Notas iniciais
"... só para estar lá."

Sexta-feira

O dia já tinha começado bem corrido, por conta do evento “importante”. Minerva adentrou rapidamente o quarto da filha enquanto a mesma dormia, roubou o painel (completamente esquecido pela menina, nos últimos dias) que seria exposto na frente do ginásio, e saiu sem ser percebida. Morgana acordou preguiçosamente depois de pelo menos 30 minutos choramingando e xingando tudo e todos por ter sido obrigada (por ninguém mais, ninguém menos que Bran) a comparecer nessa “perda de tempo”, e aí lembrou-se da consulta que faria amanhã, e a “merda que seria ver aquelas pessoas dançando ridiculamente na frente de todo o colégio”.

Quando levantou da cama, já visando o banho quente que viria logo após, lhe veio à cabeça um fato: nos últimos dias não tinha sentido as costas arderem tanto, pelo tombo que levou no início dessa “palhaçada” toda. Sorriu alegremente, e só aí se deu conta de quem foi o autor de tal tragédia, então uma expressão amarga bateu e ficou em seu rosto até a hora do “espetáculo” começar.

–X-

Sexta-feira

– Morg! – Bran gritou de longe, enquanto corria pelo ginásio lotado de pessoas cheias de glitter. – Mine! – Ele tinha acabado de inventar um apelido para a “tia” por que a “tia” não aguentava mais ser chamada de “tia”.

É, então Bran, após ter cumprimentado as duas, arrastou Morg para a arquibancada mais vazia, tagarelando sobre como “as pessoas estão preparadas e as apresentações serão ótimas, e você vai adorar” e outras coisas que ela não teve a capacidade de entender por conta do barulho.

Sabe quando você está tranquila, e de repente algo te faz olhar para certa pessoa? E sabe quando você olha para essa pessoa, e a pessoa olha de volta para você? E sabe quando isso tudo acontece, se você odiar essa pessoa e tiver com uma latinha de coca-cola na mão é como... “Tchau, latinha de coca-cola”?

Se você não sabe, ainda bem. Por que, aparentemente, é horrível. E Morg parecia sentir um ódio mortal por aquela criatura, que correu até onde eles dois estavam, a fim de saber o que havia acontecido.

Os olhos dela faiscavam. Tanto que, antes que Ralph pudesse descer da arquibancada de onde estava, passar pelas pessoas alegres e chegar lá vivo foram zero, já que Brandon a arrastara para um lugar vazio da escola. Ela estava borbulhando de raiva por que simplesmente não podia fazer um transplante de estômago, e porque sua mãe (e todo mundo) achava que ela na verdade estava... Bom, apaixonada.

Àquela altura ela já tinha se livrado do gesso no indicador esquerdo, então tamborilava-os, livre e irritada, nas pernas.

– Morg, é melhor se acalmar. Você não vai chegar lá e chutar as bolas do menino, pelo amor de Deus. – Brandon segurou a risada quando imaginou aquela criaturinha de cabeça quente fazendo a pior coisa do mundo; pelo menos para os garotos.

– Oh, você descreveu exatamente o que eu queria fazer.

Após ser quase estapeada pelo amigo, voltou antes do mesmo para o ginásio, já que não queria ficar em pé enquanto todo mundo estava sentado e se divertindo. Então, a passos largos e rápidos, Morgana voltou ao ginásio, logo sendo abordada pelo garoto que a levou a querer fazer um transplante de vida.

Caminhou silenciosamente para o lugar mais próximo que viu, e só então lhe dirigiu a palavra.

– Não chegue perto.

Quase como que de brincadeira, antes que pudesse ouvir a reclamação da menina, Ralph já tinha se instalado, e posto os pés no muro baixo que dividia as arquibancadas. Aproveitando o acaso, ele perguntou, olhando-a de soslaio:

– Perto assim?

"Não Ralph, você não fez isso." Você certamente tem aquele problema mental que Morgana apontou, quando ela (por erro de cálculo, claro) aceitou ir ao cinema com o mesmo, naquela remota sexta-feira.

Ah Ralph, uma pena você não saber o que irá acontecer agora... Uma pena mesmo.

– Eu te odeio. Com todas as minhas forças. – Não se deu ao trabalho de olhá-lo, por que... Bem, porque sabia que seria difícil voltar a prestar atenção no mundo ao seu redor. E ela, incrivelmente, sabia disso. Mas não queria, sabe-se lá, dizer que ela estava completamente apaixonada. Nada disso.

– Oh... Então você me odeia muito pouco. Me odeie mais.

Então isso foi um desafio?

Isso foi MESMO um desafio?

Você aceita, Morgana?

“Mas é claro que sim.” Hm, que bom. Não seria melhor esquecer essa pessoa, e seguir em frente como se ela não tivesse existido? Ou, quem sabe, fazer as pazes e tratá-la como uma colega de colégio?

São tantas opções, e você aí. Querendo brigas e confusões, enquanto o outro apenas queria...

Ficar perto. Mas não perto para irritar ou ser espancado (ou os dois, o que é bem mais provável), só para... estar lá.

Brandon a avistou de longe, e enquanto andava rapidamente, se deu conta do que estava realmente avistando. Não era uma miragem. Não era mesmo, o que o assustou profundamente (além da alegria que caminhou junto). Em um segundo sua mente calculou ir até lá, interromper a cena, e em 5 milésimos de segundo ele decidiu dar meia volta e fingir que sua amiga não estava sentada estapeando e xingando o moreno, que só pelo fato de estar ali, sorria.

Morgana, que não manteve suas atenções apenas no rapaz que a irritava a cada 1 minuto, viu graças a sua visão periférica — sua grande amiga.

Parou tudo o que estava fazendo (que era, simplesmente, tentar estapeá-lo com uma mão e contar dinheiro com outra) e ficou realmente estupefata. “Como assim o meu amigo me vê nessa situação e não me ajuda? COMO ASSIM?”

É Morg, nem tudo é como você planeja, seja o destino dos pés dos seus amigos ou o destino do seu coração.

As apresentações começaram, bem depois de Morgana parar de atacar Ralph e tentar chamar Brandon – que estava, como que de brincadeira – do outro lado do ginásio, conversando com uns colegas de outras turmas. Indignada, não prestou o papel de assistir as apresentações, e só ficou sentada lá, com a cabeça baixa e os olhos castanhos cansados.

“Eu podia estar tão linda dormindo...”

É, você podia. Disse bem.

Ralph, de vez em quando, a olhava de soslaio, logo voltando a fitar a quadra, para não “acordá-la” novamente e começar aquela confusão toda.

Sexta-feira

No fim do dia de apresentações, a menina estava cansada de gritar “cale a boca”/ “preste atenção”/ ou até “vê se para de respirar, coisa”. Que de certo modo magoou o coração do menino, que a partir das 3 hrs da tarde, já não aguentava ser barrado cada vez que tentava fazer um comentário sobre o sabor da pipoca, ou a qualidade das apresentações que ali assistiam.

Quando o Sr. Drumlin, o diretor da escola, começou a parabenizar e logo após despedir-se das pessoas presentes, Morgana saltara fora do ginásio, e esperara alguns minutos até ver Minerva e Brandon ultrapassando os grandes portões de ferro.

Sorriu fracamente ao vê-los, e andou vagarosamente até eles, que pareciam conversar sobre macarronada, ou algo assim.

– Hey. – Anuiu sem muito ânimo. Bran e Mine, como não eram nem um pouco idiotas, notaram a falta de vida naquele ser que, naturalmente, já brilhava em escarlate pelos fios rubros.

– Pizza? – Falaram em uníssono, fazendo Morgana sorrir feito criança; que, lá no fundo de certa arrogância e brutalidade, ainda era.

– Pizza.

Seria certamente engraçado ver Morgana, Minerva e Brandon andando abraçados pelas ruas, com a menina menor ao meio, sendo espremida ao máximo pelo abraço apertado – porém acolhedor – de sua mãe e amigo.

Ao chegarem ao estabelecimento favorito de Morg (vulgo Mc Donalds), trataram logo de escolher algo bem calórico e energético para repor os gastos do dia cansativo; andando de lá para cá pelo ginásio repleto de pessoas conhecidas e desconhecidas.

Tudo que Morgana queria era esquecer esse dia. Foi caótico em partes, e bem chato, segundo ela, já que Ralph só parara de irritá-la depois que ela quase o estapeou feio na face. Não sabia o porquê dele ter tentado falar com ela o tempo inteiro, não sabia o porquê de estar tentando ser agressiva o tempo inteiro, e o mais importante: não sabia de nada o tempo inteiro.

O conflito foi rapidamente apagado da mente quando Bran chegou com as fatias de pizza e os grandes copos de coca-cola atrapalhando a visão de Morg do local, já que era baixinha demais e estava praticamente deitada na cadeira vermelha de ferro.

Quando a gordura fazia toda uma lavagem cerebral para que a menina pudesse esquecer do dia todo, um pensamentozinho ainda insistia em perturbá-la; como culpa, ou consciência pesada. Com certeza em relação àquele que a fez querer a lavagem.

Suspirou e voltou a entupir as artérias com o gosto mais prazeroso naquele momento; o da pizza de calabresa do Mc Donalds que sempre a fazia feliz.

–X-