o conselho de Suna estava reunido, lendo os mesmos papéis. Neles, informações sobre os ataques feitos aos outros países.
O Kazekage tinha olheiras profundas (muito mais do que normalmente) abaixo dos olhos, graças a todos os acontecimentos. O país da Areia havia sido o único a não ser atacado... até agora. Temia que os inimigos estivessem apenas à espera, à espreita. Temia acordar com Suna sendo destruída, e por isso não conseguia pregar os olhos; não que já dormisse muito antes, mas agora a situação estava dez vezes pior.
Após algumas batidas educadas na porta, Matsuri entrou e apressou-se até ele.
— Sei que disse que não queria ser incomodado, Kazekage-sama, mas recebemos notícias de Konoha. — ela estendeu o pergaminho recém-chegado, que Gaara pegou com pressa.
— Obrigado. — ela assentiu e se retirou. O resto do conselho o observava, esperando para saber o que estava escrito ali. Gaara leu, releu, piscou, leu novamente, até por fim abaixar o papel e encarar seu conselho.
— O que foi? — um dos anciões indagou, com ansiedade.
— Uzumaki Naruto e Uchiha Sasuke juntaram-se a eles.
— Sério? — Temari arregalou os olhos. — Mas eu pensei que eles estivessem mortos. Ninguém nunca mais ouviu falar deles.
— Não estão. Aparentemente eles estavam viajando juntos todos esses anos...
— E por que decidiram aparecer agora? — outro ninja perguntou.
— Eu não sei. Shikamaru não dá muitos detalhes, só diz que toda ajuda é necessária, e os dois continuam poderosos como sempre. — Gaara ajeitou-se na sua cadeira. Ainda estava tentando digerir a informação. — Mas, mais importante que isso, Konoha descobriu que Masao faz parte de uma organização e muito provavelmente outros membros desse tal grupo atacaram os outros países.
— Isso muda tudo. — Temari disse. — Quer dizer que Masao não está agindo sozinho.
— Sim. Shikamaru diz no pergaminho que nossas chances são maiores se nos unirmos. Eu concordo com ele. — o Kazekage respirou fundo. — Ele propôs que cada país enviasse, no mínimo, dois de seus melhores ninjas até Konoha e, de lá, eles se organizariam a fim de coletar mais informações.
— E quem você enviará? — uma das anciãs questionou.
— Não posso enviar muita gente, e já tem ninjas de Suna por lá. Hm... — os olhos dele moveram-se até encontrar os da irmã. — Temari, você vai.
[...]
— O mais provável é que eles tenham algum local de encontro, uma base. — Shikamaru dizia a todos os ninjas envolvidos naquela missão (o que abrangia todos os ninjas de Konoha que podiam lutar, mais os ninjas de Suna; apenas Naruto não estava lá).
— E mesmo que não saibamos o tamanho da organização deles — Neji articulou, ao seu lado. Ele e Shikamaru eram os líderes de toda a operação. —, para eles se arriscarem ao ponto de atacar os Cinco Grandes Países, deve ser grande. O que implica que eles devem estar em um local afastado das maiores vilas; discreto, porém espaçoso.
— Eu e Neji achamos cinco lugares que se encaixam na descrição. — Shikamaru prosseguiu, apontando para o mapa em cima da mesa. Os locais estavam circulados com tinta. — Quando os grupos dos outros países vierem, organizarei todos em cinco times e então mandarei cada time para um dos locais. Independente disso, eu quero que todos comecem a treinar juntos para poderem desenvolver o trabalho em grupo, que será bastante necessário daqui pra frente. Podem ir.
Todos lentamente foram saindo, menos Neji, que continuava a conversar com o amigo.
— Hinata não sabe de nada?
— Se souber, não está disposta a me contar.
Shikamaru suspirou audivelmente e sentou-se em uma das cadeiras.
— Toda essa situação é terrível. Como devo deixar Naruto lutar ao nosso lado quando nem sei se posso confiar nele?
— Tente pensar como ele. — Neji dizia com aquele jeito apático. — Todos o abandonaram, e ele vem convivendo com ódio e dor desde a infância. Não deve ter sido fácil.
— Eu sei... — Shikamaru puxou um cigarro do bolso, procurando algo que o acalmasse. — Mas para tentar matar Sakura... — balançou a cabeça. — Ele realmente deve nos odiar muito... E nós ainda tentamos impedir que ele fosse expulso, mas aqueles estúpidos conselheiros...
— Hai... — Neji moveu os olhos para o chão, lembrando-se perfeitamente daquele dia. Ao menos Homura e Koharu estavam mortos agora. — Mas eu tenho a impressão de que o problema de Naruto não é só conosco.
— Também tive essa impressão. Ah, que problemático... Só espero que um dia ele resolva nos contar. — olhou para o colega. — Devemos muito a ele.
Neji sorriu um pouco. Pare de reclamar do destino e dizer que ele não pode ser mudado. Você é diferente de mim. Você não é um fracassado.
— Sim... Eu já vou.
Shikamaru assentiu. Assim que o Hyuuga saiu da tenda deparou-se com Tenten.
— Oi! — ela o cumprimentou, meio sem jeito. — Eu estava te esperando.
— Para o quê? — perguntou com curiosidade.
Ela deu de ombros e eles começaram a caminhar, sem destino certo.
— Faz tempo que não conversamos.
Ele simplesmente murmurou algo, sabendo que havia algo mais naquela história. Tenten pigarreou nervosa, encarando-o de lado, sabendo que ele desconfiava dela. No entanto, Neji simplesmente permaneceu em silêncio, deixando-a ainda mais ansiosa.
— Ai, tudo bem! — soltou. — Eu estou preocupada!
— Com quem?
— Com a Hinata, é claro! Com tudo o que está acontecendo com Naruto e... e... Ela não falou nada comigo, mas tenho certeza de que ela está sofrendo e tenho a leve impressão de que está me escondendo algo, só que ela não fala! E o que aconteceu com o Naruto, aliás? Já faz dois dias desde o acidente com a Sakura e ninguém fala nada, e...
— Tenten. — Neji parou de andar, virando-a para que ficassem frente a frente. — Respire fundo e relaxe.
Ela bufou.
— Você me irrita com toda essa tranquilidade!
— Alguém tem que pensar calmamente por aqui. — replicou, com os olhos brilhando com diversão. — Imagine se todos fossem como você.
— Neji! — o olhou, exasperada. — Você está brincando comigo?
— Se Hinata-sama tiver algo para contar, ela o fará quando estiver pronta. Não fique se preocupando à toa.
— Ela é minha melhor amiga. — suspirou. — É claro que eu vou me preocupar... Mas tudo bem! Vou confiar em você.
— Que honra.
— Ah, cale a boca. Quer treinar? Preciso ver se consigo manter a invocação de Tora por mais tempo antes de me cansar.
Ele assentiu.
— Não vou pegar leve. — advertiu. Foi a vez dela de olhá-lo com diversão. Lembrava-se dos treinos que eles costumavam ter na infância. Sempre chegava acabada em casa.
— Você nunca pega.
•••
Virava o colar entre as mãos repetidamente, a voz de Sakura ecoando repetidamente em sua cabeça. Tsunade-sama sempre confiou em você, Naruto. Ela estava guardando o colar, esperando o dia em que você virasse Hokage. Ela sabia que você conseguiria. Encarou o cristal laranja, as palavras ainda lhe atormentando. Sempre confiou em você... Ela sabia que você conseguiria... Quando você completasse 18 anos, ela passaria o posto para você... Sabia que você conseguiria... Tsunade-sama sempre confiou em você...
Apertou o objeto em suas mãos, com raiva. Não era merecedor daquela confiança cega que Tsunade uma vez tivera nele. Não queria aquela confiança. Desejava que Sakura não tivesse dito tudo aquilo. Desejava que ela não tivesse olhos tão esperançosos; não queria viver sob as expectativas de ninguém, porque, infernos, não era capaz de atender a tais expectativas.
Considerou jogar o colar no rio, onde ainda estava sentado à beira. Foi quase impossível achar. Ela pagou muito caro, segundo Shizune-san me disse. Suspirando, perguntando-se por que não conseguia se desvencilhar daquilo, ele o colocou ao redor do pescoço e escondeu debaixo da blusa.
Deitou-se sobre a grama, observando o céu claro daquela tarde. Sentiu a aproximação de alguém, mas não se mexeu. Sasuke parou há poucos passos dele.
— Naruto, por mais quanto tempo você vai se isolar? — sem resposta. Sasuke revirou os olhos. — Não pode ficar aqui para sempre.
— Me observe. — replicou com desinteresse. — Como foi a reunião?
— Shikamaru e Neji descobriram locais onde possivelmente a base da organização se encontra. Quando os ninjas das outras vilas chegarem, ele vai nos dividir e despachar os grupos.
— Ótimo, mais idiotas para perguntarem “o que aconteceu com o Naruto?”. — murmurou cheio de amargura.
— Falando nisso... — Sasuke cruzou os braços, decidindo falar logo. — Eu falei para a Hyuuga sobre você.
Naruto sentou-se num ímpeto, sobressaltado.
— VOCÊ O QUÊ?
Sasuke riria daquela reação — se ele costumasse rir.
— Alguém acabaria descobrindo mesmo.
— Não se você mantivesse sua maldita boca fechada! — rosnou, partindo para cima do Uchiha, puxando-o pela gola da blusa.
— Você continua o mesmo garotinho medroso de sempre. — sibilou. — Tem medo de que todos te julguem quando descobrirem a verdade sobre você, mas veja só, Naruto: se eles foram mesmo seus amigos um dia, eles vão te ajudar! — agarrou a gola dele também. — Então pare de ficar se lastimando E AJUDE A SI MESMO!
— VOCÊ NÃO SABE DE NADA!
— Parem!
Ambos se interromperam antes que atingissem a pequena Hyuuga, que havia se posto entre os dois.
— Você é louca? — Naruto indagou com raiva. — Poderíamos ter te acertado!
— Como entrou aqui? — Sasuke estreitou os olhos.
— Desculpe, a porta estava aberta... — ela respondeu com um longo suspiro, endireitando-se ao ver que eles tinham se acalmado. Uma gota de suor escorregou pelo seu rosto. — Dava para sentir a pressão do chakra de vocês de longe! — ambos olharam ao redor. Algumas plantas haviam sido arrancadas da raiz, tamanha a pressão. Nenhum deles havia percebido que tinha se exaltado tanto. — O que houve?
— Pergunte ao seu mais novo amiguinho. — Naruto replicou com cinismo. — Fico imaginando como deve ser. Vocês se reúnem ao redor de uma fogueira para fofocar, ou montaram um clube intitulado “segredos do Naruto”?
— E o drama vai começar novamente! — o Uchiha provocou, sem paciência para as infantilidades do loiro.
— VAI A MERDA!
Hinata, que observava os dois assustada, decidiu se pronunciar antes que eles tentassem se atacar novamente.
— P-por favor, se acalmem! — disse, subitamente se sentindo muito pequena entre aqueles dois. — Não é hora de brigar!
— O que você faz aqui, de qualquer forma? — Naruto olhou-a com raiva. — Não deveria estar com medo demais de mim para aparecer ou sei lá?
— Por quê? Você irá me machucar? — perguntou com suavidade, sabendo que ele não o faria.
Ele a olhou com surpresa por um momento, antes de cruzar os braços e fazer uma carranca.
— Se você me der motivos.
Sasuke zombou.
— Ele não a machucaria — aproximou-se para sussurrar no ouvido de Hinata, olhando provocadoramente para o amigo. —, por algum motivo, você é a única pessoa que ele não sente vontade de matar. Eu poderia até dizer que você é especial para ele, Hyuuga.
— Sobre o que vocês estão cochichando agora? — o loiro resmungou. Sasuke endireitou-se e se afastou de uma Hinata surpresa.
— Eu já vou indo. Quando você decidir parar de se esconder — lançou um olhar duro ao Uzumaki. —, conversamos. — e se retirou.
Hinata virou-se timidamente para o loiro; tinha ido até ali tentar conversar com ele. Esperava que Sasuke fosse ajudá-la, mas ele com certeza não estava a fim de falar com ninguém naquele momento, assim como o Uzumaki. O último lhe deu um olhar aborrecido antes de se virar até a direção de algumas árvores.
— Vá embora.
— Naruto-kun... — ela suspirou, o seguindo. — Nós precisamos conversar...
— Não há nada que eu tenha a falar com você. — disse com frieza, erguendo as duas mãos, levantando vento ao seu redor. Tinha que treinar suas técnicas de Fuuton. — Eu vou treinar. Vá. Embora.
Hinata sentiu-se tentada a se retirar; ele realmente não parecia bem para conversar naquele momento. Mas, se não fosse logo, nunca conseguiria conversar com aquele teimoso. Balançou a cabeça.
— Você está fazendo de novo. Está fugindo!
Naruto desconcentrou-se e o ataque que era para atingir uma das árvores acabou atingindo o ar e desvaneceu-se. Virou-se, definitivamente furioso.
— Sim, porque é isso que eu faço, não é mesmo? — bradou. — Eu fujo! Porque sou medroso e covarde, e tenho medo de que os outros me julguem porque tenho uma voz na minha mente que diz para eu matá-los! Estou cansado de você e o Sasuke jogarem as mesmas coisas na minha cara, de novo e de novo! — rosnou, aproximando-se dela. Hinata recuou um passo, de forma inconsciente, mas o movimento não passou despercebido ao loiro. Sorriu com amargura. — Quer saber, Hinata? Eu não tenho medo de que me julguem. Eu não quero que saibam sobre mim porque não quero que pensem que podem me ajudar, porque não podem. Esse é quem eu sou. O verdadeiro Naruto. O Naruto que teve tanto medo de ser mau que acabou se tornando isso. — ele a encarou com intensidade. — Não quero vê-los me olhando do mesmo jeito que você está agora.
— Eu não...
— Você tem medo de mim, como Tsunade teve quando me expulsou da vila! Quando Sakura teve, quando me atacou naquele dia! Como os moradores tiveram ao me olhar e chorar dizendo que eu era um monstro que tinha destruído tudo o que eles mais amavam! — a agarrou pelo braço. — Eu posso reconhecer esse olhar em qualquer canto, Hinata.
— Eu não tenho medo de você, Naruto-kun. — ela conseguiu sussurrar, encarando-o nos olhos. — Eu tenho medo de que você se torne algo que não quer ser. Que não precisa ser. Por favor, deixe-nos ajudá-lo. Lute, Naruto-kun. Eu sei que você é capaz. Eu confio em você. — ela tocou seu rosto, mas Naruto afastou-se de seu toque como se tivesse tomado um choque e largou o braço dela.
— Pare com isso! — disse, encarando-a abismado. — Eu não quero sua confiança, eu não... Não há volta para mim! Não há nada que você ou que Sasuke ou que qualquer um possam fazer para ajudar, vocês só estão se enganando! Eu não mereço... — ele se interrompeu, fechando os olhos por um momento, antes de afastar-se mais ainda da garota.
Hinata o olhou surpreendida por alguns segundos, finalmente entendendo, antes de tentar aproximar-se.
— Você não acha que merece ser salvo. — não era uma pergunta. Ela agora podia ver, podia enxergar por trás de todas as ações e palavras de Naruto. — Mas você está enganado, Naruto-kun...
— Você não entende. — a cortou. — Você não sabe quantas pessoas eu já matei depois de sair daqui, algumas sem motivo algum, apenas por matar. E o sangue delas, Hinata, o sangue delas espirrava em mim, manchava minhas roupas, minhas mãos, e eu gostava. Elas gritavam, implorando para que eu poupasse suas vidas, e eu ria. E a voz, aquela maldita voz ficava gritando em minha cabeça: “Elas merecem, elas merecem” e eu me divertia matando uma por uma. E não era uma morte rápida. Eu as torturava, cortava, dilacerava, e os gritos delas... Você não sabe como é finalmente conseguir dormir sem uma voz te atormentando, para acordar ouvindo os gritos daqueles que matou.
Havia lágrimas nos cantos dos olhos de Hinata que ela sequer se preocupou em esconder. Havia uma dor tão imensa e terrível nos olhos de Naruto que ela perguntou-se como ele tinha suportado tudo aquilo por tanto tempo.
— Naruto-kun...
— Eu não quero ajuda. — interrompeu. — Eu não posso, eu não mereço. Quando Masao estiver finalmente morto, eu... eu vou seguir o mesmo caminho. É isso o que eu mereço: a morte.
— Não! — ela balançou a cabeça, as mãos juntas, perto do coração, como se pudessem fazê-lo parar de doer. — Você não pode voltar para o passado e mudar tudo, mas ainda pode alterar o futuro! Pode evitar que essa voz tome conta de si novamente. Por favor, Naruto-kun, não desista. Uchiha-san acredita em você! Sakura-chan ainda o considera um irmão! Konohamaru-kun o admira mais do que qualquer um! Shikamaru-kun sempre pensava em você quando tudo parecia perdido em Konoha, e a força que você trazia a ele, ele repassava para nós. — deu alguns passos e agarrou o rosto dele com suas duas pequenas mãos. — Estamos todos aqui por você, Naruto-kun. Você não precisa suportar tudo sozinho!
Ele a encarou com suavidade pela primeira vez. Levantou uma de suas mãos até as de Hinata, e as segurou, trazendo-as para perto de seu peito.
— Você sempre me animou quando eu mais precisava. Na batalha contra o Pain, antes da guerra, durante a guerra¹... e eu nunca te agradeci. Obrigado, Hinata. — seu tom era baixo e terno. — Obrigado por me dar força quando eu pensava em desistir. Obrigado por ter confiado e acreditado em mim. Obrigado por ter me amado. — com a outra mão que não segurava as da Hyuuga, ele colocou uma mecha de seu cabelo para trás e fez uma leve carícia na bochecha dela. — E eu sinto muito... Mas dessa vez nem mesmo você é o suficiente.
Libertou as mãos dela, deixando-as caírem ao lado de seu corpo imóvel. Então ele pulou para longe e desapareceu.
Fale com o autor