Com um só movimento, buscou as duas mãos dela e enquanto as juntava atrás das costas da mesma, subiu com uma graça felina em cima de suas pernas. Empoleirou-se ali, e com o sorriso mais assustador do mundo, começou a discorrer sobre assuntos estranhos; algo como teorias de conspiração e Illuminatis. Ele não apreciava esse tipo de assunto. Só estava fazendo aquilo para irritá-la.

Conseguiu. E como.

Quarta-feira

Era um ótimo dia para ser obrigada a calar a boca de alguém.

Não lutou para se soltar, ao contrário, tinha entrado num estado de letargia doentia. Ralph percebeu a mudança, e então parou o monólogo, prestando excessiva atenção ao rosto da menina.

De alguma forma, conseguiu fazer com que ela passasse à um estágio avançado da “loucura”, que poderia ser caracterizada em: (a) nervosismo e urgência alarmantes, (b) movimentos bruscos, por vezes perigosos, ou só... Bem, um pouco... Excitantes e (c) o que viria a seguir.

Se ela estivesse realmente dentro de si, em sua perfeita consciência, não teria buscado sua nuca com um puxão levemente desesperado e nem olhado para ele com olhos diferentes, talvez um pouco nublados.

O rapaz deixou-se levar pelos lábios suficientemente experientes da ruiva, que perdeu o oxigênio em segundos, logo puxando mais um pouco de ar para continuar o que estava fazendo. Ralph a encostou no tronco seco da árvore, e passou um braço pela nuca quente da menina, que abraçou-o num reflexo inconsciente.

Sinceramente, Morgana esperava um pouco mais de si mesma. Se entregar daquele jeito, naquele lugar, não parecia a Morgana se umas semanas atrás. Quem, em cargas d’água, seria facilmente irritada por um jovem e, ao invés de enxotá-lo, o beija?

Seus valores foram destruídos. Completamente.

Durante os minutos que sucederam o ato de completa loucura por parte de Morg, foram, no mínimo, vergonhosos.

Ralph encostara sua testa levemente suada na dela, encontrando o olhar indescritível da menina ofegante.

Morgana não podia respirar, e estava com a face completamente corada e assustada, enquanto Ralph se deitava na grama, os braços cobrindo os raios de Sol que passavam pelas aberturas entre as folhas. Sorria verdadeiramente, e não fazia ideia de que Morgana estava à ponto de esganá-lo, como se a culpa fosse dele.

Bem, era, indiretamente, segundo a ruiva chateada.

De súbito, levantou-se e buscou no chão a bolsa jogada tempos atrás. Sem olhar para trás, caminhou na direção oposta, e em segundos, começou a correr sem dar chance de Ralph pará-la. Duvidou que ele fosse segui-la, e felizmente estava certa. Precisava pensar, e só fazia isso bem quando estava sozinha.

Quando adentrou a casa, sentindo o alívio por não estar mais escaldando debaixo do Sol, não averiguou a presença da mãe, só subiu as escadas. Após trancar a porta do quarto, jogar a bolsa na escrivaninha e deitar no chão liso da varanda, sentiu de leve o toque dos lábios do menino nos seus. Suprimiu um grito mordendo o lábio, e a dor fez com que a sensação dormente do beijo cessasse. Uma gota minúscula de sangue escapou-lhe entre os dentes, e ela quase gritou de novo.

Mas não pela dor física. E sim pela ação que destruíra sua tentativa cega de não se apaixonar, de jeito nenhum, por ninguém.

Levantou-se lentamente, já que com o Sol, sua cabeça esquentou além do normal, e tudo que ela queria agora era apenas tomar um banho, e não cair de cara no chão por que estava enxergando circunferências roxas na frente dos olhos.

O banho foi breve por que a fome falou mais alto. Alto mesmo, o estômago se contorceu e ela entendeu o recado, se adiantando pelo boxe a procura da toalha.

Quando desceu as escadas, encontrou Minerva sentada no sofá de dois lugares da sala, assistindo à um programa que Morg não conhecia. Murmurou um “oi” e se dirigiu para a cozinha, sentindo o cheiro da comida recém preparada. Minerva virou o pescoço em direção a cozinha, e perguntou, vendo a menina contrair os músculos pela tensão: — O que foi que aconteceu com você?

Antes que pudesse se livrar da pergunta, a sensação se estar naquele lugar a assolou de uma maneira tão grande, que perdeu o equilíbrio. Recobrou a consciência, e fez outra pergunta, desviando da anterior: — Eu pareço estranha? E acrescentou: — Acho que não. Desculpe, mas preciso comer agora.

A menina virou-se de costas, e a mãe continuou fitando-a, com um sorriso travesso nos lábios. Sabia, sentia, que havia acontecido algo, e só perguntou para comprovar. Toda essa evasão não é por nada, ela estava escondendo algo.

–x-

Brandon foi chamado às pressas por alguém com a cabeça laranja no seu portão. A menina batia tão forte que era capaz de deixá-lo em pedacinhos, e o faria, senão tivesse sido atendida naquele segundo.

– Morg! Que prazer a sua pr... – A menina o calou com a voz alta.

– Não tenho tempo pra isso, Bran. Vem cá. – Arrastou o menino pelo hall de entrada, pela sala, e depois descendo uma escada velha para o porão da casa. O ambiente, apesar de inutilizado frequentemente, era claro e limpo (bem diferente do que se vê em filmes, por exemplo), e tinha lugares para sentar.

– Se você me arrastou até aqui, onde há o isolamento acústico, é por que a situação é séria.

Morgana não queria olhar nos olhos dele. Depois de todo aquele show, dizendo e provando todos os dias que ela era alguém forte e imune às emoções humanas, não podia dizer que cedera às luxúrias da carne.

– Eu... – Ela limpou a garganta, olhando para o teto amarelado – Eu beijei o Ralph. Q-quer dizer, ele me beijou. Não, a gente...

– Espera um pouco aí! Você não está brincando comigo, está? Mentira! – Ele gargalhou. Tinha todos e mais alguns direitos de rir dela, ela, que foi rude e sisuda enquanto eles conversavam... – Eu não posso crer. Isso é pra ser cômico, não é?

– Não torne tudo mais difícil. – Ela suspirou, comprimindo a raiva.

– Tá, mas o que aconteceu com a Morg de antigamente? Ela foi engolida por uma que ataca lindos jovens indefesos quase em frente ao colégio? — E depois de um tempo, ela respondeu:

– Só haja como se eu tivesse tirado notas boas em História. — Ele percebeu que ela ainda estava inquieta, e disse:

– Você tem algo mais a dizer. – Aquilo não era uma pergunta. Ainda completou: — Eu agiria do mesmo jeito; você é péssima em História.

– Ele encostou aqueles... Aquelas... Aquilo, os lábios dele na minha boca e... – Ela voltou a fitar o teto. Balançava os pés freneticamente. – E-eu gostei da sensação, eu acho. — Ouviu em algum lugar que se olhasse para cima, evitava a queda das lágrimas. Mas o nó em sua garganta só piorou.

Ele gritou de felicidade. E podia continuar gritando, gargalhando e dizendo "eu sabia!" já que só seria ouvido por ela, mas algo – um gemido agoniado – o fez parar.

– Morg? – Ele franziu o cenho.

Ela resmungou algo antes de passar a mão na bochecha, secando uma lágrima que caiu pelo desgosto. A sua cabeça estava confusa naquele momento. Passou boa parte de sua adolescência acreditando em algo, e de repente, aquele menino aparece, espalhando e realinhando as cartas do jogo.

Bran sentou ao seu lado, e puxou os braços da menina para que se apoiasse nele. Ela grudou o nariz e a boca em seu pescoço, enquanto ele ouvia suas reclamações em voz baixa. A última súplica antes dela cair no sono foi: — Ele pode sentir que dói?

–X-