I'm Not In Love
3 Trabalho
Notas iniciais
Quinta-feira
– Morg, agora pode parar de ficar vagando por um universo paralelo enquanto eu tento falar, por favor. E, pela quinquagésima vez, ME CONTE SOBRE O OG- Ele começou a aumentar o tom de voz.
– Sssssshhh! Tá louco? – Ela acordou dos devaneios quando ele quase pronunciou a maldita frase em voz alta. Graças à ele, ela percebeu que não tinha nem tocado no lanche. Começou a comer rapidamente, já que o tempo do intervalo se extinguia. – Vou contar, é só ter calma e paciência. – Ela ainda tomou uns goles do refrigerante, e depois começou a história. – Bom, depois que eu saí do colégio, comecei a andar até minha casa, então... – Morgana contou a história toda para o rapaz, que ouvia tudo atentamente, fazendo caretas enquanto ela narrava a parte em que as costas iam de encontro ao chão.
– Só isso? – Ele perguntou, fazendo graça. Ela rolou grandes olhos castanhos, tomando mais um pouco do refrigerante. Percebeu que já estava no fim, então olhou feio para a latinha (como se, de alguma forma, isso fosse trazer o líquido de volta), e então a arremessou no lixo.
– É, Bran. “Só isso”. Por quê? – Ela perguntou fingindo curiosidade.
– Por nada. Acho que eu queria mais ingredientes para a “receita do amor”, mas isso serve... – Ele respondeu simplesmente.
Morg se mostrou quase ferida. “Aquilo não foi nada de mais”. Ela era conhecedora de histórias românticas, e sabia que nessas situações, o garoto e a garota se entreolhavam, e seguravam as mãos, e ele colocava uma mecha de seus longos cabelos atrás da orelha, e então eles se beijavam. E eles praticamente se casavam e juravam amor eterno no segundo encontro, o que tornava a história impossível de ler, segundo ela.
Morg, particularmente, não suportava coisas assim. Qual a graça em criar ou ler a história de um casal que se dá bem em tudo, e nas horas erradas brigam por motivos inúteis e voltam a namorar com um pedido de casamento (sem contar as frases “manjadas” que são usadas também)? Fala sério.
Tudo bem que, de repente no meio de uma boa história, poderia aparecer uma pequena demonstração de afeto. Ela preferia que esses tópicos fossem mostrados implicitamente, e pelas personagens que ela menos desconfiava. Ela não era de ferro – apesar de sonhar todas as noites com isso.
– Você está totalmente errado. Totalmente. – Disse com convicção.
– Está certa disso? – Ele aproximou um pouco dela, olhando dentro de seus olhos, tentando persuadi-la.
– Sim. – Respondeu fechando os olhos e mostrando a língua para ele, como uma criança birrenta.
Eles terminaram o lanche e foram à sala de aula, finalizar a manhã de atividades.
–X-
Quinta-feira
“Ah, droga. Esqueci que hoje não posso voltar cedo para casa.” O trabalho que o sr. Drumlin arrumara para ela nem era tão ruim assim. Ela trabalhava levando coisas de lá pra cá, arrumava uns detalhes, e ainda podia mandar e desmandar. Nem precisa frisar que ela adorou a parte de “mandar e desmandar”; isso era com ela mesma.
Surgiu de um mar de caixotes, assim que achou alguns materiais que necessitavam. Morg seguiu a passos apressados à equipe de três pessoas que davam toda a graça e cor ao painel. Benjamin, Laura e Todd discutiam sobre onde colocar cada adereço no painel.
– Façam tudo o que Laura disser. – Morgana se pronunciou, calando os três. Ela entregou os materiais para eles, e ficou observando o painel, ainda com alguns traços de demarcação.
– Vocês ouviram, agora vamos ao trabalho! – Laura disse, pegando a pistola de cola quente e brandindo como se fosse um escudo, ou algo assim. Ela agradeceu à Morg pelos materiais e o “elogio”, e logo após começou a dar dicas, olhando para o painel.
A ruiva saiu para orientar as outras pessoas nos trabalhos. Chegou à ala da confecção de roupas. Ela tentava se divertir, então adorava gritar “NÃO, ISSO AÍ NÃO!”, depois se “desculpar” com um “ah, é aí mesmo”, e mostrar-lhes um sorriso sem graça. Andava por aí carregando tralhas, e não deixava juntar muito lixo. Odiava trabalhar em meio ao entulho.
Enquanto estava tudo organizado, ela saiu do local abafado e empoeirado para ver os alunos do ensino médio (incluindo a sua classe) ensaiando as coreografias de abertura.
Adentrou o grande ginásio e recebeu alguns olhares curiosos, e outros nada simpáticos. Tipo o das garotas do terceiro e algumas de sua classe, o segundo ano.
– O que faz aqui, menina? – Uma delas se pronunciou, andando até Morg como uma salamandra. Sorria de modo sarcástico. Morg achava a menina bem legal, mas quando tratava de ser insuportável fazia isso muito bem. O nível de amizade entre elas era baixo; não podiam ser consideradas nem amigas e nem inimigas.
– Nada de importante. Só vim dar uma olhada. Por que, machuca? – Morg olhou com uma pontada de humor, franzindo a testa. – Além disso, tenho ordens e autorização para ficar aqui. Pode continuar o acasalamento aí, eu não me importo. – O fato de que elas não eram nem amigas e nem inimigas, tornava a relação bem... Hostil. Morg andou até a arquibancada mais alta, como de costume, e sentou. Observou as meninas dançando, tentando no mínimo, chamar atenção.
Ela revirou os olhos e se pôs a ouvir música. Aumentou o volume da música, já que o som das meninas estava alto o suficiente para os japoneses ouvirem tudo com clareza. Ela desistiu de tentar ouvir a sua música, no momento I Don’t Wanna Miss a Thing, do Aerosmith, quando a cabeça começou a latejar severamente de dor. Decidiu voltar à sala.
Estava quase descendo a arquibancada, quando foi surpreendida por duas mãos segurando-lhe os ombros, parando-a no mesmo lugar.
– Acho que eu quero andar, sabe? – Ela relaxou os músculos, fazendo a sua melhor cara de tédio. Além de ter tentado cruzar os braços, se não fosse pelas mãos segurando forte os ombros e um pouco das costas, que ainda estavam machucadas. – Ei, cuidado aí. Trombei com um sem noção na rua que me fez cair e esfolar as costas no chão.
– Eu sei. – A pessoa disse. Era um garoto, percebeu. E, incrivelmente, tinha a voz do que a tinha derrubado. Ela sentiu o sangue subir à face.
– Seu. Filho. Da. Puta. – Ela virou para olhá-lo. A postura e a voz expressavam visivelmente a indignação que ela sentia naquele momento. – As minhas costas estão parecendo fogo desde ontem! – Ela ainda manteve o tom de voz baixo na voz; odiava chamar atenção, mas apontou-lhe o dedo no rosto enquanto falava. Ela resmungava alguns xingamentos e começava, aos poucos, a ficar raivosa.
– Que merda. É melhor eu continuar o meu trabalho. – Ela deu o impulso para virar e andar até a porta, mas o outro a parou de novo. – PORR- idiota, me deixa andar! – Ela ia gritar um palavrão, e se conteve a uma reclamação rouca.
– Espere, fique aqui. – Ela retornou a olhá-lo como se ele fosse a coisa mais tediosa do mundo.
– Se não for nada referente aos Jogos, pode me liberar.
– Não, era só que eu queria... Bater um papo. – O garoto coçou a cabeça de leve, olhando para o nada.
– Puta que pariu. “Bater um papo”? Eu lá tenho cara de quem quer “bater um papo”? Olha, eu tenho Facebook, me adicione lá, sim? Estou à espera! – Sorriu abertamente e olhou para a cara do menino, que parecia surpreso e... Algo que ela não conseguiu identificar. Virou sem ser interrompida e saiu saltitando arquibancada abaixo. Apressou-se a chegar na porta do ginásio e retornou a sala quente e abafada, para terminar o trabalho.
“Era só o que me faltava. Bater um papo. Pelo amor dos deuses.” Ela se pegou pensando no garoto. Ele tinha os cabelos bem escuros, percebeu. Os olhos, no contrário, eram de um tom bem claro, quase surreal de mel, acompanhados das sobrancelhas grossas e expressivas. Os lábios tinham um tom róseo natural e... Bem, ele parecia uma criatura esculpida cuidadosamente pelos deuses. Ela continuaria a pensar no “ogro”, se Benjamin não a tivesse despertado bruscamente.
– Morgana! – Ele aumentou o tom de voz, chacoalhando-a pelos ombros.
– Ai! – Ela grunhiu de dor, fazendo-o soltar as mãos dela como se de repente ela queimasse.
– D-desculpa, foi sem querer, eu... – Ele gaguejou.
– Não, não se preocupe. É que eu cai de costas no chão e elas estão uma merda.- Ela bateu a mão direita na coxa, bufando. – Vai, diz o que quer.
– Bem, nós terminamos o painel, mas... Se deixarmos aqui, toda a poeira ficará em cima dele, e se colocarmos alguma lona, sei lá, pode ser que manche. Então, onde a gente poderia pôr ele? – Perguntou meio incerto. – Eu já dei a ideia de põr na minha garagem, mas meu pai com cert... – Ele foi interrompido por Morgana, que de repente, olhou vagamente como se sonhasse.
– Já sei! Fica na minha casa até semana que vem! – Ela deu uns pulinhos e riu, se segurando nos ombros de Ben, que riu junto a ela.
–X-
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