I'm Not In Love
2 Segundo Preço
Notas iniciais
Quinta-feira
Geralmente, seu celular começava a tocar Bangarang, do Skrillex. Ele sempre animava seu dia. Ou às vezes, quando ela esquecia as janelas do quarto abertas, os passarinhos entravam e começavam a cantar às cinco e meia da manhã. Hoje foi diferente. Uma voz feminina cantava melodiosamente Don’t You Remember?, da Adele. A voz era extremamente boa, e acalmava a qualquer um. Algumas vezes, um tom rouco era ouvido, deixando a música cada vez melhor. De quem seria essa maravilhosa voz? Bem, não tinha nenhuma empregada, só morava com a sua...
– MÃE? – Ela correu descalça pela escada, praticamente voando na velocidade da luz até a cozinha. – Ah meu Deus! – A ruiva exclamou, com a mão nos lábios abertos em um “o” perfeito. Não sabia se ficava assustada, fascinada ou brava, pela mãe não ter contado que sabia cantar tão bem. Na verdade, sentia tudo isso misturado.
– Acordou cedo hoje, hein? – Minerva riu levemente, enquanto enxugava as mãos. Agiu como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse cantado profissionalmente a poucos minutos.
Morgana ainda estava pasma. Seguiu até a mesa, onde encontrou o café da manhã, e sentou em uma das cadeiras. Comeu vagarosamente, já que estava cedo, e subiu novamente as escadas. Entrou no quarto e fechou a porta logo após. Passou um tempo refletindo, e percebeu que eu seu coração estava acelerado pela descida nas escadas. “Não posso mais fazer isso. Vou morrer de infarto! Mal acordei...”
Ligou o chuveiro, sentindo a água morna tocar a cabeça e, de leve, as costas. Essas que ainda estavam feridas, claro, e ela ainda tinha muito cuidado quando as molhava.
“Aquele asno me paga.” Pensou, tentando ensaboar-se sem machucar os ferimentos. Desligou o chuveiro e pegando a toalha, ela começou o seu novo ritual diário: tentar pôr uma camisa sem que magoasse a pele.
–X-
Quinta-feira
– Uma grande falta de responsabilidade. Você não mede as consequências? – O diretor perguntou alto, em tom imponente. Apoiou os braços encima da mesa de mogno. A sala tinha um cheiro de café fresco, e a decoração possuía um ar colonial. O estilo contrastava com o resto da escola, que tinha base antiga, mas aspecto tecnológico avançado. As janelas de vidro corriam do chão ao teto, mostrando o pátio principal cheio de árvores. – Nunca pensei que uma aluna tão exemplar – “Claro, por que tirar 5,0 pontos na prova bimestral de Espanhol é ser exemplo”, pensou ela – faria isso. Estou desapontado. – Ele olhou parecendo realmente triste para a ruivinha, que desviou o olhar. O senhor tinha feições doces, apesar de fortes, e olhos verdes extremamente claros. Os cabelos brancos eram poucos e lisos, e a postura parecia a de um felino de grande porte. – Para que não aconteça novamente, a senhorita terá três semanas de trabalho para a escola. Duas vezes por semana, apenas. Se seu problema era em não participar das apresentações de iniciação dos Jogos Internos, era só se pronunciar aqui na diretoria. Deixamos você nos bastidores. Você vai ajudar na estrutura do espetáculo. – Ele disse sorrindo para a mãe de Morgana, Minerva, que não teve tempo de pronunciar-se ainda.
Espetáculo? Desde que tinha cinco anos, Morg achava que o Sr. Drumlin era exagerado. Segundo ela, “aquela merda sempre dava errado, ninguém dançava direito – apesar de muitos ensaios -, e aquilo realmente não era motivo de orgulho. Não sei o que ele vê de interessante naquilo, sério.”
– Morgana, quando foi que você fez isso? – Minerva perguntou à filha, que agora se sentia mal por ter fugido e mentido. Enquanto andavam, os longos cabelos da mãe eram jogados para os lados, mostrando a firmeza dos passos. “Ela está pisando forte, quer dizer que está chateada. Merda.”
– Ontem. – Morg falou baixinho. – Quando eu cheguei em casa mais cedo, a senhora ainda dormia. – Ela continuou, enquanto viravam o corredor em direção à sala de aula.
– Ah. Você está cansada de saber que eu odeio ser enganada, seja qual for o motivo.
– Mas eu nã...- Foi interrompida.
– Seja qual for o motivo. – Ela repetiu pausadamente. Morgana resmungou um “tá” e entrou na sala de aula com a postura arqueada, olhos cansados e bufando. Além de sussurrar sozinha alguns palavrões ao vento, antes de o professor chegar na sala.
– Psiu. – Alguém cochichou da outra extremidade da sala. – Morg, bom dia para você também, amiga! – Bran exclamou com seu típico deboche. Brandon era um garoto bonito. Muito bonito. Quando Morg e ele se conheceram, ela achou que tivesse apaixonada por ele. Na verdade, ela sempre cai nessas armadilhas. Ele sempre falava com ela, dividia o lanche e pedia ajuda nas atividades, e ela parecia sempre hipnotizada. Quando resolveu contar a ele sobre seu “crush” secreto, ele lhe esclareceu a opção sexual. Ela então percebeu que eles eram amigos, e que nada podia mudar isso. Desde então, ele virara seu “fiel aparador de besteiras”, como dissera ela.
– Bran, sua coisa brilhante. Bom dia. – Abraçou-o forte, apertando os braços contra os ombros do rapaz que lhe afagava os cabelos. Ela suspirou pesadamente e separou-se, para falar. – O diretor me deixou de castigo. – Ela fez cara feia. – Estou trabalhando na estrutura da abertura dos Jogos. Ele ainda insistiu em chamar aquela porcaria de “espetáculo”. Vê se pode?!
– Ih, em que merda você foi se meter, hein? Te falei para ficar quieta. – Ele olhou em reprovação e virou para encarar o quadro, enquanto o professor começava a falar sobre o quanto as notas das provas foram péssimas. Morg choramingou um pouco, antes de Bran virar bruscamente. Os cabelos lisos bateram nos olhos, e ele disse: — Ah, e depois você vai me contar mais do “ogro dos olhos cor de mel”, ouviu?
–X-
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