I'm Not a Hero
12 Bonus II: Your soul is able, death is all you cradle
Notas iniciais
“Liberdade, verdade, paz ou talvez amor? São ilusões, fantasias da percepção, sínteses temporárias de um débil intelecto humano tentando desesperadamente explicar uma existência sem significado ou propósito.”
— Matrix.
Em algum momento da Terceira Grande Guerra Ninja
Eram tempos sombrios aqueles. Konoha até ali não sofrera tantas baixas, mas a situação não deixava de ser ruim. Crianças eram enviadas em missões sangrentas todos os dias, e o que poderiam fazer, além de se resignar e tentar lutar ao máximo por suas vidas e a de seus companheiros quando chegasse a hora?
Masao tinha cinco anos na época, ainda novo demais para saber exatamente o que acontecia ao seu redor. Anos depois, quando já tivesse alguma maturidade, ele desprezaria com todas as suas forças o fato de ninjas serem obrigados a dar suas vidas para proteger um pedaço de terra tão insignificante.
Mas voltemos a quando ele ainda tinha cinco anos. Não era ninja, nem nunca seria. Era só um filho de uma dançarina, um moleque sem pai, que vivia em uma casa pequena demais mesmo para duas pessoas, que não tinha nenhuma educação, que cresceria e se tornaria um ladrãozinho medíocre — bem, provavelmente seria assim, se não fosse por sua mãe. A dançarina.
Repetindo, eram tempos sombrios. Os ninjas precisavam de alguma diversão, algo que os distraísse das cruéis missões e perdas sofridas até ali; algumas cicatrizes nunca curariam, mas não custava nada tentar esquecê-las momentaneamente.
Masao balançou as pernas, curtas demais para alcançar o chão do banco onde estava sentado. Não gostava do local onde estava, mas o que podia fazer? Era ali que sua mãe trabalhava, e deixá-lo em casa sozinho, em tempos como aquele, era uma opção impensável. Então tinha que aceitar e ficar quietinho em seu canto, sem perturbar ninguém.
Havia muitas, muitas mulheres onde sua mãe trabalhava. Elas usavam roupas que mostravam bastante a pele e eram toda sorrisos para os homens — também tinha muitos homens ali, talvez até mais que mulheres —, dançando para eles e sussurrando em seus ouvidos. Masao ainda era jovem para entender o que tais mulheres faziam de fato. Sua mãe lhe dizia que ela e as outras eram dançarinas.
E, de fato, muitas dançavam, mas o garoto nunca havia visto sua mãe dançar. Assim que chegavam naquele lugar — muito malcheiroso, aliás —, sua mãe lhe colocava num banco do bar e desaparecia entre tantas pessoas. E não voltava até que fosse muito tarde e Masao já tivesse há muito adormecido sobre o balcão.
Às vezes ela trabalhava em casa. Quando aquilo acontecia, ele era terminantemente proibido de entrar no quarto, e geralmente tinha que ficar na cozinha — afinal, a casa só tinha três pequenos cômodos: um quarto, um banheiro e uma cozinha. O fato era que sua moradia era pequena demais, e mesmo que a porta do quarto estivesse sempre fechada, ele ainda conseguia ouvir os barulhos vindos de lá. Não gostava daquilo. Parecia que sua mãe estava sempre sofrendo, e ele não gostava de vê-la sofrer. Aquilo o fazia sofrer igualmente.
Suspirou, entediado. Estava ali há, talvez, meia hora e não havia sinal de sua mãe. Provavelmente ainda demoraria horas até voltar para sua casa... Suspirando de novo, ele apoiou os braços no balcão e deitou sua cabeça lá. Dormir era sempre a melhor forma de escapar daquilo tudo e fazer o tempo passar mais rápido.
Minutos depois, porém, quando já estava quase alcançando a inconsciência, uma mão em seu ombro o puxou apressada, mas ainda suavemente.
— Vamos Masao! Vamos! — ouviu a voz de sua mãe e ergueu a cabeça.
— Mamãe? — chamou meio sonolento.
Ela o desceu do banco e puxou sua mão, se espremendo entre as pessoas que passavam por ali, forçando-se até a saída do estabelecimento. Quando ambos saíram para a noite fria e sombria de Konoha, sua mãe suspirou e diminuiu o passo. A pequena casa deles não ficava muito longe dali.
— O que foi mamãe?
Ela moveu os olhos verdes para ele, confusa. Não era uma mulher assim tão bonita; seus cabelos não eram nada demais, e sua pele branca estava um pouco maltratada. Mas seus olhos não eram nada menos que magníficos, e eram a única coisa que Masao havia puxado dela, além dos cabelos lisos.
— Você parece triste... — explicou, inclinando a cabeça para um lado. Sua mãe sorriu um pouco.
— Não é nada, querido. Não se preocupe. Não está feliz? Estamos indo pra casa mais cedo hoje.
— Sim! — ele assentiu. Não era um menino de muitos sorrisos, mas sorriu para a mãe, porque ela parecia precisar disso. E funcionou. Aquilo pareceu acalmá-la. Acariciou os cabelos do pequeno e, juntos, entraram em casa.
Naquela noite, deitados juntos na única cama da casa, sua mãe, como fazia todas as noites, cantou até ele adormecer. Quando teve certeza de que o filho não acordaria, Kurumi deslizou para fora da cama, colocou uma capa e saiu de casa, rumo ao escritório Hokage.
Ser prostituta tinha suas vantagens, afinal: você sempre conseguia informações valiosas, ditas quando os shinobis já estivessem bêbados ou distraídos demais para sequer notar o que falavam.
E o Sandaime Hokage poderia muito bem usar certas informações, como a que ela arranjara aquela noite; algo sobre alguém andar roubando corpos, já que os falecidos ninjas em batalha estavam desaparecendo. Talvez fosse só um rumor, mas não custava nada informar o Hokage.
Sarutobi Hiruzen sempre havia sido bom para ela, compadecido com sua situação, e sempre tentava ajudá-la com o filho. Afinal de contas, ele sabia quem era o pai da criança, e sabia como o homem não ligava para o filho. Querendo retribuir o favor, e sabendo que ele faria bom uso das informações diárias, Kurumi passou a fazer aquilo, mesmo sabendo que era arriscado. Não importava. Só queria fazer algo pelo bem da vila.
Um ano depois.
A Terceira Guerra continuava em seu auge. Com quase sete anos, Masao já sabia algo sobre a vida. Não era um menino brincalhão ou sorridente. Era solitário, sem nenhum amigo ou alguém com quem brincar. As crianças não costumavam se misturar com garotos “de sua laia”, diziam eles, e o garoto tampouco se importava. Não era como se gostasse de brincar. De fato, ele gostava mais era de observar as coisas, as pessoas e paisagens. Qualquer mínima coisinha mundana para qualquer um era algo extraordinário para ele.
Naquela tarde Kurumi havia lhe mandado comprar pão, mas ele demorara mais do que o necessário porque perdera a hora observando o monumento Hokage. Nunca vira o Hokage pessoalmente, mas não ia com sua cara. Um líder deveria cuidar de sua vila e, no entanto, por que sempre ouvia as pessoas cochichando sobre mais e mais mortes no local onde sua mãe trabalhava? — local esse que ele descobrira se chamar bordel.
Aliás, ouvia muitas coisas no bordel, e aprendera muita parte do que sabia lá. As pessoas estavam sempre comentando e fofocando e criticando outras pessoas. Fora lá que descobrira o nome que se dá a meninos como ele: bastardos. Mas na época achava que bastardo era simplesmente um menino sem pai.
Mas, oh, Masao, todos têm um pai. Mesmo aqueles cujos pais não se importam.
Correu até sua casa, sabendo que sua mãe acabaria brigando com ele pelo atraso. Ela sempre se preocupava demais.
— Tadaima, okaa-san! — disse abrindo a porta, que dava para um pequeno corredor de entrada. Quem encontrou, porém, não foi apenas sua mãe. Havia um homem pressionando-a contra a parede, de costas para ele. O tal homem afastou-se de Kurumi e virou-se lentamente para o garoto.
Os olhos de ambos se encontraram. E foi a primeira vez que Masao viu seu pai.
Encarou-o de cenho franzido, não gostando dele. Naquela época, Shimura Danzou já era velho, tendo algo em torno dos cinquenta anos. Não usava bengala e não escondia o braço direito na túnica marrom, nem tinha um olho enfaixado. Mas a cicatriz de seu queixo, em formato de x, o acompanhava desde a juventude. Tinha cabelos desgrenhados e curtos, diferentes dos de Masao, mas da mesma cor dos do menino.
O Shimura o olhou de cima a baixo, o analisando com seus frios olhos escuros, e o que viu pareceu desagradá-lo imensamente. Masao lhe deu um olhar feio e continuou a encará-lo quando Danzou passou por seu lado em direção a porta.
— Lembre-se do que eu disse — alertou em uma voz grave. —, Kurumi.
Masao bateu a porta quando ele saiu.
— Quem era aquele cara? — perguntou à mãe, mas ela simplesmente deslizou até o chão, sentando-se lá, sem parecer ouvi-lo. Em sua mente, o diálogo com Danzou ficava repetindo.
— Fiquei sabendo a algum tempo de que alguém está dando informações interessantes ao Hokage. Não me importei com isso até uns dias atrás, quando as informações que deram a ele envolviam a mim. — ele apertou seu queixo, forçando-a a encará-lo. — Tome muito cuidado Kurumi, ou talvez seu filho sofra as consequências.
— Não ouse tocar nele! — disse alarmada. — E ele é seu filho também, ou esqueceu-se de quando me fodeu, traindo aquela sua preciosa esposa? Ela já descobriu Danzou? Talvez eu devesse contar!
Os olhos de Danzou se tornaram ferozes. Se havia algo que ele prezava, e Kurumi bem sabia, era a honra. E, oh, quanta honra tinha ele!
— Se você fizer qualquer coisa que me ameace de alguma maneira, esteja preparada. Sei o quanto preza o moleque. Quão doloroso seria perdê-lo?
Ela tentou empurrá-lo, sem sucesso.
— Ele é seu filho também! — repetiu.
— O garoto vale tanto para mim como um inseto. — disse sem emoção. — Deveria tê-lo tirado de seu ventre assim que descobri que você estava grávida.
Foi quando Masao entrou. Com vontade de chorar, ela pediu para o filho de aproximar com uma mão e, quando ele o fez, abraçou-o com força.
— O que foi kaa-san? Por que está triste?
Mas ela simplesmente balançou a cabeça, não querendo falar. Masao era tudo o que tinha de valor, a coisa mais importante de sua vida, e mesmo que fosse uma criança diferente das outras, Kurumi sabia que ele seria grande. Sabia que ele seria muito mais do que ela um dia já fora. E aquilo a alegrava imensamente, porque era o que desejava para ele: nada menos que o melhor.
— Você se tornará um homem poderoso, Masao. Eu sei disso. — murmurou para ele. — Você é um Shimura, afinal de contas...
O garoto afastou o rosto para poder encará-la.
— Shimura? — repetiu com confusão.
— Sim. — disse suavemente, acariciando os cabelos do filho. Não importava o que Danzou dissesse, Masao era sua cópia e o único herdeiro que ele provavelmente teria, já que sua mulher só lhe dera filhos natimortos. — É o seu clã.
— Clã? — piscou confuso. Já ouvira falar de clãs. Eram famílias, geralmente antigas e poderosas, de ninjas. Ele não era nenhum ninja. — Você faz parte de um clã, kaa-san?
— Não. — quase suspirou. Clã? Ela era só uma miserável prostituta, filha de camponeses pobres, fruto da miséria e acostumada àquele tipo de vida desgraçada. — É o clã de seu pai.
Masao achava que sua mãe tinha enlouquecido. Com seriedade, ele replicou:
— Você está enganada, kaa-san. Eu sou um bastardo. Eu não tenho pai.
— Onde ouviu isso? — perguntou surpresa. O garoto não respondeu. — Masao... Bastardo... bastardo não é quem não tem pai. Você tem um pai.
— Então o que é ser bastardo?
Kurumi suspirou. Ele ainda era tão jovem para saber aquelas coisas... mas um dia ele acabaria descobrindo... um dia ele acabaria descobrindo que ela não era nenhuma dançarina. Um dia ele saberia que sua mãe era uma puta, e que seu pai era um homem horroroso, e que ele era o filho dessa mistura terrível. Só não desejava que aquele dia fosse hoje.
— Um dia você vai saber. — beijou-lhe na testa. — Trouxe o pão?
[...]
Tudo que aconteceu depois daquela vez em que vira Danzou era um borrão para Masao. Mas ele lembrava-se de algo, meses depois daquele acontecimento, muito claramente. Nunca poderia esquecer.
Era um daqueles dias em que sua mãe trabalhava em casa. Ela ria para um homem qualquer, riso esse que não chegava a seus olhos, e o guiava até o quarto. Masao suspirou, raspando a madeira da mesa com uma faca, escrevendo lá um M e um S. De Shimura. Não sabia quem era Shimura ainda, mas confiava que sua mãe iria falar quando fosse a hora.
Ouviu a porta do quarto se abrir de supetão e se assustou. Foi até o corredor ver o que se passava.
— Saia daqui! — sua mãe gritava assustada para o homem para quem antes estava rindo, enquanto ele tentava agarrá-la forçadamente. — Eu já disse que não quero mais! Vá procurar outra!
— Cala a boca, sua puta! É isso o que você faz, só tem que abrir as pernas e calar a boca! Não é nada difícil! — disse pressionando-a na parede, da mesma maneira que Danzou havia feito antes, mas muito mais rudemente. Sua mãe tentou acertá-lo com um tapa, mas ele desviou e bateu no rosto dela primeiro.
Kurumi desviou o rosto e seus olhos encontraram os de Masao.
— Não! — implorou chorosa. — Não, na frente do meu filho não! Por favor, não!
Mas o homem não estava ouvindo. O que, de certa forma foi bom, já que quando Masao correu até ele e enterrou a faca que ainda segurava em suas costas, ele sequer sabia o que tinha lhe atingido. Kurumi gritou, enquanto o homem a soltava e caía no chão, com barulhos sufocados, enquanto o sangue tingia sua blusa.
— M-Masao, Masao, o que você fez? — ela soluçou. — O que você fez?
O garoto olhou para o corpo inerte no chão e depois olhou para a mãe, como se ainda estivesse tentando entender o que havia acontecido. Piscou.
— Ele... estava machucando você...
Kurumi lhe estapeou. O garoto levou a mão ao rosto, surpreso, enquanto sua mãe levava a mão à boca, arrependida.
— Desculpe, me desculpe. — abraçou-o, seu corpo inteiro tremendo. — Nunca mais faça isso, Masao. Nunca mais, ouviu?
Mas o garoto afastou-se de sua mãe.
— Mas kaa-san — disse, tentando fazê-la entender. —, ele era mau. Ele mereceu! Ele estava machucando a senhora!
Kurumi agarrou seu rosto, balançando a cabeça.
— Não está em suas mãos decidir isso! Você não é um ninja, Masao, só ninjas matam! E matar é errado! Me ouviu? — dizia com aflição. — É errado!
Mas o garoto não concordava. Olhando outra vez para o corpo do homem, ele pensou que não se arrependia. Ele havia feito sua mãe chorar. Havia a machucado. Não, Masao não se arrependia de enfiar uma faca nas costas dele.
No entanto, sabia que o que a mãe queria ouvir não era isso. Então assentiu e tornou a abraçá-la.
— Sim, kaa-san. Entendi. Matar é errado.
Um pouco mais aliviada, Kurumi o apertou em seus braços, fungando.
[...]
Depois daquele dia sua mãe parara de trazer homens para casa, e parara de levar o filho ao bordel. Talvez no fundo ela soubesse, ao olhar nos olhos de Masao, que ele escondia algo. Que as opiniões dele divergiam da sua. Que ele não era uma criança normal.
Talvez ela sempre tivesse sabido. Masao nunca teria certeza.
Kurumi, apesar do aviso de Danzou, continuou a manter o Hokage informado, com a exigência de que ele lhe pagasse a cada informação dada. Ah, o dinheiro realmente supera tudo, até mesmo o medo. Precisava sustentar Masao, afinal. Precisava cuidar de seu filho, dar-lhe educação. Ele tinha que ter um futuro melhor, uma chance de vida melhor, oportunidades, opções, coisas que ela não tivera.
Mas Danzou a alertara uma vez. E não haveria uma segunda.
Portanto, quando Masao voltara para casa, após ter comprado o pão para o café da manhã do dia, o que encontrara não poderia tê-lo chocado mais.
Sua mãe não estava na cozinha, onde estivera quando ele saíra para comprar comida. Foi direto até o quarto e a visão que o saudou não foi a de sua mãe, mas a de um homem. O mesmo homem de quase um ano atrás, aquele que tratara sua mãe de forma rude.
O homem virou apenas o rosto para encará-lo, parecendo um pouco surpreso. Não esperava que o menino chegasse tão cedo, mas lá estava ele.
— O que faz aqui? — Masao perguntou carrancudo. Procurou sua mãe pelo quarto, mas ela não estava à vista. — Onde está minha mãe?
Danzou moveu o braço, retirando uma kunai de algo. Moveu-se para o lado, afastando-se, e o corpo que antes segurara caiu ao chão. Masao arregalou os olhos.
— Kaa-san! — gritou, correndo até ela. Kurumi não se mexeu. — Okaa-san! O que está fazendo? Acorde! Acorde, por favor, acorde! Essa brincadeira não é engraçada!
— Ela está morta, garoto. Não há mais nada a se fazer. — Danzou disse-lhe com calma.
— NÃO! NÃO! — era a primeira vez que chorava. Era a primeira vez que sentia uma dor tão grande. Tremendo, ele subiu o olhar até o Shimura, parado perto da janela. — Você. — as lágrimas caíam de seus olhos, mas o olhar que Danzou via era do mais puro ódio, e aquilo o fez suspirar.
— Ódio não o levará a nada. Ódio não trará sua mãe de volta. — esgueirou-se até a janela. — Mas se quiser alimentar uma ideia estúpida de vingança, venha até mim quando for forte o suficiente. E vingue-se, se for capaz.
A criança limpou as lágrimas do rosto com fúria e, sem olhá-lo, murmurou:
— Qual é o seu nome? — e completou, com uma estranha frieza para alguém tão jovem: — Para que eu saiba o que colocar no seu túmulo.
O homem raramente sorria, mas a leve sombra de sorriso que perpassou seus lábios era o suficiente para assustar qualquer um.
— Danzou. Shimura Danzou.
E ele foi embora, deixando Masao e o cadáver de sua mãe. Ele ficou lá, sentado, encarando sua mãe. Acariciou seu rosto com uma mão trêmula. Ela estava pálida, dura e seus olhos estavam arregalados para o nada, vazios, opacos. Não havia mais nenhum brilho neles.
De repente, seus olhos não eram mais tão bonitos assim.
— Você vai voltar, não vai, mãe? — sussurrou. — Você tem que cantar para mim antes de dormir, lembra? Eu só consigo dormir quando você canta...
Pobre, pobre criança. Esperava uma resposta que nunca viria, porque Kurumi nunca voltaria. Masao, no fundo, sabia disso. Sabia, porque o homem que esfaqueara nunca tinha voltado. Por que com sua mãe seria diferente?
Mesmo assim, não estava pronto ainda. Por isso deitou-se sobre o colo da mãe — ouvindo apenas o silêncio, pois seu coração já não batia mais — e começou a cantarolar a mesma canção que ela costumava lhe cantar para dormir.
Ninguém se importaria com a morte de Kurumi, sabia. Ninguém além dele.
Enterraria seu corpo no jardim, quando ninguém estivesse olhando. E ninguém daria por sua falta. Não teria justiça por sua mãe, porque sua morte era insignificante para o resto do mundo. A justiça teria que ser feita por suas próprias mãos.
Aquele homem... Masao arregalou os olhos de repente. Shimura Danzou. Shimura. É o seu clã, sua mãe dissera. É o clã de seu pai.
Sentou-se e passou a mão pelos cabelos, agarrando os fios e balançando veemente a cabeça. Aquele homem não poderia ser seu pai. Ele matara sua mãe. Ele... ele...
Shimura Danzou. O ódio invadiu-o novamente. Shimura Danzou, Shimura Danzou, Shimura Danzou.
Kurumi estava enganada; Masao não tinha pai. Tinha apenas Shimura Danzou, o homem que a matara e que ele, Masao, eliminaria. Viraria um ninja, um ninja muito mais forte que aquele velho, e muito mais poderoso também. Então Danzou se arrependeria de tê-lo deixado viver.
Matar é errado, podia ouvir Kurumi soluçar. Olhou para a mãe com candura.
— Não, okaa-san, não é. — fechou seus olhos. — Durma em paz.
[...]
Treinou todos os dias a partir daquele. Tornou-se mais forte, mais corajoso, mais habilidoso. Esforçava-se como nenhum menino da sua idade fazia e cujas únicas preocupações eram banalidades de crianças, como o que iriam brincar naquele dia.
Mas, é claro, como já foi tão repetido, Masao não era como as outras crianças. Nenhuma delas tinha tido a mãe assassinada pelo próprio pai. Nenhuma delas tinha que viver na miséria que ele vivia, na mais terrível solidão; nenhuma dela tinha que roubar para comer. Ah, sim, ele roubava. Não que fosse um dos seus maiores orgulhos, mas entre roubar e implorar por comida para algum habitante que passasse a sua frente preferia mil vezes roubar. Nunca se humilharia a ninguém; nunca seria merecedor da pena de qualquer um.
Além de tudo, ele também estudava. Sim, furtava os pergaminhos dos senseis da Academia Ninja e os estudava todas as noites antes de ir dormir. Tinha facilidade em aprender, e algumas daquelas coisas sua mãe, mesmo sendo uma mulher sem instrução, já o havia ensinado.
Aos nove anos, ele conseguiu entrar na Academia. Um dos senseis havia o pego tentando lhe roubar. Ao contrário do que Masao pensava, porém, ele não o denunciou.
— Então é você que anda roubando os senseis, hein? — ele segurava o garoto pela gola da camisa, impedindo-o de fugir. Masao pensava rapidamente. Já tinha estado naquela sala de aula muitas vezes e por várias vezes quase fora pego, portanto conhecia suas rotas de fuga. O ninja que o segurava, parecendo perceber suas intenções, deixou escapar uma risada. — Ora, mas já está arquitetando seus planos de fuga? Tenho que admitir... você é bem escorregadio. Perfeito para um ninja.
Os olhos de Masao saíram da sua possível rota de escape e se fixaram no professor, que o encarava com curiosidade. Ele tinha um cabelo longo e negro, liso e curto, e seus olhos eram escuros.
— Por que rouba meus pergaminhos, garoto?
Masao revirou os olhos, pensando em como a pergunta era estúpida.
— Por que mais? Eu estudo por eles.
— Mas os que você rouba já são de nível chunnin.
— Os de nível gennin são muito fáceis.
O homem continuou a lhe encarar, algo que já estava começando a irritar o menino.
— Me deixa ir. — ele ainda o segurava pela gola.
— Você não está matriculado na academia, está? — respondeu com outra pergunta. — Nunca o vi aqui.
— Não.
— Por quê?
— Porque não tive quem me matriculasse. — proferiu inexpressivo.
— Não tem pais?
— Nenhum que se importe.
O homem continuava a lhe encarar de forma curiosa.
— Quer se tornar um ninja?
— Por quê?
— É uma pergunta fácil. A resposta é sim ou não.
— Talvez.
O ninja o soltou.
— Já é bastante claro para mim que você deseja se tornar um shinobi, garoto. O fato de você estudar pergaminhos avançados demais para sua idade e suas mãos calejadas me disse isso. — Masao olhou para suas próprias mãos. — Nenhuma criança normal tem as mãos assim.
Ele levantou-se.
— Venha.
— Pra onde? — perguntou desconfiado.
— Vou matriculá-lo. Ainda há tempo, já que estamos no começo do ano.
— Por que está fazendo isso? — questionou, começando a segui-lo.
— Você tem sérios problemas de confiança para alguém tão novo, sabia?
— Não me importo. Por que devo confiar em pessoas que não conheço?
— Meu nome é Uchiha Saishi. Pronto, agora já me conhece.
Masao revirou os olhos.
— Mas, respondendo a sua pergunta — Saishi o olhou de lado. —, estou fazendo isso porque acho que você tem potencial. E eu tenho um bom olho para jovens com talento.
— Você é só um chunnin. — disse num tom arrogante. — Em alguns meses, no máximo, eu já terei te ultrapassado.
— Nossa! Você é pior que todo o meu clã junto... E eu que achei que nunca encontraria alguém tão ruim assim... — arqueou as sobrancelhas, com um pequeno sorriso. — E, para a sua informação, eu me tornei jounin há pouco tempo. Continuo a dar aulas aqui só enquanto espero o Yondaime liberar um time para mim.
Naquela época o Sandaime já havia se aposentado há muito tempo, e como sucessor ele escolhera Namikaze Minato, ninja que se destacara bastante na Terceira Grande Guerra e que conquistara o apelido de “Relâmpago Amarelo de Konoha”.
— Hum.
— Quem sabe você entre nele. — o encarou. — Se for capaz.
•••
O fato era que Masao tinha potencial. Demais, até. Dentre todas as outras crianças, ele estava sempre se destacando. O nível da Academia Ninja era baixo demais para ele.
E foi por aquele motivo que, naquele mesmo ano, aos nove anos de idade, ele se graduou na Academia e tornou-se gennin, tornando-se parte do time 14. O sensei do time o solicitara pessoalmente. Uchiha Saishi, o mesmo ninja que o havia matriculado na academia e tornado tudo possível, mas Masao nunca admitiria aquilo. Aliás, nunca sequer tinha agradecido a Saishi, mas seu sensei não parecia se importar com isso.
Para falar a verdade, o time 14 era um time muito interessante. Além de Masao e Saishi, havia outro integrante: Hajime, um garoto de dez anos, sem um clã importante que valesse a pena mencionar. Era um garoto estranho e quieto, mas Masao não reclamava daquilo. Gostava, até. Não era obrigado a socializar com ele, e sempre podiam ficar juntos e em silêncio, diferente de Saishi — deuses, como aquele cara era irritante! Sempre falando, falando, falando, rindo dos dois garotos, dizendo coisas sem sentido de repente.
Masao o achava um fraco, e odiava tê-lo como sensei. Ele nunca lhe ensinava nada que prestasse. Andar na água, subir pelo tronco das árvores... Maldição, ele já sabia controlar seu chakra! Queria aprender jutsus, queria aprender a matar alguém com rapidez e perfeição. Queria se tornar forte para poder matar Shimura Danzou.
Eram só os três, o que tornava o time 14 muito curioso. Afinal, deveria haver um terceiro integrante, geralmente uma menina, mas o número de garotas que queriam se tornar kunoichis estava muito baixo naqueles anos.
A opinião de Masao sobre seu time, de qualquer forma, viria mudar quando ele já teria dez anos, um ano depois de ter se graduado gennin. Tinha sido naquele que viria a ser um dos mais trágicos ataques à vila da Folha: o ataque da Kyuubi no Youko à Konoha.
Masao, na época, ainda sabia muito pouco sobre os clãs da vila. Sabia que os Hyuuga eram um clã nobre e antigo, que os Senju batalharam por muito tempo com os Uchiha, que os Sarutobi tinham como predominância o elemento Katon, e que os Uchiha comandavam a Polícia da cidade, e eram extremamente poderosos. Mas Saishi era um Uchiha e ele não era assim tão forte. Ou era o que Masao pensava, antes de seu sensei salvá-lo aquela noite.
O ataque acontecera de repente e tinha pegado quase toda a vila desprevenida. Masao dormia quando sua casa fora destruída por uma das caudas da raposa. Sua casa infelizmente ficava muito perto da entrada de Konoha, onde a maldita Kyuubi fora invocada.
Os escombros caíram em cima de si, mas ele conseguira se livrar da maioria até que outra cauda ameaçou vir em sua direção, e com toda certeza o acertaria, se Saishi não tivesse aparecido antes. Ele o tirou dos destroços com uma velocidade surpreendente, e o levou até onde outros gennins estavam.
Foi quando Masao notou que os olhos de seu sensei estavam diferentes. Foi a primeira vez que viu o Sharingan ativado.
— Saishi... — murmurou.
— Vá procurar Hajime e de jeito nenhum se meta em alguma luta! — Masao nunca o tinha visto tão sério. Ele sempre tinha uma expressão tranquila ou divertida no rosto, mas naquele dia... naquele dia ele estava assustador. — Lembre-se do que eu sempre digo.
Tentou lembrar-se das coisas sem sentido que Saishi falava.
— Companheirismo é força... — disse incerto.
— Companheirismo é força. — ele concordou. — Agora, vá. Está me ouvindo, Masao? VÁ!
E ele foi. Hajime estava perdido na multidão que se atropelava para poder sair dali e ir para um local seguro, e era empurrado para lá e para cá. Eles estavam muito perto da batalha que se travava contra a raposa, e Masao viu o exato momento em que um jutsu perdido dirigia-se até ele. Hajime não havia notado e já não teria mais tempo para desviar-se, de qualquer forma. Então Masao fez a única coisa que nunca achou que faria: foi seu escudo.
O jutsu o acertou e mandou os dois para longe, mas Hajime não estava machucado. Companheirismo é força.
— Masao! — era raro vê-lo falar, ainda mais gritar.
Masao suspirou. Seu corpo inteiro doía e ele podia sentir um líquido quente se espalhando muito rapidamente por seu abdômen. Sangue.
Hajime o levantou e o apoiou em seu ombro. Masao grunhiu de dor.
— Não seja um bebê chorão. — murmurou para ele. Podiam ouvir os gritos de desespero dos habitantes ao longe. Chunnins gritavam ordens e tentavam organizar a multidão, tentando levá-los a um lugar seguro. Os dois começaram a andar, seguindo a multidão.
— Não vai ao menos dizer obrigado? — Masao poderia ter falado com mais raiva, se o ferimento não doesse tanto.
O colega de time não respondeu, ocupado demais em tentar ver se havia um ninja médico entre a multidão. Masao estava começando a ficar pálido com a perda de sangue.
Ele não morreu naquele dia, é claro — um ninja médico cuidou de si, e ele e os outros gennins (além dos civis) ficaram escondidos em um local afastado da luta contra a Kyuubi, enquanto os mais velhos lutavam. Tampouco recebeu um obrigado formal do companheiro de time. Mas Masao não precisaria disso, de qualquer forma, pois a partir daquele momento ele tinha ganhado algo muito maior do que simples palavras de agradecimento. Ele havia ganhado a eterna lealdade de Hajime.
[...]
Saishi havia morrido no ataque à Kyuubi, assim como muitos outros ninjas. Masao visitou seu túmulo apenas duas vezes em toda sua vida. Nunca chorou ou lamentou a morte do sensei, mas sentiu. Ele e sua mãe foram os primeiros a terem visto potencial em si; os primeiros a acreditar nele. E nunca os esqueceria.
Com a morte do Yondaime Hokage, a vila estava um caos. Hiruzen tinha voltado ao cargo de líder da vila e estava tentando tomar controle de tudo. Graças ao sacrifício de Minato e da esposa, Kushina, a vila estava salva, mas havia um porém: a Kyuubi no Youko havia sido selada no filho recém-nascido dos dois, Uzumaki Naruto.
A maioria dos habitantes estava completamente infeliz com a situação. Eles não queriam um monstro, o mesmo monstro que matara tantas pessoas que amavam, vivendo dentro de sua preciosa vila. Masao revirava os olhos para aquilo. Como se a criança tivesse culpa do pai ser mentalmente instável e ter selado nele um demônio.
Por conta de todo o caos, os times que haviam sido desfalcados continuariam do mesmo jeito, pois muitos dos ninjas estavam em missões fora da vila, para ganhar dinheiro para ajudar na reconstrução e estabilização socioeconômica e política de Konoha. Sendo assim, o time 14 agora era composto só de Masao e de Hajime e, sendo apenas gennins, nenhuma missão lhes era designada — Konoha estava receosa em relação aos outros países e o perigo que ainda poderia correr. Talvez algum deles tivesse planejado o ataque; não sabiam. Qualquer informação relevante sobre o ataque da Kyuubi havia morrido junto com o Yondaime Hokage.
O fato era que poucas missões eram dadas a gennins e, estando preso naquela classificação estúpida até que decidissem lhe dar outro jounin e o tal jounin decidir inscrever Hajime e ele no Exame Chunnin (coisa que Saishi recusara-se a fazer, porque apesar de seus garotos terem muito talento, ainda eram jovens demais para aquilo e tinham que amadurecer seus poderes), Masao não tinha nada para fazer.
Treinava. Poupava o máximo que conseguia o dinheiro que tinha guardado das missões anteriormente feitas — agora que já não fazia missões, não ganhava mais nada, e como é bem sabido, não tinha ninguém a quem lhe ajudar financeiramente. Treinava ainda mais.
De fato, a única coisa que fazia era treinar, porque era tudo o que podia fazer. Passava seus dias tentando criar uma nova técnica — mas era uma completa perda de tempo. Ele nem sabia se tinha afinidade com algum elemento.
Masao sequer tinha um estilo próprio de luta. Quer dizer, alguns se davam melhor com ninjutsu, outros com taijutsu, outros com genjutsu. Ele... ele não se dava bem com nenhum em especial. Sabia usar perfeitamente bem seu chakra, então conseguia utilizar ninjutsu; sabia lutar só com os punhos, seu taijutsu era bom. Sabia sair de ilusões; não era completamente ruim em genjutsu. Mas não se saía especialmente bem em nenhum. Era só... mediano. Nada extraordinário. E, não sendo parte de nenhum clã — oficialmente —, ele também não tinha no que se espelhar.
Às vezes, Hajime o visitava para treinarem juntos. Ele trazia dois bentos que ele mesmo fazia, e quando faziam uma pausa no treino, os dois comiam. Às vezes (e apenas às vezes) trocavam algumas palavras, então voltavam a ficar em silêncio. Poderia parecer solitário para alguns, mas era relaxante para eles. Nunca precisaram de palavras ou de conversas muito longas para satisfazerem alguma necessidade de socializar que a maioria das pessoas parecia ter.
Eram dois garotos cujo sensei havia morrido em um ataque. Sem pai, mãe ou clã — Hajime tinha apenas um avô que não ligava tanto assim para o garoto. Sem muitos pertences, sem muita importância, sem sonhos ou desejos — bem, Masao tinha somente um desejo: o de vingar sua mãe. De resto, eram apenas dois gennins que não deixariam nenhuma marca no mundo quando morressem.
Assim sendo, foi uma grande surpresa quando, em um dia banal, o encontraram.
Deviam ser oito horas da manhã. Masao treinava sua mira, acertando kunais em alvos dispostos em vários cantos na floresta onde treinava — não usava nenhum campo de treinamento porque eles geralmente eram usados apenas por times (completos).
— Ora, ora.
Masao virou-se rapidamente, jogando uma kunai na direção da voz. Fora uma jogada muito boa e certamente teria acertado o homem se ele não fosse tão rápido em desviar-se. A lâmina fincou-se no chão atrás dele.
O cara olhou para a kunai, depois para Masao. E riu. Riu como se tivesse ouvido a piada mais engraçada de todos os tempos, coisa que só contribuiu para irritar o garoto.
— Quem é você?
— Eu não estava errado. — foi a resposta do homem. — Você é uma criança interessante. Sim, soube disso assim que o avistei.
— Quem é você? — repetiu sem mudar sua expressão.
— Ora, moleque, relaxe. Você é muito tenso para uma criança. — ele sorriu um pouco, com olhos misteriosos. — Qual é a história?
— O quê? — Masao franziu o cenho.
— A história. Sua história. Pai, mãe, irmão, melhor amigo... Quem morreu?
— Quem é você?
O sorriso torto que o homem ostentava aumentou. Ele não usava nenhuma bandana à vista, portanto Masao não tinha certeza se ele era um ninja de Konoha — mas ninja com certeza ele era. Aqueles reflexos não poderiam ser de um civil.
— Está bem, está bem. — sua fala era arrastada e meio enrolada. Masao notou que ele carregava uma garrafa de saquê na mão; estaria aquele cara bêbado? — Me chamam de muitas coisas, mas meu apelido mais popular é Chaos. Embora também me chamem de Cinco.
— Por que Cinco?
Naquela época, Chaos tinha cabelos loiros e olhos escuros, e usava no dedo do meio da mão esquerda um anel com o número cinco cravado no metal. Ele levantou a mão, mostrando-o a Masao, mas não explicou logo o que significava.
— Diga garoto: alguém se importa com você?
A criança estreitou os olhos, perguntando-se o objetivo daquela conversa.
— Por quê?
— Você percebeu que só me fez perguntas até agora? — suspirou. — Vamos moleque. Uma simples resposta não irá machucar.
— Não, não tenho. Por que Cinco? — repetiu.
Chaos levou a garrafa que segurava à boca, apenas para descobrir que ela estava vazia.
— Faço parte de uma organização.
— Organização?
— Fazendo perguntas novamente. Você não cansa? — ele cambaleou, sentando-se na grama com algum esforço. — Somos uma grande família, vinda de cada canto desse mundo. Há vários garotos como você lá.
— Duvido.
— Ah, arrogante. Gosto disso. Me lembra de quando eu era jovem e ingênuo e pensava que era único nesse mundo. — ele balançou a garrafa vazia em direção a Masao, com um sorriso torto. — Há sempre garotos como você por aí, moleque. Perdem alguém muito próximo de si, de uma forma geralmente muito violenta, e partem em busca de vingança. Ah, acredite, você não é tão especial quanto acha que é.
Masao parecia ter finalmente sido atingido. Engolindo em seco, intrigado, encarou Chaos.
— O que você quer?
— O que eu quero? Oh, muitas coisas. Estar entre as pernas de uma mulher agora seria ótimo, mas outra garrafa de saquê também me cairia bem.
Masao não se abalou com a resposta cínica.
— Disse que não estava errado assim que me conheceu. O que quis dizer com isso?
— Eu disse isso? — ele suspirou, fechando os olhos, como se tentasse se lembrar. — Ah, sim. É verdade. Como eu já disse, achei você interessante. Há algo em seus olhos. Algo que me diz que você pode ser mais do que acha que pode. Diga: qual seu sonho? Meta? Desejo?
— Ficar mais forte.
— E para o quê você quer isso, garoto?
— Para matar meu pai.
Chaos arqueou uma sobrancelha e riu.
— Ora, está aí uma resposta intrigante. Qual o seu nome, moleque?
— Masao.
— Masao o quê?
— Só Masao. — disse duramente.
— Tudo bem, Só Masao. Você quer entrar para a minha organização?
— Eu... Por que eu faria isso?
— Para completar seu objetivo, moleque: ficar mais forte. Você perguntou por que me chamam de Cinco, não foi? — a súbita mudança de assunto fez Masao franzir o cenho. De qualquer forma, ele balançou a cabeça. — Bem, há um ranking na organização. Atualmente vai do um ao número oito, mas sempre há mudanças. Quando alguém fica mais forte do que antes, ele sobe de rank.
— Só tem oito membros?
— É claro que não. — Chaos riu. — Há dezenas, centenas, talvez milhares de nós espalhados por aí. Mas — levou um dedo aos lábios, fazendo um shhh exagerado. — isso é segredo. Então? — estendeu a mão para ele. Masao olhou para ela ainda com alguma hesitação.
— Promete que eu ficarei mais forte?
— Garoto — puxou sua mão e encarou-lhe profundamente nos olhos. —, a primeira coisa que você tem que aprender é que promessas não valem nada. A segunda coisa é que, mesmo se valessem, eu não valho nada.
Levantando-se, Chaos largou sua mão.
— Vamos. Vou te levar para o nosso covil. — sorriu daquela maneira diabólica.
— Há outro garoto. — Masao disse de repente. — Ele pode ser muito poderoso um dia.
— Bem, chame ele, então. Quanto mais pessoas, melhor. — gargalhou. — Ah, ela vai me odiar tanto por isso...
— Quem é ela?
Chãos lhe deu um cascudo, fazendo Masao lhe olhar feio.
— A terceira coisa que tem que aprender é que curiosidade mata. Agora vai, vai chamar seu amiguinho.
— Ele não é meu “amiguinho”. — retorquiu exasperado. — Eu não tenho “amiguinhos”!
— Tá, tá. — abanou a mão, não dando importância para o garoto.
— Afinal de contas, qual é o nome dessa droga de organização? Ou você só chama de “A Organização”? — debochou.
— Deuses, garoto, como você é irritante. — Chaos suspirou e quase levou a garrafa até sua boca, antes de lembrar-se de que estava vazia. Jogou-a fora. — E nós temos um nome: Yama¹.
—... Yama? É isso? — os olhos verdes faiscavam em desprezo. — Que decepcionante.
— Vai logo, moleque!
[...]
Aos dezoito anos, ao voltar de uma missão da Yama em uma vila pequena no país da Terra, Masao conhecera Mayumi. Ela tinha sete anos na época, uma simples criança cujos pais ninjas haviam morrido em uma missão quando ela não tinha mais que cinco anos.
Masao já tinha acabado a missão — recolher informações sobre outra organização chamada Akatsuki — e estava quase saindo do país quando a encontrou. Bem, não a encontrou exatamente; Mayumi corria desesperadamente, sem olhar para onde andava, e acabou esbarrando-se em Masao.
O ninja olhou para aquela coisa pequena e loira, que segurava um único pedaço de pão em uma mão. Ela o olhou assustada, mas quando ouviu um grito atrás de si, escondeu-se detrás das pernas dele.
— Ei! — Masao franziu o cenho, tentando livrar-se da pentelha, mas ela não soltava sua calça ninja. Um homem aproximou-se deles, ofegante pela corrida.
— Essa... pestinha... roubou... meu... pão... — ele falava, pausando entre as palavras em busca de oxigênio. — Não a proteja, garoto! Passe ela pra cá, vou dar-lhe uma lição de que ela nunca se esquecerá!
Masao não gostou do tom daquele velho. Além do mais, era só um pedaço de pão. Quem rouba um pedaço de pão por diversão? A garota devia estar morrendo de fome, o que o fazia lembrar-se de sua infância miserável, quando tudo o que podia fazer para comer era roubar.
— Vá embora. Tenho certeza de que um simples pão não vai lhe fazer falta.
— E quem é você para dizer qualquer coisa, moleque? — deu um passo em direção a eles, e Masao sentiu a garotinha apertar com mais força sua calça. Mal deu tempo de o homem dar outro passo e o ninja já havia tirado uma kunai da bolsa ninja, encostando-a perigosamente na garganta do velho.
— Serei seu assassino se não for embora daqui agora.
Aterrorizado, o homem recuou dez passos antes de virar-se e correr dali. Masao revirou os olhos e guardou a lâmina, e só lembrou que a garotinha ainda estava ali quando ela se pôs a sua frente, com um enorme sorriso.
— O quê? — inquiriu Masao, olhando-a com suspeita.
— Você é meu herói! — disse ela com um brilhante sorriso.
— Herói? — zombou. Mayumi assentiu sem se abalar com seu tom, fazendo-o rir com escárnio. — Sai da frente, menina.
Ela saiu, mas quando ele se pôs a andar, ela o seguiu.
— O que é agora? — Masao resmungou.
— Você é meu salvador, vou com você para onde você for!
Que ótimo, ela sabe rimar, segurando a vontade de revirar os olhos outra vez, ele parou subitamente, fazendo a menina parar também, confusa.
— Vamos ver se você consegue acompanhar isso. — e pulou para longe dela, começando a correr.
— Isso não é justo! — ainda pôde ouvi-la gritar, tentando correr na mesma velocidade que ele. Mas Masao era um ninja e ela, não.
Mas horas depois, quando a noite a muito já tinha caído e minutos depois de o shinobi ter parado para montar acampamento, Mayumi reapareceu. Ofegante, com as mãos nos joelhos, toda suada em suas roupas velhas e sujas. Mas estava lá.
— Eu... — ela puxou o ar com força. — consegui!
E levantou o polegar para Masao, que estava sentado perto de uma fogueira, apenas observando-a com o cenho franzido. Ela havia o perseguido até ali? Bem, tinha que dar crédito a garota por ser tão irritantemente insistente.
— O que você quer? É dinheiro? — inexpressível, ele pegou algumas notas de sua bolsa ninja e jogou no chão aos pés dela. — Dá pra comer por dois dias com isso. Agora já pode me deixar em paz.
A loirinha agachou-se e pegou o dinheiro, e quando Masao achou que ela iria finalmente ir embora, ela aproximou-se e jogou as notas no fogo.
— Garota, o que está fazendo? — ele perguntou realmente surpreso. A menina lhe deu um olhar muito duro para uma criança de sete anos.
— Meu nome não é “menina” ou “garota”, é Mayumi! — retorquiu com as mãos na cintura. — E eu não preciso disso! E mesmo se você não quiser eu vou te seguir aonde for!
Passado alguns segundos em silêncio, ele simplesmente inquiriu:
— Por quê?
Os olhos dourados dela brilharam.
— Porque estamos destinados a ficar juntos. — ela disse toda alegre. Masao sentiu uma verdadeira vontade de rir, como nunca havia sentido, mas se controlou.
— É mesmo?
— Hai! — sentou-se a sua frente, perto da fogueira. — Mas é claro que vamos esperar mais alguns anos. Mamãe costumava dizer que uma garota só pode casar quando tiver idade suficiente.
Ignorando tudo o que lhe dizia para mandar a garota para longe — de que diabo iria adiantar, aliás? —, Masao a encarou.
— E onde está sua mãe?
Mayumi baixou o olhar, mas após alguns instantes, contou tudo a ele. Contou como os pais haviam morrido no que tinha de tudo para ser apenas uma simples missão de coleta de informações; contou como ela vinha vivendo desde então, roubando para poder comer, procurando abrigos para poder dormir. Então ela finalizou dizendo que nunca seria ninja, por ser “um trabalho horrível e triste”.
— E sangrento. — Masao completou com um tom de voz quase cruel.
— Matar deveria ser errado. — ela abraçou as pernas contra o peito, os olhos fixos no trepidar do fogo. — Ninjas não deviam existir.
Masao suspirou com a ingenuidade da criança.
— Mesmo se não existissem, ainda haveria mortes. Está em nosso sangue.
— Não no meu. — Mayumi rapidamente contestou.
— Seja por alguma ordem de um superior, ou autodefesa, ou vingança. — os olhos verdes dele estavam fixados nos dourados dela. — Mesmo você mataria.
— Você é estranho. — ela murmurou.
— Sou. Ainda quer continuar me seguindo por aí?
— Já falei que vou aonde você for! — pronunciou de forma inabalável.
Masao suspirou.
— Que seja então.
E foi daquele jeito que Masao a levara junto consigo na viagem, e Mayumi ingressara na Yama. Ela era uma das poucas pessoas dentro da organização que não eram ninjas; uma das poucas, mas não a única. Yama também aceitava qualquer um, shinobi ou não, que tivesse algum laço muito forte com algum integrante da organização, ou que simplesmente concordasse com a ideologia do grupo.
Quando Masao chegou com a garota na sede da Yama, todos zombaram dele. Yuri, um ruivo idiota, dois ou três anos mais novo que ele, foi o que mais azucrinou o rapaz.
— Uma garotinha, Masao! — dizia, com um sorrisinho irritante nos lábios. — Você está tão desesperado assim?
— Você é nojento. — rebatia ele.
Mas, no final de tudo, Yuri não lhe julgava realmente. Afinal, a outra integrante não ninja da Yama era sua namorada — que mais tarde viria a ser sua noiva e, depois, esposa. Seu nome era Sayo e fora ela quem cuidara de Mayumi até ela estar crescida o suficiente.
Infelizmente, para Masao, Mayumi viria a ser algo muito mais do que uma simples garotinha. Ela ia crescendo e ficando mais esperta, mais intrigante, mais bonita. Vivia brincando e lhe provocando, e era uma das poucas pessoas que conhecia todos os seus segredos, sua meta (praticamente inalcançável) de matar Danzou, seus pensamentos mais íntimos.
Quanto a matar seu próprio pai... em todos aqueles anos, eles tiveram dois combates. O primeiro, quando Masao tinha treze anos (e ainda era ingênuo o suficiente para pensar que já estava no nível do Shimura); nunca entendeu por que Danzou não o matara logo ali. Talvez não quisesse lidar com o sangue do próprio filho manchando suas mãos. Bem, Masao nunca saberia.
O segundo ocorrera quando tinha dezessete anos, e conseguira deixar duas ou três cicatrizes em Danzou... além de descobrir o que ele escondia por debaixo daquele pano em seus braços. Naquela época o massacre do clã Uchiha já havia acontecido há, talvez, dois anos.
Aos dezessete anos, Masao já havia descoberto que tinha uma rara afinidade com todos os elementos. Infelizmente, ainda não tinha treinado o suficiente para dominar tal poder, portanto a batalha acabou em empate.
A ANBU Raiz estava sempre na cola do Shimura desde então, e Masao nunca mais o enfrentou. Talvez porque o sentimento de vingança já estivesse esfriado em seu coração, talvez porque não valesse mais a pena arriscar sua vida ou seu status de ninja para matar um velho estúpido. Talvez porque Mayumi houvesse o convencido de que deveria deixar aquilo para trás, e se concentrar em ser Masao, um ninja que poderia ter metas maiores e melhores do que a de matar o próprio pai.
De qualquer forma, um ano depois, Uchiha Sasuke o matou. A notícia não trouxe nenhuma emoção a Masao. Pensou, sim, “finalmente”, mas nada mais que isso. Não sentiu tristeza, ou raiva por não ter sido ele a assassiná-lo, simplesmente... foi indiferente.
Passou, então, a buscar um novo propósito. Se tornar mais poderoso. Ser um ninja do qual todo mundo ouviria falar.
Naquela época, Uzumaki Naruto era o herói da vila. A luta contra Pain havia o consagrado. Em Konoha, quase ninguém conhecia Masao — naquela vila, ele era como uma sombra. Mas não se importava. Tinha outras vilas lá fora, maiores e melhores que Konoha. Ele poderia ser grande lá.
Meses depois da morte de Danzou, no entanto, Mayumi completara dezesseis anos. E foi quando acontecera: ela tivera sua primeira visão. Sua primeira profecia. Ainda podia lembrar as exatas palavras — não, lembrar não. Nunca havia esquecido.
Tinha ido chamar Mayumi no quarto que ela tinha na sede da Yama; era aniversário da garota, mas ninguém a tinha visto desde o dia anterior. Ela estava estranha, portanto Masao fora procurá-la. Foi quando ouviu.
Dois ninjas
Cujos destinos foram traçados na infância
E interligados serão a partir das escolhas que farão
Dois caminhos terão a percorrer
Mas só um poderão escolher
Um, a lenda do mundo
Ou o destruidor dele
Shimura Masao
Se força ambicionar
E o caminho errado escolher
A Folha em desgraça cairá
E nada mais ele terá a perder
E, se o destino ele tentar mudar,
E outras escolhas tentar fazer
Acabará no mesmo caminho primeiramente traçado
E cairá
Em desgraça, escuridão e na ambição de ser o melhor.
E poder será tudo o que lhe restará.
Então ele libertará
O monstro e a destruição
E tudo começará lá
Até que não tenha mais jeito de ele voltar a ser
O que era antes de tudo acontecer
E nessa ilusão ele vai cair
Até que o sol o liberte
E o faça perceber
O que sempre esteve ali.
O outro, que lutará contra,
Ou que se perderá no meio do caminho
Uzumaki Naruto
A alma perdida na própria dor
Se o outro decidir
O mundo destruir
Será outra vez ele o salvador,
Mas se no meio do caminho
O salvador desistir
E à escuridão se entregar
Nada mais que pó restará
E o mundo fadado a desaparecer estará
Fora a partir daquele dia, então, que o destino de Masao estava selado e fadado a ir por apenas um caminho: o da destruição do mundo.
Fale com o autor