I'm Not a Hero
15 They think I'm crazy, but they don't know the feeling
Notas iniciais
Right now
Never want to leave this place
and right now see it in a different way
so right now even if you take me on
I'll stand, the lonely
Stand, the lonely
— Nine Lashes.
Sasuke socou a décima árvore. Seu punho quebrou o tronco com facilidade, como se a madeira fosse fragilíssima. Não era. Ele só estava muito frustrado. Já deveria ser o quarto dia que Naruto havia desaparecido sem avisar, sem deixar qualquer rastro ou pista. Simplesmente sumido.
Nos dois primeiros dias o Uchiha não se preocupara. Naruto não era nenhum bebê e sabia se cuidar muito bem sozinho; provavelmente só precisava de um tempo para refletir, então ele voltaria. Mas o terceiro dia chegara e ainda não havia sinal do Uzumaki, e Sasuke começou a inquietar-se. Decidiu, então, procurá-lo (junto da Hyuuga, que insistira em ir, já que estava preocupada desde que o namoradinho tinha fugido dela).
Naruto não estava nem na vila, nem em algum campo por perto, nem escondido em alguma casa. Só restava a floresta. Mas ele também não estava lá. Sasuke e a Hyuuga já buscavam a horas por qualquer sinal, mas não tinha nada que os ajudasse. O bastardo honrava o maldito título ninja que tinha. Até mesmo outros ninjas haviam se disposto a procurá-lo (mesmo Sasuke negando qualquer ajuda), e nenhum deles tivera sucesso ainda.
— A culpa é toda sua. — virou-se subitamente para a Hyuuga. Eles já estavam quase na fronteira entre Konoha e uma vila do País do Vento. Se aquele filho da mãe tivesse cruzado a fronteira... — Graças ao seu discursinho sentimental aquele idiota fugiu.
— Por favor, pare de me culpar! — a Hyuuga exclamou começando a irritar-se. Sasuke definitivamente a tirava do sério. Já estava atormentada demais com a última conversa que tivera com Naruto para ter que ouvir Sasuke acusando-a o tempo todo.
— Você é tão burra assim, Hyuuga? Tanto tempo e ainda não percebeu que Naruto não consegue lidar com os próprios sentimentos? — rosnou. — Você só piorou tudo!
— E isso vindo de alguém que quer resolver tudo com os punhos! — rebateu com indignação. — Desculpe-me, Uchiha-san, mas quem estava brigando com o Naruto-kun era você!
— Mas não foi por minha causa que ele desapareceu, foi? — contrapôs maldosamente.
— Parem! — Sakura interpôs, aproximando-se deles. Ah, sim. A kunoichi também tinha vindo. — Sasuke, todo mundo está aborrecido, mas não é por isso que você deve descontar na Hinata. Pare de agir como uma criança!
Ah, aquilo já era demais.
— O que você quer falando, Sakura? Eu nem sei por que diabos você está aqui. Ninguém precisa de você.
Sakura pareceu magoada por um instante, antes de bufar.
— Como se eu quisesse estar perto de você. Estou aqui porque ainda me preocupo com Naruto e quero saber onde ele está!
— Claro, se preocupa. — debochou. — Você não foi uma das que expulsou ele de Konoha?
— Uau, olhe só quem está falando. — ela apertou os punhos. — Você virou as costas a ele por cinco anos!
Hinata afastou-se dos dois, incapaz de continuar a ouvir aquela conversa. Deveriam estar procurando por Naruto, não discutindo assuntos do passado. Sabia que aqueles dois tinham muita coisa mal resolvida, mas aquele não era o momento! Quando já estava longe o suficiente, apressou o passo e ativou o byakugan. Se Naruto tivesse cruzado a fronteira, poderia estar em qualquer lugar agora. Seria impossível achá-lo.
Vasculhou a área com os olhos, até que o byakugan avistou algo. Ela parou, focalizando a direção. O byakugan só conseguiu se estender até certo ponto, mas era o suficiente para ver uma sombra se mexendo. Era Naruto. Tinha que ser Naruto.
— Hinata! — Sakura e Sasuke se aproximaram, parecendo ter acabado de perceber de que ela não estava por perto há um tempo.
— Hyuuga, o que você...
— Eu vi algo! — interrompeu, começando a correr até a direção onde tinha visto a sombra. — Pode ser o Naruto-kun!
— Espera Hyuuga! — ela já tinha ido. Sakura a seguiu. — Tsc. — Sasuke revirou os olhos e as seguiu também.
Hinata focalizava a direção com seu doujutsu. Podia ver mais e mais a sombra se transformar num corpo a medida que se aproximava, e mais e mais parecia-se com Naruto. Ele provavelmente estava ocultando o chakra, por isso ninguém havia sentido. Quando já estava mais ou menos perto, desativou o byakugan. Sasuke, Sakura e ela diminuíram o ritmo. Estava pronta para chamá-lo, mas parou ao ouvir Naruto cantarolando alegremente. Na verdade, ele cantarolava e ria, ria e cantarolava, enquanto mexia em algo a sua frente.
Agora que já estavam próximos o suficiente, dava para ver claramente o que Naruto fazia. Foi Sakura a primeira a sair de seu transe e soltar um grito, horrorizada. O som chamou a atenção de Naruto, é claro, e ele virou o rosto respingado de sangue para os três. E sorriu.
— Oh, vocês vieram brincar também?
[...]
No silêncio do local, o barulho de suas botas retumbava a cada passo dado. Tudo continuava do mesmo jeito: os corredores eram extremamente mal iluminados e, mesmo que fosse dia lá fora, não havia nenhuma janela por onde o sol pudesse entrar. Mesmo que tivesse, não entraria luz, pensou revirando os olhos.
Passou por algumas portas, até chegar ao seu destinatário. Aproximou-se da porta e pôde ouvir os burburinhos e risadas. Assim que entrou no local, todos pararam e o encararam, em silêncio. Por fim, um ruivo levantou-se e ergueu a taça de shochu.
— Ajoelhem-se perante o Kage supremo! — gritou, fazendo todos ao redor rirem e erguerem suas taças, brincando.
Masao aproximou-se da mesa principal, no centro, onde o ruivo encontrava-se. Os ninjas que ali estavam, talvez uns oito ou nove, o saudaram. Masao apenas acenou, mas todos eles já estavam mais do que acostumados com a indiferença do Shimura.
— Como sempre muito engraçado, Yuri. — disse sem expressão.
— E você, como sempre, um saco. — o ruivo rebateu com um sorriso divertido. Estava sempre sorrindo. Seus olhos fixaram-se no lado esquerdo do corpo de Masao. — Ué, perdeu o braço em algum canto?
Masao sentou-se à sua frente.
— Você me mata de rir.
— Pare de ser assim, Yuri-kun. Como Mayumi está, Masao-san? — Sayo, ao lado de Yuri, esticou-se sobre a mesa, curiosa. Ela havia cuidado da pequena garota como se fosse sua irmãzinha pequena, quase uma filha.
— Do mesmo jeito. — era tudo o que conseguiria arrancar dele, Sayo sabia.
Chaos aproximou-se a passos lentos da mesa e sentou-se ao lado do ex-aluno.
— E você, moleque, como está indo a conquista do mundo ninja? — perguntou, tomando uma garrafa inteira de saquê em poucos goles. Seu vício só tinha aumentado (se é que era possível) em todos aqueles anos. — Adorei o que você fez com Konoha, aliás. Uma bela obra prima. Eu ensinei bem.
— Imaginei que iria gostar. — replicou com desinteresse. — Onde está? — todos sabiam de quem ele falava.
— Onde sempre está, idiota. — Yuri respondeu. — Como se a majestade saísse daquela coisa sombria que chama de sala.
— Não fale assim, Yuri-kun. — Sayo o repreendeu.
— Mas é a verdade!
— Mas se te ouvirem, cortam sua língua. — brincou. — E eu não quero meu marido machucado.
Tara, uma das ninjas que estavam sentadas na mesa principal, sorriu com ironia.
— Vocês me dão nojo.
— Ora, ora, Tara, não é você que é chamada de “ninja do amor” ou algo assim? — Yuri riu do patético título, fazendo a garota revirar os olhos.
— Sou fã dos amores impossíveis. — ela apoiou a cabeça na mão. — São os únicos amores verdadeiros.
Masao levantou-se.
— Ei, ei, não vai ficar mais um pouco para comemorar sua ganância com os amigos? — Yuri levantou sua taça novamente.
— Poupe-me do cinismo, Nakashita.
— Cinismo? — Yuri zombou, levantando-se para ficar da mesma altura que Masao. Seu sorriso característico tinha sumido, e o salão agora estava silencioso, ouvindo a conversa. — Não é a só a mais simples e pura verdade? Você nos meteu em uma guerra, Shimura! E tudo porque é um filho da puta ganancioso! Você pôs tudo o que a Yama acredita em jogo, por puro capricho!
— Yuri-kun...
— Se está com tanto medo — Masao interrompeu Sayo. —, não precisa participar.
— É claro que eu vou participar! Você faz parte dessa organização e, mesmo que não dê o devido valor a isso, todos aqui são aliados e, querendo ou não, vão acompanhar você aonde quiser. — sentou-se novamente. — O que não quer dizer que você deixe de ser menos filho da puta. Mas o que eu posso dizer, não é mesmo? Vá lá, Masao. Continue com seu esquemazinho malévolo, arraste milhares de vidas com você. — riu e balançou a cabeça, incrédulo. — Você sequer sente remorso, não é?
— Remorso? — o Shimura deu uma pequena risada. — Eu não sinto nada, Yuri.
Sem dizer mais nada, simplesmente virou e saiu do salão, em direção à sala que deveria ter ido desde o começo. Passou por vários outros corredores e desceu várias escadas até finalmente chegar.
O lugar, como sempre, era sufocante. A pessoa a sua frente e a intensidade de seu olhar em Masao, porém, era o que o fazia quase se preocupar. Quase.
— Finalmente, Masao. — a voz estava bastante infeliz. Os olhos negros quase se camuflavam no escuro da sala. — Acredito que tenhamos algumas coisas para conversar.
[...]
Em todos aqueles anos como ninja médica, Sakura havia presenciado muitas coisas. Konoha sendo destruída por Pain, a guerra, Konoha sendo destruída por Masao; todas as situações trouxeram visões horríveis a Haruno. Mas aquilo, aquilo provavelmente ultrapassava tudo o que já tinha visto. Era terrível. Grotesco. Principalmente porque vinha de Naruto.
Sasuke soltou um palavrão e empurrou o amigo para o lado, observando o estrago causado. Todos pararam ao ver a bandana de Konoha pendurada em um rosto completamente desfigurado. Hinata apertou os olhos, tremendo, e quando Sasuke virou-se para Naruto, Sakura correu até o corpo. Suas mãos se encheram de sangue ao tocar seu tronco procurando ver se havia alguma forma de salvá-lo, mesmo sabendo que já não havia nada que pudesse ser salvo ali.
Ela afastou-se imediatamente logo depois, com uma repugnância que não conseguiu conter, seu corpo inteiro tremendo em soluços mal controlados. A visão abominável do que Naruto havia feito ao ninja desconhecido acertou em cheio seu estômago, e por pouco não virou-se e vomitou tudo o que havia comido até ali.
O rosto desfigurado sequer era o pior de tudo. Uma das pernas do indivíduo estava há metros do corpo, provavelmente cortada no calor de alguma batalha que ele e o Uzumaki haviam travado. Haviam cortes por todo o tronco e, por um corte maior, dava para se ver o interior do corpo. Ao redor do cadáver estavam os órgãos internos que Naruto havia arrancado. Ele tinha torturado o ninja continuamente, mesmo após sua morte.
— Que caras são essas? — o assassino sorriu levemente. — Esse aí me provocou, sabe. Só me defendi.
Sasuke agachou-se, aproximando o rosto do dele, encarando-o profundamente. Era a primeira vez que via os olhos completamente negros do Uzumaki.
— Saia. — ordenou, fazendo o outro arquear uma sobrancelha.
— O quê?
— Você não é o Naruto. Agora, eu não sei como conseguiu assumir o controle do corpo dele por tanto tempo, mas eu estou ordenando que saia.
“Naruto” riu.
— E é aí onde você e meus “amiguinhos” se enganam. Eu sou o Naruto. Uma versão bem melhor e menos estúpida, claro, mas não deixa de ser eu. Me pergunto quando todos vocês vão finalmente se tocar disso. Mas tudo bem. Eu posso esperar. Tenho todo o tempo do mundo aqui... Com certeza vai ser divertido quando todos vocês desistirem dele. Eu bem sei que ele já desistiu. — sorriu maldosamente. — A propósito, esse não foi o único corpo. Boa sorte em encontrar os restos dos outros. — ele fechou os olhos e, quando os abriu novamente, eram os olhos azuis de sempre.
Naruto ainda encarou Sasuke por um segundo, antes de desmaiar. Hinata correu até os dois, agachando-se ao lado do corpo inconsciente do Uzumaki. Ela buscou os olhos negros do Uchiha, em perguntas mudas — “o que faremos?”, “o que vai acontecer agora?” —, em uma busca desesperada por respostas que ele também não tinha.
— O que está acontecendo aqui? — a voz agoniada de Sakura ecoou naquele silêncio sufocante. — Por que... Por que ele... Por que o Naruto... — ela levou uma mão à garganta, como se fosse difícil demais falar. — Que infernos está acontecendo aqui?
[...]
Quando acordou, a primeira coisa que sentiu foi uma dor pungente em toda sua cabeça. Já havia a sentido antes. Sempre acontecia depois que a adorável parte negra de si tomava conta de seu corpo. As lembranças do que ele havia feito invadiram a memória de Naruto. Ele apertou os olhos por um momento, antes de abri-los. Um teto cinza saudou sua visão.
Olhou ao redor. Estava em uma sala escura, com paredes de pedra, sem luz ou janelas, e a única claridade vinha por uma abertura com grades em cima de uma grande porta. Não havia cama ou colchão nenhum e ele estava sentado no chão duro, encostado a uma das paredes. Ao seu lado, há alguma distância, havia um balde. Fez uma careta ao perceber para o que ele servia.
Tentou ajeitar sua posição e logo notou que haviam correntes prendendo seus pés ao chão, e algemas em suas mãos. Sentia-se fraco.
Estão sugando seu chakra. Você está na antiga sala de tortura de Konoha, Kurama lhe informou.
Pensei que tudo havia sido destruído quando...
É uma sala subterrânea, o interrompeu. A antiga Divisão de Inteligência a usava para torturar os prisioneiros e arrancar informações deles, muito tempo atrás, quando Konoha ainda não tinha técnicas melhores. Seu pai baniu o funcionamento dessas celas quando assumiu o posto de Hokage, e mandou criar uma sala de interrogatório em cima. Aquela sala foi destruída, mas essa, como pode ver, continua intacta.
Naruto suspirou audivelmente.
Como sabe tudo isso?
Esqueceu que você não é meu primeiro jinchuuriki, moleque? Kurama replicou. Na época de Mito, Madara convenceu Hashirama a construir esse local. Tem vinte celas idênticas, uma ao lado da outra. Durante algumas noites, quando os cativos tentavam dormir, alguns dos ninjas escolhiam os presos de piores crimes e os torturavam. A noite toda. Os outros costumavam ouvir os gritos ressoando por toda a noite, imaginando as coisas terríveis que deviam estar sendo feitas aos companheiros de cela.
Você nem parece se divertir me contando tudo isso, Naruto debochou.
Bem, estou preso numa cela dentro de você, que está preso em outra cela. Não pode me culpar por me sentir sufocado e por querer descontar um pouco de minha frustração no moleque estúpido no qual eu fui selado.
Naruto olhou fixamente para a porta.
— Há quanto tempo eu estou aqui? — sua voz estava rouca pelo desuso e ele decidiu que exercitá-la seria bom.
Algumas horas. Talvez um dia. Não sei dizer, garoto. Não sou um relógio.
— Por quanto tempo ele assumiu o controle?
Kurama suspirou. Quatro dias.
Naruto bateu sua cabeça na parede atrás de si. Quantos corpos tinha torturado? Olhou para as roupas que usava. Mesmo com a pouca claridade, dava para ver que não tinha nenhum sangue ou sujeira. Elas tinham sido trocadas antes de lhe jogarem ali.
— Quem me trouxe?
Seu namoradinho Uchiha, a garota Hyuuga e aquela outra menina. Haruko.
— Haruno. — corrigiu.
Tanto faz, moleque, a raposa replicou com indiferença. O clã dela não é importante para que eu me lembre.
O pequeno feche de luz desvaneceu-se quando uma sombra pôs-se em frente a porta. Naruto reconheceu imediatamente os olhos negros. Odiou estar naquela situação tão deprimente diante dele; tinha lutado tanto para se igualar ao Uchiha, chegar ao mesmo nível que ele, não ser o fraco da amizade. Mas como aquilo podia ser chamado de igualdade?
— Quem diria que um dia seria eu a estar aqui. — disse sem conseguir conter o rancor em sua voz. — Sempre pensei que, entre nós dois, seria você o preso.
— Eu sinto muito.
Naruto soltou um muxoxo, desviando o olhar para qualquer ponto longe daquela expressão de Sasuke. Sentiu-se ainda mais miserável.
— Pare. Não preciso da sua pena.
— Como se eu fosse capaz de sentir algo assim.
O Uzumaki balançou levemente a cabeça, a sombra de um sorriso passando por seus lábios.
— Não precisava das correntes. — apontou. — Não tenho intenção de sair daqui. Mas esse negócio de roubar meu chakra é meio demais, não acha?
— Eles sabem, Naruto. Todos já sabem. Em pouco tempo, o resto do mundo ninja vai saber da sua situação também. Acha que foi fácil convencer a população a te deixar ficar? Foi Shikamaru quem teve a ideia de te colocar aqui. Se não fosse por isso, já teriam te comido vivo. Eles não podem confiar em você. Ninguém pode confiar em você.
— Uau! Muito obrigado pelo conforto, Sasuke! Me sinto dez vezes melhor agora. Você andou treinando?
— Naruto, você ainda não entendeu? — rosnou. — Você não é confiável. Você não quer ajuda. Você se recusa a cooperar. Acham que você está enlouquecendo!
— É, já entendi que minha situação não é a das melhores. E não me olhe assim, teme. Não é você que está acorrentado ao lado de... nem sei que porra é essa. Como esperam que eu mije nisso?
— Você não consegue impedir sua boca de falar tanta merda em tão pouco tempo? — Sasuke parou de falar subitamente. — Hyuuga, saia daí.
Naruto endireitou-se.
— Quem está aí? É a Hinata?
— Sinto em desapontar, Naruto, mas sou eu. — definitivamente não dava para confundir aquela voz. Naruto arqueou as sobrancelhas, pensando que seria ótimo poder ver mais do que por aquela mínima brecha em cima da porta.
— Neji. A que devo a honra?
— Você está diferente do que eu lembrava...
— É, adoram me dizer isso. Sua prima, inclusive, vive jogando na minha cara.
— Não vim aqui debater sobre sua mudança de personalidade, Naruto. — Sasuke afastou-se para que Neji se aproximasse. Seus olhos brancos observaram o local com rapidez e precisão, antes de focar-se novamente no Uzumaki. — Vim aqui por causa de um garoto que me ensinou que eu não preciso viver como um pássaro preso numa gaiola. Vim aqui porque aquele garoto me fez ver que eu posso mudar meu próprio destino. E eu quero ajudar.
— Boa sorte com isso. — Sasuke resmungou de algum canto atrás da porta.
— Não há como me ajudar.
— Você poderia ao menos se dar a chance de tentar.
Naruto sentia vontade de rir porque tudo aquilo era tão, tão ridículo. Por que estavam todos tão obcecados em tentar “salvá-lo”? Era aquele o problema de todos eles. Sasuke, Hinata, Neji. Eles não conseguiam admitir uma coisa tão simples: não havia nada a ser salvo. Naruto era o que era; mesmo que fosse bem dentro, bem escondido (agora não tanto), fazia parte dele. Aquela parte má, parte escura. Não havia surgido do nada. Era ele. Por que ninguém conseguia aceitar?
— Faça um favor e ajude a si mesmo e a sua vila, Neji. Me deixe apodrecendo aqui e assim nenhum de vocês vai ter que me matar quando outra situação dessas chegar.
— Se o deixarmos aqui, você morrerá, Naruto. Seu chakra não durará para sempre. Vai demorar, talvez, e vai ser doloroso, com certeza, mas no final você morrerá!
Ele ouviu um grito súbito. O assustou tanto que, por um momento, ficou completamente desnorteado. Iria perguntar o que diabos fora aquilo, mas Neji não parecia ter escutado nada. Foi ali que ele percebeu que o grito era de sua mente. Uma memória. Um flash. Uma das vítimas que ele fizera.
Encarou Neji e percebeu, sem surpresa, de que nem mesmo sua própria morte lhe trazia algum sentimento mais. Viver era superestimado. Morto, ele não teria que passar por aquilo. Ninguém morreria por suas mãos e ele não sentiria culpa ou ódio ou dor. Por que morrer seria algo tão ruim assim?
— Só tenham certeza de que eu vá cumprimentar Masao no inferno.
•••
Temari praguejou baixinho assim que finalmente alcançou os portões de Konoha. Tinha demorado demais.
Apressou-se até para entrar logo vila. Parou por um momento, observando. Já fazia muito tempo que não ia até ali. Anos, muitos anos. As lembranças de quando era adolescente invadiram sua mente e Temari deu um pequeno sorriso, sorriso esse que se desfez ao ver o atual estado da vila. Tinham-na reconstruído, sim, e feito um bom trabalho, mas ainda dava para ver as marcas da destruição. As marcas da ira e do poder de um novo inimigo.
— Temari!
Virando-se, ela se deparou com Ino. Não parecia a garota que ela tinha visto anos atrás, pouco depois da guerra, em uma missão simples que a Yamanaka fora fazer em Suna. A Ino daquela época tinha marcas de tristeza, sim, quem poderia não ter depois daquela guerra? Mas ela era... brilhante. Feliz. A Ino que estava na sua frente era uma Ino com cicatrizes muito profundas. Cansada. Triste.
— Ino...
— Estávamos preocupados. — ela a cortou energeticamente. — O que aconteceu?
A expressão de Temari voltou a ser raivosa.
— É melhor eu explicar logo para o Shikamaru. É ele que está na liderança de tudo, não é?
Ino assentiu e gesticulou para que ela a seguisse.
— Você parece cansada.
A Yamanaka suspirou.
— Todos estão. Nós... ah, você provavelmente não sabe ainda. — olhou para ela de lado.
— Sei do quê?
— Naruto... Ele... Nós andamos tendo alguns problemas com ele. — ela deu um suspiro pesado. Apontou para uma tenda. — Shikamaru está lá. Ele vai te explicar tudo.
O Nara levantou a cabeça de alguns papéis assim que elas entraram. Seu olhar se encontrou com o de Temari, e nenhum deles disse nada. Ino deu um pequeno sorriso.
— Vou deixar vocês às sós.
Quando ela saiu, Shikamaru estreitou os olhos.
— Por que a demora? Suna está com algum problema?
— O mundo ninja está com problemas. Fui atacada por uns babacas que...
— Você está bem? — ele levantou-se surpreso, inspecionando-a para ver se tinha algum ferimento. Temari franziu o cenho.
— É claro que eu estou bem, quem você acha que eu sou? — abanou a mão. — Mas não é esse o maior problema. Todos já sabem sobre Masao e a nova organização. Todos estão agitados. Devíamos supostamente estar em paz!
Shikamaru afastou-se, zombando.
— Sim, paz. — repetiu com amargura, voltando a olhar para os papéis que tinha em sua mesa. — Quem foi o idiota que acreditou nisso por um segundo?
Temari ficou em silêncio, observando-o. Gaara havia lhe contado a situação por qual todos haviam passado em Konoha, mas ela mal poda imaginar. Eles estiveram sofrendo todo aquele tempo e ninguém tinha nenhuma ideia sobre. Não podia culpá-lo por rejeitar a ideia de paz na qual todos acreditavam estar vivendo.
— Já faz muito tempo, Shikamaru. — ela murmurou. — Como... Como você está?
— Isso não importa agora, temos preocupações maiores, você...
— É claro que importa! Ah, você continua o mesmo idiota de sempre. — ela balançou a cabeça, desaprovando-o com o olhar. — Está cuidando de uma vila inteira, muito provavelmente sem pausa para descanso, e com todos esses problemas... Aposto que nem vem comendo direito.
— Vila? A vila não é um problema, Temari! O problema é Masao ser o quarto numa lista dos mais poderosos de uma nova organização! Será que você não lembra a tragédia que foi a Akatsuki? E, ainda por cima, ninguém sabe nada sobre eles. E Naruto! Deuses, um amigo meu que aparentemente estava morto, volta com o melhor amigo de infância, um traidor de Konoha, que por muitos anos sequer se importava com a vila, mas agora quer lutar ao lado de todos contra Masao. E Sasuke sequer é o problema! Naruto... eu não o reconheço. Eu nem sei mais quem ele é. Ele matou sete civis e espalhou pedaços dos corpos pela floresta. Talvez tenha até mais. Eu não...
Esgotado, ele desabou na cadeira, sem completar a sentença. Temari, ainda meio chocada com a revelação, aproximou-se hesitantemente.
— Por que... Por que ele os matou?
— Eu não sei. — mentiu. Não estava com vontade de entrar em detalhes sobre aquela maravilhosa situação.
— O que você vai fazer?
— Ele está numa cela na sala de tortura, preso. As algemas sugam o chakra... E nem mesmo ele tem chakra infinito. Alguma hora vou ter que tirá-lo de lá... E depois... Eu não sei.
Ela se aproximou e estendeu a mão até a dele, mas Shikamaru afastou sua mão e levantou-se.
— Já pensei em mil maneiras, porém nenhuma parece correta. — continuou como se nada tivesse acontecido. Temari assentiu e afastou-se, um pouco magoada. Ele ainda guardava rancor.
— O que posso fazer por você?
— Os ninjas das outras vilas já chegaram. Você poderia pedir para Ino reunir todo mundo. Daqui a três dias todos partirão na missão de localização do esconderijo da nova organização e eu tenho que organizar os times para eles começarem a treinar o trabalho em equipe.
Temari abriu a boca para falar algo, então estremeceu. Por que se sentia tão idiota de repente? Qualquer coisa que tivesse acontecido entre eles havia sido muito tempo atrás.
— É só isso. Obrigado Temari. Já pode ir.
Um pouco irritada, mesmo que estivesse tentando se controlar, ela assentiu novamente e saiu da tenda.
Shikamaru suspirou alto, ignorando os pensamentos problemáticos sobre a loira. Por fim, circulou pela milésima vez um dos lugares que ele achava o mais provável de ser onde a base dos inimigos estava. Já tinha um time formado para ir até lá, mas com todos os acontecimentos recentes, perguntava-se se ainda seria certo enviar os integrantes que tinha em mente.
Gostaria de ter algum ninja mais velho por perto agora. Gostaria que seu pai ainda estivesse vivo. Ele saberia lhe aconselhar. Ele saberia o que fazer. Shikamaru era só um peão das circunstâncias, querendo ser rei.
Os ninjas, um por um, foram entrando. Quando estavam todos lá (embora ele desse por falta de alguns), ele respirou fundo. Que se danasse.
— Vocês estão preparados pra guerra?
Fale com o autor