Notas iniciais
de colegas.

Sexta-feira

Ver meninos e meninas dançando desalinhados era algo entediante para uma tarde de sexta. Morg até levara doces para saborear enquanto os via errando passos e tropeçando uns nos outros. Enquanto observava-os de longe, a sua mente estava em outro lugar, odiando-se por estar esperando alguém. Que não era Bran, Benjamin, Laura ou Todd.

– Sabia que estaria aqui. – Ela tomou um grande susto quando as palavras foram ditas. O menino estava sorridente e parecia determinado à coisas que nem sequer passavam à mente dela.

Ele parecia ter sido alvo de um feitiço para não ter aparecido a semana inteira, só falando monossilabicamente pelo chat do Facebook, mesmo que ela não respondesse. Não do jeito que se deveria, quer dizer. Eles acabaram tendo umas conversas monótonas, falando sobre assuntos triviais e o estresse constante da ruiva era um tópico principal.

– Não. Tá ligado naqueles hologramas? Então. – Acidamente respondeu, provocando um sorriso engraçado no garoto, que sentou ao seu lado. Não tinha a menor culpa se a TPM a atacou logo hoje.

– Como conseguiu passar despercebida por todos e sair desfilando da escola? – Gargalhou, quando ela ouviu a pergunta atentamente e se mostrou carrancuda. Mas devia admitir que a questão a fez sair do pequeno clima de tédio que se instalara, então se desencostou da parede e respondeu:

– Simples e prático. Eu sou minúscula. Fiquei uns minutos escondida no carrinho de limpeza, já que sabia a hora em que o faxineiro saía da escola para pôr o lixo fora. Assim que ele parou o carrinho para abrir a tampa da lata de lixo, eu corri. E quando estava quase alcançando a minha meta, veio um ser esquisito e me derrubou no chão como se eu fosse um... Um mísero mosquitinho, que não vale nada. – Certamente ela ainda guardava as dores daquele dia, e nunca esqueceria a expressão de escárnio vinda do outro.

– Como imaginei. Você foi tão previsível. – Olhou para ela com aqueles olhos cor de mel brilhantes, sorrindo sem mostrar os dentes.

– Tá, tudo bem. Agora você zombar da minha cara por que eu fugi da escola num carrinho de lixo? Beleza. – Se mostrou um tanto irritada, desprezando os olhares dele para ela.

– Não, se você se sentir incomodada. – Ele gargalhou com o olhar que recebeu, e então continuou: — TPM? – Não pôde parar de rir. Ela estava, naquele momento, se perguntando o porquê de tanta babaquice numa única pessoa.

– O que parece?

– Pode ser. Quando você pareceu um mísero-mosquitinho-que-não-vale-nada naquele dia, estava também?

– Mas que porra de assunto é esse?

– Só responda.

Fitou-o por minutos. A melhor opção era ignorá-lo e sair dali antes que o esmurrasse, mas ela continuou lá e lhe respondeu:

– Não, eu não estava. – Cruzou os braços abaixo dos seios e voltou a prestar atenção ao ensaio desengonçado dos alunos de sua classe.

– Oh... Então é pura verdade. – Parecia absorto em uma reflexão sem sentido, mas que de alguma forma interessava a ela. Ele pôs a mão no queixo e olhou para o teto de aço do ginásio, pensativo.

–O quê é verdade?

– As ruivas estão sempre irritadas com alguma coisa, ou alguém, por nada.

Agora imagine duas pessoas: uma com um sorriso malicioso nos lábios, e outra sem sorriso. Qual das duas leva um murro no braço?

Acertou! Ele pediu para ser espancado. Nunca, aprendam, nunca mesmo se deve falar à uma ruiva que “ela está sempre irritada”, ainda mais se ela está na pior fase se uma pessoa do sexo feminino: a TMP.

Pode chorar o quanto quiser Ralph, ela não vai se arrepender. No fundo de sua consciência, ele sabia que se falasse algo do tipo seria alvo de tapas, murros ou até chutes. Levou um murro consideravelmente forte para uma garota baixinha de 15 anos, e a área atingida ficou vermelha de pronto.

– Viu o que você me fez fazer? Idiota. Esse não é nem metade do meu troco. Vou te fazer ficar sem conseguir vestir uma camisa direito.

–Ah, então é esse o seu plano... Que pervertida.

Uma raiva com força equivalente a de um tsunami invadiu seu corpo. Se fosse esmurrá-lo, ela teria de prestar contas com a diretoria da escola, e assim criaria mais e mais problemas para si. Se gritasse... Ai de quem estivesse perto. Então, com uma calma nunca vista antes, tomou fôlego enquanto percebia que ele estava sério, e então o olhou de soslaio.

– Você me deve desc... – Virou a cabeça para reclamar, então se assustou. O garoto passara despercebido e agora se encontra um pouco longe, andando como se nada tivesse acontecido a pouco tempo; como se não tivesse levado um murro no braço direito por uma ruiva tomada de ira. Ao observar novamente o lugar em que ele esteve sentado, notou um pedaço de papel, marcado com uma letra minúscula. Ela olhou para a sua figura em movimento e o bilhete várias vezes, antes de indagar alto: — Cinema?! Hoje?! Ruivinha?! XXX?!

“Cinema, hoje às 19h. Não se atrase.

Sei que você não irá recusar, ruivinha.

E eu ainda te devo desculpas, hm?

XXX”

Ela pareceu uma louca que fugiu do manicômio. Algumas pessoas a olharam assustadas, mas aí devem ter pensado: “Ah, ruivas. Elas fazem isso o tempo inteiro.” Um lembrete: nunca diga isso em voz alta. Esta demonstração foi apenas em escrito, e não a afeta diretamente.

“Meu filho, você é um E.T. ou o quê?” Realmente, escrever aquelas palavras e deixar o local em segundos era coisa para E.T’s. Ou ele já tinha um plano idiota arquitetado? Iria lá só para certificar-se de que ainda estaria vivo, e que ela ainda podia espancá-lo se fosse preciso.

De repente, o coração descompassou, e ela precisou, de novo, quase estapear o próprio rosto. “Mané. É, é você mesmo, coração.”

–X-

Sexta-feira

“– Bran, terei uma noite insuportável. Pena que você não pôde vir.”

Com certo desgosto, desligou o celular antes que entrasse num táxi. Brandon seria de grande ajuda, já que ela não tinha nada de interessante para conversar com Ralph. E foi com aquela mensagem triste que seguiu para o Shopping.

Não pôde ignorá-lo por muito tempo, ela não era tão má quanto vocês pensam, leitores. Tinha um pouco de pena do garoto, já que ele parecia pouco dotado de esperteza (Morgana, sempre mentindo para si mesma. É uma mania?).

A sala de cinema sempre fora algo familiar a ela, já que frequentava desde pequena. Naquele dia parecia, de algum modo, estranha. Seria ele o motivo do desconforto? Quando chegaram à seção das filas – lanche e ingressos -, se separaram.

Morg se viu numa pequena fila de cinco pessoas, o que lhe dava espaço o suficiente para refletir o misterioso motivo pelo qual sua mãe desistiu do castigo. Abruptamente, assim que ela lhe mostrou, com o tédio cravado no rosto, o bilhete para a mãe, assim que chegou da escola.

O que ela esperava: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva. Você está de castigo, esqueceu? Não é por que é sexta-feira que você vai sair por aí vagabundeando com esses seus namoradinhos. Tem atividade de casa? Vá fazer, vá pro seu quarto estudar! Menina inútil.”

É. Reparem no exagero presente em cada palavra descrita aí. Morgana não mede esforços para mostrar todo o seu lado “atriz de novela mexicana”.

O que realmente aconteceu: “Agora à noite? Ponha um casaquinho, a sala do cinema é fria. Er... Pegue a minha carteira lá no quarto, vá. Ei, esse bilhete é de Ralph? Ruivinha? Hahaha! Esse rapaz é um fofo.”

Justamente, senhoras e senhores. O quão você queria que sua mãe fosse Minerva? Um sonho, não é? Morgana não acha. Ela preferia mil vezes a primeira opção de mãe, porque se fosse lhe impedir de sair com Ralph, estava tudo ótimo. Ela amaria se trancar no quarto e fazer quantos exercícios fossem de Matemática. Certo, nem tanto.

Ela só estava ali para certificar-se de que ele estava vivo, e que ela poderia bater nele se fosse preciso... Não é? NÃO É?

Morgana nem prestara atenção no filme que ele escolheu. Como assim “ele escolheu”? É claro, ela estava comprando o lanche, então nem teve como intervir na opção dele. E ele fez mistério idiota quando lhe foi indagado antes. O jeito foi ceder, e dormir se fosse possível.

Quando estava prestes a sair dos devaneios de sua injustiça e entregar o dinheiro à atendente do caixa, essa perguntou:

– Pra você e pro namoradinho? – Não. Ela não fez isso. Morgana tinha plena certeza de que se batesse naquela cara sonsa, chamaria a atenção dos seguranças e isso não seria legal. Então reuniu um pouco de sua quase extinta paciência, e lhe respondeu:

– Não, a gente é colega e eu sinceramente não pretendo sair disso. Por que, algum problema pra você? Por que eu nunca posso sair com os meus colegas de classe? As pessoas tem um grande preconceito com coleguismo entre meninos e meninas, isso deveria ser proibido; com lei presente na Constituição. É para mim e para o meu colega, será que deu para entender, ou essa sua cabeça loira não serve para nada? Me dá aqui o troco. – É, isso é por que ela tinha reunido paciência.

A mulher encolheu os ombros e sorriu descaradamente para Ralph, como se Morgana não tivesse se descabelado à sua frente para falar das leis que faltam na Constituição, quando o mesmo vinha em direção a Morg. Essa lhe mandou um olhar nada pacífico, e o fez rir, sentindo-se obrigado a passar o braço por cima de seu ombro, quase a matando de nojo. O intuito era levá-la a rir junto a ele, mas... Ralph não a conhece.

Nojo? Jura? Nojo era o que se tinha da mulher comendo Ralph com os olhos.

A tentativa de evasão de Morg ao chegar à sala gelada foi meio aniquilada porque ela não tinha seguido a dica de sua mãe. É, ela esqueceu de levar o “casaquinho”. Foi obrigada a aceitar o do menino. Parem com isso! Ela aceitou, mas isso não quer dizer diretamente que ela está apaixonada; olhe aí o preconceito com um casal de colegas! Casal... Casal?

Agora eles esperavam pacientemente os trailers terminarem, procurando algo diferente de beber refrigerante e mandar olhares um para o outro. Ficaram calados; só se ouvia a voz das outras pessoas. Conversas, risadas... Ah, sem esquecer os espirros abafados de Morgana, claro.

Vejamos o que se passava por sua mente: “Certamente ele tem algum problema mental.” Por que, Morg?

“Ele me chama pra sair e não conversa? Tipo.”

Ah, interessante. Morgana então queria conversar. Conversar e dar risada, como as outras pessoas ali presentes, e não só... Espirrar feito louca. E lembrando que ela não deu o braço a torcer a nenhum momento. Só ela sabe o quanto queria falar com o menino, mas ninguém precisava saber disso. Então, se conformou com o “problema mental” dele, e tornou a prestar atenção nos trailers que insistiam em não terminar.

– Suas costas ainda doem, certo? – Um sussurro foi ouvido tão perto de sua orelha que lhe causou uma onda indesejada de arrepios, e foi preciso apertar fortemente as mangas do casaco que ficava um pouco além da conta em seu corpo. Ah, e o motivo, claro, em sua mente, foi o frio. Frio causa arrepios. Sim, óbvio.

– Certíssimo. E a culpa é sua. – Seus olhos que eram naturalmente cor de mel, naquele momento pareciam prata, com a iluminação da tela gigante. Se viu obrigada a sorrir, porque ninguém é de ferro e muito menos ela; mesmo que sonhasse todas as noites com esse milagre.

– Desculpa. – Bem que ele disse: “E eu ainda te devo desculpas, hm?” E cumpriu, fazendo-a tirar a atenção do filme, para ele, e olhá-lo como um ser meramente simples.

A pior coisa que alguém pode fazer quando se vai assistir a um filme é não olhar o título. Morg cometeu esse erro fatal, mas aí então, percebeu que era um filme de comédia. Foi apenas isso que pôde extrair pelas risadas das outras pessoas e de Ralph; pois ela não entendia nada e nem forçava-se a entender.

A risada de Ralph era uma coisa tão: “ah, eu não curto você, mas essa sua risada é muito legal”. Era exatamente, sem tirar nem pôr, isso que se passava na cabeça de Morg quando ela era surpreendida por suas gargalhadas. Esse fator foi imprescindível em sua vida, porque foi daí que ela tirou uma deixa para tentar iniciar uma conversa de amigos.

Subiu um degrau. Amigos.

O fato de não ter entendido o filme não foi pretexto para ele começar a falar da cultura escocesa já que o filme se passava todo na Escócia. Então, enquanto ele falava das saias de xadrez que os homens costumavam usar, ela procurava o mais próximo ponto onde pudesse comprar um sorvete rapidamente.

Quem poderia estar entediado quando se tinha uma companhia que tentava de todos os assuntos para ver qual você se interessava?

Pense numa garota chata. Pensou? Ela é ruiva e tem menos de 1,60m? É a Morgana.

Enquanto Ralph tentava mais um assunto diferente para animá-la, sem querer esbarrou em um homem de meia idade, fazendo-o gralhar sobre como a juventude de hoje é isso e aquilo outro. Ele pediu desculpas e voltou a andar, mas... Que seria da vida de Ralph, sem Morg para alertá-lo de que estava sujo de sorvete? Nada, aparentemente.

Essa parte era a quer vocês esperavam; Morg tem certeza. Eles pareciam um casal. Sim, um belíssimo casal. Uma coisa linda. Também, quem a manda buscar um guardanapo e limpá-lo ela mesma? Dá sopa para o azar, menina. E não quer que as pessoas pensem que são um casal! Vê se pode uma coisa dessas?

Primeiro o sorvete, depois a livraria. Dessa vez, eles bateram as testas, o que foi um grande motivo para ela reclamar, como sempre. Ele sorriu calmamente, e não se irritou. Apenas zombou.

– Acho que depois dessa, meu crânio se partiu ao meio. – Depois do comentário que o fez zombar dela novamente, a mesma anuiu, um pouco baixo: — Vou ao banheiro.

Quando “fugiu” da livraria em direção ao local seguro, foi de pronto sacar o celular, para falar a Bran o quanto esse garoto é chato e não cala a boca um segundo sequer. Ela vê as coisas de uma forma tão errada. O garoto só queria conversar!

“- Olha, ele até parece legal, mas fala demais.”

“- Você quer mesmo que eu acredite que você não está achando esse passeio super legal? E como foi o filme? Ele fala demais? Isso é bom! Você não fala nada e queria que o menino ficasse quieto também? Jesus. Quando você chegar em casa eu vou estar lá te esperando; vou bater em você, sua vaca.”

O carinho com que os amigos se tratam é uma coisa realmente emocionante. Ela não respondeu a mensagem aparentemente violenta, e então pulou fora do banheiro antes que suspeitassem que ela tivesse se afogado na privada.

Encontrou o menino distraído, olhando algo sem importância na tela do celular. Ela observou-o antes de chegar perto. A cabeça estava inclinada para baixo, fazendo com que os cabelos negros caíssem sobre os olhos e ombros, como em uma cascata ondulada. Os braços estavam cobertos por uma blusa de mangas longas que iam até o fim dos cotovelos (e foi naquela hora que ela percebeu o quanto foi injusta quando aceitou o casaco do menino, enquanto ele ficou apenas com aquela blusa fina para esquentar-se na sala de cinema fria... E Morg seria bem útil se o abraçasse). Vestia também uma calça, e nos pés mantinha um par de coturnos. Se não fosse isso, o coitado tinha morrido de frio, pela falta de misericórdia daquela que o observava. Por fim, ela espantou esses pensamentos altruístas e condescendentes da cabeça, e pôs-se a andar.

– Voltei. – Ela anunciou, como se sua presença fosse algo indubitavelmente bom. Caminhou até ele a passos lentos, quase como se suplicasse ao tempo que passasse bem devagar para que ela pudesse apreciar mais a simpatia de Ralph. Outro lembrete: não falem isso em voz alta. – Vamos agora? Acho que minha mãe já está preocupada. – Ela anuiu, fingindo interesse na vitrine de uma loja qualquer.

– Talvez. Ela ligou? – Ele indagou, levando as mãos aos bolsos dianteiros da calça.

– Não, e isso é estranho. Em algum dia normal ela já teria mandado mensagens a cada 5 minutos, ligado a cada dez, chamado a polícia... Minha mãe às vezes exagera, sabe. – Riu sonoramente, sendo acompanhada por ele.

Andaram lentamente até a saída do Shopping, adentrando o estacionamento cheio de carros e motos. O vento que os atacara estava tão quente que ela forçou-se (sim, forçou-se) a retirar o casaco emprestado. Ela o ergueu até ficar da altura dos olhos do garoto, e sem olhá-lo nos olhos, falou quase inaudível:

– Obrigada. – Ele riu nasalmente, e pegou o casado de volta, sem esquecer de tocar demoradamente a sua mão gelada na transição.

– Vejamos... – Ele disse, assim que acenou para um taxista. Falou algo com ele, e então virou para Morg de novo. – É, eu te levo em casa, dou a volta e sigo para a minha. Sem problemas. – Depois, como se não tivesse falado um absurdo daqueles (à vista de Morgana, claro), voltou a falar com o homem, que já entrava no carro preparado para levá-los aonde bem desejassem.

– É o que? Não, não, não e não. Eu posso, e devo ir sozinha. – Ela abriu bruscamente a porta do carro, e entrou como se fosse propriedade sua. Assim que puxou-a de volta a fim de fechar, Ralph brecou o movimento com um braço, e sorriu.

– Ah, você deve? Eu vou com você, queira ou não, Morgana. – Então, sendo claramente mais forte que ela, abriu a porta do carro e entrou, com uma expressão divertida no rosto; obviamente para irritá-la, porque aquilo (para alguém normal) não tinha nada de divertido: levar uma garota mal agradecida de carro para casa. Ralph achava super engraçado ver aquela coisinha minúscula bufando o tempo inteiro enquanto ele lutava para não lhe irritar mais com cócegas. Isso seria uma péssima ideia.

O taxista por vezes lhe perguntava algumas coisas, e eles passaram o pequeno passeio todo conversando. Morg não fez menção em falar, apenas uma vez, quando Ralph tocara no assunto de “ruivas”. Então ela lhe beliscou e alertou: “veja lá o que vai falar, hein?” Ele, como sempre, zombou da cara dela e fingiu que falava de outra coisa. Pede para ser esfolado, esse garoto.

“Que cara mais mainstream. Me levar de carro em casa e falar asneiras sobre mim com o motorista velho tarado. Que nojo de você, Ralph.” Que é mainstream todo mundo sabe, mas ele temia que acontece algo, não se sabe.

O rapaz passou o caminho todo com os dedos a batucar no banco à sua frente; tudo para não enchê-la de cócegas. A vontade ainda não tinha passado; pelo contrário, só aumentava a cada “a minha casa não ficava tão longe” que ela grunhia de dez em dez segundos. Quando eles finalmente chegaram, ela ficou indecisa.

Oh, sim. Indecisa. Entre descer do carro e fingir que não tinha ninguém para dar tchau e agradecer pela noite, ou ficar lá por uns minutos, entregar o dinheiro ao motorista e encher o menino de “obrigadas” e beijos.

Na verdade, foi um pouco de cada. E a parte dos “obrigadas” e beijos foi totalmente aniquilada no primeiro pensamento, que foi tão "não" que a deixou com dor de cabeça. Decidiu por entregar o dinheiro, sair do carro e só depois pôr a cabeça pela janela dentro do carro para se despedir de Ralph, com:

– Boa noite, Ralph. Valeu por me “trazer em casa”. – Escolheu muito bem as palavras antes de soltar os cachorros em cima do pobre menino, e não conseguiu esconder a risadinha quando falou: — A minha testa ainda tá doendo, mas obrigada pelo passeio. – Era para ela ficar séria, senão não teria graça.

Porém, Ralph veria a graça nos olhos dela mesmo que ficasse séria, e riu. Um sorriso simples, mas que de alguma forma muito maluca beirava da fofura à malícia; se isso fosse cientificamente possível. Mesmo que não quisesse, ela tinha apreciado o momento sob a companhia dele (shh, isso fica aqui e não pode passar daqui).

O carro deu a volta na rua vazia, e deixou-a sozinha na frente da casa, a sentir os cabelos serem acariciados pelo vento.

–X-