I'm Not In Love
17 Contradições
Notas iniciais
"Meus próprios pêsames", lamentou à si mesma. Estava arruinada de um modo tão grotesco, que pensou em andar pelo meio da rua enquanto voltada para casa no dia anterior. Há pouco tempo, o jovem havia lhe dado uma pequena prova. Uma prova de que ele sentia algo ligeiramente sério por aquela coisinha, se ciúmes quer dizer, realmente, que se ama.
"Mas eu tenho ciúmes de Bran o tempo inteiro — tá bem, nem tanto — e isso não quer dizer que eu quero namorar com ele. Tudo bem, eu o amo, mas é um amor fraternal." Resmungou em pensamento.
Apesar de estar sozinha em casa, onde ela poderia gritar à vontade coisas do tipo "eu te odeio Ralph Meyers!", a ruiva preferia pensar em silêncio. Dizem que quando se ama, existe um sentimento um pouco egoísta denominado ciúmes; quando alguém se sente ameaçado por outro ser. Alguém por quem você nutre algo, está sendo rondado por outra pessoa qualquer. Isso causa uma raiva, que às vezes pode resultar em tragédias, e é um dos argumentos que a Morgana usa quando perguntam: "por que você é tão fria em relação ao amor e relacionamentos amorosos?"
"Tá. Tudo bem. Esse "outro ser", seria...? O professor de História da Arte? O francês? O Louis? Mas que ideia." Se pegou refletindo novamente, relembrando das duas horas de aula com o sr. LeBeau, e Ralph olhando-a estranhamente enquanto os dois — Morgana e Louis — trocavam sorrisos.
"Bem. No fim das aulas, ele bem que disse que ficou com ciúme. Mas eu tipo, nem imaginei que... Ah, que porcaria, cara." Morgana tentava parecer dura e impenetrável, sempre. Mesmo que a situação exigisse um pouco de desespero, ela só conseguia conter a adrenalina e continuar parecendo neutra.
"Mas eu tenho de admitir que isso é ruim." E de repente a verdade lhe veio à tona, como uma onda que aparece do nada, assim, no meio da praia. Aí esse ataque de fúria te leva, quase te afogando, à beira areia ensopada, te fazendo cair num poço profundo de...
Pura inspiração. Morgana saiu da frente do espelho em que se encontrava — gostava de discutir consigo mesma, já que era a pessoa mais culta que conhecia (típico) — e trouxe a câmera fotográfica para perto do peito; então respirou fundo. Pegou o celular da escrivaninha bagunçada e discou o número da mãe.
Sabia que essa hora ela tinha um pequeno intervalo para descanso, naquele fórum gigante cheio de homens de terno preto. Então, depois de dois toques, Minerva atendeu, com um toque de riso na voz. Morgana podia ouvir umas pessoas falando ao fundo; sua mãe devia estar entre uma roda de amigos.
– Alô?
– Mãe, posso sair pra tirar fotos? Juro que não vou tão longe... — Pediu com suplício na voz. Minerva comentou algo com os amigos e eles riram, então ela respondeu:
– Pode sim, mas só por que eu voltarei cedo. Antes de escurecer, ligue para mim. — Mas aí ela passou uns dez segundos sem falar nada, depois do "uhum" da menina. Daí acrescentou: — Tente não voltar tão tarde, está certo? — E por último, a pergunta que fez Morgana querer socar o espelho à sua frente: — Ralph vai com você? Seria bom.
"Posso me matar agora, né? A minha mãe perguntando se eu vou sair com o Ralph? O RALPH?" Tentou controlar a acidez na voz, o que só piorou o seu timbre quando ela anunciou:
– Não. Mãe. Ele não vai.
– Hm... Não sei, mas ele parece bem protetor. Não acha não? Vai que você encontra ele na rua, não é? Juízo!
E desligou. Nesse momento ela não conseguiu guardar os pensamentos para si, e gritou em alto e bom tom:
– Eu odeio Ralph Meyers e eu não me importo se a mãe dele morreu, se o pai dele não liga para ele, eu só quero que ele morra no fogo do inferno!
É, bem, após uns minutos ela se arrependeu do que falou. Só a parte após o "eu odeio o Ralph Meyers..."; a mãe dele não tinha culpa se o filho tinha feito aquilo.
Ela se acalmou, não por completo, mas o suficiente para pegar a câmera e sair de casa, só parando para voltar lá dentro e pegar uns doces. Esses aperitivos não podiam faltar. Subiu a rua calmamente, com o Sol a aquecer o seu corpo de forma acolhedora. Então, de um ponto que ela gostava, tirou uma foto com os raios de Sol batendo levemente nos pedrestes, que colocaram sua atenção na câmera da menina. Alguns riram com o clique insperado, então ela saiu andando para mais uma foto.
Então passou assim sua tarde, ou metade dela: tirando fotos e comendo doces. Duas das suas atividades preferidas, além de dormir, comer, conversar, dormir e comer. E comer mais doces. Já tinha andado mais ou menos até a praia.
Sua casa ficava localizada em um lugar próximo ao centro da cidade, o que deixava tudo mais perto e de fácil locomoção. De lados paralelos, ficavam o Shopping e logo à frente, a praia em que, por ironia do destino ou problemas mentais passados pelo ar, Ralph e Morgana, os tais "eu odeio você e você me odeia" se beijaram. Digamos que... Longamente.
De repente, a ruiva parou de andar. Seus pequenos um metro e sessenta centímetros não eram páreo para qualquer ladrão, mas dois de seus lados positivos eram a agilidade e precisão. Sua mente costumava ser rápida. Costumava. Depois do episódio do Sr. LeBeau, ela se consagrou uma ótima-não-percebedora-de-situações-óbvias, então toda a sua rapidez cerebral se esvaiu ali. Bem, era o que se achava.
Assim que virou para dizer "oh nossa, estou muito surpreendida, pode levar a minha câmera, moço", tomou um leve susto. Mas então a sua mente trabalhou rapidamente, e antes que a pessoa se desse conta, o flash já estaria cegando-a quase completamente, por alguns segundos. "Click!" e então Ralph gritou:
– Sua criatura dos infernos!
– Já me chamaram de coisa pior. A foto ficou boa. Mas essa sua cara de vilãozinho de peça de teatro de jardim de infância não ficou muito legal, não.
Ralph piscou forte três vezes, fazendo Morg rir até curvar-se, segurando firme a câmera para não deixar cair. Seu corpo costumava parecer bem fraco depois de uma crise de risos. Mas não havia tanto motivo para rir.
A firmeza com que Morg segurava o aparelho não foi o suficiente para impedir Ralph de roubá-la, e analisar a foto. Com o cenho franzido levemente e um ar cômico, ele questionou:
– Mas se a foto ficou "boa" e a minha cara não... O que ficou bom, se só eu apareço aqui?
– Só você? Tem certeza absoluta? E aquele mendigo gostosão ali atrás, não conta?
É, ela teve outra crise de risos quando Ralph virou-se debilmente para trás, a fim de ver o tal "mendigo gostosão" que a menina falava. Ele revirou os olhos em desprezo, então seguiu a rua ladeirada em direção ao Shopping. Morgana puxou a câmera das mãos grandes do rapaz, e desviou o caminho da rua principal, por onde ele andava.
Esse desvio levava à uma pequena praça. Ali, as áreas verdes eram muito abundantes e bem preservadas, o que Morg agradecia imensamente todos os dias. Não suportava cidades cinzas, cheias de prédios e fábricas. Mas também não teria paciência para viver no campo. Segundo ela, o intermediário entre os dois era o equilíbrio perfeito, a solução para o futuro eminente conturbado.
Sacou a câmera, pôs na frente do olho direito e tirou ainda mais fotos. Ralph a observava de longe, depois desviava os olhos para o chão e para as pessoas que passavam ali por perto. De tanto olhar para todos os lados, ele percebeu uma coisa que ela não tinha visto ainda, e não soube o porquê; já que ela era ótima observadora e melhorou essa questão desde que começou a fotografar a cidade e as pessoas dentro dela.
Se ela apoiasse a câmera num dos bancos da praça, a luz do Sol brilharia no canto esquerdo superior da imagem, e tornaria a brincadeira das crianças que faziam bolinhos de areia ainda mais bonita. Ela não falou nada, mas agradeceu com os olhos quando o menino veio lhe contar, com certo receio. Ele, ao contrário dela, percebia certas coisas que não precisavam ser ditas, nem que fossem sussurradas ao pé do ouvido.
Cruzou as mãos atrás das costas e andou vagarosamente até Morg, que agora quase brincava junto com as crianças no chão, falando várias histórias, enquanto elas riam e continuavam a cavar a terra.
– Nós estamos procurando tesouros. — Uma delas explicou.
– Ah... É por isso que vocês estão cavando tanto? — Morgana perguntou com um espanto fingido. A menininha riu e perguntou de volta:
– Quer ajudar a gente? Tem uma pazinha sobrando. Mas ela é verde. Você gosta de verde?
– Claro que eu quero ajudar — Morg bateu duas palmas, após largar a câmera no banco atrás dela. — Sim, eu gosto muito de verde. É uma cor muito bonita, não?
Então elas cavaram, junto com mais duas crianças, Hugo e Henry.
– Ei, acho que encontrei algo. Veja se isso é valioso. — Morg puxou da terra um cordão pequeno, cheio de missangas, e descobriu depois que era uma pulseira. Tinha um pingente maior, com pequenos coraçõezinhos gravados. Ela o colocou na frente dos olhos, para que as três crianças pudessem avaliá-la.
– É muito bonita! Veja os corações. Eu nem sei desenhar corações tão bonitos. — Isa, a menina que concedera a pazinha verde para Morg, tinha um brilho infantil nos olhos pretos. Pegou gentilmente a pulseira das mãos de Morgana, e perguntou: — Você quer ficar com ela?
Morgana assustou-se um pouquinho com a pergunta da menina, mas não soube o porquê. Aquela menina parecia saber de coisas que nem passavam pela sua mente, coisas verdadeiramente bonitas e puras. Olhou com certa indecisão para criancinha.
–X-
Ralph tinha parado há pouco tempo; antes estava andando pelas árvores e olhando para a direção de Morgana com certa diversão no olhar. Sentou-se num outro banco, bem mais próximo ao conjunto desarrumado de árvores, e passou a observá-la esse tempo todo.
Ao entardecer, percebeu que não tirara os olhos da menina desde que sentou-se ali e que a sua boca formara um sorriso minúsculo do canto direito, que foi retirado assim que ele acordou de seus devaneios.
Suspirou ao vê-la confusa, com a menina pequena a suspender um objeto em sua frente.
Olhou as horas. Estava bem perto de anoitecer e Ralph não costumava passear à noite pela cidade. Ele gosta do Sol e do barulho do dia, e raramente sai por poucos motivos depois das 7pm. Mexeu os pés encima das folhas secas caídas, e só então saiu do banquinho.
Teria de avisar à Morg que já era hora de ir, senão ela poderia passar a madrugada ouvindo as histórias engraçadas das crianças ao seu redor. A mais ou menos dez metros, ele parou. Apurou os ouvidos e escutou parte da conversa dela e de uma menina oriental, com as bochechas grandes e rosadas. A pele era alva, e os cabelos e olhos muito pretos.
–... porque você parece ter algo valioso. Na verdade, não é só uma coisa; são várias, e elas querem fazer bem, sabe. Com a pulseira achada, você tem mais um. Sabia que você pode transformar essa pulseira em um amuleto da sorte? — Ela mudou de assunto de repente, o que fez Ralph despertar de um outro devaneio, e então diminuir a distância entre eles.
– Pendragon, já está quase acabando o dia. Desculpe interromper o chá de vocês, mas nós temos que ir. — Sentiu que foi um pouco rude de mais. Morgana soltou um pigarro.
– Mas você pode ir embora, eu não estou prendendo seus pés, estou? — A menina não virara para olhá-lo, só continuava a analisar o seu novo "amuleto". — Que tal eu tirar uma foto de vocês? — Ela direcionou a pergunta para as crianças, que voltaram ao seu trabalho de escavação no parque.
– Com as mãos sujas de terra para cima, que tal? — Ralph exclamou, e então as crianças mostraram bem os dez dedos enquanto riam e diziam "Xis!" bem alto. Morgana sorriu e observou a foto, e Isa veio para o lado esquerdo e sorriu também. As outras duas crianças pediram para ver, então ela girou a câmera e mostrou a foto para eles.
– Um dos melhores momentos da minha vida, eternizados. O que acham de tirar cópias? — Mas eles não tinham tempo para tirar cópias.
Ralph debruçou-se em seu ombro direito, e ela sentiu os pelos da nuca eriçarem. Sem planejar, ele sussurrou, com a voz mais rouca que naturalmente:
– Hora de ir?
– Mas que... — Ela interrompeu-se, só o tempo de se levantar e limpar a parte de trás do short. — Por que essa ansiedade toda em ir embora? Que agonia. Vê se me esquece. — As crianças tinham ido para casa, e Isa acenou para Morgana antes de virar a rua. Morgana sorriu com o canto dos lábios para a menina.
– Ei, ei. É sério. Morgana — Ele puxou seu braço, fazendo-a parar de organizar a câmera e seus doces dentro da bolsa. Ela olhou-o um pouco assustada. Ralph explicou-se: — Eu sei que você não quer lembrar desse dia e que você quer envelhecer para esquecer logo e tudo mais, mas eu te disse que a hora do acidente que em a minha mãe... Era o fim da tarde. Morgana. — Ela tinha desviado seus olhos para o verde das árvores além dele. — Morg, por favor. Vamos.
– Ralph, olha, você tem que superar isso! Tá legal? É isso que acontece: as pessoas sofrem; as pessoas superam. A não ser que você seja um E.T., por que eu acho que eles...
– Tá, tá certo. Tudo bem. Eu... Eu vou tentar.
– Não é para fazer isso por mim. Não é à mim que você irá beneficiar, seu idiota. — Quando ela virou-se para ir embora, ele a puxou novamente, dessa vez pela sua cintura. – Ei, ei, ei. Pode parar. Isso não faz nenhum bem pra minha cabeça. Aliás, não foi você que disse que era pra ir embora? Isso é Perda-de-Tempo, com letras maiúsculas e tudo. Eu só queria esquecer que você existe; que eu existo. Queria esquecer também que essa porcaria de Sol idiota existe, porque é ele quem está fazendo seus olhos parecerem mais brilhantes. Beleza, dá pra me soltar agora, ou tá dif-
– Shh. — Ele colocou um dos dedos na boca dela, em sinal de silêncio. As orbes castanhas avaliaram as mel-esverdeadas.
Ela crispou os lábios, chateada consigo mesma, por saber que não conseguiria conter-se. Uma vez com os olhos fechados de raiva, ela não os abriu mais.
Então ela afastou a mão dali, e não surpreendeu-o quando selou os lábios com os dele, à princípio, vagarosamente. Ralph curvou os lábios num sorriso vitorioso, e ela grunhiu enquanto apertava a sua nuca, os dedos finos a afagar os fios escuros dele.
A partir daquele dia não teria mais argumentos para se defender; a não ser que dissesse: "das três vezes que nós nos beijamos, eu só beijei uma!" — se isso pudesse causar algum efeito positivo.
Gostava de abraçá-la pela cintura. Era fina e macia, e ele podia envolvê-la num aperto certamente confortável.
Morg não quis olhá-lo nos olhos depois que separou os lábios dos dele. Porém, ao invés de sair correndo dali, ela ficou; deixando-se ser abraçada por quem ela supostamente odiava, recostando a cabeça no tórax de quem ela supostamente queria morto, e fazendo um monte de coisas que supostamente iam contra seus antigos e insensíveis pensamentos.
Era engraçado como ele tinha que abaixar a cabeça para olhá-la nos olhos, e ela, incliná-la para cima para retribuir o olhar. Mas Morgana não sorria.
Ralph passou a fitá-la intensamente, e eles levaram um bom tempo sem dizer nada, apenas pensando em qualquer coisa. O que se passava pela mente de Morg, era que ela tinha perdido o juízo ou que tinha sido vítima de uma lavagem cerebral.
O dia estava quase findando, quando ela praticamente deu um pulo de susto: tinha esquecido de ligar para sua mãe, como prometera há algum tempo.
Com a mão na testa, mas ainda sim presa aos braços protetores do rapaz a sua frente, ela pôs o celular na orelha, e esperou, com o olhar aflito. Ele apenas a observou, pela milésima vez no dia, enquanto ela olhava para os lados por não ter para onde olhar. Não perguntou o porquê da aflição, e ela não queria falar.
– Mãe?
– Achei que você não fosse ligar; já iria chamar a polícia, daqui a... Dois minutos. — Mas então ela riu, e perguntou: — Já está voltando para casa, ou pretende fotografar os mendigos pela madrugada?
– Mendigos são extremamente fotogênicos, sabe né. Mas hoje eu... — Esforçou-se em vão; quando ela tomou a decisão de ir mais cedo para casa, não queria que ele achasse que foi por causa do problema que assolava sua mente; simplesmente decidiu, por que queria ir para casa cedo... Para conversar com Brandon pelo Facebook.
– Hoje você... Hoje você está com Ralph? — Minerva chutou uma alternativa. De milhares de possibilidades, ela foi escolher justamente a mais correta de todas.
– Mãe! — Morgana repreendeu-a, pensando em finalizar a chamada logo após.
– Você não sabe mentir, Morg. E eu sou sua mãe, acha que eu não te conheço?
Ela resmungou algo em resposta. Foi Minerva quem desligou o celular, sem precisar dizer nada depois de Morgana resmungar. Sabia que estava completamente certa. Bufou de raiva de si mesma, de Ralph, do mundo, mas ao invés de ir para outro lugar para refletir melhor, ela continuou ali.
Porque gostava de estabilidade que o rapaz passava.
– Você está bem? — Ele perguntou, depois que pousou o queixo no alto da cabeça da menina. Ela balançou a cabeça positivamente, mas não tinha tanta certeza disso.
– Não sei, não. — Disse por fim.
– Por que não?
– Você não acha, no mínimo, estranho? — Ela suspirou. — Eu devia te odiar, me odiar, mas não eu estou conseguindo. Isso é meio que... Novo.
– Que é isso, também te amo. — Brincou ele, estalando a língua. — Além disso, dizem que o novo é sempre bom.
– Eu gosto da rotina. — A voz saiu fraca de mais para que pudesse ser convincente.
– Isso quer dizer que você pode começar outra agora mesmo? — Uma pontada de ansiedade na voz a fez olhar para cima de responder:
– Hm.
– Rotinas são muito... Sei lá, rotineiras. — Fez uma careta.
– Isso foi profundo.
– Tô sabendo. — Ele riu. Desvencilhou-se do abraço, e apoiou a cabeça dela com as duas mãos. — Já entendi esse seu pavor, fobia, horror, nojo e medo, principalmente o último, de coisas românticas. Nem precisa se preocupar; você só finge que eu não estou aqui.
De repente ela sentiu uma bola se formando na base do estômago, e antes que pensasse bem, disse:
– Não é isso. Não quero isso.
Ele não conseguiu segurar o contentamento, em ouvi-la quase falar que o preferia perto, que longe.
– Se eu te contar uma coisa, você promete que não...
– Prometo.
A ruiva o olhou com relutância. Sentia que nada mais fazia sentido, então não agiria mal se contasse o princípio de seu propósito. Ela respirou fundo duas vezes, e começou a falar, a voz baixa:
– Na verdade, eu tenho medo de ser traída. Ou esquecida. Ou os dois. Sabe, eu tinha pavor que isso me acontecesse, eu sempre assistia à uns filmes, e eu pensava comigo mesma, que eu nunca queria que isso viesse a me machucar. Quando eu cresci, eu decidi que não ia deixar ninguém fazer isso à mim. Aí as pessoas começaram a se afastar, e eu achei, eu achava até agora — ela desviou os olhos dos dele, porque os do menino brilharam de felicidade -, isso muito bom. Mas... Por favor. Eu sei que isso vai soar meio estranho, mas, pelo amor de Deus, se você sentir que está gostando de outra pessoa, fale. Fale tudo, não me deixe descobrir por terceiros. Não ria, eu tô falando sério. Isso seria...
Então ela parou de falar, e colocou as mãos no rosto.
E ele não riu.
Na verdade, entendia a desconfiança da menina, e queria dizer isso à ela. Porém a voz que existia na sua garganta não quis sair; ele estava ligeiramente embasbacado pela sinceridade da menina à sua frente.
"Acho que eu vou usar aquele buraco que as crianças fizeram para enfiar a minha cara nele. E nunca, tipo nunca mais sair de lá."
Morgana bufou novamente.
– Estou orgulhoso de você.
– Que bom saber.
– Sério.
Morg revirou os olhos. Sua expressão dizia claramente que ela estava a ponto de se jogar na frente de um carro, e ela queria gritar enquanto fizesse isso. Mas não podia gritar ali, tampouco se jogar na frente de um veículo em movimento; então ela só fazia bufar e encostar — lê-se: bater — a cabeça no tórax do garoto, que afagava-lhe seus fios rubros. Ele riu pelo nariz e perguntou:
– Você quer se matar, não é?
– "Estou orgulhosa de você" — O sarcasmo tornou-se presente na voz abafada; ela estava, de novo, cobrindo o rosto pela vergonha que sentia de si mesma. Ele crispou os lábios, mas não chateou-se.
Morgana estava devaneando, em um tipo de dimensão própria que ela era mandada quando se sentia estranha. Analisou vagarosamente tudo o que tinha — o que tinham — passado até ali, e presumiu que já não era mais a mesma pessoa. Tentou de tudo, mas não conseguiu escapar melhor — ou seria pior? — armadilha que existe para o ser humano: o amor.
– Quando nós contaremos a novidade? — Questionou de repente, fazendo-a despertar do seu transe súbito. Ela meneou a cabeça debilmente.
– Que novidade? Pra quem?
– Não me faça segurar seu rosto com as mãos, olhar profundamente em seus olhos, dizer o quanto eu gosto desse seu jeito ligeiramente ridículo — ela estapeou seu braço — e logo após perguntar, de um jeito bem brega que eu sei que você ama: "você aceita ser minha namorada?"; e depois me desculpar se você não gostar da ideia. Não dificulte as coisas, Morgana. — Ele tinha um ar travesso nas orbes claras, o que a fez olhar cínica e absurdamente impenetrável para respondê-lo:
– Isso é calúnia, sabia? — E depois acrescentou, sem muita convicção: — Não deveria levar meus deslizes em conta. — Desvencilhou-se do abraço do menino e sentou-se à base duma árvore alta, cruzando as pernas logo em seguida. Tirou do bolso o novo amuleto. Prendeu-o no pulso, e admirou contra a luz alaranjada do entardecer. Ele aninhou-se ao seu lado, e ela olhou-o de soslaio.
– Eu meio que não levei seus deslizes em conta, sua ingênua. Se o fizesse, eu tomaria suas ações como pedidos de casamento simultâneos.
Morgana riu sarcasticamente, agradecendo mentalmente por ele estar olhando para o outro lado da rua. Depois de um tempo, ela resolveu dizer, após reunir a coragem necessária para tal anúncio:
– Fica por sua conta e risco.
Então ele buscou sua mão e cruzou seus dedos com os dela.
–X-
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