I'm Not In Love
14 Drama Queen
Quinta-feira
Na tarde que se sucedeu à pequena comemoração, Morgana fitava o espelho, aflita. De minuto em minuto, segurava o celular, digitava um número escrito num pedaço de papel, ligava e depois desligava. Passou as mãos no cabelo pela trigésima vez. Repetiu o processo, e antes que a chamada começasse, ela desligava novamente.
Brandon tinha escrito o número de Ralph às pressas e entregado à ela antes de voltarem para casa. Ao invés de dizer "tchau" como amigos normais fariam, ele disse:
– Não perca a cabeça. Ligue. E agradeça.
As palavras ecoaram em sua mente por todo o caminho de volta para casa. Ela tropeçou em uma pedra, e reclamou com a mesma, antes de atingir o portão.
Quando entrou no quarto, não tomou banho, nem tirou os sapatos, e a bolsa continuava em sua costas.
Agora, ela estava decidida à ligar. "Oi", diria. Ele responderia, e ela agradeceria pela festa e depois desligaria, com, quem sabe, um "até amanhã".
"É, é bem fácil. Fingirei indiferença por que ESTOU indiferente."
Respirou fundo três vezes. Não precisou digitar o número novamente; ele estava gravado nas últimas ligações. Levou o celular ao ouvido. Ela só conseguia ouvir os bipes do aparelho, e o próprio coração, latejando abafado em seus ouvidos. Enxugou a testa com as costas da mão, e então ele atendeu:
– Valar morghulis¹, Morgana.
– Valar dohaeris² — respondeu sem perceber. Cobriu a boca com a mão. Sorriu. — Desculpa. Como você sabia que era eu? Como sabe que eu iria responder da forma correta? Você anda me espionando, garoto?
Todo o seu plano de agradecer sem mais delongas foi por água abaixo, e a culpa é dela própria. Parabéns, Morgana! Não só pelo aniversário, claro.
– Eu sabia que era você. E sempre atendo o celular assim. Eu? Não. O que me levaria a espionar uma garota que nem liga se sou eu que preparo toda a festa dela, e ela nem fala comigo durante o acontecimento? Não. Não sou tão idiota quanto você pensa, menina. Pode me agradecer agora? Ficaria bem mais feliz.
Não se assustou muito com o modo que ele falou. Na verdade, ela sabia que ele não seria capaz de falar assim.
Ralph é uma criatura estranha. Mesmo que não queira, tem um porte forte, e as melenas caindo pelas costas o fazem parecer um cavaleiro, ou algo do gênero. As írises claras, em tons brilhantes de mel e, às vezes, âmbar, o transformam em predador. Sem contar a altura; faz parecer Morgana uma criança.
Na verdade, Morgana parece uma criança em comparação aos amigos todos.
Concluindo, Ralph foi "projetado" para parecer um tipo de ameaça. Mas age como um cão, um Golden Retriever, por exemplo.
É brincalhão, e às vezes não tem noção do peso e tamanho. Muito ativo, e sensato, seu único problema se encontra em não conseguir fingir ser mau, pelo ponto de vista da ruiva. Além de outros "defeitos" que ela podia passar o dia falando.
Depois de dois minutos de silêncio, o rapaz questionou:
– Como conseguiu meu número? Como pode me acusar de espionagem se, olha que engraçado, quem ligou para mim foi você e não o contrário? — Com uma risadinha vencedora, ele terminou a frase. Morgana não se abalou. Ao invés de brigar com ele, anuiu com indiferença:
– Brandon.
– Ah. Por que você tem meu número?
– Por que eu não tenho um cachorro? — Perguntou de volta. Ele riu, mas ela não. É um desejo de criança. O cachorro. — Brandon queria que eu te agradecesse. Entediante, né? — Ela bocejou.
– Oh, um cachorrinho. Ele não duraria uma semana. Ah não, que é isso. Não sou muito fã de altruísmo, então... Ah, me agradeça logo. Eu vi você rindo. Tenho quase certeza de que se perguntou: "desde quando tanta gente gosta de mim, se eu sou tão insuportavelmente arrogante o tempo inteiro e não aguento ouvir críticas construtivas?" Eu te entendo. — Ele fez silêncio. Morg suspirou. Ela sabia que essa era a verdade, mas não falou nada. Ele continuou: — Mentira, eu não te entendo. Quer saber? Deixa isso para depois. Acho melhor você pensar na melhor forma de ser legal; aquela festa exigiu um pouquinho do meu tempo.
E quase desligou.
– Escuta. Você não deve ter percebido, mas eu estou dentro da sua casa.
– O QUÊ? — Ela gritou.
Com o celular na mão, os pés agora descalços e largando a bolsa no chão do corredor, ela correu até a sala. Encontrou o rapaz sentado casualmente num dos sofás da sala, com um copo de suco de uva na mão esquerda. A direita segurava o celular. Ele sorriu ao vê-la, mas não foi com escárnio ou malícia. Só sorriu.
– Cadê a minha mãe?
– Boa tarde pra você também. A tia Mine saiu; ela disse que você estava no quarto, e que era para eu esperar na sala, que ela já voltava.
– Tia Mine. Sei. — Ele riu, um pouco alto dessa vez. Ela desfez a chamada no celular. Não desceu totalmente as escadas; ficou estagnada no meio dela. — Você é mais idiota do que eu pensei, sabia?
– Que bom. — Ele meneou a cabeça para o lado, e sorriu.
– Tchau. — Ela desceu o resto dos degraus. Morgana quase o empurrou, se ele não tivesse falado:
– Espera, e o beijo? — No meio do movimento para empurrá-lo, ela conseguiu forças para desestabilizá-lo pela pergunta idiota, só que de maneira levemente mais brusca. Ele caiu com as costas no sofá. A cena seria extremamente sexy, se a intenção dela fosse realmente fazer isso. Perguntou:
– Que beijo? — Sentou inocentemente no braço do outro sofá, enquanto Ralph sentava com as dobras dos joelhos no braço do sofá que tinha caído. Ele estava um pouco sério.
– Já viu um casal não se dispedir com um beijo, menina? — Ele perguntou, como se fosse algo normal de se dizer, assim.
– Não sei de onde você tirou a ideia de que somos um casal. — Ela se irritou. Mesmo que tentasse, não conseguia controlar o rubor na face quando se via nessas situações.
– Prove. — Ele gargalhou, sabendo que ela viria atrás se ele tentasse correr para fugir. Então ele o fez.
Saiu em disparada pela porta da frente, que estava destrancada, facilitando a passagem dos dois. Sempre na frente, Ralph transparecia alegria. Já a menina fervia de raiva por estar em uma situação tão ridícula. Morgana o seguiu até quase perto do colégio, só que ela parou e estancou no lugar; não correu de volta. Ele percebeu que não era mais seguido, parou também.
Ofegantes, se encararam por uns minutos, até que ela percebeu que estavam seguindo por uma direção diferente da casa dela, e do colégio. A rua era larga, uma avenida, e seguia em linha reta, passando por estabelecimentos comerciais e casas, condomínios simples e praças.
Andaram lado a lado.
– Não sei como correr atrás de mim reforça a ideia de que não somos um casal. — Em resposta, a menina beliscou a cintura dele. Ele resmungou, se afastando milimetricamente.
– Não somos e pronto. — As bochechas dela estavam coradas e suadas pela corrida.
– Tá.
Só depois de andarem quase a avenida toda, Morgana parou bruscamente, com os olhos arregalados. Ralph a encarou meio risonho por um tempo. Depois se deu conta também.
– Meu Deus, a porta da casa tá destrancada!
Voltaram o caminho todo correndo, quase tropeçando nos próprios pés, e avaliaram a casa minuciosamente; ninguém havia entrado. Nem Minerva, que já devia ter voltado há uns minutos.
Morgana respirou fundo; colocou a mão na testa, demonstrando alívio. Ralph a observou durante o tempo que ela passou regulando as batidas desenfreadas do coração.
– Está ciente de que isso é culpa sua, né? — Virou para encará-lo.
Minha? A casa é sua; foi você quem deixou a porta destrancada quando saiu correndo feito louca atrás de mim. Eu não pedi para você correr comigo; foi porque quis. — Ele se defendeu.
– Mas se você não tivesse vindo, por que eu não chamei, eu não teria me irritado e consequentemente não TERIA DEIXADO A PORTA DA MINHA CASA DESTRANCADA SEM NINGUÉM AQUI DENTRO PARA CUIDAR!
Minerva abriu a porta num estrondo. Estava cheia de sacolas nas mãos, e colocou-as sem muito cuidado no chão da sala. Suspirou de exaustão e indagou:
– Que gritaria é essa, meninos? — Ela parou por um instante. — O que você disse? A porta destrancada? A casa sem ninguém para cuidar? O que aconteceu nesses... — Ela analisou o relógio de pulso — 25 minutos que eu saí para fazer algumas compras?
Morgana se apressou para explicar. Contou que tinha chegado da escola (e omitiu a parte da festa surpresa, já que sabia a reação da mãe quando ela contasse) e estava falando com Ralph pelo celular quando ele disse que estava dentro da casa dela. Contou que ele alegou estar esperando Minerva voltar, e então ele a estressou, como sempre, e ela teve de correr atrás dele para dar-lhe uma lição.
Minerva riu.
– Que drama, Morgana. Me ajudem aqui com essas compras, vamos.
– Já me disseram que eu sou uma "drama queen", mas isso foi horrível, mãe. Eu deixei a casa sozinha, e a senhora diz que eu estou fazendo drama? Me poupe.
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