I'm Not a Hero
11 So I'll find what lies beneath your sick twisted smile
Notas iniciais
“Ou você morre como herói, ou vive o suficiente para ver a si mesmo se tornar o vilão”.
— Harvey Dent, The Dark Knight.
Talvez tivesse sido um erro. Talvez não devesse ter aceitado tão rápido; tinha que ter pensado mais, e considerado a situação melhor, mas... Diabos, quem ela queria enganar? Afundou o rosto entre as mãos, irritada, cansada, mas, acima de tudo, preocupada.
Masao era terrivelmente preocupante sozinho, mas dentro de uma organização? E ela achando que nada poderia piorar... Teve vontade de rir de si mesma; sempre fora ingênua, não fora? Achava que matando Masao tudo poderia se resolver. Não que ela e os amigos fossem ter um final de contos de fada, depois de tudo pelo que tiveram que passar; não que tudo fosse acabar com eles vivendo felizes para sempre. Não, esse tipo de ingenuidade já havia lhe deixado muito tempo atrás. Mas achava que pelo menos, se o matasse, eles ficariam em paz. Ou tanta paz quanto possível.
Mas nem mesmo isso parecia que eles teriam. Quando tudo tinha ficado assim tão complicado? Quando tudo havia se tornado tão bagunçado, tão irreparável? Uma brisa fez seus cabelos voarem, e ela inspirou o ar profundo da noite. Talvez tivesse começado quando puseram a primeira kunai em suas mãos e os ensinaram a usá-la em alvos presos em troncos de árvores. Talvez tivesse sido quando tais alvos viraram pessoas.
Ou talvez houvesse sido quando participaram pela primeira vez do sangrento exame Chunnin, em que eles tinham que competir para... para o quê? Para que as nações ficassem em paz fazendo seus ninjas lutarem uns contra os outros? Para que pudessem mostrar aos outros países seu poderio militar, para que nenhum deles resolvesse se rebelar contra o outro, fazendo crianças lutar em uma arena para que todos pudessem ver, aplaudir, fazer suas apostas?
Talvez sempre tivesse sido daquele jeito bagunçado, mas as coisas só pareciam claras naquele momento. Quando era criança, de alguma forma tudo parecia menos horrível e mais... reparável, talvez.
Percebeu um movimento na mata abaixo da árvore onde estava sentada; em alerta, ativou o byakugan, mas era só o vento. Relaxou. Fazia dois dias e meio desde que viajava com Naruto e Sasuke, e, por todos os deuses, vinha sendo torturante. Eles só se falavam quando era necessário; bem, ela e Sasuke — sim, Sasuke, o antissocial, aquele com quem ela tivera menos intimidade do que com uma porta em sua infância e adolescência.
Ela e Naruto mal se olhavam. Quer dizer, ela não o olhava. Ele parecia bastante indiferente à sua existência, e na maior parte do tempo agia como se ela sequer estivesse ali, o que era bastante pior.
— Deveria ir dormir. — ela se assustou, mas não ousou se mexer.
— Não estou cansada. — murmurou. Não precisava se virar para saber que ele estava de pé ao seu lado. Sua presença parecia queimar tudo ao redor. Ou talvez fosse só seu corpo reagindo a ele. Como sempre.
— Seu turno já acabou.
— Já disse que não estou cansada. Posso continuar a vigiar.
Naruto revirou os olhos, gesto que ela não viu, porque estava ocupada demais olhando para qualquer canto longe dele.
— Você diz isso agora, mas quando amanhecer vai estar tão cansada que vai acabar desmaiando. Vá dormir.
Hinata suspirou e, não querendo brigar, sugeriu:
— Não podemos fazer a vigia juntos?
— Não.
Virou-se finalmente. Ele olhava para o céu escuro e de poucas estrelas, perdido em algum pensamento.
— Por quê?
Observou-o. Seu maxilar estava meio travado, e o loiro parecia conter-se, por algum motivo que ela não conseguiu compreender. Aquele Naruto a sua frente era uma caixa de mistérios cuja chave era completamente inacessível para si.
— Porque eu não quero. Agora vai.
Ela levantou-se, mas não fez menção de sair dali. Naruto a encarou. Talvez fosse a falta de luz no local, ou apenas sua imaginação, mas os olhos dele pareciam mais escuros do que o normal.
— Por que minha presença te incomoda tanto? — ela murmurou, fazendo-o arquear uma sobrancelha.
— Não se ache tão importante. — sorriu com escárnio. — Você faz parte de Konoha, e eu não tenho lá muito amor pela vila. Fim de história.
— Não. — ela lhe encarava com tranquilidade, como se conseguisse enxergar até sua alma. Era o mesmo olhar que tinha lhe dado antes de eles partirem em direção à Vila da Folha. Aquele olhar de tudo e nada. — Não é só isso.
Curioso, ele arqueou a sobrancelha, debochando dela.
— Não?
— Não. Talvez alguma parte sua realmente odeie Konoha, mas não é só por isso que não quer voltar para lá. Está com medo.
— Medo? — ele repetiu incrédulo, quase rindo da estúpida hipótese. Mas Hinata continuava a ostentar um semblante sereno.
— Sim, Naruto-kun. Está com medo do que acontecerá quando chegar lá. Está com medo de reencontrar todos e voltar a sentir o que sentia antes disso tudo.
— E o que eu sentia, Hyuuga? — aproximou-se dela, esperando que recuasse. Ela não recuou, no entanto, e agora eles estavam próximos demais.
— Alegria. Amizade. Amor. — ela sussurrava, porque não havia motivos para se falar mais alto. Ele estava tão perto... — Está com medo de que volte a sentir tudo isso e todo o rancor que guardou por tanto tempo vá embora... Mas, acima de tudo, está com medo de que descubram o que quer que você esconda.
Aquilo finalmente o atingiu.
— O quê?
— Você esconde algo, não é, Naruto-kun? Um segredo que ninguém, além do Uchiha-san, sabe.
— Está enganada. — disse se afastando, pronto para sair dali.
— Não, não estou, e é por isso que você está fugindo! — aumentou a voz, fazendo-o parar. — Está fugindo porque tem medo de que alguém se aproxime muito e descubra o que quer tanto esconder!
“Eu ainda assim consegui entrar nas... profundezas da sua cabeça, digamos assim. A parte que você tanto tentou esconder... Todo aquele ódio, aquela dor, mascarados por um sorriso por tantos anos...”, as palavras de Masao ecoaram na mente do Uzumaki, como um estalo.
— Cale a boca, Hyuuga... — resmungou de olhos fechados.
Ela balançou a cabeça, recusando-se. Estavam finalmente conversando, mesmo que aquilo estivesse mais para uma briga do que um diálogo civilizado, mas ela estava finalmente conseguindo alguma reação dele, alguma emoção que não fosse raiva ou apatia... e estava tão curiosa!
— Qual é o seu grande segredo, Naruto-kun?
“E todo o mundo shinobi pensando que você tinha o coração mais puro de todos...”.
— O que você tanto esconde?
“Quão decepcionados eles ficariam...”.
Ele se aproximou tão rápido que ela mal teve tempo de piscar. Pressionou-a contra a árvore, rudemente.
— Acredite quando eu digo: você não vai querer descobrir. Agora vá dormir. — pulou para longe e desapareceu entre as árvores.
Apertou os olhos, frustrada, exausta. Não sabia por que ainda tentava. Naruto era inalcançável agora... ao menos para ela.
Moveu os olhos até o caminho por onde ele tinha ido. Talvez alguém, em Konoha, conseguisse trazê-lo de volta... Talvez Sakura conseguisse alcançá-lo. Afinal de contas, fora ela o seu primeiro amor... E Hinata bem sabia que algo assim não era tão fácil de esquecer... Ah, sim. Sabia muito bem.
Ficou lá, parada, a cabeça pressionada contra o tronco da árvore. Ficou daquele jeito até por fim decidir que dormir era a única coisa que restava a fazer. Quem sabe dormir fosse tirar aquele vazio de seu peito...
[...]
Shikamaru observava o céu do telhado de uma das casas reconstruídas. A vila agora já estava metade restaurada, e quase parecia Konoha novamente, a não ser pela rala população.
Aproximou-se do Nara. Ele estava sempre ocupado ultimamente; enquanto todos os outros treinavam para ficarem mais fortes, ele se atolava em milhares de papéis e pergaminhos, trocando informações com outras vilas, bolando estratégias, tentando, de alguma forma, descobrir algo de útil contra Masao e a recém-descoberta organização.
Não importava o quanto ele não quisesse, ele daria sim um bom Hokage.
— Por que me chamou aqui?
Shikamaru virou os olhos para ele e lhe jogou um pequeno pergaminho.
— Chegou no dia anterior, mas só tive tempo para mostrar agora. — foi tudo o que disse.
Neji olhou para ele e depois para o papel, abrindo-o por fim, já imaginando quem havia enviado aquilo. Dizia, em uma letra elegante e inclinada:
Ele releu dez vezes aquelas simples cinco palavras antes de finalmente encarar Shikamaru. Apesar do alívio que sentia pela prima estar bem, suas palavras eram distantes e ele sentia que algo não estava certo.
— “Estamos chegando.” — ele repetiu. O Nara assentiu lentamente. — Já avisou aos outros?
— Não. É ela quem os está trazendo. Ela quem explicará. — tornou o olhar para o céu negro. — Nós dois também precisamos de uma explicação.
— É uma notícia boa... — O Hyuuga disse, mas não havia certeza em sua voz.
— Ambos sabemos que infelizmente não há nada de bom nisso, Neji. Se Sasuke e Naruto estiverem mesmo voltando a Konoha... há um motivo maior do que simplesmente saudade da vila. — ele suspirou. — Me pergunto o que terá acontecido...
•••
A aurora deixava Konoha com uma aparência suave, como se não existissem cicatrizes naquela vila, como se fosse alguma vila não ninja, um lugar completamente pacífico. Mas era só aparência. A verdade era muito diferente, é claro.
Mal havia amanhecido, mas Konohamaru já estava de pé há muito tempo. Acordava antes que o sol raiasse, e ia dormir muito depois que deveria. Treinava incansavelmente todos os dias; precisava ficar mais forte, mais forte e mais forte... precisava ajudar os outros a proteger Konoha... precisavam derrotar Masao...
Bem, dizer que ficar mais forte era seu único motivo para treinar não seria inteiramente verdade. Não era só por isso que se desgastava todo santo dia, lutando contra árvores, treinando novos jutsus, melhorando seu Katon... não. Havia outro motivo muito maior: ter menos tempo para pensar em outras coisas.
Como Moegi e Udon. Como Hanabi.
Ebisu havia morrido na Quarta Guerra, como um herói. Pensar nele não lhe trazia culpa, apenas saudosismo e orgulho. Ele havia sido um ótimo sensei, um ótimo ninja e um ótimo homem, e não tivera que morrer no meio da noite, com um ataque surpresa de uma raposa gigante cujo poder não podia defender, como acontecera a seus companheiros de time.
Treinar lhe deixava mais forte e mais exausto, o que geralmente também o garantia sonhos (mais para pesadelos) longe deles. Não gostava de pensar em seu time porque aquilo só o lembrava de como fora incapaz de protegê-los; não gostava de pensar em Hanabi porque aquilo o lembrava de como ela o havia protegido, e ele havia falhado em protegê-la de volta. Ela havia morrido por sua causa. O sangue da Hyuuga estava em suas mãos, e mesmo que nem Hinata ou Neji o culpassem por qualquer coisa, ele se culpava.
Parou de chutar uma árvore, percebendo que seus pensamentos não conseguiam parar de se dirigir aos mortos. Suspirando, sentou-se na grama. O outro motivo pelo qual não gostava que aqueles três invadissem seus pensamentos era que aquilo o lembrava de que tudo o que eles eram agora eram pensamentos. Memórias.
Udon era seu melhor amigo, sempre junto em suas travessuras, sempre pronto para ajudar-lhe quando preciso. Tinha se tornado um rapaz esperto e, imitando a rivalidade que Naruto tinha com Sasuke, Konohamaru também passara a competir com ele. Bem, ao menos tentar competir; Udon sempre ignorava as provocações e tentativas de briga. Sempre fora muito calmo e, segundo ele, os dois não precisavam de nenhuma rivalidade para que sua amizade fosse tão forte quanto a de Naruto e Sasuke.
Mas ele estava morto há mais de dois anos, e já não havia mais ninguém a quem pedir conselhos e brigar.
Moegi também era sua melhor amiga, mas também fora sua primeira paixão. Deu um pequeno sorriso ao lembrar-se dela; havia se tornado uma garota muito bonita aos quatorze anos, diferente da pirralhinha de dez anos que ele havia conhecido.
Ela era sempre gentil com ele, e fora o suficiente para que se apaixonasse. Mas ela era tão boa, e ele era apenas um garoto travesso que nunca lhe despertaria algo além de amizade. E apesar de pensar isso, quase chegara a confessar seus sentimentos a ela. Quase, já que no dia após ter decidido pedi-la em namoro, a vila fora atacada pela Kyuubi.
Então Moegi morrera e já não havia mais nada para pedir ou confessar.
Aí viera Hanabi. Ela também havia perdido o time no ataque, e eles acabaram se aproximando por causa das idades e dores parecidas. Ela entrara lentamente em seu coração, curara as feridas, juntara os pedaços com seu jeito delicado e ao mesmo tempo selvagem que ele tanto admirava. Ela era maravilhosa. E ele apaixonou-se pela segunda vez.
Mas Hanabi estava morta também. Aparentemente ele não tinha muita sorte com garotas. Sorriu pesadamente com o pensamento.
O sol já brilhava intensamente na hora em que ele decidiu retornar ao treino, tentando tirar os pensamentos melancólicos de sua mente.
[...]
Ela tremia compulsivamente. Não chorava, porque já tinha há muito aprendido a controlar as lágrimas. Mas não os espasmos. Não a tontura, a dor ou a breve insanidade que lhe ocupava a mente; não tinha capacidade de controlar aquilo.
A porta abriu-se, fazendo com que luz adentrasse o cômodo escuro demais e a cegasse brevemente. Cobriu o rosto com os braços, mas a luz durou pouco. A porta já tinha sido fechada.
— Outra visão?
Ela baixou os braços, mas não respondeu, começando a balançar-se de um lado para o outro. Enterrou as mãos nos fios claros e emaranhados, com os olhos fixos no nada. Começou a cantarolar baixinho.
— Mayumi... — ignorou a voz que lhe chamava.
— Um, dois, três corpos — sua voz era melodiosa, como se estivesse entoando uma velha canção. A pessoa parada ao seu lado, porém, sabia que estava ouvindo muito mais do que alguns versos de uma música qualquer. — Sangue... e dor... e ossos...
As imagens se repetiam incessantemente em sua cabeça. Agarrou com mais força seus cabelos, como se aquilo fosse fazê-las parar. Infelizmente, por pura e dolorosa experiência, Mayumi sabia que não adiantaria. Por isso, fez a única coisa que sabia que cessaria a visão: continuar a entoar os versos.
Quatro, cinco, seis mortos...
E a mão que agarra seus pescoços
Revelará olhos insanos...
Sete, oito, nove corpos...
E apenas morte ele trará, se assim continuar
Mas alguém o poderá ajudar...
Dez, onze, doze mortos...
Se ele permitir, o outro irá sucumbir
E, uma vez mais, salvação ele trará...
Treze, quatorze, quinze corpos...
Mas se recusar, desespero causará
E, uma vez mais, o mundo em guerra cairá
E herói não mais ele será
E parou, tão de repente quanto começara. Ainda tremendo, subiu a cabeça e encarou os olhos verdes atentos. O homem acendeu a luz do recinto, fazendo-a encolher-se.
— Apague isso! — suplicou.
— Não pode viver na escuridão para sempre, Mayumi. Escuridão não fará suas visões irem embora.
Ela fungou. Convivia com aquele fardo desde que completara dezesseis anos, e aquilo fora quatro anos atrás. Nunca quisera aquilo. Nunca quisera aquela maldição, aquele peso em seus ombros. Só queria paz. Por que era tão difícil? Estava tudo correndo bem...
— Ele está seguindo o caminho errado... — ela murmurou, tremendo, balançando a cabeça. — Ele é o salvador, é ele o destinado... por que ele está seguindo o caminho errado? Se continuar assim...
— Suas visões têm sempre dois lados, Mayumi. Dois caminhos. — respondeu. — Às vezes eles escolhem o certo... às vezes, não. Você já devia saber disso depois de quatro anos...
Ela voltou a balançar-se, perturbada. Insana. Sempre era assim. Toda aquela loucura passava para ela; as visões, o sangue... conseguia até mesmo sentir o cheiro, aquele cheiro de morte que rodeava aquele garoto desde a guerra...
Focou-se no homem a sua frente.
— Você sempre escolheu o errado... — sussurrou tristemente. — Por que, Masao? Por que causar tanto horror a um mundo que já sofreu tanto?
O Shimura aproximou-se. Mayumi não recuou, apenas continuou lá, sentada no chão do quarto onde ela se trancara desde que as visões começaram. Ninguém poderia saber o que ela sabia, ninguém deveria ouvir o que ela contava; ninguém poderia saber seu futuro, seu final, porque eles tentariam mudá-lo... mas aquilo só acabaria fazendo com que fizessem as escolhas erradas, o que acarretaria em sua morte.
Por isso se trancara naquele local. Ele era lindo lá fora, com jardins brilhantes e verdes, com um céu sempre azul sobre sua cabeça, com um ar sempre tão puro. Masao fizera tudo aquilo por ela, só por ela, sua doce virgem, seu maldito oráculo.
— Tudo isso por poder? — ela sussurrou.
— Poder foi tudo o que me restou. — ele tocou sua face, e embora seu tom fosse frio, seu toque era quente. — É tudo o que eu posso conquistar.
— Não. — disse chorosa. — Poderia ter sido diferente. Você poderia ter feito escolhas diferentes.
— Acorde, Mayumi. — seu tom de voz era duro, porém baixo, e ele retirou sua mão da face dela. — Eu estava destinado a isso. O maldito Uzumaki ainda tem o poder da escolha. Salvador ou destruidor, ele é quem decidirá. Mas eu não tenho mais isso. Sou apenas o causador de tudo, o destruidor. E, se quer saber, estou feliz assim. — deu um pequeno sorriso sádico, que não assustou Mayumi como faria em qualquer outro. — Ser o vilão é tão mais divertido...
Ela estendeu as mãos e agarrou o rosto dele com delicadeza, e o olhar que lhe deu era suave demais, gentil demais.
— Pare com isso. — ordenou com raiva. Odiava vê-la com aqueles olhos inocentes, aquela ingenuidade estúpida da qual ela não conseguia se desfazer. — Pare de me olhar como se ainda houvesse algum tipo de bondade dentro de mim.
— Eu sei que a dor dentro de você há muito tempo se tornou ódio, e nada poderá lhe tirar isso. Eu sei que você nunca poderia ter sido algum tipo de herói. Você sempre gostou de causar dor, Masao, desde criança. Eu sei disso. Mas não minta para mim. Eu sei que ainda tem uma parte sua, pequena demais, é verdade, mas ainda existe uma parte sua que pensa como teria sido se tivesse feito escolhas diferentes. Você ainda tem fraquezas como qualquer ser humano, Masao.
— Cuidado com o que fala. — alertou com frieza.
Ela lhe encarou profundamente, com seus olhos dourados e profundos.
— Você não me machucará. — sussurrou, e embora por muito tempo aquilo tivesse sido uma pergunta, agora era uma afirmação.
Ele a encarou de volta e havia algo quase bom em seus olhos verdes.
— Não, Mayumi, não machucarei. — no segundo seguinte, seus olhos haviam voltado a se tornar os sádicos olhos com o qual ela era acostumada. — Mas apenas porque preciso de você para saber o que o futuro me reserva.
E afastou-se dela, saindo dali.
— Não é só por isso, Masao, e você bem sabe. — ela ainda lhe disse, com uma triste confiança de quem sabia o que falava, mas ele lhe ignorou e saiu, deixando-a sozinha novamente. Ela tocou o colar que carregava no pescoço e suspirou.
O pingente, um número três, balançou.
[...]
Acordara pouco depois do sol nascer, e fora banhar-se em um lago perto de onde havia acampado com os rapazes. Quando voltou, Sasuke alimentava uma fogueira, mas não havia sinal de Naruto.
— Onde ele está? — o Uchiha perguntou quando ela se aproximou. Hinata, distraída em pensamentos, assustou-se com a pergunta.
— Quem?
— “Quem?” — ele repetiu, revirando os olhos. — Naruto. Onde o idiota está?
— E por que eu deveria saber? — rebateu, na defensiva.
Sasuke franziu o cenho.
— Quando fui fazer a vigia, ele já não estava aqui. Imagino que deva ter acontecido algo. — e encarou-a suspeitosamente.
Ela trocou o peso do corpo de uma perna para a outra, desconfortável e com uma leve preocupação.
— Nós... meio que discutimos ontem à noite... Ele saiu, mas pensei que voltaria logo, então fui dormir...
Sasuke suspirou, cansado daquelas discussões entre aqueles dois. Pareciam duas malditas crianças que ele precisava vigiar para saber se estavam se comportando direito.
— Vou procurá-lo. — mas quando se virou, Naruto estava a sua frente.
— Já me achou. — o loiro disse com simplicidade, e então jogou a carcaça de cinco animais mortos no chão. — Pro café da manhã.
O fedor fez Hinata virar o rosto.
— Não precisava matar tantos... — murmurou.
— Eram eles ou o seu pescoço. Deveria me agradecer. — ele sorriu com cinismo. O olhar que Sasuke lhe deu era quase cauteloso, e o loiro revirou os olhos. — Qual é, foram só alguns animais. Eu estava com vontade de comer carne.
Mas o Uchiha sabia que era mentira. Você estava com vontade de matar, era o que gostaria de rebater, mas não diria nada na frente da Hyuuga. Virou-se para os corpos.
— Bem, o que estão esperando? — disse para os dois. — Comecem a raspar o pelo.
— Eu... eu vou comer peixe. — a Hyuuga disse, não suportando olhar para as raposas. Virou-se para voltar ao lago.
Naruto revirou os olhos, pegando um dos animais.
— Ela sempre foi gentil demais pra ser uma ninja.
— Naruto, você tem que parar com isso.
— Agora também não posso mais reclamar da Hyuuga? — bufou.
— Não é disso que eu estou falando. Você está ficando pior.
— Não estou.
— Está! Olhe o que você fez! — apontou para a raposa que segurava. Seu pelo estava coberto de sangue e seu pescoço tinha sido quebrado de uma forma brutal.
Kurama continuava a bufar na mente de Naruto desde que ele matara o animal, o que apenas divertia o loiro.
Está sensível, Kurama?
“Cale a boca, moleque”, ela rebateu.
— São só raposas, Sasuke. — revirou os olhos pela décima vez. — Está sensível hoje também?
— Muito engraçado, Namikaze. Hoje são raposas, amanhã é a pele de alguém. — estreitou os olhos para o loiro. — Estamos nos aproximando cada vez mais de Konoha. Se isso continuar, você vai acabar matando alguém lá. É isso o que quer?
— Eu posso me controlar! — bufou.
— Pode, mas não está conseguindo. — balançou a cabeça. — Você não está sequer tentando.
Naruto desviou o olhar, com raiva.
— Eu estou certo, então? — arqueou as sobrancelhas. — Mas que merda, Naruto, você está se deixando ser controlado!
— Ele sempre fica mais forte à noite, imaginei que deixá-lo sair um pouco só por uma única noite não seria grande coisa.
— Você sabe muito bem que é! — bufou. Gostaria de estrangular o dobe a sua frente. — Era a mesma coisa com Kurama. Você deixava a raposa sair e depois não conseguia mais se controlar.
— Acho que devemos seguir viagem. — levantou-se, dando por encerrada a conversa. — Você chama a Hinata, e eu espero aqui.
— Essa conversa ainda não acabou.
— Hm.
— Naruto, você sabe que se fizer qualquer coisa...
— Você vai me parar. Eu sei. Fui eu que pedi por isso, Sasuke, eu lembro muito bem. Agora dá pra chamar a Hyuuga?
Havia algo estranho demais nele e, pela primeira vez, o Uchiha temeu que não existisse mais volta para o que quer que Naruto estivesse se tornando.
•••
Passaram horas em silêncio, mas daquela vez tudo parecia mais rápido. Pelo menos para Hinata. Talvez se sentisse assim porque já estavam na floresta que dava acesso à Konoha. Estavam se aproximando, e se aproximando, e se aproximando...
Ela já podia ver alguns prédios, ao longe, reconstruídos. O portão. Eles tinham reconstruído o portão de entrada. Quase sorriu, mas então se lembrou de quem a acompanhava, e a ansiedade invadiu seu estômago. Olhou para o lado. Sasuke não ostentava nenhuma expressão de melancolia ou felicidade. O rosto de Naruto estava coberto em sombras, mas provavelmente estava do mesmo jeito que o amigo. Deveria imaginar. Por que se sentia tão decepcionada?
Suspirou quando os três desceram das árvores, pousando em frente ao portão de entrada. Começou a caminhar e, após cobrirem as cabeças com os capuzes, eles a seguiram.
As ruas não estavam muito cheias, e nenhum konoha parou para observá-los, porque estavam todos muito ocupados ajudando na reconstrução de prédios como o hospital e o antigo prédio dos Hokages.
Já havia várias casas reconstruídas, mas continuava a ter tendas do mesmo jeito, e Hinata suspeitava que o conselho ainda se reunisse no mesmo local. Avistando a maior tenda, dirigiu-se até ela.
— É lá. — avisou a eles.
Seu estômago estava embrulhado. Torcendo para que apenas Shikamaru estivesse lá ao afastar o pano da entrada e entrar, ela teve uma não tão agradável surpresa. Todo o conselho de Konoha estava reunido; nenhum suna a vista, mas todos os antigos amigos dele estavam lá.
Os olhos de todos focaram-se primeiro nela, surpresos, aliviados, e depois nos dois encapuzados atrás de si. Então, quando Sasuke retirou o capuz, todos se levantaram de supetão.
Naruto repetiu o gesto com lentidão, e havia um sorriso selvagem em seu rosto quando finalmente revelou sua identidade.
— Tadaima. — disse vagarosamente, focando o olhar no rosto de cada um ali. Ele parou no rosto de Sakura; primeiro surpreso, depois incrédulo, então choroso. Lembrou-se da última vez que havia a visto e do último olhar que ela lhe dera, muito diferente daquele de agora. Seus olhos se estreitaram e seu sorriso, contrariando a lógica, apenas aumentou. — Ah, é tão bom estar de volta...
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