Quinta-feira

Morgana acordou com uma dor de cabeça horrível. Olhou ao redor. Não estava mais na casa do amigo, e sim no seu próprio quarto; a mochila jogada no mesmo lugar que deixou no dia anterior, o guarda-roupas com uma das portas aberta e a porta de vidro, que abria para a sacada, fechada.

Decida a não ir à escola, continuou deitada na cama, afim de esquecer a dor de cabeça e dormir novamente. Tentou por quase vinte minutos, e quando decidiu que a cabeça latejava de mais, girou seu corpo para fora da cama, não sem uma certa dificuldade.

Fechou os olhos novamente, e concluiu que não conseguiria descer as escadas. Olhou no visor do celular que tinha ficado no seu bolso a noite toda, e viu que eram apenas 5:30 da manhã, e que ela ainda podia tomar um remédio para ir...

"Não, eu não vou à escola." Com o pensamento decidido, rastejou até o banheiro e se olhou ao espelho.

Os olhos estavam vermelhos, os cabelos desgrenhados, e o rosto cansado. Não estava com olheiras, mas era perceptível o desgaste das últimas horas. Tomou um rápido banho de água gelada, e saiu do boxe tremendo, os cabelos pingando.

A dor de cabeça havia amenizado com o tempo, então ela passou a pensar na possibilidade de ir à escola como se nada tivesse acontecido, como se não estivesse abalada.

"E não estou. Está bem? EU NÃO ESTOU."

Lutou contra o emaranhado dos cabelos, escovou os dentes e arrumou-se. Tirou a mochila da escrivaninha, e desceu as escadas, parando só para ver se a mãe estava na cozinha, ou na área de serviço. Lutou contra o impulso de subir novamente as escadas quando encontrou o vento frio da rua cinzenta, mas resistiu à tentação do interior aconchegante da casa.

Andou cinco quadras até chegar à escola, enquanto repetia a mesma música nos fones de ouvido. "I want to kill everybody in the world" e as batidas de dubstep ecoavam em sua mente. A letra da música nada mais era que só um pretexto para fingir que estava tudo bem, que ela era a mesma Morgana que grita com todo mundo e que está sempre com uma pontinha de acidez na risada.

Adentrou a escola. Sentiu como se estivessem todos a encarando, e zombando da sua falta de resistência quanto à garotos extremamente extrovertidos do terceiro ano, quando ninguém prestava atenção no que ela estava fazendo, realmente. Não que ela fosse uma zero à esquerda, na verdade, quase todos ouviam sua opinião e cultivavam um certo temor daquela bomba-relógio de cabeça vermelha.

Ela simplesmente achava que seria julgada por nutrir sentimentos por alguém.

"Não que isso seja verdade. Isso é só um exemplo, por que eu acho que as nossas atitudes tem um grande valor em relação às pessoas e as coisas. Eu acho que agir dessa forma é dar espaço às pessoas a falarem maldosamente de você."

O sinal tocou longamente e ela espreguiçou-se no corredor quase vazio. Percebeu que estava indo na direção errada; trocou os horários no tumulto de pensamentos assim que arrumou a mochila mais cedo. Quase deu meia volta para retornar à o corredor principal. Quase.

Dessa vez, não ralhou, não enraiveceu-se diante do garoto. Olhou vagamente para as ondulações nos cabelos escuros, a forma como os músculos dos braços apareciam na camisa de manga longa, e os dedos que seguravam fortemente as alças da bolsa nas costas. Segurava tão brutalmente, que deixava os nós dos dedos esbranquiçados pela pressão.

Assim, percebeu, parecia um pré-adolescente diante da menina mais bonita e popular da escola.

Só que ele estava longe de ser pré-adolescente, e ela, de ser a mais bonita e popular da escola.

Calculou passar por ele e falar um "bom dia" normal, ou somente ignorá-lo. Ficou pensando por tempo o suficiente para que ele arrumasse coragem para dizer:

– Me desculpe por ontem. — Então saiu. Estava girando as mãos nas alças da bolsa agora, evidenciando o nervosismo.

Ficou estupefata e um pouco indignada; não soube o porquê. Ainda murmurou um "tá" quando ele saiu, a tempo do menino parar e absorver a monossílaba insignificante. O viu prender um suspiro, enquanto seguia seu caminho para a sala de aula.

–X-

Estirou-se na cadeira dura. Olhou para o quadro vazio, a professora sentada à mesa com óculos de armação roxa, e uma caneta preta na mão. Procurou Brandon pela sala cheia — principalmente depois da decisão da professora, de manter segundo e terceiro anos juntos — e não o viu. "Eu que estou em um estado deplorável e ele que falta? Mas que droga."

Decidiu que naquela quinta-feira não tiraria o celular da bolsa, não conversaria com ninguém e não deixaria de escrever nada. Seria uma aluna exemplar por, pelo menos, um dia desde que começara a frequentar aquela escola.

A sala estava tão silenciosa que era possível ouvir as pessoas respirando, e os lápis e canetas em contato com o papel. Sem falar no estranho barulho agudo que vinha do atrito entre o quadro branco e o piloto azul.

Estava tudo muito quieto...

– PARABÉNS PRA VOCÊ! NESSA DATA QUERIDA, MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDA! — Um bando de alunos misturados à balões coloridos, doces e um bolo enfeitado adentrou a sala, e assustaram a pobre menina. Ninguém além dela se assustou. Na verdade, estavam todos cantando e batendo palmas, rindo e gritando, entre elas Brandon, Laura, Todd, Benjamin e Ralph. O último tinha um brilho diferente nos olhos e um sorriso tímido, mas espontâneo.

Morgana conseguiu levantar-se da cadeira. Estava com o bumbum dormente por ter ficado na mesma posição por muito tempo, mas não atentou muito à isso. Abraçou Brandon forte o bastante para significar "obrigada, amigo querido, te amo" e "achei que fosse me deixar na mão, seu idiota, eu chorei por alguém ontem, sabia?". Largou o menino e agradeceu à todos, um à um; ou tentou.

Todo aquele silêncio na sala fora proposital, para que ela se assustasse mais com o barulho abrupto. Antes disso, não sabia que tantas pessoas gostavam assim dela, à ponto de aceitarem fazer uma festinha surpresa em seu aniversário.

Ou será que Brandon as convenceu, com a simples frase "se não fizerem isso, poderão pagar mais tarde... Pelas mãos da própria."?

"Não", pensou "eles não seriam idiotas à ponto de ser ameaçados por mim".

A pequena comemoração durou o começo das aulas e o intervalo inteiro. Ela se assustou com a quantidade de "parabéns, Morg" e "feliz aniversário, cabeça de fogo" — para os mais próximos — que se prolongaram até o fim da manhã.

Ela tinha se esquecido que dia era aquele. Naquele dia, fazia 16 anos que ela tinha nascido, e se desenvolvido ao longo dos anos, com a ajuda da mãe e do amigo Bran.

Ralph a observava de longe, com um copo de coca-cola na mão esquerda. Ele tinha um sorriso comprimido nos lábios, por que ele adorava vê-la assim; feliz, descontraída, despreocupada.

Estava sentada numa roda com alguns colegas, e até recebeu alguns presentes, prova de que Brandon vinha planejando aquilo a tempo das pessoas comprarem alguma coisa para ela.

De repente, sentiu vontade de chorar. Mas não de tristeza; e sim de uma alegria que a tinha invadido, para preencher o espaço oco que antes a deprimia.

Ela saiu da conversa com um aceno e correu até Brandon.

– Você 'tá bem, né? — Ele perguntou, com uma pontada de preocupação na voz.

– Sim. Claro, que eu estou bem. Depois disso, quem não fica? — Riu.

– Não... Eu quero dizer... Bem, em relação à... Você sabe. — Ele apontou deliberadamente para o espaço vazio na frente deles, tentando falar alguma coisa.

– O que isso importa? — Perguntou. Não queria estragar o clima bom que se instalara. Por que ele a fez lembrar?

– Importa. E muito. — Ele suspirou, para depois continuar: — Foi Ralph quem deu a ideia da festa e me ajudou com os preparativos.

–X-

Notas finais
:3