I'm Not In Love
16 Louis LeBeau
Notas iniciais
Quinta-feira
Quando Morgana voltou para casa na noite passada, determinou, assim que sentou na cama e esperneou de raiva, que Ralph deveria estar a pelo menos 100 metros de distância dela. E não poderia falar seu nome, e nem falar com ela, em circunstância alguma.
Dormiu, decidida a por a regra em prática no outro dia, uma sexta-feira.
Sexta-feira
–X-
Acordou antes do Sol nascer, perturbada.
Saiu da cama descalça, em contato com o chão gelado, e abriu a porta da varanda, deixando entrar o vento frio da madrugada. As luzes da cidade estavam, lentamente, se apagando, e o céu clareava em tons de azul e lilás.
Refletiu sobre o dia anterior. Teria mesmo beijado-o daquela forma se não estivesse apaixonada por ele?
Mas despachou o pensamento da cabeça assim que um carro buzinou lá fora. Não era ninguém importante; só o suficiente para fazê-la parar de pensar aquilo.
Agradeceu ao motorista, seja lá quem fosse.
Quando olhou o visor do celular, e viu as horas, logo levantou-se do chão da varanda, indo direto ao banheiro.
Olhou-se no espelho, desejando mudar de rosto por dias indeterminados, até ela e ele esquecerem que um dia tocaram os lábios, que um dia sentiram aquele leve formigamento no estômago e que puderam gostar disso.
Bateu na pia do banheiro, com o punho fechado, fazendo barulho. Mas Minerva parece não ter ouvido, por que não chegou correndo, achando que a filha tinha escorregado, batido a cabeça no chão e perdido a memória. "O que, de fato, não seria má ideia."
Entrou no boxe e ligou o chuveiro, irritada.
–X-
Sem querer tinha exagerado no perfume; o que não era problema, por que a fragrância não era tão forte. Mas não costumava passar perfume.
"Na verdade, estou pensando agora, isso é um problema sim. Se não fosse um problema, aquele menino idiota não estaria andando com um sorriso de orelha a orelha na minha direção, e nem posicionando sua cabeça para perto do meu pescoço nesse instante. Acho que ele vai se arrepender disso. Ah, se vai."
No segundo antes dele conseguir encostar o nariz em sua pele alva, na curvatura do pescoço e ombro, o sinal tocou, anunciando o começo das aulas. Ela respirou fundo para não fazer algo pior.
Disferiu-lhe um tapa forte no ombro, como resposta.
– 100 metros de distância a partir de agora. Não fale comigo. Não fale meu nome. Só me deixe em paz.– E saiu andando, chamando Brandon, que vinha olhando a cena, para a sala de aula. Aula de História da Arte.
Os corredores estavam ficando vazios. Aí Brandon olhou para todos os lados, para trás e embaixo dos pés e então gritou:
– MAS QUE PORRA FOI AQUILO, SUA IDIOTA?
– Foi o que você viu. Descaramento. E a resposta correta para ele. Agora, chega de me xingar por nada.
– Por nada? POR NADA? — Gritou. Estava com as bochechas vermelhas.
– Uhum! — Virou no corredor à direita. Brandon a puxou pelo braço, obrigando-a a voltar e ficar.
– Você sabe que ele não merece isso. Não sabe?
Morgana pensou um pouco.
Pensou em tudo que tinha acontecido de uns dias para cá e analisou todas as coisas faladas e as não faladas (essas que a fizeram arrepiar e depois balançar a cabeça de um lado para o outro), e então parou.
– Você sabe sobre a mãe dele?!
– Uhum. Mas isso não vem ao caso. Eu estou falando da sua festa de aniversário. Que você devia tê-lo agredecido e não o fez. Não que eu saiba.
– Não que você saiba... — Estapeou o próprio rosto. Não fez diferença, já que ela estava sufocando de vergonha pelo que iria dizer. A cor vermelha pelo impacto não se destacou. — Ele... Eu... Bom, a gente... Na praia, eu tive pena. Mas foi só isso. Eu juro que foi. Aqueles malditos olhos brilhantes.
– Ei ei ei, não precisa se desculpar. Aliás, não tem o porquê de se desculpar. — Ele falou, com um sorriso sacana brotando em seus lábios. Ela levantou a cabeça para desafiá-lo. — Mas vejo que você o agradeceu muito bem, hein? — E gargalhou. Se preparou para correr antes que ela levantasse a mão para estapeá-lo. Ainda estava rindo quando virou um outro corredor.
Grunhiu de raiva, e sem querer, quase entrou na sala parecendo uma pimentinha. Bem, pior do que ela já é naturalmente. A cor escarlate felizmente desapareceu quando ela abriu a porta da sala.
Mas então voltou lentamente quando um professor, um que ela não conhecia, lhe saudou com um:
– Bon jour, ma cherè.
"Tá, é, tudo bem, eu tenho uma quedinha por homens franceses. E um despenhadeiro por homens franceses com olhos verdes e cabelos castanhos ondulados e espessos. Ah sim... Isso que é homem, gente."
– É-é, eu, hm, bom... B-bon jour. Monsieur. — Sorriu amarelo. Andou rapidamente até a cadeira, e sentou-se pesadamente, fazendo barulho. O professor "bon jour ma cherè" não pareceu perceber, então ela ficou aliviada.
Pensou em tirar uma foto sorrateiramente e mandar para Brandon, mas então lembrou-se da conversa de ambos, mais cedo, e desistiu da ideia. "Não me arriscaria a ir para a detenção por causa daquele traidor."
Decidiu prestar atenção à aula, que ainda não tinha começado, só por que o professor era novato, francês, com olhos verdes, etc.
A aula demorou um tempo para iniciar. O francês parecia confuso — "Fofamente atrapalhado seria o termo certo", pensou ela — com algo em seu computador prateado, e isso fez alguns alunos na sala rirem. Morgana irritou-se levemente com a infantilidade dos mesmos, mas não proferiu uma palavra sequer contra.
Esperou pacientemente; o que nunca acontecia. Mas, como já foi dito, era um francês e tanto... Então, o professor comemorou algo em silêncio, logo distanciando o olhar da tela do computador para observar a turma.
Alguém tinha entrado na sala. Alguém alto. Alguém com visíveis olhos cor de mel e cabelos longos e escuros. Alguém conhecido por Ralph, ou "o aluno chato que não deu bon jour para o novo professor francês lindo", pelo ponto de vista de Morg. Que, na verdade, estava bem certo, pela primeira vez.
Ralph sentou-se do outro lado da sala, e murmurou algo para alguém — uma garota com roupas e escuras e cabelo preso — do terceiro ano. Morgana não o encarou, mas apurou a audição para poder ouvir o que ela responderia.
– Estava fazendo o que, que só chegou agora?
– 'Tava por aí.
A resposta dele foi levemente seca e evasiva.
A ruiva gostou do que ouviu. "Espera. Eu gostei? Ahn?" Sentiu o peso do olhar sobre ela, então perguntou ao professor, que virou para ela, sorrindo levemente:
– Já deu aulas antes, monsieur? — Isso foi apenas para fingir interesse em algo que não fosse as janelas, o chão ou Ralph. Ele respondeu que sim.
"O quê? Vocês achavam que eu ia fuzilar a menina com os olhos, só por que ela estava interferindo ridiculamente na vida de alguém que não a interessa? Eu, hein."
– Bon jour, alunos. Meu nome é Louis. E como já devem ter percebido, alguns mais que outros, eu sou francês. — Algumas pessoas assentiram, e pareciam realmente um pouco surpresas.
"Mas que sorte a minha, hein? Conviver todos os dias com antas como essas não é fácil, tá?"
– Darei aula de História da Arte. Tudo bem, a matéria não parece tão envolvente, — "Mas você sim; não me importa a matéria" — porém eu tentarei deixá-la mais interessante. — "Você conseguirá, pode ter certeza."
Só depois de parar de pensar asneiras muito piores, ela abriu o caderno e começou a escrever, só parando algumas vezes para desenhar algumas miniaturas da Torre Eiffel nas laterais da folha.
"Um dia eu irei."
Duvidou da possibilidade de Louis perguntar algo sobre o assunto à eles, mas logo depois que escreveu, com uma letra trabalhada, mas rápida, questionou:
– O que vocês sabem sobre o Renascimento?
Morgana levantou a mão, chamando-lhe a atenção. Ele sorriu, com os dentes brancos à mostra.
– Hm... Foi um período de transição, de transformação em muitas áreas da vida humana, que começou no fim da Idade Média e o início da Idade Moderna. — Ele concordou com a cabeça.
– Excelente. Porém, esse período de tempo foi muito discutido por estudiosos, que não chegaram à um consenso sobre essa cronologia, havendo variações consideráveis nas datas conforme o autor de cada pintura, escultura e etc. — Morgana acenou positivamente, e fez uma anotação. Na verdade, ela escreveu, de novo na lateral do caderno, junto as pequenas Torres: "stop it, you make me feel so bad". Talvez ele tivesse achado que ela estava escrevendo seu pequeno e importante complemento, então sorriu.
– Mais alguém?
Ralph levantou a mão esquerda.
– O ideário renascentista era humanista e clássico. Uma das figuras mais importantes desse movimento foi Leonardo da Vinci, que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico.
– Ótimo, ótimo! — Ele exclamou. E depois murmurou: — Acho que já tenho dois preferidos. — Deve também ter marcado pontos extras em sua caderneta.
Ralph olhou para Morgana, com um olhar estranho. Ela virou a cabeça para olhá-lo, então levantou o canto direito da boca, já que ele estava carrancudo.
"Espere. Me deixe pensar. Respondi primeiro à pergunta do professor. Ele riu para mim praticamente a aula toda, e se Ralph está bravo, ou sei lá se ele comeu algo amargo, quer dizer que... Ele também tem um crush secreto pelo professor e não me aguenta ser a preferida da turma! Acertei?"
Claro, claro que você acertou.
Senso lógico = 100; Morgana = –100.
Acho que todos os alunos quase ouviram Ralph falar: "tire esses olhos franceses e esse sorriso francês de cima da minha garota, mordomo." Como se alguém pudesse classificar olhos e sorrisos franceses, ou como se Morgana fosse dele. Ou como se todos os franceses fossem mordomos chamados "Dimitri"/"Javier".
Mas ninguém pode impedi-lo de sentir ciúmes.
Contudo, a aula continuou normalmente, e Ralph não foi ridículo o suficiente para alfinetá-la na frente de todos, o que de certa forma a aliviou. Não queria passar uma imagem ruim para Louis.
O sinal tocou. A coordenadora da escola adentrou a sala e logo pôs-se a falar:
– Ei, sentem-se. Bom dia. — Todos murmuraram "bom dia" de volta. Morgana disse "Bon jour", mas ninguém ouviu. — A próxima aula, que seria de Português, foi cancelada. A Sra. Fray entrou para a licença maternidade.
Algumas alunas emitiram sons como "que fofo" e os meninos, mais brincalhões, zombaram da notícia. Mas no fim todos saíram felizes; afinal, teriam uma aula vaga até o intervalo.
Morgana esperou até o penúltimo aluno da sala sair. Como ela já tinha dado a perceber, odiava aquele conjunto barulhento de animais com capacidade cerebral reduzida.
"De longe são assustadores; de perto, repugnantes. Acreditem, eu sei do que estou falando."
Ralph continuou sentado, com as pernas de cada lado da cadeira, fazendo-o parecer alguém que não disse todas as funções que Da Vinci executou em sua vida.
– Certo, pode compartilhar.
– Não trouxe lanche. Esfomeada.
Ela revirou os olhos, e sentou numa cadeira ao lado do moreno.
– Você sabe do que eu estou falando! E não sou esfomeada.
Ele olhou estranho. Suas bochechas estavam levemente coradas; e ela pôde perceber uma barba rala escurecendo seu maxilar. Parou de olhá-lo, fitando os próprios tênis all star.
– Sobre... — Ele gesticulou, sem saber como realmente falar.
– Uhum... É, conte-me mais sobre a aula de História da Arte. Aquele francês gato te seduziu, que eu sei. Quer que eu ajude a desenhar uma Torre Eiffel, e ao lado a frase "Jet' aime"?
– Você se drogou? Não, tô falando sério. Teus olhos estão vermelhos. Tipo o cabelo. — Ele riu da própria piada.
"Piada ótima, por sinal. Rindo pakas, como diz a história. Ou litros, quem sabe."
– Vai, por favor, compartilhe comigo seu crush secreto pelo novo professor. A gente pode falar dele juntos. Eu também gostei dele. — Ela falava suplicando, juntando as mãos abaixo do queixo, e fazendo bico. Chegou a ponto de "piscar olhinhos vesgos", mas então ele proferiu:
– Acho que você entendeu TUDO errado. O que você tem na cabeça?
– Um cérebro. Que neste momento está mandando meu braço direto no seu maxilar, SE você não me contar do seu "crushzinho" lindo e maravilhoso pelo Louis.
Ele riu, em descrença. Na verdade, estava descrente e indignado com a capacidade — ou a falta dela — da menina, de não notar o que tinha acontecido ali.
"Isso já está começando a me irritar. Ele tem ou não um crush por Louis? Devo admitir, o casal seria bem interessante."
– Eu. Estava. Com. Ciúmes. — De repente seus dentes estavam juntos, e o rosto com expressão distante, e talvez raivosa alguma vez, mas não a ponto de quebrar todas as cadeiras na cabeça do professor inocente. — De você. Uma cena linda, imaginou? Alguém que... — Bufou. Mas não saiu da sala.
As mãos estavam entrelaçadas e a cabeça estava baixa. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, agora virado para a cadeira em que a menina estava sentada.
Ela estava levemente assustada.
"Bom, se ficar com os olhos arregalados até doerem e abrir a boca de tal forma que milhares de mosquitos poderiam entrar quer dizer "levemente assustada", eu aceito numa boa, obrigada."
Fez menção em falar, mas nada saiu da garganta. Na primeira tentativa, gaguejou. Respirou fundo, e, pronta para sair da sala, falou:
– Vocês formariam um ótimo casal.
Na hora em que ela atravessou a porta, o zelador veio para trancá-la. Morgana falou:
– Ainda tem alguém lá dentro. Expulse-o.
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