I'm Not In Love
11 Me Obrigue
Domingo
Realmente não sabia o que esperar daquele dia. Não depois do “pesadelo” que teve na noite passada, incluindo pessoas como ela própria, sua mãe e Ralph. Nem se ouvia falar em Bran, o que ela achou estranho, já que o amigo estava em todos os poucos sonhos que ela já teve.
Levantou da cama com a preguiça e o cansaço de quem trabalhou muito e dormiu pouco; o que não aconteceu, já que ela comeu e dormiu demais nos dias anteriores, e já tinha bastante estoque de gordura para o inverno. Ela gosta de se igualar a ursos ás vezes. Já “hibernou” quando tinha 8 anos, mas foi tirada a força do quarto depois de 3 dias de puro esforço para não pedir comida. Os distúrbios mentais dessa menina são dignos de estudo.
Então, as imagens claras do sonho (ou pesadelo, como ela prefere) começaram a, pouco a pouco, encher sua mente de teorias e perguntas, e poucas respostas.
Primeiro, entrou em casa. Ralph estava ao seu lado, e Minerva falava algo sobre emergência no fórum, e demorar para chegar. E com um sorriso, falou em pizza e uma companhia.
Nesse momento, não dentro do sonho, mas sim fora, Morgana começou a vomitar. Na verdade, ela tentou, mas não conseguiu. E a situação só piorou quando “voltou” às imagens do sonho totalmente fora da realidade.
Dentro do sonho novamente, Morgana sorri (“EU? SORRINDO? COM RALPH? ISSO É COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL, RALPH NÃO É MOTIVO DE RISOS NEM PARA UMA LHAMA.” O Universo que se desculpe com Morgana, mas lhamas não sorriem.) e senta-se no sofá e Ralph senta ao seu lado. Ela comenta algo sobre “Eu peço a pizza” com a maior felicidade e então Minerva vai embora, e uma noite de filmes de bang-bang, morcegos perdidos, e troca de tiros na outra quadra vem pela frente.
Mas a pior parte nem tinha chegado. Todas as vezes em que Minerva precisava ficar por muito tempo fora de casa; no fórum ou viajando, Morgana ficava sozinha. Não tinha ninguém que ficasse alisando seus cabelos ou abraçando-a toda vez que ela ligava para a mãe e essa não atendia. E não precisava disso, não mesmo.
Mas Ralph, o menino sorridente ao seu lado, parecia não ligar se ela não olhava para ele, e sim apreensivamente para a tela do celular.
Toda vez que Morgana ligava e Minerva não atendia, era como se um afago nos cabelos fosse resolver, ou um abraço desajeitado – já que Morgana estava na diagonal do sofá, com a dobradura das pernas em cima do “braço” do móvel, e Ralph se via um pouco atrás dela, sentado de frente -, que a menina parecia não sentir, de tão absorta que estava, esperando pela resposta das ligações e dos sms.
Aos poucos as imagens do sonho foram sendo excluídas temporariamente, uma a uma, de sua mente. Ela pensou que o que a tinha levado a sonhar tais impossíveis... Coisas foi a quantidade excessiva de gorduras consumidas para ESQUECER justamente aquilo.
Aquilo a que se refere a Ralph.
–X-
Segunda-feira
Decidiu que sua vida era uma merda, já que estava destinada a viver com um cérebro que a fazia sonhar coisas sem nexo, e que isso não à levaria a nada. Então passou o fim da manhã e o começo da tarde falando “hm” para tudo e todos, e especialmente à Benjamin, que não parava de tagarelar sobre Laura, ela forçou-se a sussurrar um “cale a boca” baixo, mas firme.
Durante as aulas, tentou não ser muito percebida; o que não era difícil, já que não era cdf, desastrada ao ponto de chamar atenção da sala ou burra demais. Então pôs o casaco e sentou numa carteira longe do quadro... Jamais faria isso, mas a situação, segundo ela, requeria o código vermelho: falar, sem querer, de coisas que ninguém precisa saber. Tipo esse sonho.
Então, sendo só abordada por Bran e por Ralph (às vezes, já que não parecia totalmente recuperado do ataque no dia anterior), esperou impacientemente até o fim das aulas (antes do intervalo) e o toque do sinal, alertando que já estavam livres para comer e conversar.
Sem sucesso, tentou desviar dos assuntos e tomar coca-cola sem que alguém viesse falar sobre o tempo, fofocas de celebridades... Esses assuntos triviais.
Enquanto refletia impacientemente sobre o “pesadelo” da noite passada, se pegou pensando na possibilidade de algum dia aquilo acontecer; porque, não que ela se importasse, seria bem estranho. Bran teria conversado sobre isso com ela, mas, como sempre, a menina respirou asperamente e urrou um “não quero falar sobre isso” e voltou a vegetar sobre a cadeira, sendo queimada por um Sol exageradamente quente para aquela hora da manhã.
Infelizmente, não conseguia sentar em outra mesa em que não pudesse ouvir a voz de Bran contando histórias, ou falando sobre assuntos normais, como fazer viagens e essas coisas. O fato ruim disso, é que Brandon tinha virado um ótimo amigo para Ralph, e vice-versa; o que irritou levemente a ruiva.
Tinha uma culpa nisso, não podia negar. Gritava e se estressava sem quaisquer motivos, e não ouvia opiniões ou conselhos. E é claro que ela não perdia tempo em culpar Ralph. Porém de quê ela não sabe, ou não quer admitir que existe algo.
Respirou fundo, e cerrando os olhos, levantou da cadeira. Procurou não se juntar ao grupo de estudantes que se comprimiam ao aperto do corredor, então esperou até que a bagunça fosse exterminada. Ao passo que tentou sair do lugar, foi puxada pelo ombro direito por um braço que quase lhe tirou o ar, e saiu sendo arrastada pelo corredor.
Ao perceber que a pessoa que tinha lhe causado tal sensação fora Ralph, e que Bran estava do outro lado rindo feito hiena, um pingo de raiva que havia sobrado do começo da manhã lhe atacou o peito. Mas não, ela não falou nada.
Ralph continuou com o braço direito ao redor dela, e caminhando sem pressa, chegaram a porta da sala de aula. Antes que eles pudessem entrar, ela resmungou e tirou (com certa dificuldade, já que Ralph é alto e os braços são mais fortes e ela não passa de uma coisinha minúscula e ruiva) o abraço aperto do menino de si, e só então entrou na sala, sem olhar para trás.
–X-
Segunda-feira
Antes que o sinal do fim das aulas soasse pela escola, Morgana, que estava sentada preguiçosamente da cadeira, pensou: “Hoje eu teria de trabalhar. Mas a abertura dos Jogos já passou, então eu estou livre", cantarolou a última palavra alegremente, em pensamento.
Concluindo, Morgana teria que ir pessoalmente à sala do diretor para “cancelar” o castigo, já que pela sua vista ela não tinha mais nada a fazer naquele local barulhento e empoeirado em que estava passando duas tardes por semana. As duas semanas já tinham passado, a abertura já tinha sido feita.
Ao soar o sino, arrumou seus materiais na velocidade da luz e voou da sala, já que odiava perder tempo em ir para casa. No meio do caminho decidiu ir devagar, já que, além de não gostar de perder tempo, preferia manter uma aparência de pessoa “normal” para conseguir... Coisas. Nesse caso, ser livrada do castigo.
Assim que bateu levemente à porta prateada da sala, um murmúrio foi ouvido, e ela entendeu como o pedido de entrada. Não antes de respirar fundo (afinal, estava falando com a autoridade máxima da instituição), abriu a porta e adentrou vagarosamente, notando todas as janelas logo atrás da mesa de mogno do senhor a sua frente.
A sala era um misto de rústico, clássico e contemporâneo, passando do vidro ao mogno e ao metal graciosamente. Gostava do clima da sala. Porém, o diretor que a olhava fixamente desfazia o encanto. Ele mantinha postura de leão pronto para atacar sempre, e ela com um resmungo, pôs-se a falar:
– Com licença. Sr. Drumlin, e-eu vim para pedir que-e o senhor cancele o meu castigo por ter fugido da escola no dia da escolha dos dançarinos para a abertura dos Jogos... Já que a cerimônia já se passou e eu não tenho mais nada a fazer. Eu acho. – Ela, que antes olhava fixamente para as janelas de vidro, pairou o olhar sobre o homem.
– Bem, o trabalho não terminou ainda. Os jogos estão acontecendo, e nós precisamos de voluntários para manter todos os equipamentos em ordem, não acha?
Por um segundo, a respiração falhou e ela olhou incerta para as próprias mãos. Uma chamazinha de indignação cresceu dentro da menina, que se segurou para não contestar-lhe com violência.
Assentiu sem que ele precisasse dizer algo mais, e pôs-se para fora da sala às pressas. “Quem esse velho pensa que é?” Refletiu em dois segundos, e voltou a ralhar mentalmente. Percebeu que corria. “Ah bem, SÓ o diretor da escola, mas-”
Os pensamentos foram interrompidos bruscamente por algo grande, forte e largo. Algo que segurou seu braço e riu debochadamente, como na tarde em que conheceu...
– RALPH! – Gritou. Quando se deu conta, já estava correndo feito louca atrás do garoto, que por ser mais alto e consequentemente ter pernas mais longas, estava bem mais adiantado. Ultrapassaram os portões da escola, e só pararam de correr quando chegaram a um tipo de divisão entre as vias de mão dupla da avenida, e ali, como em toda a extensão da rua, havia árvores e grama aparada. Era tudo muito verde; Morgana só calculou sentar e descansar um pouco antes de tomar o rumo correto para casa. Sua mãe estaria lá lhe esperando para o almoço, e perguntaria como foi a manhã...
Então Ralph estava ao seu lado. Encostado preguiçosamente no tronco da árvore a sua direita, começou a falar sobre qualquer coisa. Morg mandou-o calar a boca.
– Mas é claro que não. – Retrucou o menino de volta.
– Se você não fechar isso agora...
– O que você irá fazer? Berrar?
– Estou avisando. Cale a boca.
– Venha calar.
– Me obrigue. – Uma risada verdadeiramente alta rompeu sua garganta, mas antes que ela pudesse parar para respirar novamente, Ralph agira rápida e estranhamente.
Com um só movimento, buscou as duas mãos dela e enquanto as juntava atrás das costas da mesma, subiu com uma graça felina em cima de suas pernas. Empoleirou-se ali, e com o sorriso mais assustador do mundo, começou a discorrer sobre assuntos estranhos; algo como teorias de conspiração e Illuminatis. Ele não apreciava esse tipo de assunto. Só estava fazendo aquilo para irritá-la.
Conseguiu. E como.
–X-
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