I'm Not a Hero
16 And every single day a part of my soul is fading
Notas iniciais
“Como você chegou lá e quando isto começou? Uma criança inocente com um espinho em seu coração [...] A quem deve culpar? Há uma cura para sua doença? Você não tem coração?” — World So Cold, 12 Stones.
— Então logo... Atenção... É aqui...
As palavras pareciam desvanecer assim que chegavam perto de Naruto. Tudo o que ele conseguia compreender era uma frase sem sentido aqui e ali, e seu cérebro não conseguia assimilar o significado. Sentia-se fraco, impotente. Onde estava? Tudo era um borrão ao seu redor e seus olhos não conseguiam ficar abertos por muito tempo. Sentia que alguém o apoiava, ajudando-o a ficar de pé; de outra forma, ele com certeza já teria caído.
— E vocês... Chegando... Logo vai perceber... Quando...
Será que ainda estava na maldita cela? Será que seu chakra já tinha sido tão sugado ao ponto de leva-lo a um estado de semiconsciência? Quanto tempo tinha ficado naquele local? Quem estava falando? Do que estavam falando?
A última coisa que ele ouviu foi a tal voz lhe chamando, antes que a pouca consciência que ainda tinha fosse embora de vez.
[...]
Assim que entrou, o olhar duro de Shikamaru fixou-se em si.
— Não posso acreditar que fez isso. — ele disse em uma voz baixa, raivosa.
— Fiz o quê?
O olhar do outro tornou-se ainda mais árduo.
— Poupe-me, Neji. No que diabos você estava pensando ao ajudá-lo a fugir? — ele bateu o punho na mesa a sua frente. — E ainda deixando com que Hinata e Konohamaru fossem também! No que diabos você estava pensando?
— Naruto precisava de ajuda — retrucou com calma. — e não seria trancado numa cela que estava o matando cada dia mais que ele conseguiria. Você sabe disso.
— E onde ele vai conseguir essa “ajuda”? Ele sequer aceitou essa “ajuda”? Para onde diabos eles foram?
— Ele estava inconsciente quando eles saíram.
Shikamaru praguejou alto. Encarou Neji, cuja postura relaxada estava o irritando ainda mais.
— Você nem ao menos vai pedir desculpas, vai? — estreitou os olhos. Era uma pergunta retórica; era mais que óbvio que Neji não se sentia culpado por nada. — Você continua o mesmo prepotente de sempre, sabia?
Neji simplesmente deu de ombros. A vontade de enfiar uma kunai bem no meio da testa do Hyuuga veio forte em Shikamaru, mas ele respirou fundo, em busca de controle.
— Vou perguntar pela última vez, Neji. Para onde eles foram? — questionou lentamente.
— Eu não sei. — antes que o Nara pudesse retrucar, o Hyuuga prosseguiu. — Eu realmente não sei Shikamaru. Eu só ajudei Sasuke a tirá-lo da cela. Para onde eles foram ou o que eles farão... eu não sei nada sobre isso.
— Impossível! — Shikamaru indignou-se. — Você não está nem um pouco preocupado? Infernos, sua prima está viajando junto com um Naruto instável e um amigo pouco confiável e você não está nem um pouco preocupado?
— Preocupar-me ou não, não muda nada. Naruto sempre foi e sempre será importante para Hinata-sama e ela quer estar ao lado dele para suportá-lo, como muitas vezes ele fez por ela, mesmo indiretamente. O que está feito, está feito, Shikamaru. O que você pretendia fazer com ele, de qualquer forma? Sei que não o deixaria morrer naquela cela, mas o que mais você poderia fazer além de deixá-lo ir? — o Nara não respondeu. — Exato. — fez uma pequena mesura antes de virar-se para ir embora, mas se deteve por um instante. — Ah, há algo que você deveria saber. A missão original que você ia dar a eles, a de reconhecimento da base dos inimigos...
Shikamaru levantou os olhos, encarando o amigo fixamente, já sabendo o que estava por vir.
— Não. — murmurou. Neji continuou mesmo assim.
— Eles ainda estão dentro.
[...]
— Vamos Naruto. — uma voz, ao longe, sussurrou. — Acorde. Você está tornando tudo muito chato. — os sussurros foram se tornando cada vez mais audíveis, até o ponto em que Naruto podia ouvir claramente. E aquela voz...
Ele abriu os olhos de uma vez e a visão que o saudou foi a de si mesmo, como se estivesse encarando seu reflexo em um espelho. Ele sabia muito bem que não estava. O outro Naruto riu.
— Aí está. Finalmente. — o outro estava sentado na frente e não muito longe de Naruto; a inexistente iluminação de onde quer que eles estivessem apenas permitia ao Uzumaki distinguir (mal) as sombras do outro. — Eu já estava ficando entediado, o que não é nada bom. Eu poderia ter pegado o controle do seu corpo – de novo. Sério, isso já está ficando cansativo, você não acha?
— Não, não poderia. — Naruto respondeu de modo quase inconsciente, com a voz rouca pela falta de uso. Ele olhou ao redor, mas não conseguiu enxergar nada mais do que escuridão. Onde estava? O que estava acontecendo? Aquilo nunca tinha acontecido antes. Apenas a voz do outro o assombrava normalmente; mas eles nunca ficaram cara a cara.
— Claro que poderia. — o loiro retorquiu, parecendo se divertir com toda a confusão do primeiro. — Você está mais fraco do que jamais esteve. Está inconsciente, queimando de febre e tossindo o tempo todo. É patético.
Naruto não sentia nada. Ele arqueou uma sobrancelha para o outro, que apenas riu baixo em resposta.
— Não aqui, é claro. Lá fora. Estamos dentro de sua mente. — ele pareceu mexer a mão, gesticulando para algo inexistente atrás de si. — No mundo real, você está... como eu posso dizer isso? Morrendo.
Naruto não rebateu.
— Tudo bem, talvez seja um exagero. — o outro retomou. — Talvez não morrendo... ainda. — ele riu.
— Por que não? — Naruto perguntou de repente.
— O quê?
— Por que não tomou o controle do meu corpo? Se eu estou assim tão fraco, teria sido mais do que fácil.
— Verdade. — Naruto podia ouvir o sorriso na voz dele, mesmo que não pudesse ver. — Mas você vê... como eu disse anteriormente, isso já está cansando. Então eu pensei “por que não?” e resolvi, ao invés, ter uma conversinha com você.
— Por que agora e não antes? — murmurou.
— Antes eu não podia. Minha parte, meu controle em você ainda era muito fraco. Mas agora... — ele estalou a língua, fingindo estar decepcionado. — Você tornou tudo muito fácil, mas fico feliz por isso. Finalmente está aceitando que nós somos um só. Agora tudo o que você tem que fazer é desistir por completo e finalmente me deixar no comando. Não é muito difícil; eu estou na sua mente quase o tempo todo, de qualquer forma.
— Simples assim? — Naruto fechou os olhos, mas não fazia muita diferença. Era escuro com seus olhos fechados; igualmente escuro com eles abertos. Ele se deu conta do que o outro queria dizer com “minha parte”. Aquela era a parte dele em sua mente, onde tudo era um breu infinito. Naruto perguntou-se se havia alguma parte de sua mente que tivesse algo mais além de escuridão.
— Simples assim.
— E se eu não quiser?
— Então tudo continuará a ser o mesmo. Minha voz em sua mente todo o tempo, o tempo todo. Você não vai conseguir sequer ouvir os seus próprios pensamentos porque, ora, veja só: eu sou você. Eu sou seus pensamentos, seus temores, sua força. Eu sou sua vontade de vingança e seu desejo por sangue. Você sabe disso. Sabe tão bem que é por isso que está lentamente sucumbindo a mim. Porque eu, eu sou seus anseios mais íntimos, aqueles tão errados que você deseja apenas esquecer. Mas você não pode apagá-los, Naruto. Eles continuam lá. Você só pode aceitar e conviver com eles. — ele pausou e suspirou profundamente, com uma falsa pena. —, você está tão exausto de lutar contra si mesmo, não está?
O Uzumaki abriu os olhos e algum tipo de feixe de luz havia surgido do nada. Agora ele podia ver o rosto do outro; o mesmo rosto que o seu, as mesmas feições, marcas. Mas dentro de seus olhos, aqueles olhos negros e negros apenas, ele viu a si mesmo. A dor, raiva, os segredos e desejos mais íntimos.
Algo o retirou daqueles pensamentos, porém. Um som, fino e agoniante, ecoando em sua cabeça. Ecoando, ecoando, ecoando e tornando-se cada vez mais alto, até o momento em que ele achava que sua cabeça fosse explodir.
Abriu os olhos de repente, puxando o ar como se há muito não estivesse respirando. Sasuke e Konohamaru o encaravam surpresos, quase aliviados, mas nada disso chamou a atenção de Naruto. O som continuava ecoando em sua cabeça e havia um sentimento estranho percorrendo seu corpo. Ele levantou-se, seus movimentos automáticos, e começou a andar.
— Naruto — Sasuke tentou puxá-lo, mas o loiro o empurrou para longe e, antes que o Uchiha percebesse, ele já tinha começado a correr.
Nenhum pensamento em particular percorria sua mente, ele só corria. Correu mais rápido do que jamais havia, usando toda a velocidade adquirida naqueles anos de treino. Podia ouvir os passos e gritos atrás de si, de Sasuke e Konohamaru, para que ele voltasse, mas os passos foram ficando cada vez mais distantes, até finalmente silenciarem e ele notar que estava rápido demais para até mesmo Sasuke acompanhá-lo.
Quando o Uzumaki ouviu gritos ele finalmente parou, sabendo que tinha chegado ao seu destino. Seus olhos buscaram seu alvo e lá estava ela, cercada por (ele contou rapidamente) aproximadamente dez ninjas. Eles haviam a machucado e ela mal conseguia ficar em pé agora. Havia sangue em suas roupas, seu próprio sangue, e Hinata apertava os punhos em busca de uma força que já não tinha.
Como ela tinha chegado ali ou o porquê não era importante no momento. Algo dentro de Naruto explodiu de repente e ele sabia exatamente o que queria. Sangue.
Ele desceu lentamente do galho da árvore onde estava, chamando a atenção dos ninjas que estavam se aproximando da Hyuuga, rindo alto e cacarejando coisas estúpidas.
— Mais um pra se juntar a diversão? Foi mal cara, mas aqui já está cheio. — um deles, um homem gordo e de barba castanha, disse com um sorriso estúpido, fazendo os outros rirem. Havia machucados pelo seu corpo inconfundivelmente feitos pelo taijutsu Hyuuga.
Naruto sorriu e, no momento seguinte, estava jogando um dos ninjas mais próximos dele em direção a outro. Os outros soltaram exclamações, se pondo em alerta, e uns dois partiram em sua direção. Naruto não usou nenhum jutsu; oh não, aquilo tiraria toda a graça. Ao invés, ele puxou uma única kunai de sua bolsa ninja. Um dos ninjas tentou socá-lo, mas Naruto puxou-o pelo punho e fez um enorme corte em seu rosto. O ninja gritou atordoado pela dor e pelo sangue empapando sua visão, e caiu ao chão, agonizando. O outro, mesmo assustado com o ataque ao companheiro, partiu para cima do Uzumaki.
— Juuha Shou! — ele moveu o braço e uma lâmina de vento veio na direção do loiro, Naruto pulou para uma árvore e logo depois pulou para cima do ninja, o fazendo cair ao chão. O ataque acertou várias árvores atrás de si antes de se extinguir. O Uzumaki encarou intensamente os olhos castanhos assustados do inimigo, antes de enterrar sua kunai bem no meio de sua testa, sem nenhuma hesitação.
O som da lâmina perfurando a carne agradou os ouvidos do shinobi, bem como o sangue que saiu quando ele retirou a kunai. Outros quatro ninjas avançaram para cima de si de uma só vez e Naruto foi acertado uma, duas, três, talvez dez vezes, por inúmeros jutsus e lâminas. Ele sorriu. Sorriu porque a dor não era nada, o sangue não era nada, aquilo tudo não era nada. Seus ferimentos logo cicatrizariam graças ao chakra de Kurama e ele finalmente desviou-se dos ataques, puxando uma pequena espada de um quinto ninja, e cortando a cabeça do dito-cujo com ela. Sangue espirrou em seu rosto, mas isso era o de menos.
Virou-se para os três ninjas que haviam o acertado; com os olhos arregalados, um deles recuou e foi esse quem Naruto matou primeiro. Correu até ele e enfiou a espada em seu estômago, enquanto girava e, com a kunai, fazia um corte no pescoço do outro shinobi. Retirou a espada do primeiro oponente e partiu para cima do terceiro, que se defendeu com sua própria kunai, então eles começaram uma batalha com as lâminas, vez ou outra um jutsu do fogo (fraco) sendo jogado em Naruto.
Naruto quase riu; aquilo mal era uma luta. O oponente fazia ataques descuidados demais e sua defesa era fraca. No segundo em que ele abriu sua defesa, Naruto o chutou para longe. Ele bateu as costas em uma árvore e o loiro correu até estar próximo o suficiente para enfiar sua mão, coberta em chakra, no peito do inimigo. Ele pegou no coração pulsante do ninja e o retirou de uma vez. O homem caiu ao chão, mas Naruto ficou encarando o coração em sua mão, lembrando-se com a consciência mais do que clara de que havia feito coisas parecidas com outros corpos em Konoha, não muito tempo antes. Ah, tinha sido um dia divertido, não tinha?
Ele sorriu após jogar o órgão agora inútil para longe e se pôr a encarar o restante dos ninjas. Ainda restavam cinco. Seus olhos foram na direção do primeiro ninja que ele atacara com a kunai. Ele ainda não tinha morrido e continuava a agonizar no chão. Naruto aproximou-se rapidamente dele e virou-o para cima com o pé. O shinobi gritou, com os olhos fechados porque não havia necessidade de estarem abertos se tudo o que ele conseguia enxergar era o vermelho do próprio sangue, implorando por perdão.
— Perdão? — Naruto falou pela primeira vez. Sua voz ecoou no silêncio da floresta, enquanto os outros apenas observavam paralisados pelo medo. — Não foi a mim que você machucou. Peça perdão à garota.
— Perdão! — o homem berrou aos céus. Hinata, que observava a tudo, encostada a uma árvore, desviou o olhar, incapaz de observar mais daquilo. — Perdão, por favor, perdão!
— Naruto-kun — a voz dela chegou aos seus ouvidos, fraca, instável, suplicante. Pare, ele quase podia ouvi-la gritar, mas a ignorou.
— Bom. — Naruto aprovou, balançando a cabeça para o ninja. — Mas não acho que suas desculpas irão mudar algo. Elas não irão curar as feridas dela, vão? Elas não vão retirar a dor dela... — ele pisou em cima do homem, fazendo-o chorar com a dor. — Vão?
— Misericórdia, senhor! Misericórdia!
Lá estava. O momento que eles imploravam. O momento em que a verdadeira natureza deles aparecia: fracos, corruptos, tão ansiosos por viver mais um minuto que não se importavam com o que precisassem fazer para que sobrevivessem.
— Deixe-me pensar... Eu estou curioso. Talvez se você me disser onde a atingiu, eu possa deixa-lo ir. É uma negociação. Onde acertou a garota?
— Eu... eu...
— Não quer ser libertado?
— Não, por favor! Eu a atingi no b-braço e na-na perna.
— Com o quê?
— M-minha kunai.
— Por quê? — o ninja piscou repetidas vezes, abrindo e fechando a boca, sem saber o que responder. — Por quê?
— Estávamos lutando — ele gaguejou desesperado, cego pelo próprio sangue, buscando uma explicação que o salvasse. —, era o que eu deveria fazer. E-eu estava me defendendo.
Naruto zumbiu, assentindo lentamente, os olhos fixos nos do ninja.
— Você chama de defesa atacar, junto de nove outros pedaços de merda, uma única pessoa? — ele sorriu um pouco. — Interessante.
— Por favor, me deixe ir!
O loiro zumbiu novamente, pensativo. Então, por fim, assentiu.
— Você foi bem cooperativo. — Naruto o ajudou a levantar-se. — Vá.
O shinobi mal pôde acreditar, mas não perdeu tempo em correr, mesmo temporariamente cego. Ele mal havia se afastado dois metros quando Naruto jogou uma kunai no meio de suas costas. A kunai, embalada no chakra de vento do Uzumaki, trespassou as costas do ninja, enterrando-se em seus órgãos internos. Um grito estrangulado ecoou e o homem caiu de joelhos no chão, antes de deitar-se completamente, morto.
Agora restavam quatro. Naruto girou, encarando os ninjas restantes. Os dois que ele tinha jogado um no outro no começo daquela batalha tentaram fugir, mas o Uzumaki era muito mais rápido. Estava perto deles antes que pudessem piscar.
— Abandonando os companheiros em uma batalha? Que vergonha.
— Katon: Housenka no Jutsu! — várias bolas de fogo foram em direção a Naruto, mas ele pulou para as árvores, escapando por pouco do ataque. Quando a fumaça baixou, o loiro partiu na direção do shinobi que o havia atacado e o puxou pelos cabelos, forçando-o a se ajoelhar de frente ao outro companheiro.
Naruto encarou o inimigo que estava em pé a sua frente.
— Mate-o. — ordenou, apontando para o shinobi ajoelhado. Ambos arregalaram os olhos. — Mate-o e eu esquecerei que você estava aqui e te deixarei ir.
O Uzumaki observou que o corpo do rapaz tremia e aquilo não poderia tê-lo satisfeito mais. Esperou pacientemente pela resposta, mas uma movimentação dos dois ninjas livres no canto de seu olho o chamou atenção. Um deles parecia que estava prestes a ir até Hinata, provavelmente para fazê-la de refém ou algo assim. Estúpidos.
— Nem pense. — a voz de Naruto gelou ambos os ninjas. — A não ser que queira morrer mais cedo. Agora — virou-se para o rapaz a sua frente. Ele não deveria ser mais velho que Konohamaru, provavelmente. —, qual a sua resposta?
— E-eu... — tremendo, ele puxou uma kunai de trás de si. Lágrimas encheram seus olhos, enquanto ele encarava seu companheiro paralisado. — Perdão Raiden...
— Não faça isso, Wato! — o ninja gordo, aquele que havia falado com Naruto quando ele surgiu, gritou.
A lâmina rapidamente atingiu o coração de Raiden e, mais rapidamente ainda, Wato a retirou de seu companheiro. Naruto largou o cabelo do defunto, fazendo-o cair ao chão e encarou o garoto chamado Wato. E sorriu.
— Você acabou de me ver mentir para aquele outro cara — apontou para um dos corpos atrás de si. — que iria libertá-lo e, mesmo assim, acreditou que eu deixaria você ir? — arqueou uma sobrancelha, aproximando-se do rapaz que ergueu a kunai em defesa, perplexo. — Valeu a pena ter traído a confiança do seu estimado companheiro por uma falsa esperança? Espero que tenha.
O espadim que o loiro ainda carregava foi em direção ao ninja, fazendo um corte profundo em sua coxa direita. Wato recuou e girou, conseguindo fazer um corte no braço de Naruto com a kunai que carregava, mas aproximar-se do loiro tinha sido seu erro. Naruto o puxou e enterrou o espadim em seu olho esquerdo, enterrando-o até que a ponta da lâmina fosse vista do outro lado do crânio de Wato. Wato não gritou. Mal tinha visto a arma se aproximar. Havia morrido sem uma mínima noção disso.
Naruto retirou a lâmina ensanguentada da cabeça do garoto. Agora só faltavam dois. Ele virou-se; os dois já estavam a postos, prontos para defender suas miseráveis vidas. Ele aproximou o espadim de sua boca e lambeu a ponta. O gosto metálico do sangue invadiu sua boca e o loiro sorriu de lado.
— Meu Deus, o que é você? — um deles murmurou entre dentes.
Naruto não respondeu e os dois então atacaram, mas o loiro tinha se cansado de brincar. Desviou-se dos ataques e chutou um deles; ele voou para longe e Naruto se focou no outro oponente, começando a socá-lo sem parar. O inimigo desviou-se após o quinto soco e pulou para chutar Naruto, e até conseguiu, mas então o Uzumaki havia se desfeito em fumaça.
— Kage bushin? — o oponente franziu o cenho. No segundo seguinte não havia mais nada além de dor, já que a pequena espada que Naruto carregava estava agora cravada em suas costas.
Naruto afastou-se, levando a lâmina consigo. Agora só faltava um. Olhou para o shinobi gordo que fazia um enorme esforço para se levantar. Patético. Tinha-o deixado por último por um motivo, é claro. Tinha sido ele a gritar para Naruto ir embora porque já tinham muitos deles para a “diversão”.
O Uzumaki aproximou-se sem pressa. O oponente não iria conseguir ir a lugar nenhum mesmo que tentasse, de qualquer forma. Aparentemente os ataques que Hinata havia feito estavam finalmente fazendo efeito (meio tarde, ele pensou quase revirando os olhos). Quando estava próximo o suficiente, o loiro o chutou de novo, fazendo-o cair deitado na grama. Naruto pisou em sua cabeça, fazendo-o dar um grito abafado.
A respiração do loiro estava ofegante e ele estava coberto por sangue e até alguns machucados, mas nada daquilo o preocupava. Ainda restava um para matar. Ainda havia sangue para derramar. O pensamento fez algo dentro de si se contorcer alegremente. Ele aumentou a pressão na cabeça do inimigo.
— Agora — ele começou com a voz macia. —, como você quer ser morto? Talvez eu devesse chamar outros amigos para ajudar, e então todos nós pudéssemos nos divertir torturando-o até que você não tenha mais voz para gritar. — ele pendeu a cabeça para o lado quando o homem gemeu em desespero. — Eh? Não era isso o que você pretendia fazer com a garota? O que mudou? Não é mais tão divertido quando é você a vítima?
— Naruto-kun... — ele ouviu a voz baixa e trêmula de Hinata, mas não tirou os olhos do ninja abaixo de si.
— Eu fiz uma pergunta. — aumentou a pressão que seu pé fazia na cabeça dele; já podia ver uma pequena cratera se formando no chão onde o ninja estava caído. O gordo guinchou mais e se debateu como um peixe fora d’água. — Como você quer morrer?
— Foi ela que nos atacou primeiro! — o homem gritou em uma última tentativa, agoniado.
— Mmhmm — Naruto assentiu, despreocupado. Abaixou-se e tirou uma kunai da bolsa do outro ninja. Naruto o virou com o pé, deixando-o de barriga para cima; o homem estava tão paralisado de medo que nem tentou fugir. Naruto sentou-se na barriga dele, dominando-o do mesmo jeito. — Já que não quer responder, acho melhor eu começar logo. Não queremos perder tempo, queremos? Hm... Talvez eu devesse começar pelos seus olhos. Sim, você tem olhos bonitos. Cheios de pânico e desespero, do jeito que eu gosto.
— Eu não fiz n... nada com ela! Por favor, eu só estava rindo, eu nunca...
O riso baixo de Naruto o alertou que ele deveria parar de falar imediatamente, e foi isso o que o ninja fez.
— Rindo. E no que isso te faz melhor do que aqueles seus repugnantes companheiros? — ele passou a kunai suavemente pelo rosto gorducho do shinobi, quase como uma carícia. — Diga. Diga o que você sentiu ao vê-la sendo machucada e submetida aos seus amigos. Você achou bom? Você gostou? — Naruto gritou com raiva borbulhando dentro de si ao pensar no que poderia ter acontecido a Hinata se ele não tivesse chegado antes. As palavras de antes se repetiam em sua mente, de novo e de novo: “Mais um para se juntar a diversão?” — Você sente prazer ao ver outros sendo dominados como você está sendo agora?
E antes que o homem pudesse assimilar o que ele estava dizendo, o Uzumaki já tinha descido a kunai. Um grito ecoou pelas florestas enquanto o ninja tentava mover as mãos até seus olhos, mas o loiro mantinha os joelhos pressionados nelas, imobilizando-as.
Ele ouviu um soluço quieto atrás de si. Hinata. Algo em sua mente alertou-o que devia parar, mas descartou tal pensamento. Estava divertido demais para parar.
— Não seja um bebê. — disse para o homem que implorava baixinho, as lágrimas rolando junto com o sangue do olho direito e agora inutilizável, fazendo-o parecer que chorava sangue. Naruto sorriu, achando a cena levemente fascinante. — Talvez devêssemos dar um sorriso a esse rosto.
Ele enterrou a kunai novamente no rosto do homem, dessa vez fazendo um corte lateral em sua boca, fazendo um corte que relembrava vagamente um sorriso se abrir.
— Naruto-kun — Hinata sussurrou e ele conseguia sentir o medo no modo em que a voz dela estava ainda mais baixa e frágil que o usual. Agora ela finalmente estava vendo o verdadeiro Naruto, ele pensou. Ainda vai me amar depois disso, Hinata? —, pare.
Ele não parou. Queria ver até onde o ninja abaixo de si aguentaria. Largou a kunai ensanguentada e formou uma bola de ar em sua mão. Baixando, ele pressionou a bola sobre a boca e o nariz do ninja e a manteve lá, observando atentamente o modo como o shinobi tentava se debater e revirava o olho esquerdo, ficando roxo com a súbita pressão de ar dentro de si, sem conseguir respirar.
— Resista — Naruto ordenou, arqueando uma sobrancelha. — Você não vai desistir assim, vai?
Podia ouvir o choro abafado do homem e quando ele finalmente retirou a mão, o ninja sugou o ar como se fosse a única coisa no mundo, sua boca retorcendo-se de modo grotesco e seu único olho piscando incontrolavelmente.
Ele ouviu a voz de Hinata ao longe, um distante suspiro que não era importante naquele momento.
Naruto decidiu que ainda não era o bastante. Seu punho desceu e encontrou o rosto do homem. Uma, duas, cinco vezes. Ele já mal conseguia ouvir a respiração falha do gordo e os apelos foram ficando cada vez mais quietos. Os nós de seus dedos estavam ensanguentados e dormentes, mas ainda não era suficiente.
Puxou a cabeça dele pelos ralos cabelos, afundando-a na grama, batendo-a no chão até que uma poça de sangue se formasse ao redor dos dois e já não houvesse mais nada ecoando pela floresta do que o som da sua própria respiração e seus batimentos cardíacos acelerados. Mas Naruto ainda não tinha parado, perdido em seu próprio mundo, o único pensamento que rodava em sua cabeça sendo o de machucar aquela pessoa, mais e mais e mais, até que o rosto machucado de Hinata saísse de sua cabeça e ele se sentisse vingado o bastante.
Levantou o punho novamente, mas quando estava na metade do caminho sentiu algo o segurando. Quando olhou para cima, os olhos assustados de Hinata agora eram direcionados para si. E ela chorava e tremia e o encarava como se implorasse; o mesmo olhar que suas vítimas o davam pouco antes de serem mortas.
— Naruto — não passou de um sussurro, e a mão segurando a sua tremia tanto que ele estava surpreso como ela tinha conseguido pará-lo. —, por favor. Ele já está morto. Pare.
Ele piscou, os olhos de Hinata perfurando os seus, e foi todo o necessário para que ele voltasse a si. Como se tivesse levado um choque, ele afastou-se dela e do corpo, tropeçando e caindo em outro no caminho. Com a respiração cortada, ele rastejou até que suas costas encontrassem o tronco de uma árvore, longe dos corpos e do sangue, mas ele não podia fugir, não podia fugir porque havia sangue cobrindo sua pele e suas roupas e suas mãos estavam sujas, e aquele sangue não era dele — e o cheiro, meu Deus, o cheiro metálico e podre parecia ser seu próprio perfume.
E o pior, Naruto percebeu enquanto encarava os corpos a sua frente, era que ninguém havia o controlado. Não havia tido nenhuma perda de controle ou de consciência, ele sabia o que estava fazendo o tempo todo, ele quis, desejou aquilo. Ele, Naruto, sozinho. E mais ninguém.
Há algo de errado com você, ele murmurou na solidão de seus pensamentos, odiando o modo como havia gostado tanto daquilo. Como você chegou aqui? O que de tão errado aconteceu pra você se tornar isso, Naruto? Por quê? Por quê?
Ouviu passos hesitantes se aproximando e só percebeu que estava chorando quando levantou a cabeça e viu a visão nublada de Hinata agachando-se perto de si. Não conseguia lembrar da última vez que havia chorado. Ele piscou e as lágrimas desceram e ele pôde ver claramente que o medo de antes ainda estava lá nos olhos dela, mas ainda assim, a Hyuuga levantou uma mão receosa e a pousou no rosto dele, com uma suavidade e carinho que ele não devia ter; que ele não merecia.
Quis gritar para ela se afastar, quis correr, fugir dali, fugir da culpa e da vontade — a vontade ainda presente de fazer tudo aquilo novamente. Da vontade de ouvir os gritos e choros, de sentir a adrenalina fazendo seu sangue correr mais rápido e seu coração acelerar tanto que o fizesse pensar que iria sair do peito. Quis fugir de sua própria mente.
Mas não podia. Então Naruto fechou os olhos e chorou, chorou o que não havia chorado por todos aqueles anos, sentindo o peito se comprimir de forma dolorosa, e deixou-se ser embalado pelos braços daquela que sempre clamou amá-lo. Mas ela não podia. Ninguém poderia sentir algo tão puro por ele.
Afundando o rosto nos cabelos negros, ele apertou os braços ao redor da cintura dela, sentindo seu ombro, onde a garota pousava a cabeça, úmido. Perguntou-se por que ela estaria chorando. Talvez porque tivesse finalmente aceitado o que Naruto tanto esfregara em sua cara: ele era um monstro, sem salvação, sem remédio, sem cura.
Quis perguntar, quis genuinamente saber se ela ainda o amava, se ela ainda conseguia sentir algo que não nojo por ele, e se tudo aquilo, aquele abraço, aquele carinho, não era só um ato de pena.
— Por que não se defendeu? — foi o que saiu de sua garganta, sua voz rouca e o gosto salgado das lágrimas em seus lábios. Sabia que a Hyuuga era perfeitamente capaz de ter acabado com aqueles ninjas sem ajuda de ninguém.
Ela ficou quieta por um momento, sua respiração baixa e lentamente se acalmando.
— Eles... — ela pausou, respirou fundo e aumentou sua voz. — Eles tinham informações sobre a organização de Masao, então eu fingi não saber lutar e os enrolei para que eles acabassem deixando escapar algo, mas... mas eu me descuidei e eles eram... eles eram muitos... — a voz dela falhou. Tinha negligenciado demais os adversários, algo que um ninja nunca deve fazer. Talvez, se não tivesse errado tão horrivelmente, então talvez nada daquilo tivesse acontecido.
— Não foi sua culpa. — Naruto disse baixo, a surpreendendo. Hinata sempre tinha sido muito fácil de ler. Ele lentamente retirou os braços ao redor dela e, mesmo hesitante, ela também se afastou. O Uzumaki a encarou; as roupas dela agora estavam manchadas com o mesmo sangue manchava as dele, e seus olhos moveram-se para trás dela, retornando ao massacre de corpos que ele tinha feito. Ele sentiu os olhos arderem e Hinata puxou suavemente seu rosto para que ele pudesse encará-la.
— Você me protegeu. — ela disse baixinho. Ele começou a balançar a cabeça, mas ela o segurou firme. — Você me protegeu. Não... não da melhor maneira, mas você me salvou e, por favor... por favor, não se culpe por isso.
Como ela ainda podia dizer aquilo? Como ela ainda conseguia olhar nos olhos dele e não sentir repulsa? Porque era tudo o que Naruto sentia naquele exato momento. Nojo de si mesmo.
— Você sente medo de mim, Hinata. — ele forçou as palavras a saírem de sua boca, observando o modo como os olhos dela desviaram-se dos dele por um momento. — E deveria. Eu não sou confiável. Eu não sou bom. E eu sinto muito — murmurou de forma miserável. —, mas o Naruto de doze anos que você conhecia não existe mais. Perdão.
Ela pressionou os lábios e balançou a cabeça, encarando-o.
— Então por que quando eu olho nos seus olhos eu ainda consigo vê-lo, Naruto-kun? Eu vejo um garoto de doze anos assustado cujo único desejo é nunca ficar sozinho novamente. E você não precisa. — ela encostou a testa na dele, sem conseguir controlar as lágrimas que rolavam por suas bochechas. — Ele ainda está aí, se apenas você conseguisse enxergar isso...
Então Naruto cedeu porque ela ainda estava ali. Por ele. Mesmo depois de tudo o que havia presenciado; mesmo que ele ainda pudesse ver no fundo dos olhos perolados um pequeno brilho de medo (ofuscado pelo de determinação) e mesmo que ele não valesse a pena... ela continuava ali.
— Hinata — ele mal conseguiu ouvir a própria voz. As próximas palavras, no entanto, foram carregadas de uma súplica que as fizeram mais do que audíveis. —, eu preciso de ajuda. Por favor. Por favor, me ajude.
Um soluço partiu dos lábios da Hyuuga e ela assentiu freneticamente, suas mãos acariciando as laterais do rosto de Naruto, e era isso. Ele finalmente havia caído em si, acordado. Naruto precisava de ajuda, de apoio, precisava sair daquele buraco que ele próprio havia cavado tão profundamente dentro de si mesmo.
— Vai ficar tudo bem. — ela balbuciou. — Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.
E mesmo que nada ficasse bem, Naruto sabia que ela continuaria ao seu lado. E aquilo, ao menos por aquele momento, bastava.
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