I'm Not In Love
4 Impaciência
Notas iniciais
Quinta-feira
Sua mãe dissera coisas o caminho todo. Reclamou do espaço, da poeira e do trabalho que dava para pôr aquilo no carro sem danificar, e logo após no quarto de Morg. A mesma, respondia com “ok, mãe, depois eu limpo se sujar alguma coisa”. Mas, ainda sim, ficou feliz pela responsabilidade ter ficado em suas mãos.
– Pronto, mãe. Olha bem, não ficou lindo? – Os olhos dela brilhavam em emoção. O painel foi trabalhado com materiais brilhantes, para cobrir o nome da escola e, em letras maiores “VIII Jogos Internos”. Ele seria colocado na entrada principal do ginásio, para todos verem.
Ela olhou por mais um tempo, e pegou a lona que cobriria o suporte de proteção contra a poeira. Depois desceu as escadas e, correndo, saltou no sofá. Pegou o controle e ligou a T.V. Após alguns minutos, Minerva apareceu na entrada da sala, com os cabelos presos falhamente, caindo pelos ombros.
– Esqueci de lhe informar. Você está de castigo. Sem T.V e computador. – Ela falou, levantando uma sobrancelha, olhando para a menina.
– Ah não... – Choramingou. – O computador vai ficar sem mim por quanto tempo? – Ela juntou as mãos abaixo do queixo, piscando os olhos quase lacrimosos.
– Será por pouco tempo; isso vai depender do que você anda fazendo por aí.
– Assim você me magoa. Até parece que saio por aí arrumando problemas! A senhora me conhece. — Ela rebateu.
– Hm. De qualquer forma, está avisada. – E saiu da vista da menina, indo à cozinha terminar o jantar. Ela desligou a T.V. e subiu ao quarto, a fim de tomar um banho e esfriar a cabeça. Depois que terminou, lembrou-se de que não tinha permissão para usar o computador. “Falarei com Bran mais tarde”, ela pensou, enquanto descia as escadas e corria em direção à sala de jantar.
O jantar foi silencioso, tirando os momentos em que Morgana expressava suas emoções enquanto lia uma das obras de Tolkien. Ela soprou o café dentro da xícara, e o vapor cegara as lentes dos óculos de descanso por alguns segundos. A mãe ria quando olhava, fazendo a atenção da menina voltar-se a ela e rir também.
Quando terminou o café, levantou e levou a louça para a cozinha, e depois voltou ao quarto. Assim que entrou, trancou a porta e ligou o computador. Ela sabia que se deixasse a porta destrancada, a mãe viria perguntar se ela já ia dormir, ou coisas assim. Talvez fosse só questão de proteção, e ela tivesse sendo mal-agradecida.
Após sentar na cadeira confortável à frente do aparelho, ela começou a digitar freneticamente, conversando com Brandon, seu amigo de todas as horas. Não podia deixar de falar do “ogro” e do “encontro” de mais cedo. Ela não deveria deixar-se levar por isso. Em relação a suspeita de que o menino esteja... “Afim” dela.
Desde muito pequena, ela sempre fora realista, por vezes pessimista. Um “defeito” oriundo da mãe, que nunca se deixava iludir por promessas, suspeitas ou pequenas esperanças por aí. Ela, ao contrário das outras pessoas, sentia orgulho por ter herdado tamanha virtude de sua mãe. Ela odiava sentir-se enganada ou iludida, então, com o pessimismo, ela tentava enxergar a situação do modo certo.
“- Ah, sua danadinha. Você acha que ele quer ficar com você?”
“- Odeio esse tipo de conversa, Bran. E prefiro não acreditar que ele queira. É melhor eu desencanar, mesmo antes de acontecer. E eu sei que não vai.”
“- Que é isso, que desânimo. Se joga, você não tem nada a perder.”
“- Tenho sim! A minha barreira contra o amor será destruída.”
“- Então você admite que há alguma coisinha aí?”
“- Não disse isso. Entenda como quiser.”
“- Você disse com todas as letras que a sua barreira idiota será destruída.”
Nesse momento, não se sabe como (talvez a força da conversa tenha acarretado tal acontecimento), no Facebook, o ícone de solicitações foi ativado. Ela clicou despreocupadamente, vendo quem era. “Ralph? Que nome mais sem graça. Felizmente, faz jus a tal.”, pensou. Logo um desespero inconsciente começou a encher-lhe a mente, fazendo com que ela recorresse à Bran rapidamente.
“- BRAN, ME SALVE. RALPH!”
“- Com prazer! O que foi dessa vez?” – Perguntou ele, feliz. Após alguns segundos de análise da frase de desespero da menina, ele indagou: “- Espera. Ralph?”
Morg não só tremia, como suava. Era incapaz de digitar algo coerente. Afinal, por que agiu assim, se não sentia nada por Ralph? Cruzes. Parecia uma louca apaixonada. Às vezes as meninas tendem a agir de tal forma. Concordam?
Mesmo não entendendo o motivo do nervosismo, ela relatou à Bran o que acontecera.
“- Mandou-me uma solicitação de amizade. Eu falei à ele que estaria esperando. EU SOU MUITO IDIOTA.”
“- Acho que ele seria mais óbvio se mandasse “solicitação de namoro”.”
“- Nossa, você tá muito engraçado hoje!”
“- Aceite. E finja que nada aconteceu. Não deixe-o perceber que você ficou abalada.” – Eram amigos há muito tempo. Bran sabia o que Morg sentia, mesmo a alguns quilômetros de distância. Ele devia estar morrendo de rir, lá em sua casa.
“- Mas eu não estou apaixonada!” – Ela retrucou.
“- Não disse “apaixonada”, e sim “abalada”. E você está gostando tanto de Ralph que está vendo coisas. E vamos, faça o que eu pedi! #TeamRalph” – Ele provocou no fim. “Team Ralph. Bran quer mesmo levar uns tapas.” Ela pensou, respirando tão fundo quanto seus pulmões poderiam aguentar.
O orgulho. Outra característica forte, herdada da mãe. Ela forçava-se ao máximo a clicar em “confirmar”. Esse seria um grande passo, em relação a pequenas interações de um dia e algumas horas. Não queria aceitar. Mas ela mesma disse: “olha, eu tenho Facebook, me adicione lá, sim? Estou à espera.” Que burra, que burra. Óbvio que ela estava arrependida. Mas a única coisa que ela podia fazer era confirmar. Afinal, ela não era tão rancorosa. Ou era?
Depois de reunir toda a sua coragem, ela aceitou. E não precisou esperar tanto, o rapaz já lhe saudava, como se fosse a melhor coisa que ele tinha para fazer. Por um momento, ela achou que ansiava por isso. Depois, quase estapeou forte o próprio rosto, forçando-se a raciocinar como alguém normal.
“- Garota! Você disse que estaria à espera.”
“-Oi. Pode falar."
Após algum tempo sem nenhuma mensagem, ela estranhou. Era como se ele tivesse saído, sem avisos de antecipação. A janela de bate-papo com Bran acendeu, chamando sua atenção rapidamente.
“- E aí? Já o vi aqui. Morgana... Ele é perfeito. Perfeito. Se você não quiser (o que eu acho difícil, mas você jura que não gosta) pode dá-lo a mim.” – Ele gargalhava enquanto digitava com Morg.
“- E aí que o idiota não falou mais nada. Parece um retardado. Pode ficar com ele, não faço a mínima questão. Ele até combina com você.”
“- Você é muito sem paciência, menina! Deixe de ser orgulhosa e fale com ele. Já pensou se ele está envergonhado? Já pensou na possibilidade?”
“- É tecnicamente impossível que um aluno do terceiro ano do ensino médio esteja envergonhado de falar com uma garota considerada mais uma na multidão. Ele deve ser expert em fazer isso, Bran, não se iluda tão fácil.”
“- Ele deve, de alguma forma, saber que você é diferente. Pelo que sei, você se mostrou muito inflexível ao falar com ele, e talvez ele nunca tenha falado com alguém assim.”
Esse era outro fator que ela desprezava. Por que todo esse drama de “oh, você é diferente, vou ficar envergonhado ao falar com você apesar de pegar todas em festas de amiguinhos da minha classe”? Qual é. Isso não fazia nenhum sentido para Morg, mas ela decidiu perguntar algo à ele.
“-Qual é a sua, cara?”
“- Depende em que contexto você enquadra “minha”.
Tem-se plena certeza de que todos já tiveram a imensa vontade de estrangular alguém pelo computador/celular. Todos sabem o que Morg sentiu naquela hora. E todos sabem que ela não pôde responder, por que assim sua mãe gastaria algumas centenas de cédulas para comprar um computador novo.
“- Eu poderia te dizer qual é a minha amanhã. Eu odeio digitar em resposta à pessoas irritadas.”
–X-
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