I'm Not In Love
18 Trauma
Notas iniciais
Três meses depois
Segunda-feira
O Sol que iluminava o quarto de Morg àquela hora era tão forte que ela achou que estivesse parcialmente torrada. Levantou-se devagar. Olhou as horas. Com a perna direita dormente, rastejou até a porta de vidro da sacada, e abriu-a, para sentir o vento do fim da madrugada bater-lhe o corpo. Depois disso, dirigiu-se, com os olhos ainda embaçados, ao banheiro, começando seu ritual para tentar expulsar a preguiça que lhe atacava aquela hora.
O impacto da água fria com o corpo quente, recém acordado, a fizeram tremer até buscar a toalha, fora do boxe. O celular tocou em algum lugar do quarto; porém ela não se apressou. Na verdade, ela não deveria nem atender, o que lhe parecia mais viável. Mesmo assim, adiantou o processo que fazia todas as manhãs: tentar desembaraçar os cabelos, que embora curtos, levavam um tempo extra para ficarem aceitáveis.
Aí ela passou pela porta do banheiro e buscou o celular dentro de uma das gavetas da escrivaninha, e atendeu.
– Valar Morghulis. — Dissera ele, rindo, àquela hora da manhã. O semblante de Morgana melhorou um pouco, mas o suficiente para responder:
– Valar Dohaeris. — e continuar o seu caminho: closet, escada, sala, rua, escola.
Adentrou o espaço, procurando por nada em especial. Puxou uma calça jeans clara e um casaco de moletom azul escuro, com o tênis all star cinza, cheio de bolinhas pretas.
– Ei. Nem ouse vir aqui, tá certo? Encontro você e Bran no colégio. — Pensou em desligar, mas antes, uma voz que não provinha do aparelho celular, disse:
– Palavras inúteis, garota amável. — A frase, e principalmente a última palavra, foram ditas com uma dose excessiva de sarcasmo, o que a fez girar pelos calcanhares em direção a porta e dizer:
– Seu idiota! Se... — Ela fechou os punhos, em expressão brava — Se eu tivesse pelada eu nem sei o que faria com você!
No instante em que falou, descobriu que a frase soara um tanto maliciosa; o que a fez irritar-se mais ainda com o outro, que não achou pouco e alfinetou:
– Não é óbvio?
Morgana choramingou de raiva, e ameaçou antes que pudesse machucá-lo de verdade:
– Eu sei que você quer viver mais uns anos, ainda. Já pra sala. Anda.
– Na verdade, eu...
– An-da.
Ele riu um pouco antes de sair, e virou o rosto quando ela suavizou a expressão; ela nem ficara brava de verdade; era só um truque para afastá-lo. Isso perdurava por três meses, desde o dia do amuleto da sorte, no parque.
Lembrando-se do tal amuleto, Morg deu as costas à porta e buscou-o na mesma gaveta que antes estava o celular; ela tinha feito um rápido trabalho de restauração no objeto, e agora o pingente reluzia à luz do alvorecer. Sem muitas dificuldades, ela prendeu o objeto ao pulso, e só então arrumou seus pertences para descer as escadas.
Ela veio remoendo alguns assuntos na mente.
"Eu simplesmente não conseguirei conviver com alguém como ele. É como se eu fosse cometer um ato de homicídio a toda hora."
Respirou fundo antes de pular o último degrau, como sempre fazia, e sem querer deu um encontrão em Ralph, que a segurou pela cintura. Não se importou com o gesto; o que até a surpreendia realmente, então deixou que ele falasse.
– Minerva me deixou entrar, e ela já estava de saída. Tipo, iria falar com você, mas me escolheu como porta-voz oficial da família Leonhardt. — Ele fez um tipo de pose ridícula, algo parecido com o que se faz em grandes cerimônias, e ela riu, para depois falar:
– E você se orgulha de seu cargo?
– Mas é claro que sim.
A "raiva", aparentemente tinha apaziguado dentro dela, então passou o braço esquerdo pela cintura de Ralph e o arrastou para fora da casa. As chaves tintilaram alto quando ela trancou as portas, tanto pelo balanço das mãos quanto pelo do vento forte que agitava as árvores da vizinhança.
– Sabia que você tá parecendo uma velhinha andando desse jeito? — Alfinetou, quando Ralph andava vagarosamente para acompanhar as passadas curtas da menina.
– A escola não foge dali, sua apressada. Além disso, você é que parece uma velhinha. Com essas perninhas. — Ele recebeu um tapa no topo da cabeça; o que só o fiz rir mais, já que ela tinha que ficar nas pontas dos pés para alcançar isso.
Comentários desse tipo, sem nenhum fim sério de verdade, foram distribuídos pelo caminho. E Morg não gostava de admitir que fazia bem discutir sobre a anatomia dos cangurus com ele.
X-
Ao final das atividades escolares, Morgana, Bran e Ralph pararam de fronte à escola. Brandon estava entre os dois; os três discutiam algo sobre ir ao boliche na quarta à noite. Só que Morgana não apreciava a ideia; tinha planos para quarta-feira à noite. Que eram, em toda a sua inocência, ficar em casa para ajudar sua mãe com os deveres domésticos; só que ela não faria isso por quê queria.
O motivo era uma viagem no fim do ano, que só seria conquistada com as seguintes condições: fazer todas as atividades escolares; não arrumar problemas na escola, como fizera no início do terceiro bimestre; ajudar nas atividades domésticas; não desrespeitar as ordens de Minerva; e sempre, ou quase sempre, andar acompanhada. O que fazia Minerva querer que a filha fosse com Ralph para a maioria dos lugares.
– Fala sério, mãe — Ela dissera, no dia em que a mãe decretara as condições — A senhora sempre teve confiança em mim, pra quê isso agora?
– Rebatendo as questões? A viagem se distanciou uns... 10 km de sua rota.
Morgana passou o dia avaliando as questões. Resmungou aos montes enquanto limpava o jardim, as folhas que caíam da macieira que elas cultivavam.
A partir desse dia, todas as segundas, quartas e domingos, ela viraria um tipo de escrava sem remuneração.
– Gente, pelo amor de Deus. Não dá pra marcar outro dia? — Ela perguntou pela milésima vez na manhã. Bran revirava os olhos, e respondia sempre a mesma coisa:
– Theo. Olhos azuis. Cabelos pretos. Boliche. Quarta.
Theodore era um garoto que viera de Massachussets, e não estudava na mesma escola que eles. Trabalhava no Sunset's Bowling Club às quartas, apenas pelo dinheiro extra e por gostar do clima que o ambiente projetava. Era filho de um dos amigos de trabalho de Minerva; Morgana já os vira algumas vezes.
Ralph ajudava Brandon todas as vezes que Morgana perguntava o porquê; mesmo já sabendo a resposta.
– E por que vocês não podem ir sem mim?
"Porque é sem graça", eles queriam dizer, mas ao mesmo tempo, sabiam que inflar o ego daquela coisinha não era uma boa. Então limitaram-se a dizer:
– Três pessoas, combo mega na lanchonete. — Ralph mentiu, sem rir, mas Brandon não aguentou vê-los, se ver, numa situação daquelas. Então riu até não poder mais, atrapalhando-se ao tentar repetir:
– Combo... Três pessoas... L-lanchonete...! — Morgana ao invés de ficar carrancuda como sempre, riu junto ao amigo, tentando, em vão, parar de rir.
Ralph esperava eles pararem de contorcer-se, com um sorriso no canto direito dos lábios. Morgana tinha apoiado-se no seu braço direito, enquanto via os olhos de Bran lacrimejarem. Ele limpou a garganta, o rosto vermelho e suado, por conta do Sol.
– A do combo foi boa, admitam.
– Foi ótima, cara. Foi ótima. E eu estraguei tudo. — Ele voltou a rir, só que dessa vez mais baixo. — Então, Morg? Vai deixar seu melhor amigo e seu namorado (e segundo melhor amigo) na mão?
Morgana ainda sentia uma pontada de mal-estar com o termo "seu namorado", mas não deixou que eles percebessem.
Ela pensou bem, e por fim, anunciou:
– Eu irei... — Eles quase comemoraram -... Falar com a minha mãe. Talvez ela abra uma exceção.
Atravessaram a rua e Morgana seguiu por um caminho oposto ao deles dois. Antes de seguir seu caminho, ela os observou de longe, duas figuras completamente diferentes que faziam parte de sua vida naquele momento. Sentindo o vento bater contra seu rosto, ela pensou em como driblar sua mãe, só para ir à um boliche para "ajudar" seu amigo.
Adentrou a casa aparentemente vazia, mas aí ouviu Minerva gritar, do quintal:
– Morgana?
– Cheguei!
A mãe da menina veio para sala, as mãos cobertas por luvas amarelas cheias de terra, e em uma delas segurava um alicate de jardim um pouco grande de mais.
– Mãe, posso trocar um dos dias de atividades domésticas? — Morgana pediu calmamente, sem parecer que estava suplicando; apenas agiu com indiferença.
– Hm... Que seria...?
– Quarta. Bran achou legal ir ao boliche nesse dia, pelo fim da tarde, então nos chamou. Eu e Ralph. — Esclareceu o "nos chamou" antes que ela dissesse "quarta eu não posso, tenho trabalho" ou "eu adoraria!". Seria constrangedor se ela tivesse que dizer: "não mãe, você não, sou eu e Ralph".
– Ah, tá certo. Aí você me ajudaria a organizar a garagem na próxima semana? Descobri que a gente ainda guarda uns brinquedos seus; nós podíamos organizar um mutirão pra doar aos orfanatos da cidade, quem sabe...
– Mãe, a senhora meio que viaja às vezes, sabia? — Mas não era uma crítica. Morgana aproximou-se e deu um abraço na mãe, que não pôde retribuir na mesma intensidade, pois estava toda suja de terra e folhas.
– Vou subir.
– Tá certo. Ei, me transferiram para o fórum de Massachussets. — Olhou-a com certo pesar. Adorava seu trabalho, pois ficava bem perto de casa, mas esse serviço era muito complicado; viagens à toda hora, para resolver problemas em outras cidades.
– Quantos dias?
– Até domingo que vem. — Minerva lamentou. — Saio hoje, antes das 4 hrs, senão perco o voo. — Minerva era mestra em se atrasar para compromissos sérios; o que ditava que ela tinha que estar no aeroporto antes de 4 hrs. Morgana riu com o comentário; ela sabia muito bem que essa era a verdade.
– Não se preocupe, consigo não colocar a casa abaixo. — Morgana piscou e enfim subiu às escadas, procurando logo pela água fria do chuveiro. Largou a bolsa encima da cama e se despiu.
X-
Ralph chegou sem ser chamado por volta das 4:30pm. Quando a porta foi aberta, ele estava com um sorriso meio engraçado no rosto, e não pediu licença quando Morgana deu espaço suficiente para ele poder passar.
– Educação mandou lembranças. — Mas ela não falava sério. Ele sabia, e ignorou o comentário, se preparando para falar algo certamente importante.
– Estávamos, eu e Brandon, vindo para cá quando nós esbarramos com Theodore na outra rua. — Ele falou, surpreendendo-a de pronto. Ele sabia que isso aconteceria, por isso tinha vindo avisá-la.
– E por você não me ligou? — Fez uma careta.
Ele olhou-a como se dissesse: era um motivo para te ver.
– Deixei os dois "pombinhos" à sós; não podia me afastar para ligar para você, isso pareceria estranho. Além de que eu não estou muito interessado em ver pessoas flertando umas com as outras.
Ele ensaiou sentar-se no sofá, mas não o fez. Morgana o olhou de cima a baixo.
– Incomoda um pouco, né? Você ia parecer uma vela ali. — Então Morgana riu da cena imaginada na sua cabeça: Theo e Bran olhando-se nos olhos, possivelmente tocando as mãos ou algo do tipo, e Ralph um pouco mais ao lado, com a maldita "cara de paisagem".
Morgana tinha tomado banho e arrumado o quarto antes que sua mãe saísse, e ficou na soleira da porta até o carro desaparecer no horizonte. A partir daí, não encontrou nada de interessante para fazer: estava sem imaginação para desenhos, sem inspiração para fotos e uma preguiça que dava dó.
Ralph enfim sentou no sofá e ela copiou o movimento, só parando para pegar o controle da T.V. Mesmo estranhando a atitude, a ruiva não protestou quando o rapaz fizera suas pernas de travesseiro. Uma de suas mãos estava no topo da cabeça dele, e o polegar acariciava os fios negros minimamente.
Eles acabaram assistindo dois episódios de Friends antes de Ralph cair no sono, com a cabeça apoiada num dos "braços" do sofá, de modo que suas costas ficassem confortavelmente planas nas coxas de Morgana. Ela continuou assistindo à série, de vez em quando rindo com alguma cena; mas Ralph respirava regularmente e não acordava.
Morg pensou naquelas histórias todas parecidas, onde sempre continham a frase: "Ele lembrava um anjo enquanto dormia".
Só que a menina não o achava parecido com anjo nenhum; sua comparação era a de um guerreiro antigo ainda em fase de treinamento. Até porque, sua expressão não era tão suave enquanto ele dormia.
"Ele poderia até se enquadrar na casta dos querubins; mas isso ainda é um anjo. Ralph lembra aqueles cavaleiros com elmo e armadura, ainda mais por esses cabelos gigantes, maiores e mais bonitos que o meu."
Ela pegou-se prestando bastante atenção ao rosto do rapaz em seu colo, e pela primeira vez prestara atenção aos mínimos detalhes: uma das cicatrizes do acidente aos doze anos, no supercílio esquerdo; era quase imperceptível. Dois sinais um ao lado do outro, logo abaixo da orelha esquerda. Os lábios finos, o nariz quase parecido com o dela, só que um pouco maior e menos empinado. Os cílios médios e muito pretos, faziam parecer que era adepto ao uso de maquiagens. O peito subia e descia calmamente.
Morgana beijou-lhe a testa, um pouco acima do meio dos olhos, e saiu com cuidado do sofá.
Ao chegar na cozinha, começou a preparar lanches antes que a preguiça atingisse seu apogeu, e os conservou na geladeira, tudo antes do menino despertar do pequeno cochilo.
Ela estava quase nos limites do cômodo, quando ele levantou a cabeça, os cabelos formando um pequeno halo embaraçado no alto, e falou:
– Vou dormir com você.
Morgana espantou-se com tamanha prepotência, e logo rebateu o anúncio. Negaria para sempre a ideia de um garoto que a fizera se apaixonar, dormindo na sua casa. Não, nem pensar.
– Você tem casa.
– Mas você está sozinha.
– Mas eu...
– Nada disso. Nem que eu tenha que dormir na sala.
– Como assim, "nem que eu tenha que dormir na sala"? Você ficaria na sala de qualquer jeito, meu querido. — Ela soltou um pigarro. Ele absorveu a informação; de certa forma, estava indignado. Então ela perguntou:
– Quer comer algo?
Ele meneou a cabeça negativamente, lembrando uma criança, e não o guerreiro a que se assemelhava enquanto dormia. Morg arrastou-se até o sofá, sentindo as energias sendo levadas do corpo a cada passo. Mas antes parou, na frente dele, e perguntou, apenas por curiosidade:
– Para que serve um namorado? — A dúvida vinha lhe martelando a mente por aqueles dias. Fazia três meses desde que eles começaram um relacionamento. Ela passara dois negando isso à si mesma e à todos que perguntassem. Porém ela se arrependeu um pouco depois da pergunta, vendo a expressão indecifrável do garoto sentado ao sofá. Ele estava meio confuso, e a sensação só piorou depois que ela sentou-se ao seu lado. Estava olhando fixamente para um ponto no chão.
E o tempo passou. E as coisas que rondavam, iam e voltavam pela cabeça dele só o faziam querer puxá-la para si e beijá-la. Mas controlou sua vontade. Ele pediu mentalmente para que ela parasse de mostrar-se assustada; assim ela parecia lindamente vulnerável... À ele.
Durante os minutos que se sucederam a pergunta, ela fez mais uma, mas ele pareceu não ouvir; estava absorto de mais aos pensamentos para perceber algo ao seu redor. Mas a voz dela aumentou duas oitavas, então ele ouviu-a claramente reclamar:
– Acho superinteressante quando eu pergunto as horas e você apenas me encara como se eu fosse um coelhinho sambando. — Grunhiu.
Ela tinha parado de fazer perguntas e ele continuou a "observá-la"; na verdade, os olhos estavam nela, vagando por seus cabelos e olhos, e a mente em outro lugar. Ele tentava responder a pergunta anterior.
Morgana levantou-se do sofá e foi buscar algo para ver as horas. 17:57. De repente, a pergunta surgiu outra vez em sua garganta, e ela não esforçou-se para segurá-la:
– Um namorado serve realmente para alguma coisa? — Parou em frente à ele, com as mãos pequenas na cintura. O olhar curioso decaía sobre ele, fitando-o demoradamente, quase o perfurando. — Porque é, tipo, quase a mesma coisa que um amigo. A diferença é que fazem coisas minimamente... Exageradas que os amigos. Eu não vejo o porquê da nomenclatura.
Agora o olhar pesado vinha das duas partes: um, parte do conflito, e o outro, tentava a abordagem pacífica.
Até que ela irritou-se, enquanto respondia à si mesma:
– Não servem para n... — Não pôde terminar a frase; nunca dá para terminar frases quando se é puxado brutalmente para baixo, obrigando-se a parar de falar para beijar. Ela continuaria seu monólogo sobre a inutilidade da relação e da nomenclatura, e pretendia terminar a tarde enxotando Ralph de sua casa, mas não foi bem isso que aconteceu.
Ela esperneou no início, e quase conseguiu escapulir do sofá e voar pelas escadas até o quarto, mas o menino tinha fixado seus orbes nos dela, quase suplicando: fique. Sentiu as pálpebras sendo fechadas por uma força invisível, e o corpo sendo abraçado por uma força totalmente visível e física.
Deitou-a abaixo de si, e não esperou que ela abrisse os olhos para dizer:
– Não servem para nada; só para beijar, abraçar, conversar, brigar, confiar - a indireta fora recebida com sucesso, já que ela o alfinetou com os olhos — e às vezes, só fitar como se fossem coelhinhos sambando, mesmo. — A resposta fora melhor do que ela pensava, realmente. Apesar de parecer um pouco clichê, Morgana riu contra os lábios do garoto, enquanto os juntava rapidamente; um gesto quase involuntário que vinha acontecendo de uns tempos para cá.
– Pode parecer, mas eu não gosto de te magoar, sabe. É que você é a pessoa mais idiota que eu já conheci em toda a minha vida.
Ela expôs com toda a sinceridade do mundo, olhando nos olhos dele, sem desviá-los. Ele sorriu mesmo assim, mas não respondeu. Só sentiam a leveza do momento. Porém é difícil "sentir a leveza" quando uma música extremamente alta toca de algum lugar desconhecido. Ralph revirou os olhos.
– Meu celular. — Morgana riu. O aparelho tocava insistentemente, só que ela não sabia de onde estava vindo o som. Precisaram sair do sofá para procurar, e depois de procurá-lo rapidamente, ela enfim o achou embaixo do móvel. Ele tinha caído das mãos da menina quando foi abruptamente atacada.
– Alô.
Mas ao invés de ouvir um "oi, aqui é o fulano", só ouviu gritos. Mas não gritos de dor ou angústia; gritos de felicidade.
Identificou-a como a voz de Bran, então disse:
– Vamos, Bran. Para de gritar e diga logo o que tem a dizer. Brandon! — Mas ele não parou de gritar e rir, então ela desligou e decidiu falar com ele em outra hora, quando o mesmo tivesse mais... Calmo. Morgana, involuntariamente, sorriu, imaginando que o amigo estivesse em uma posição melhor que a sua: talvez ele não precisasse expulsar Theo de sua casa, quando esse quisesse dormir ali.
– Onde paramos? — Ele provocou, fazendo-a olhar para ele, com um misto de pavor e indignação. E tédio.
– Que coisa mais ridícula de se fa-
Então todas as luzes apagaram de uma vez só, como se dissessem por Ralph: cale a boca. E ela calou. A rua estava toda em trevas, e só conseguia-se ouvir as pessoas saindo de casa, acendendo velas e iniciando conversas aleatórias com os vizinhos.
Morgana sentiu um calafrio passar pela espinha. Eu não tenho uma relação legal com a falta de energia. Não tenho mesmo. Procurou o sofá para sentar-se. Respirou fundo, com os dedos a batucar nervosamente nos joelhos. Com os olhos acostumando-se ao breu, ela distinguiu Ralph voltando para o sofá também, aproveitando-se da situação para confortá-la com um abraço. Achava que era apenas um nervosismo momentâneo; acontece com o próprio, às vezes. Mas ele estava ligeiramente errado em sua decisão.
– Vamos para a cozinha; temos que iluminar a casa. — Disse ele. Então sentiu que ela tremia, quando segurou sua mão para guiá-la. Tremia muito. Porém Ralph não soube muito bem lidar com a situação; achava que seria finalizada apenas com velas em cada sombra da casa, mas não. Existia um propósito naquilo, naquele pavor não-momentâneo que se instalara na menina ali.
Ele teve de arrastá-la para a cozinha. Pegaram velas e caixas de fósforo, indo em direção à sala. Morgana pegara tantas velas que Ralph se sentiu inclinado a reclamar:
– Nós vamos iluminar a casa, e não queimá-la, Morg. — Ela lembrou-se do que disse à sua mãe no início da tarde: "não se preocupe, consigo não colocar a casa abaixo". Não conseguiu rir; apenas soltou um muxoxo.
Porém ela não prestou muita atenção à crítica; só parou para sentar-se novamente; os dedos voltando a bater contra os joelhos, uma forma de acabar com o pavor.
– Fica calma. Ei, ei. — Ele imediatamente parou de acender fósforos. Sentou-se ao lado da menina que tremia. Estalou a língua, e pensou rápido em algo para distraí-la. Ou para fazê-la dormir. — Já sei! Por que você não toma um calmante, deve ter algum calmante nessa casa, e tenta dormir? — Ele apertou seus ombros, sorrindo. Esperou que ela retorquisse a ideia com um esbravejo, uma reclamação, mas ela só sussurrou:
– É escuro. E-eu não consigo dormir no escuro. N-não adianta, Ralph. Não adianta. — Ela tentou respirar fundo para manter a calma, e claramente não obteve sucesso. Levou os joelhos flexionados até a altura do pescoço, e assim permaneceu; calada, encolhida aos braços de Ralph. Tinha percebido que a situação só piorava com o cair da noite, os animais noturnos fazendo barulhos lá fora.
O medo provinha de um trauma. Aos 10 anos de idade ela fora trancafiada num armário, numa dessas brincadeiras sem propósito que as crianças maiores inventam. O motivo foi ter negado dar um beijo na bochecha de um menino três anos mais velho; e ela, com o pensamento fechado para esse tipo de coisa desde sempre, negara. Os outros meninos a fizeram "pagar o pato", jogando-a dentro de um armário abandonado, infestado de ratos, baratas e muita umidade.
Ele tinha tentado iniciar diálogos aleatórios; sobre o boliche, Bran e Theo, mas a única resposta dela era um aperto na mão esquerda. Os dedos estavam novamente entrelaçados, apertados entre as duas costas das mãos, como no episódio do parque.
X-
Terça-feira
Acordou sentindo cócegas na bochecha. Levou a mão ao local e acabou chocando-a contra algo sólido: um ombro. Abriu os olhos lentamente. Descobriu que o proveniente das cócegas era o cabelo de Ralph, que estava espalhado ao redor das duas cabeças. Morgana estava deitada parcialmente no sofá e parcialmente em cima do garoto; suas pernas entrelaçadas, o tórax que servia de travesseiro e as mãos que se tocavam levemente. Apesar de ele estar no lado em que poderia cair no chão, e ela apoiada no encosto do sofá, ele a envolvia com o braço direito.
Com calma e leveza, além de agilidade, ela saiu do sofá, dirigindo-se silenciosamente para a suíte. Não era possível ouvir o som do chuveiro na sala, então ela não limitou-se ao girar a pequena peça de aço.
Eram quase 4am, a energia já tinha voltado. Ela agradeceu imensamente por isso, enquanto tomava um rápido banho quente. Trocou as roupas e voltou à sala; porém não ao mesmo sofá. Apagara todas as velas, e a casa teria cheiro de cera por um tempo. Ligara a T.V. e deixara no mudo, então passou a observá-lo, como o dia anterior, só que mais de longe.
A noite anterior fora aterrorizante. Mesmo com o garoto ali, tentando dialogar e acalmá-la, ela se sentia no armário, no pior dia de sua vida.
Com humor, ela pensou: Quem diria que no pior dia da minha vida eu fui trancada num armário; o aparecimento do Ralph foi só o segundo pior.
–X-
Já passava das 12 da tarde. Ralph tinha acabado de acordar e foi rapidamente em casa para tomar um banho e escolher algumas mudas de roupa. Tinha insistido que deveria ficar ali, junto à ela, pelos dias em que Minerva passaria fora. Além de obrigá-la a aceitar, ele ligara para a mãe dela, com a maior cara-de-pau do mundo, e Minerva concedeu, sem muito o que argumentar. Morgana achava que ele deveria ser encarcerado por tamanha capacidade de oratória. Isso é um animal perigoso; que foi que ele fez com a cabeça da minha mãe, meu Senhor? Ela até tinha tentado gritar para se defender, mas ele só cobriu a boca dela com uma das mãos.
– Eu não seria capaz de acordar às duas e meia para vir te ajudar aqui, Morg. — Ele admitiu.
Ela cedeu depois de um tempo, sem opções viáveis para impedi-lo.
– Além disso, quem garante que você não terá um ataque de nervos assim que anoitecer?
Ela recebeu a alfinetada e logo respondeu, taciturna:
– Até parece que eu nunca dormi sozinha aqui. O problema não é dormir sozinha. É o breu total que fica quando falta energia, entendeu? Eu me sinto completamente desamparada, sem poder enxergar um palmo à minha frente. E com o perigo de ladrões.
– Ah. — Ele refletiu. — Não importa. Os ladrões chorariam por suas mães se você estivesse aqui dentro. Você assusta, sabia? — E ele mudou de assunto de repente, quando ela se sentiu ligeiramente lisonjeada com o elogio: — Não esqueça-se do nosso acordo, tá?
Ralph riu assim que viu a cara engraçada dela, recordando-se do trato que fizera com os meninos no dia passado. Bran não tinha ligado outra vez desde o seu minúsculo surto, então ela tomou a iniciativa; dessa vez, deixando a chamada no alto falante, para que os três pudessem interagir.
O celular chamou três vezes antes de o menino atender, com a voz sonolenta; parecia muito enfadado. Morgana perguntou, antes que ele pudesse falar algo:
– O que você fez? — Com um misto de espanto, curiosidade e diversão, ela esperou pela resposta. Ralph esperava também, mas com menos expectativa. Não tinha muita graça para ele em esperar gritos de dois amigos próximos falando de garotos bonitos.
– Conversei pelo celular até amanhecer. — Ele bocejou; Ralph e Morg ouviram o som abafado de algo se mexendo; Bran parecia sair da cama. — Aí faltou energia também?
Morgana olhou para o menino com ar extremamente diferente de como olharia normalmente. Ralph levou o indicador à ponta do seu nariz, fazendo cócegas. Olhou-a com afeto. Ela suspirou e respondeu à pergunta:
– Sim, faltou.
– Uma droga, né? A gente só parou de conversar porque o celular dele estava descarregando.
Brandon não fazia ideia de Ralph estava ali, senão entraria em um estado parecido com o que estava na tarde passada. Morgana preferiu omitir essa parte do resumo do que fizera no dia anterior, e Ralph não interrompeu-a, como ela esperava. Sentiu que ele a respeitava de algum modo, mesmo que não tivesse dito o motivo do ataque de nervos. Então eles passaram o início da tarde conversando, até que decidiram comer em algum lugar. Morg, no dia passado, tinha preparado lanches, mas queria sair um pouco de casa. Aliviar as sensações que presenciara novamente.
Estavam a caminho do boliche. Morgana vestia um casaco de lã verde que ia até metade das coxas, e as mangas ficavam um pouco grandes pelo tamanho dos braços da menina, então ela os dobrou. Brandon estava, por assim dizer, radiante com a ideia do encontro, e andava na frente do grupo, falando sobre qualquer coisa; o vento forte não deixava que as palavras dele chegassem aos ouvidos do casal às suas costas.
– Tomara que não haja nenhum imprevisto.
– Hm?
– Odeio ver meu amigo se dando mal, sabe. — Ele olhou condescendente para ela.
Caminharam por 15 minutos até pararem à fachada de um estabelecimento grande, com portas de vidro e letreiros graúdos. Entraram. A música que só ecoava lá fora, era bastante alta lá dentro, e luzes piscavam acima das pistas de boliche, ainda fechadas; o horário de pico chegava dali à meia hora, se contar com o número de pessoas que transitam pela praia à esse horário.
Theodore acenou de longe. Seus cabelos pretos estavam penteados descuidadamente para trás e ele estava usando um casaco azul anil, que se assemelhava ao de Morg, e destacava seus olhos azuis brilhantes. Ele avaliou minuciosamente cada membro do grupo, e se deteve mais a Ralph, que olhou inocente para Morg e o menino, três vezes; como se mostrasse que estava acompanhado.
– Ralph, faça uma careta. — Brandon brincou, meio falando sério também.
Morgana desatou a rir, e em contrapartida, Ralph não entendeu a piada. Na verdade, seria melhor se ele continuasse não entendendo.
O estabelecimento começou a encher. E a noite só estava começando.
X-
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