I'm Not In Love
15 Cicatriz
Notas iniciais
Quinta-feira
Já passava das quatro da tarde quando Morgana ultrapassou a porta da casa, "levemente " chateada com a mãe. Ralph a seguia.
A menina sabia que devia pará-lo; que ela andaria sozinha e que pensaria mais sobre toda essa situação. Mas não parou de andar, não virou para trás e não ligou se ele estava ou não andando atrás dela ainda.
Chegou a olhá-lo de soslaio uma vez. Alguns minutos seguintes, ela parou e ele também.
– Por que tá me seguindo? Você disse que não teria motivos para espionar alguém assim como eu. Me deixe caminhar só.
– Eu só quero conversar, se possível.
–Ah. — Ela pausou. — Não, não é possível. — E deu as costas novamente. Ralph ficou parado um tempo, mas então retomou a caminhada, e dessa vez, andou quase saltitando ao seu lado, fazendo-a bufar.
Tentou evitá-lo ao máximo; não respondendo primeiro às suas perguntas, e depois, pouco se importando em comentar suas teorias ou quaisquer frases.
– Califórnia fica linda a essa época do ano, concorda? As palmeiras e a areia quentinha...
– Vê se cala a boca menino, eu não quero saber da Califórnia, não.
– Ah, é? Que interessante.
– Muito. Se não calar a boca eu vou atirar uma pedra no seu olho.
Ele riu pelo nariz e entortou um dos lados da boca, e ela o encarou. A luz alaranjada do fim de tarde batia contra os seus cabelos, formando um halo desgrenhado sob sua cabeça. Ela riu.
– Você se lembra do que a discussão "quem cala a boa de quem" resultou, não lembra?
– Quer morrer, né? Escuta, às vezes você age como alguém de 5 anos de idade, sabia? — Eles andavam lentamente, e se aproximavam da orla da praia, que ficava cheia de turistas aos poucos. — Não vejo a hora de ficar velha para esquecer logo disso.
– Acho que uns 8, sim. Posso justificar, talvez. As crianças, geralmente nessa idade, adquirem muitos conhecimentos, e querem falar tudo para todo mundo. — Ele colocou as mãos nos bolsos dianteiros da calça, por mania. Ignorou seu último comentário. — As paredes não costumam ter um bom papo.
Morgana estagnou quando ia dar mais um passo. Prendeu um pouco a respiração, mas logo a soltou; queria mostrar postura indiferente, como sempre. Não aparentou conseguir, já que ele sorriu levemente.
Eles desceram degraus que levavam à areia fina da praia, que parecia em chamas pelas cores vivas no céu. Ela encarou as nuvens.
– Não precisa se assustar; não vivo totalmente só. Tenho uma empregada que me odeia, mas não posso demití-la por que meu pai, que está na Bolívia, não quer. Ele me mantem com seu salário alto. Mas já sairei dessa situação; quando eu começar a trabalhar, não dependerei mais dele.
– E a sua mãe? Teria que perguntar a alguém responsável, para saber se seu nível de hiperatividade alegrinha é tão grave assim.
Infelizmente, ela tinha feito a pergunta errada, na hora errada. Ralph não respondeu de pronto. Estava mais ocupado tentando tirar a areia entre os dedos do pé.Tinha uma expressão vazia no rosto. Suas pernas estavam coladas ao peito, e ele parecia terrivelmente vulnerável assim. Morgana não saiu do lugar; não mexeu um dedo.
– Foi num fim de tarde assim, eu quase posso me lembrar o momento. A culpa foi do meu pai. Eu só tinha 12 anos. O carro ainda está lá, enferrujando na garagem, sem muitos danos. E — ele levantou a barra da camisa cinza para poder mostrá-la — isso.
Uma cicatriz profunda que começava no peito esquerdo, passando desafiadoramente perto do coração e se estendia pelo tórax até o fim do abdômen, relembrava-o todos os dias que ele viu a mãe ser atirada violentamente ao para-brisas do carro da família.
Morgana conteve a vontade de tocá-lo. Não disse nada que não pudesse ser pior do que a pergunta anterior. "Não que eu me importe." Ele abaixou a blusa, e voltou a flexionar as pernas para perto do peito, suspirando. Sabia que ela não falaria nada.
– Eu... — A menina decidiu falar depois de um tempo em silêncio, mesmo sem realmente saber o quê. Colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, e sentou quase como ele, só que as pernas estavam mais longe do busto, e ela cruzou os braços sobre as mesmas. O mar fazia um barulho agradável quando as ondas quebravam. — Me desculpe. Eu só... — Quis atirar na própria cabeça. "Por que eu estou sendo tão legal hoje? Só o empurrei uma vez. E estou pedindo desculpas pela minha pergunta. Argh. A Morgana antiga já pode voltar agora." Ela balançou a cabeça, enraivecida.
Virou a cabeça para ser rude novamente. Afinal, forçava-se a não ligar se ele tinha problemas; ela também tinha os dela, não é mesmo?
– Já pode...
Parou de falar assim que olhou para o garoto, que imitava a posição dela, mas só acrescentando uns detalhes: estava com a cabeça baixa, apoiada nos braços cruzados, e lacrimejava sem muito exagero.
Sentiu o coração amolecer. "Ah, mas que droga! Para de chorar idiota. Pa-ra!"
Só percebeu por que ele fungava discretamente às vezes, e não podia impedir que as lágrimas colidissem com a areia. Achou que ele formaria um lago ali, se ficasse mais 30 segundos se derretendo.
– Ralph. Levanta. Não acha melhor ir para casa agora? — Falou meio ríspida. Não deveria mostrar delicadeza numa hora dessas.
Ela tinha levantado e tirado a areia das roupas, e o menino continuava sentado ao seu lado, não mais chorando. Estendeu a mão. Ele levantou a cabeça e respirou fundo, mas não saiu da posição fetal em que se encontrava. De longe, parecia uma criança perdida.
Os olhos estavam marejados, um pouco avermelhados e inchados, brilhando como nunca.
O céu começava seu lento e lindo processo do anoitecer, e ela começava a ficar impaciente. Mas aqueles olhos pareciam tão... Irresistíveis. "Tira essa ideia da cabeça. Só voltem para casa em segurança. Isso. Eu, Morgana, ajudarei um amigo ligeiramente próximo a se recompor..."
Realmente não percebeu quando se viu de volta à areia da praia, que começava a ficar fria e ventar fortemente. Nem quando aproximou-se dele, num ato instintivo de proteção térmica.
Apoiada nos joelhos de frente para ele, abraçou-o. "Não, não, não, não. Estou sem controle do meu próprio corpo!"
– Me desculpe. De novo. Prometo que nunca mais falo disso. Agora vamos, que a minha mã... — Ela voltou seu rosto para observá-lo, enquanto enxugava uma última lágrima que a havia rolado pelo rosto do menino.
As palavras se confundiram quando seus lábios se encontraram. Ela os manteve parados de susto, com os olhos abertos, arregalados, e as mãos empalmadas sobre o peito do rapaz. Indignou-se.
Ele preferiu manter os olhos fechados e as mãos coladas ao rosto dela, já que estavam sujas de areia e isso com certeza a irritaria. Ela resmungou em reprovação, mas não se desencostou, ou fez qualquer coisa para pará-lo.
– Achei que você tivesse com raiva da sua mãe. — Ele comentou, com a boca extremamente próxima a dela. Morgana respirou fortemente três vezes.
– Estou. — Se afastou repentinamente; era como se tivesse caído em si, finalmente. Ela levantou, e definitivamente, estava pronta para ir embora. Mas ele não quis.
Ela anuiu algo como "então durma aí" e andou até a escada que os levara até ali. Ela passou às costas da mão nos lábios. "Eu tenho que parar com isso. Tenho que p-"
– Andar sozinha por aí à essa hora? Tá achando que a violência é brincadeira, é?
– Vai dar uma de super protetor agora? Eu não preciso disso. De você. — Falou duramente. Não olhou para ele.
Ele já estava acostumado à esse tipo de reação, então não falaria nada. Só sorria, por que sabia que um dia ela cederia. Sucumbiria a essa armadilha com certeza.
Ralph viu-a molhar os lábios com frequência enquanto andavam de volta para a casa da menina. Ele riu olhando para frente, e não para ela, e provocou:
– Se quiser sentir o gosto da minha boca de novo é só pedir, não precisa viver de restos. — Ela engasgou.
– Preferiria viver sem lábios. Ainda não sei por que eu faço isso. É sério.
– Tão sério quando um palhaço em show de circo, hm? — Ela disferiu um golpe contra seu braço, e o chamou de impertinente. Ela tentou dizer ainda, que o momento fora propício para aquilo. Ralph fingiu acreditar no que ela dizia, zombando em seguida:
– Aposto que você beija Brandon assim quando ele está mal. — Desviou do novo murro no braço, gargalhando.
– Não, e a propósito, foi você quem me beijou, e eu me culpo por ter deixado. Não acontecerá de novo. — Ela entrou em casa, mas não o deixou entrar. Ele fingiu-se magoado; na verdade, estava um pouco.
Ela passou pela sala e subiu as escadas sem responder a mãe.
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