I'm Not In Love
5 Pobre Morgana!
Notas iniciais
Segunda-feira
"Não professor, nós não queremos que o senhor explique mais uma vez." A menina quase caiu no sono pela quarta vez no meio da aula de física. Sr. Herondale repetia incansavelmente sobre um assunto qualquer, Transmissão de Calor. Morg pensava seriamente que todos da sala já tinham compreendido o assunto desde a segunda vez que ele explicou, e assim só estaria jogando tempo fora.
Por mais que fosse errado, e ela tinha plena consciência disso, o celular virara um ótimo amigo em aulas como essa. No momento, ela conversava qualquer coisa com Bran, e estava totalmente absorta à aula.
O garoto estava deitado sob um braço, e o casaco cinza lhe cobria a boca e o nariz. Só era possível ver os pequenos olhos pretos, que corriam vagarosamente pela tela do celular, na outra mão. Ele tinha a mochila nas pernas, e a cadeira em que ele se sentava era feita para canhotos; assim, virada para o corredor da sala, o professor não teria como vê-lo burlando as regras.
Eles dois conversavam pela internet. Morg, é claro, lhe manteve a par da pequenina e insignificante conversa como rapaz.
“- Ele perguntou se a gente poderia conversar na sexta-feira, mas faltou no dia, e só.”
“- Temos aqui um progresso!” – Morg olhara diretamente para Brandon, que lhe pareceu sorrir com seus olhos pequeninos. Ela riu baixo, e fingiu prestar atenção no que o professor falava sobre o mesmo assunto do início da aula.
“- Onde está o intervalo quando a gente precisa?” — Morg mandou para Bran, que se limitou a olhar para ela e acenar positivamente com a cabeça. Pareceu mágica quando, dois minutos depois, o sinal soou, indicando o intervalo de míseros vinte minutos. Eles saíram praticamente saltitando da sala, os estômagos barulhentos e as bocas secas não deixavam dúvidas de que eles estavam praticamente morrendo lá dentro.
Depois de comprar os lanches, eles procuraram uma mesa qualquer, e sentaram lá.
– Morg, eu acredito que ele sinta alguma coisinha por você. – Bran opinou, mordiscando o pão integral recheado. Morgana o ignorou primeiramente; depois de bebericar um pouco do suco, ela indagou:
– Vamos supor que ele sinta. O que eu faria? Na certa, eu me emocionaria, né? – Então, respirando fundo, ela tornou a falar: — Eu não tenho a mínima ideia de como se faz isso. – Baixou o olhar para as pedras de gelo flutuantes do suco.
– Como se faz o que? – Franziu a testa.
– Gostar de alguém de verdade.
– Mas você gostava de mim, lembra?
– Lembro, claro que lembro. Mas é diferente. Eu nem sabia o que sentia.
– E agora você sabe? – Perguntou. – O que sente por ele, digo.
Ela olhou para ele, sentindo-se indiferente. A testa estava franzida tanto por causa do sol que agora ardia com força, quanto pela pergunta incômoda.
– Não, não sei. Eu não sinto nada por ele. Cruzes, nem o conheço. – Ela respondeu enfim. Realmente não sabia o que se passava.
Pobre Morgana.
Morg sonhava todas as noites em fazer uma barreira forte o bastante para evitar que sentimentos inoportunos a incomodassem ao longo de sua vida. Ela não conseguia ver o que as outras pessoas viam em relação ao amor. Para a menina, não era mais que outra coisa no mundo, como por exemplo, mais uma lata de coca-cola. Já ouvira e lera histórias o bastante para saber que o amor estraga tudo, segundo ela. Em situações que se deveria usar apenas a razão, o coração se acha no direito de estragar tudo. Tudo.
Pobre Morgana.
“Quem inclui a emoção no meio da ação, acaba fazendo merda.” Ela pensou, enquanto seguiam o caminho de volta para a sala de aula fria e antipática. A próxima aula seria mais uma na lista de “Coisas Inúteis do Dia”, de Morg. Arte. Morgana amava arte com todas as forças do seu ser, mas essa professora conseguia fazer todos odiarem a matéria. Eles nunca produziam, nunca faziam nada de interessante; apenas textos e mais textos falando de coisas que ninguém se importa.
Pobre Morgana.
Morgana e Brandon voltaram a burlar as normas da escola, assim que tiraram o celular dos bolsos.
“- Espero que fale com ele hoje à tarde. Entenda: é SÓ conversar; nada mais.”
“Pode esperar o quanto quiser, fique à vontade!”
–X-
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