I'm Not In Love
19 Final
Notas iniciais
A música que tocava era A Light That Never Comes. Avistaram Theodore de longe, com os cabelos pretos penteados para trás e casaco azul anil, a combinar com seus olhos.
Theo e Brandon diminuíram a distância entre eles com um abraço caloroso, e um rápido beijo. A outra dupla esperou para se apresentar. Quando chegou a vez de Morgana à dizer seu nome e tudo mais, Theo não pôde conter o comentário:
– Essa cabeça de fogo é meio difícil de esquecer! – quando ela perguntou “nós já nos vimos algumas vezes, não?”. Minerva e Phillip, pai do menino, eram amigos de trabalho. Corriqueiras reuniões eram marcadas casualmente, e os filhos eram levados juntos. Mas Phillip não levava em conta a opção sexual do próprio filho; apenas queria que ele se comunicasse com mulheres.
Theo e Morg não se falavam muito; não mantiveram contato desde a última reunião dos pais, o que fazia um bom tempo.
Ralph limitou-se ao aperto de mãos, mesmo absorto a “piada da careta”; sem saber que poderia estar, de alguma forma, evitando o menino.
Aqueles dois pareciam não passar de apenas amigos. Além de se tratar como já se conhecessem há bastante tempo, agiam feito Morgana e Ralph. Quem visse o grupo de longe, pensaria que Morg não era feminina o bastante para andar com meninas, então estava inclusa no meio dos meninos. Mas Morgana nada mais era que uma casca; conseguia ser tão feminina quanto as outras meninas; a diferença era que ela se mostrava só um pouquinho mais bruta que o necessário.
A mesa era um pouco grande para quatro pessoas, percebeu. Porém não adiantou-se a perguntar; apenas olhou para Ralph, que captou a dúvida dela no ar. Assentiu. Morg sentou-se ao seu lado, e ficaram paralelos à Bran e Theo, respectivamente. Assim, poderiam ter uma vista completa das pistas de boliche.
Theo recebeu uma mensagem. Leu, e logo após virou o visor do aparelho para que Brandon lesse também. Os dois riram, e Morgana sentiu-se incomodada. Ralph parecia não ligar para o que se passava ao seu redor.
– Será que é boa ideia? – Questionou Bran, enquanto Theo guardava o celular de volta no bolso. Morgana estranhou, mas novamente não sentiu que era boa ideia intervir.
– Theo, você só trabalha aqui por diversão, mesmo? – Ralph, curioso, perguntou. De alguma forma ajudou a quebrar a barreira de silêncio que se instalara após o misterioso comentário de Bran. O menino respondeu de pronto:
– Desde pequeno eu curto boliche, é sério.
– Pequenininho mesmo?
– Se você quer saber, sim, eu já fui levado pela bola até a pista. – Morgana, que observava a conversa enquanto bebia um refrigerante, engasgou-se com o líquido, quando riu. Brandon e Ralph gargalharam mais da situação da menina do que o próprio comentário; além do que, Bran já tinha ouvido aquela história algumas vezes. – Naquela idade mesmo, eu anunciei ao meu pai que seria jogador de boliche profissional.
– Porém, na época você disse “bolicheiro”. – Bran interveio, com uma mão cobrindo a boca do garoto, fazendo sua reclamação soar abafada e engraçada. A menina riu mais pela expressão amassada de Theo, do que a piada do amigo.
– Continuando: ele riu da minha cara, assim como vocês, seus traidores, e explicou que esse esporte não existia, e que eu teria que procurar algo diferente para fazer. Eu quase me conformei, sabe. Mas depois de um tempo freqüentando o Sunset’s, com amigos e até meus pais, eu decidi que não precisaria necessariamente jogar boliche para trabalhar com isso. Eu só precisaria mandar um currículo para o estabelecimento. – Ele sorriu de orelha a orelha.
Subitamente, uma melodia cativante invadia os ouvidos das pessoas ali presentes, vinda dos auto falantes. Ralph reconheceu como Selene do Imagine Dragons, e começou a cantarolar o começo. Porém, quando chegou ao refrão da canção, percebeu duas pessoas adentrando o estabelecimento: uma tinha grandes cabelos castanho claros e pequenos olhos de mesma cor; a outra era completamente diferente. Os cabelos louro-platinados contrastavam com o castanho escuro dos olhos. Andaram até a mesa bastante grande para quatro pessoas.
Mas não para seis.
Aí Morgana se deu conta. Por sorte, no último segundo conseguira esconder a exclamação de horror que surgira na sua garganta. “Volta todo mundo pra casa, para o mundo que eu quero descer, tirem esses sorrisos do rosto porque: eu odeio encontro de casais!”
Brandon divertia-se com cena, lembrando fielmente um sádico ou algo desse gênero. Ao cumprimentar os dois recém-chegados, ainda sentado ao lado do namorado, olhava de soslaio para a amiga. Sentia-se um pouco culpado pela brincadeira, mas nada mudava o fato de que era extremamente interessante ver Morgana estourar-se de raiva por dentro, mas aparentar alegria por fora. Era impressionante o esforço da menina para não parecer rude.
“Cara, eu vou me matar com esse garfinho de plástico aqui. Um encontro de casais? Jura? É o meu fim definitivo.”
Ralph não parecia nem um pouco surpreso; e a menina chegou a acreditar que ele estaria envolvido nessa brincadeira também, mas descartou a ideia com o passar do tempo. Ele segurou sua mão para ajudá-la a sair da cadeira, e cumprimentaram os dois visitantes:
– Morgana – apontou para si mesma, sorrindo – e Ralph, meu namorado. Ignorem cada palavra que ele disser. – Ralph olhou para ela, fingindo-se atingido, e ela o abraçou pela cintura. O casal riu, logo parando para falar também:
– Me chamo Selene – e aí Ralph levantou as sobrancelhas e apontou para as caixas de som, sem emitir som algum; Selene sorriu, acenando positivamente – e esse é Jeremy, meu namorado.
– Me chamem de Jerry. – Ele sorriu, apertando os olhos escuros.
Morgana não seria baixa ou encrenqueira ao ponto de sorrir descaradamente para o garoto, assim como Ralph e Selene fizeram. Mas ela sentia uma pontinha de ciúmes crescer no peito, fazendo-a querer arrancá-lo dali e ir para casa. Mas lembrou-se que precisava parecer alguém mentalmente normal, e não tornou reais seus pensamentos insanos.
Sentaram-se todos à mesa, com Theo a tagarelar antes que o clima tímido se instalasse ali.
– Eu esqueci o porquê de eu ter chamado vocês aqui... – Ele parou por um momento, apoiando o queixo na mão esquerda. – Ah! Eu decidi que deveria... Morar aqui, junto com vocês. – E antes que Brandon pudesse sequer protestar sobre o colégio dele ser relativamente – bastante – longe, o menino aumentou duas oitavas e anunciou: — Vamos estudar juntos e a nossa vida vai ter muito glitter e amor!
– Pulo a parte do glitter. – Ralph, Jeremy e Morgana expuseram juntos. Entreolharam-se, sob o peso do julgamento de Theo. Brandon e Selene observavam a cena, divertindo-se.
– Se tiver menos glitter eu estou dentro. – Morgana fez bico e cerrou os olhos, cruzando os braços.
– Quer que a nossa vida seja preta e branca? – Fez um muxoxo, com Brandon a acariciar teatralmente os cabelos do outro.
– Não seria nada mal, é vintage. – Ela explicou-se, mordiscando um salgado.
Ralph deixou-a falar; apreciava vê-la explicando, debatendo e principalmente se divertindo, coisa que era quase sempre difícil de se ver. Cruzou os braços abaixo do peito, e falou poucas vezes ao longo da noite.
– Hm... A gente vai jogar agora?
– Claro que sim, Morg linda da minha vida! – Brandon passou os braços pelos ombros dela, fazendo-a andar até uma das pistas do jogo. Depois, dirigindo-se à Theo com um aceno de cabeça, ele brincou: — Vê se não é levado pela bola, tá, gato?
Theodore revirou os olhos, e buscou uma bola para Morgana. Mas, no meio do caminho, Ralph o parou. Com um olhar divertido, pediu a bola silenciosamente. A menina estava totalmente absorta à brincadeira; avaliava a pista de ponta à ponta.
Veio com o objeto nas mãos, escondido sorrateiramente atrás das costas. Não sabia dizer se alguém prestava atenção em sua pequena traquinagem. Então falou, finalmente colocando o objeto à vista da menina, na frente dos seus olhos.
– Uma flor para uma flor. – Ele ouviu Selene reclamar da ação em meio a risos, e percebeu que era assistido.
– Cultivou essa com amor no seu jardim, não foi? – Ela portava um semblante brincalhão, com os olhos semi cerrados à avaliá-lo com o objeto nas mãos. – Me dê aqui essa bola, seu ridículo. – Puxou a bola das mãos do menino, que riu da expressão em seu rosto, e antes que percebesse, lhe roubou um beijo. Foi tardiamente correspondido pelo espanto, e correu antes que ela correspondesse com um tapa, realmente, e parou ao lado de Selene e Theo.
– Vocês se alfinetam assim todos os dias? – Jeremy perguntou, inclinado a cabeça para que Ralph pudesse vê-lo. O menino sorriu.
– Nós não nos vemos todos os dias, infelizmente. – Jeremy levantou as sobrancelhas, e riu nasalmente.
Morgana fez um strike, comemorado mais por Bran que ela mesma. Estava alarmada com o ponto feito logo na primeira tentativa, e com o entusiasmo assustador de seu amigo. Ela até tinha pedido para ele amenizar os gritos, mas ele mal a ouvira. Ralph gargalhava da sua expressão de longe.
As outras colocações ficaram divididas da seguinte maneira: Theodore, Ralph, Brandon, Jeremy e Selene. A última não se importava com a sua pontuação, e estava ali apenas para rir e conversar.
– Isso é conversa de perdedor – brincara Jeremy, bagunçando os cabelos dela com os dedos. Ela fugiu do afago, e rindo, disse:
– Os últimos serão os primeiros! Mas... Eu estou com preguiça de dar autógrafos e tirar fotos hoje. – Fez os mesmos gestos de Morgana no início da noite, cruzando os braços, fazendo bico e fechando os olhos. Jeremy a beijou na ponta do nariz.
– Morgana e a sua sorte de principiante. – Theo semicerrou os olhos azuis, em falsa representação de ameaça. – E Selene, vamos virar esse jogo!
– Já falei, estou levemente fadigada para mostrar meu talento hoje, caras. – Ela estalou a língua. – Vou ao banheiro rapidinho, já volto.
– Continuaremos a partida. Quem joga agora, mesmo?
Morgana levantou a mão; estava sentada desleixadamente numa das cadeiras em frente as pistas, ao lado de Ralph, que batucava com dois canudos na mesa. Ele bocejou. Theo entregou a bola pesada à ela, que levantou-se e posicionou o corpo corretamente na frente da pista. O menino falou:
– Que a sorte de principiante esteja com você.
– Vai ficar até quando repetindo isso na minha cara? – Ela questionou, sorrindo.
Soltou a bola. Selene voltou, e beijou Jeremy antes de gritar:
– Meu Deus, que azar!
A bola tinha sido jogada perfeitamente no centro da pista lisa, que refletia todas as luzes ligadas; todos os pinos tinham sido derrubados... Todos menos um. Justamente o pino do centro, onde a trajetória da bola visava um strike, ficou ali, parado, ileso.
A raiva que adormecera dentro da menina ameaçava explodir novamente, como um vulcão. E ela não sabia se ria da própria cara ou se chorava de desprezo de si mesma; optou por fazer a conhecida expressão de descontentamento, a famosa “facepalm”. Aí ela começou a rir, e virou-se para Theo, que lhe ajudava, ou tentava ajudar, em meio a gargalhadas:
– É melhor deixar um pino faltando que ser levado pela bola e nem chegar perto de fazer um strike; eu garanto a você! – Ela riu junto a ele, e Ralph, que pegara uma bola porque era o próximo. Beijou-lhe os cabelos rubros.
– Tudo bem. Esse tipo de coisa sem noção acontece tipo, o tempo inteiro comigo.
– A gente acaba se acostumando.
– É. – Ela riu mais, acenando positivamente com a cabeça.
Ralph fez um strike, passando a vez para Theo e depois para Bran, que empataram na mesma posição. A ruiva seguiu à uma outra mesa, certamente longe das outras pessoas, por que sabia o que deveria falar. Passou as mãos pelos cabelos, e fechou os olhos. O clima entre eles estava normal; mesmo que o “normal” não seja tão normal assim para as outras pessoas, o jeito deles de ver o mundo era completamente diferente. E Morgana gostava disso.
Eles observavam de longe a partida. Jeremy ajudava Selene a não jogar a bola tão forte no chão, a equilibrá-la no meio e manter a postura corporal. O que era ligeiramente complicado porque ele não parava de rir e fazer comandos ao mesmo tempo; tanto que seus olhos estavam cheios de lágrimas e ele apontava para o lugar errado.
– O jeito mais clichê foi como Jerry e Selene se conheceram. Num avião indo para Nova York, onde eles sem querer pegaram poltronas juntas, aí eles começaram a conversar e descobriram que ia para o mesmo lugar e estudariam na mesma escola. Ou isso é o destino sendo muito bom com eles, ou é mentira. – Ela mordia um canudo, olhando para o nada. – Sinceramente, eu acredito na última alternativa. – Ralph sorriu.
– Conheci a minha primeira namorada num avião. Não vejo problema. – Ele deu de ombros, ainda batucando algo sem ritmo na mesa.
– Não falei que tinha problema. Eu critiquei porque é clichê. Ainda mais a primeira namorada, no seu caso.
– Então sou eu o clichê agora? – Ele perguntou, meio surpreso. – Até parece que fui eu quem afirmou até a morte que não estava apaixonado, quando na verdade eu era, eu sou, louco por essa pessoa. – Morgana ouviu, encarou-o e revirou os olhos. Voltou a morder o canudo. Pensou em outra resposta rápida para cobri-lo, mas acabou desistindo. – Hm. Essa é a verdade. Você não retorquiu.
Ela estalou a língua quando ele levantou-se, dando a volta na mesa para ir onde ela estava. Puxou-lhe o braço esquerdo delicadamente, onde, no pulso, se encontrava a pulseira achada no parque. Ralph recordou-se do que a garotinha tinha dito à ruivinha, cheia de sabedoria.
– Sabe do que ela estava falando, não sabe? – Ele perguntou, segurando-lhe o pulso e depois a mão pequena. Apertou-a.
– Quem? – Morgana o encarou.
– Isa. Era esse o nome? Lá no parque. – Ela assentiu brevemente. – Era Brandon e sua mãe. E eu, Morgana. Ela disse que... Eu era um amuleto. Como a pulseira.
– É. Ouvi bem essa parte da conversa. – Suspirou, encarando o próprio colo.
Eles foram chamados por Jeremy. Jogariam uma última partida antes de se despedirem e irem embora; fato que estava desanimando a todos, menos Morgana. Por que será, hm?
– A noite passou incrivelmente rápida! – Selene choramingou, se jogando nos braços do garoto platinado. Brandon soltou um muxoxo.
– Selene, é hora de ganhar a última partida! – Ralph exclamou. Morgana gargalhou de maldade, esperando para que Jeremy fosse lá ajudá-la como sempre. Revirou os olhos quando ninguém olhava.
Ela jogou a bola, e para a surpresa de todos, sem muita ajuda de Jeremy, fez um strike; o último da noite.
– Bom, eu disse que os últimos seriam os primeiros. – E sorriu, apertando os olhos. Jeremy beijou (lê-se: amassou) a bochecha dela. – Gente, foi tão bom conhecer vocês! – Exclamou a menina.
– Achamos o máximo. Poderíamos sair mais vezes, não? – Ralph interveio antes que Morgana pudesse ser uma “sincericida”, como frequentemente acontece. Ele estava abraçando-a de lado, apertando os ombros, de modo que se ela dissesse algo desagradável, ele poderia... Chacoalhá-la. Não faria mal dar-lhe uma liçãozinha.
– Já vamos indo. – Jeremy levantara Selene e a jogara em suas costas, sob reclamações e risos.
– J-jerry, meu Deus, me põe no chão! – Mas ele correu até de entrada, mal ouvindo os gritos da menina, sendo assistido pelas pessoas que estavam ali àquela hora.
– Tchau, gente! – Berrou Jeremy porta à fora. Ele e Selene gargalhavam como se só soubessem fazer isso da vida. Morgana riu e gritou de volta:
– Até mais! – E virou-se para eles. – Queria que o Sunset’s ficasse mais perto da escola.
Morgana ficara bastante feliz por sentir que o amigo gostava de estar com Theo. E percebeu que sentia-se assim se mais coisas boas acontecesse à ele, que à ela mesma. Deu um abraço apertado nos dois garotos à sua frente.
– Brandon, Theodore... Já vamos indo, certo? Obrigado pela noite. – E Ralph abraçou-os também.
– Espero vê-los logo aqui, hein?
– Nós viremos. Com certeza. – Ele sorriu. Sua mão que abraçava o ombro da menina, deslizou até a cintura, onde parou e fez uma pequena pressão. Morgana fingiu não perceber o gesto.
Após minutos de conversas aleatórias e mais despedidas, Morgana arrastou o menino para fora do estabelecimento, fazendo-o rir. Adentraram a rua fria, não muito escura por conta de alguns poucos postes ali acesos. Ralph diminuiu a distância milimétrica entre eles, ainda com o braço em sua cintura. Sua temperatura estava relativamente baixa, e ele preocupou-se.
Com os passos lentos e curtos, eles andaram. Ralph viajava em um mundo só seu, enquanto pensava nos últimos acontecimentos, em flashs de memória soltos na mente.
Morgana prestava atenção ao caminho; porém, navegava secretamente pelo seu mundo também. Pensava que tudo aquilo seria passageiro; que o rapaz estaria ali por um momento e depois sumiria, como sempre acontece. Suspirou.
Sem saber, ele também pensava em pessoas que passeavam ligeiramente pela sua vida, e então iam embora. Apertou-a contra si mais uma vez. Com a cabeça cheia de memórias e diálogos, ele anuiu baixo, quase sussurrando para si mesmo:
– Eu te amo.
Morgana processou a informação e a sua primeira reação fora de afastar. Mas por quê? Ele deixou-a ir. Ela zombou:
– Duvido. Não seria capaz. – E ele arfou, olhando para cima, para o céu sem estrelas. Sorriu em descrença.
– Como não? Eu provei. Provei que não pode ser tão insensível a todo o momento, que tem medos e inseguranças como todos os outros e eu acabei me apaixonando por isso. Essa... Esse jeito torto de agir e de ver o mundo e as pessoas dentro dele. Eu não me importo se você acha que é clichê; na verdade, eu me importo sim, eu me importo com tudo o que você diz e faz. Eu só não... – A voz ficara embargada com o tempo.
Ela o encarou por minutos a fio. “Já não basta falar a pior frase da face da Terra, tem que bancar a pré-adolescente apaixonada? Poupe-me.”
– Ralph, escuta. Eu não seria capaz de me expor assim; vai contra tudo o que eu acredito desde a pré-adolescência.
– Eu sei, mas...
– “Mas”, não. Eu amo você, mas isso seria difícil de dizer se você me perguntasse. Entendeu? Não sai. Simplesmente.
Ela continuou o encarando, assim como antes. Seus orbes castanhos amendoados expressavam um tipo de sentimento estranho, algo que beirava à loucura. Tudo para dizer que não conseguia corresponder o carinho do outro.
– Você sabe muito bem que eu poderia me aproveitar da sua falta de atenção, não sabe? – Seu tom de escárnio a acordou para o mundo real.
Ela arregalou os olhos, se dando conta da possível besteira que tinha dito. Antes que ela pudesse sequer reclamar seu direito de desdizer a frase mal pensada, ele tinha a beijado ternamente. Segurou sua nuca e apertou-a, deslizando os dedos pelos fios de cabelo da menina. Separaram os lábios; colaram as testas.
– Desde quando eu sou tão manipulável?
– A que tudo indica... Desde que me conheceu. – Ele riu, e ela fez uma careta. – Queria te pedir algo.
– Ai, lá vem. Diz.
– Você fotografa. – Ela assentiu com a cabeça, mesmo sem entender o porquê da afirmação súbita. – Mas também desenha e escreve.
– Você está sugerindo que...
– Eu queria vê-los.
– Mas eu mal mostro para o Bran... Eu mal olho o que faço, na verdade. – Ela se afastou dele. O vento frio passou entre os dois, fazendo-os estremecer.
Eles estavam a metros de distância da casa de Morgana. Ralph encostou-se num poste de luz e a menina parou com os braços no quadril, a sua frente. Ele tinha feito um pedido, um que seria facilmente negado se o garoto não a tivesse levantado à alguns centímetros do chão.
Morgana subiu ruidosamente as escadas, e ditou regras. O fez rir o caminho todo, desde a porta de entrada até o início do corredor.
Ralph tinha dirigido-se ao banheiro dos visitantes, e Morg, à suíte do seu quarto. Assim que fechou a porta atrás de si, deslizou vagarosamente até tocar o chão, cerrando os olhos fortemente. Respirou fundo algumas vezes, porém não conseguiu aliviar a velocidade de batimentos cardíacos por minuto. Abraçou os próprios joelhos e ficou a refletir sobre as horas passadas.
“Eu te amo? EU te amo? Como assim?”
Começou a despir-se a caminho do boxe, deixando a trilha de roupas para trás. A água fria no rosto a ajudou no quesito: não fique com dor de cabeça, vai ser pior. Estava sentindo a cabeça tão pesada pelo cansaço, que só foi acordada assim que bateu-a no azulejo da parede. Ralhou sem ânimo, tropeçando assim que pôs os pés dentro do quarto. Os cabelos pingavam e a toalha era apertada ao corpo, lutando contra o frio que vinho entrando involuntariamente pelas brechas da porta de vidro.
Meteu-se dentro do closet, procurando ali algo que fosse grande, bastante grande, e extremamente quente. Geralmente, ela costumava dormir de shorts, mas só dormir. Nunca saia de casa com eles, nem pra por o pé na calçada por três segundos. Suspirou, batendo a mão na parede do lugar, e logo após saindo de lá vestida (lê-se: empacotada) num casaco mega gigante, porque era a única coisa minimamente protetora que ela podia vestir naquela ocasião.
Que era, mesmo em meio a pedidos contra, deixar Ralph ver seus desenhos e seus textos, além das fotos que a ninguém foram mostrados. Esse foi o pedido mais simples e também o mais inaceitável que já fizeram para ela em toda a sua vida. Não ficou com raiva, como aparentemente ficaria; mas sim, com um misto de vergonha e... um pouquinho de vontade de se suicidar.
Os momentos que passou parada, encostada na porta do closet, olhando para um ponto fixo em sua cama desarrumada, serviram para ela lembrar-se de que Ralph era seu namorado e que eles poderiam ter a liberdade de mostrar seus textos, desenhos ou quaisquer criações aleatórias.
“Pensando bem, eu nem desenho tão mal assim... Mas meus textos são ridículos. E falam de coisas que eu não quero que as pessoas saibam; se eu quisesse, tinha falado à elas, e não escrito em uma folha branca idiota.”
O menino bateu duas vezes na porta. A partir desse momento, seu rosto começou a esquentar e ficar levemente rosado, como se estivesse muito quente. Enquanto andava pausadamente em direção a porta, ele falou, a voz baixa e abafada:
– Espero que você não tenha batido a cabeça, desmaiado e caído na poça do seu próprio sangue.
– Seria extremamente romântico. – Ela abriu a porta, avistando primeiramente a camisa cinzenta que ele tinha vestido, o peito subindo e descendo meio desregulado. Pareceu envergonhado ou aflito, assim como ela, mas não.
Ele estava triste; do tipo que franze as sobrancelhas, mas sorri com o canto dos lábios. Ele balançou a cabeça e a encarou. A menina deixou que ele entrasse, e fechou a porta. Andou vagarosamente até a cama, enquanto ele continuou em pé. Ele andava de um lado para o outro, fechava os olhos e respirava fundo. Morgana esperou que ele falasse, sentada confortavelmente em meio ao cobertor e aos travesseiros, analisando-o.
– Eu não consegui superar. – Parou de andar assim que falou. Sentou-se desleixadamente na beira da cama, deixando as mãos largadas ao lado do corpo. Morgana franziu o cenho.
– Superar o quê?
– Por que você trocou o sabonete do banheiro? – Ele ainda não encarou-a. Estava dando atenção extrema as suas próprias mãos, os dedos entrelaçados brincando entre si.
– Hein? – Ela bocejou, passando as mãos pelos cabelos ruivos. Duvidou que ele pudesse estar falando sério... Porém, há um tempo antes, ela duvidara de algo que ele podia provar que era verdade. Então apenas esperou a resposta, cruzando os braços.
– É o mesmo cheiro da minha mãe. – Finalmente parou de olhar para as próprias mãos, e encarou-a com olhos inexpressivos. – Bergamota. – Deitou o tronco pesadamente em cima da cama, deixando as pernas soltas balançar e os pés rasparem pelo chão.
Morgana ponderou a situação; mordiscando a almofada do polegar enquanto pensava em uma resposta condescendente.
“Ah. Não preciso ser condescendente com essa criatura.”
Veio-lhe à cabeça que: (a) não tinha conhecido seu pai, (b) nenhum de seus avós, maternos ou paternos e (c) ninguém da sua família jamais morrera para que ela ficasse triste. Concluindo, Minerva era sua família, primeiramente. Brandon se tornara um irmão, além de amigo, e Ralph, mesmo que não quisesse, também.
– Eu... Eu não sei se consigo te ajudar com isso. – “Isso foi impressionantemente ridículo e desnecessário. Eu poderia manter a minha boca fechada por um tempo, não?”
– Não sei se você precisa. Pode ser que isso seja um teste daqueles que você tenha que resolver sozinho.
Ela riu nasalmente, zombando. Ele voltou a encará-la, dessa vez, com dúvida no olhar. Ela se explicou:
– Desculpa, mas você pretende o quê? Largar tudo na cidade e se isolar numa mata fechada para resolver seu problema sozinho? – Ele deu de ombros; ela inclinou a cabeça, meio indignada. – Você não aguentaria dois dias. – Ele revirou os olhos, apoiando os cotovelos no colchão para levantar-se. – Tá legal, três.
– Três e meio. – Ele riu, andando até onde ela estava. Era impressionante a facilidade do menino para mudar de assunto e fingir-se bem.
Deixou que ele sentasse ao seu lado, com as pernas cruzadas. Ambos olhavam para o horizonte além da cidade; a porta de vidro aberta deixava que o vento frio da noite balançasse as cortinas claras, e que a luz da lua, que apareceu havia pouco tempo, pintasse o quarto à cor gelada.
Com meio sorriso nos lábios, ele analisou o casacão verde claro que a menina vestia, divertindo-se com a sua expressão irritada de sempre, e passou os olhos pelo rosto dela, contornado pela luz que vinha de fora. Ela o encarou.
– Seu cabelo tá cinza. – A mão deslizou pelos fios negros do rapaz, que riu. Ralph virou-se, e num movimento pensado, deitou a cabeça em suas pernas. Passou pela cabeça de Morg que isso viraria um hábito. Também passou pela cabeça dela que, assim que o menino deitar-se, ela começaria a analisar suas feições. E logo depois ele abriria os olhos e riria.
Tudo começando a parecer clichê, e ela pouco importando-se.
Ele deitou, mas não dormiu. Eles conversaram sobre algumas coisas, até ela lembrar-se do real motivo de estar ali; agradeceu a Deus ou aos deuses, por ele ter esquecido de que tinha a torturado psicologicamente apenas para fuçar nas suas coisas. Continuou o afago nos cabelos, até que perguntou, a voz baixa e meio falhada:
– Lembra da noite do cinema?
– O filme sueco? Lembro como se fosse ontem. Por quê?
O motivo era o seguinte: ao recordar-se de quando ali, parada, na frente de uma mulher aparentemente velha, ralhou sobre não poder ir ao cinema com um colega sem que eles fossem taxados de “namoradinhos”, ela tinha ficado com ciúmes. Para que pudesse falar isso para o garoto, ela demorou uns poucos minutos – 15 – e o fez rir antecipadamente, só de pensar no que a menina falaria. Na verdade, ele sempre agia assim quando ela estava para falar algo, não sabia o porquê. Deveria ser porque ela sempre vai falar uma besteira ou algo do gênero.
Mas ele parou de rir. Ela o encarou, com as sobrancelhas franzidas, como se o questionasse. Ele expôs seu pensamento:
– Espera. Você brigou com a atendente do caixa com esses argumentos?
– Sim. Foi o que deu pra falar na hora; senão eu gaguejaria e não seria legal. – Ela cerrou os olhos e inclinou a cabeça.
– Aquela da “lei presente na constituição” foi a melhor. – Ele retornou a rir, e ela parou de fazer afago nos seus cabelos. Ele resmungou minimamente, fazendo-a sorrir. Descansou as mãos pequenas no peito do menino, que subia e descia regularmente. Ela suspirou.
– Você é um destruidor de ideais. Um maldito destruidor de ideais. Sabe por que eu te odiava no começo disso tudo? – Ele riu nasalmente, antes de falar, com certo sarcasmo:
– “Odiava” já é um ótimo começo. Ah, deixa eu pensar... Porque você é chata...? – Ela fechou a mão em punho em bagunçou o cabelo no alto da cabeça do menino. Mas ele estava tão preguiçoso que mal mexeu os braços para ajeitá-lo.
– Além de todas as minhas crenças, eu custei a acreditar que alguém como você gostaria de mim. Na verdade, alguém do terceiro ano. Alguém. – Ela meneou a cabeça, fuzilando mortalmente o vidro da porta, que mal culpa tinha naquilo tudo.
– Parece difícil, mas é só ter um amigo igual à Brandon.
Morgana encarou-o. Para transpor a verdade, nem tinha irritado-se. Desconfiava desde o início que Bran ajudava furtivamente aqueles dois, sempre metendo-se onde não devia. Boa parte das coisas aconteceu porque ele quis, outra parte, porém, não.
– O destino, né.
– Ahm.
Morgana estalou a língua, mexendo-se desconfortavelmente. O menino encarava o teto, alheio ao mundo ao seu redor; cantarolava algo, mal mexendo os lábios, e os olhos distantes o faziam parecer melancólico... Mas ele estava feliz. Aquele tipo de felicidade que você não demonstra, mas sente no fundo do coração a euforia da novidade.
Ela também estava feliz. Não admitiria, mas estava. As coisas que acabara por descobrir, sensações que vieram a ser provadas, tudo isso se acumulou na mente da menina, que não queria gritar e pular, para mostrar o quanto aquilo era bom.
Realmente duvidou que pudesse chegar perto de sentir algo assim por alguém. O máximo que conseguiu foi aquela paixonite de início de amizade, por Bran. Mas Ralph era uma coisa completamente... Insana. E intensa. Porém insana. Suspirou profundamente de novo, e dessa vez ele expôs:
– Eu não gosto quando suspira. Parece que... Há algo errado. – Ele entortou o lábio; não rindo, mas estranhando.
– Parece? Hm... Eu gosto de suspirar. – E suspirou, fazendo-o rir.
Eles passaram uns minutos sem falar nada. O casaco que a menina vestira já ameaçava ficar quente, mas ela não trocaria a peça. O orgulho não deixava que ela o fizesse. Voltou a passar as mãos pelo cabelo do menino, naturalmente, como se automaticamente sua mão fosse parar ali, nos fios macios do rapaz que retornou a falar:
– Parece que o mundo virou ao meu favor. – Ele esperou que ela começasse a reclamar; primeiramente, que isso seria dramático, e depois, que ela não queria ouvi-lo falando. Mas ela nem abriu a boca. Estava concentrada demais no seu trabalho; que era organizar os fios de cabelo preto do menino ridiculamente na sua cabeça. E ela se divertia vendo-o falando algo sério com um penteado tão patético. E ele continuou falando: — Há pouco tempo, eu só tinha os colegas do colégio. Eles nem chegavam a ser amigos de verdade. Aí eu conheci você. E o Brandon, e depois Minerva.
– Somos a sua família agora. – Ela meio que falou sem perceber, ainda pondo atenção máxima aos penteados patéticos. – Uma família meio desarrumada, mas uma família. Você tem uma mãe, um irmão e tem a mim.
Ele encarou a menina, sem um pingo de malícia no olhar. Por um momento achou que fosse chorar, mas isso seria um motivo dos grandes para que Morgana o zoasse. Para a vida inteira.
– Deixe de drama. Eu já estou vendo as lágrimas querendo escapulir dos seus olhos. Não se preocupe: quando eu perco a atenção, acabo falando umas verdades.
E ele sorriu, deixando que só uma das lágrimas caísse. Morgana revirou os olhos, e riu também.
– Levante-se e veja o que eu fiz no seu cabelo. Modestamente, acho que eu tenho talento. – Arrasou-o da cama até um espelho ornamentado, ao lado do closet. Assim que a sua imagem foi refletida ele gargalhou, escondeu o rosto com as duas mãos e virou o corpo, para arquear as costas e esperar que ela explicasse que porra foi aquela que ela tinha criado.
Ela um emaranhado no topo da cabeça, várias tranças aleatórias distribuídas numa bagunça indistinguível. Além das tranças convencionais, uns dread looks mal feitos rondavam a cabeça do menino, que rapidamente desfez a maioria. Morgana ainda ria quando ele, por fim, terminou de desfazer todos os nós e tranças que aquela criaturinha tinha feito.
– Sinceramente, eu acho que você merece cócegas; mas cócegas por horas. Dias. Meses. – Ele deu dois passos até chegar a menina, que tinha ficado encurralada entre a escrivaninha e Ralph. Ela olhou-o com um misto de suplício e medo; depois da falta de energia, o que ela mais odiava era cócegas. E pessoas feito Ralph são intituladas como “Rei das Cócegas” – esse título é real, e todos o “odiavam” na pré-escola -, o que não é uma coisa lá muito interessante.
Com as mãos em sua cintura, ele alternava entre fazer cócegas e beijá-la, enquanto ela o empurrava com as duas mãos. Ria, se contorcia e reclamava, e a brincadeira levou um certo tempo, até que ela decidiu que já era hora de parar, porque (a) seu casaco virara um tipo de forno, que estava cozendo seu corpo, (b) já não aguentava mais rir e (c) estava sem forças para continuar em pé. Além de as suas bochechas estarem doloridas.
– Ok, foi interessante ser quase morta por um maníaco, mas agora eu estou cansada. – Sentaram lado a lado na beirada da cama, Morgana com as pernas juntas e as mãos cruzadas, e Ralph com os braços cruzados. Olhavam para o nada, com sorrisos mínimos nos lábios.
– Eu poderia dizer “mas isso foi só o começo” e te jogar na cama, contudo, isso seria ridículo.
– Ainda bem que você sabe. Se você fizesse isso eu te mataria sem deixar vestígios.
– Mas todo mundo iria saber que foi você, com essa cara de psicopata que tu tem. – E ela riu, achando mesmo que aquela era a verdade.
Antes que ele percebesse, ela virou-se na cama e, num movimento, puxou as cobertas e enfiou-se lá dentro, parecendo uma criança ansiosa pela historinha antes de dormir. Com a voz abafada, disse, fazendo-o rir nasalmente:
– Boa noite.
– Eu preferia que você não se enrolasse tanto.
– Eu preferia que você ficasse calado.
– Eu prefer...
– Cale a boca.
Ralph deitou-se na cama, ao lado de Morgana mas não tão perto, e pensou: “Fazendo as contas, é provável que ela precise tirar todos esses cobertores no meio da noite, já que não está tão frio. E é mais provável que depois ela fique com frio de novo, e eu estarei aqui. Boa noite, Morgana.”
– Eu te odeio.
– Conta outra. — E beijou seus cabelos ruivos, fazendo-a rir.
–X-
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