Notas iniciais
de ser igual.

Segunda-feira

Depois da pequena “borboletação” em seu estômago, ela pôs-se a refletir: “será que meu estômago está de mal comigo e... Não. Eu odeio cirurgias, eu vou ter que trocar de estômago!”

É de se esperar que quando uma garota está assistindo T.V. e de repente começa a choramingar, a mãe dela provavelmente desceria as escadas perguntando “O que foi agora?” Aí ela vai sussurrar umas quinhentas vezes: “eu não quero fazer cirurgias de transplante de estômago” e a mãe vai bater na testa dela três vezes perguntando se não é melhor fazer transplante de cérebro. Apesar de não ter indícios de uma cirurgia bem sucedida, nesse ponto.

– Mãe, para. Eu não preciso fazer mais uma cirurgia. Eu já pesquisei na internet, uma cirurgia de estômago é muito cara.

– Morgana, pelo amor de Deus, cale a boca. Por que cargas d’água você botou na cabeça que tem que fazer transplante de estômago? – Ela perguntou, pensando se aquilo realmente era uma pergunta séria.

– Porque ele tá louco. Fica como se eu não tivesse comido, ou qualquer coisa assim. – Agora ela estava bem séria, como se aquele fosse um assunto digno de se discutir em uma sala de reuniões.

– Espera, deixe eu ver de entendi. É uma sensação... De como, bem... Borboletas? – Ah, as borboletas. Tão famosas, fazem sucesso com as menininhas desde bebê, são relacionadas à primavera, flores e alegria... E à um possível transplante de estômago, nesse caso.

– É o que?

– Morg, você sabe. Todo mundo sabe, apesar de que em mim, se pareceu mais como uma dor de barriga mesmo. – Morgana fez cara feia. Onde Minerva queria chegar com aquilo?

– Aaaah, não, não e não. Sério? Eu e... – Estremeceu com o pensamento. – Mãe, pelo amor dos novos e antigos deuses. Aquilo era só fome. E eu já marquei uma consulta para a quarta-feira, porque quero saber meu diagnóstico. – Minerva riu. Riu mesmo, gargalhou. E Morg só ficou olhando, como se dissesse: “ué, não posso mais marcar uma consulta inocente para quarta-feira?”

– Mãe, não. Tá? Beleza? – Subiu as escadas rapidamente, a fim de contemplar a vista da cidade pela sua varanda.

Transplante de estômago? Só a Morgana mesmo. Isso tudo era para provar que borboletas no estômago não existem, então, era claro que ela não estava apaixonada. Fim.

–X-

Segunda-feira

Mais tarde, Morgana saiu do quarto. Estava com preguiça de tudo e de todos, porém, quando chegou a sala (após passar trinta minutos descendo as escadas) encontrou a mãe sentada na poltrona cheia de bolinhas pretas.

Minerva a fitou demoradamente, e anuiu:

– Você está parecendo uma múmia.

A menina sorriu amarelo, e se pôs à frente da mãe. Então, depois de alguns segundos de reflexão, perguntou:

– Mãe, eu estou...? – O incômodo era que ela queria falar. Queria muito. Só que as palavras simplesmente não saiam, e ela só conseguia sentir aquele nó na garganta.

Aquele que você prende ao máximo, para não mostrar sua fraqueza.

– Eu poderia passar a noite falando sobre isso, sua boba. Mas é você quem tem que dizer para si mesma. Você. Eu poderia muito bem falar aqui, que você não está, por que isso é geneticamente impossível. O que seria uma grande baboseira de se dizer, então a minha palavra não vale. Mas, uh, me diga como você quer que eu te ajude.

Morgana imaginou que sua mãe estava super confortável em sua poltrona, lendo a mais nova edição da Vogue e bebendo um café fresco; então ela estaria incomodando. Então, como desculpa, pensou que ela estaria descansando e não ouviria nenhuma besteira que ela dissesse.

O problema é que, quanto mais Minerva se mostra companheira e tenta conversa, mais Morg foge. Não se sabe o porquê, mas ela acha que mãe e filha não podem ser amigas. O que é totalmente errado.

– Eu estou me sentindo tão confusa... Eu... – Então, depois de muito tempo em pé, despencou no lugar mais próximo, e aí começou a grunhir.

Reclamou da vida, do ar, da terra, das pessoas, do pensamento, do coração, e de Ralph. Reclamou demais desse. E quando essa sessão “eu-odeio-tudo-e-todos” terminou, ela pôs se a chorar como um bebê. Um bebê que tinha acabado de ser abandonado pela mãe cruel numa lata de lixo qualquer.

O que era certo é que ela sempre fugia de suposições, do tipo: “ah, eu acho que ele está afim de você”

Aí você vai lá, se ridiculariza e quebra a cara.

“Pode ser que ele venha falar com você”

Você espera feito idiota, e quando vai atrás, o cara acha que você é um chiclete, ou algo assim.

“Ele quase disse isso, você ouviu?”

Quando na verdade, o cara disse algo como um “oi”, e o seu amigo-força-a-barra entendeu como um “eu te amo, quer namorar comigo?”

Isso era tão chato. E acontecia com todo mundo, o que era mais louco. “Por que ninguém pensa como eu? Essas pessoas estúpidas.”

Segundo ela, o amor não leva à nada. Relacionamentos com colegas de escola muito menos. “Espera aí, e POR QUE eu estou pensando em RELACIONAMENTOS COM COLEGAS DE ESCOLA?”

Calma Morgana, às vezes as pessoas não controlam a força do pensamento, podendo às vezes pensar naquilo que deseja. Mesmo que você não queira.

Notinha básica: não deixar isso passar daqui em hipótese alguma, certo?

Ela não entendia o porquê de tanto alvoroço por causa de uma criatura que tem tudo para ser odiada. E também não entendia por que estava se prestando àquele papel ridículo. De chorar feito louca, quer dizer. Por que tudo isso?

Ela o odiava, e pronto. Enxugou as lágrimas inconvenientes que ainda caiam sobre a face avermelhada.

– Mãe, me ajuda. – Ela pendeu a cabeça para trás, afundando-se ainda mais no sofá branco. Esperou-se alguns minutos, e ela perguntou:

– Mas o que você quer que eu faça, minha filha? Se eu digo que você não está apaixonada, você continua assim; e, meu Deus, imagina só se eu te digo que está? Eu teria que comprar móveis novos para a casa, porque você com certeza quebraria todos, só de raiva. E não diga que estou mentindo. – Então suspirou, e vendo a filha permanecer esperando a resposta, continuou: — O seu problema é o orgulho. O orgulho e o medo. É isso o que eu acho. Você tem medo de...

– Ser como as outras pessoas. É para isso que serviria a minha barreira! A minha barreira me ajudaria a não me meter nesse tipo de idiotice.

– Morg, pelo amor de Deus. Pare de besteira. – Minerva desprezou o olhar raivoso que recebeu em sua direção, e atirou a revista que antes lia, na menina, que reclamou.

– Ai. – Depois olhou para a revista caída aos seus pés.

– Será mesmo que eu vou precisar dizer aquele discurso chato?

Um monólogo sobre a liberdade adolescente que durou, mais ou menos, umas duas horas, colocou na cabeça de Morgana que ela tinha muito tempo para se divertir, que ela não tinha nada a perder, e que não devia se preocupar tanto com seu coração. Porque um dia ele se cura.

“MAS AÍ EU SERIA IGUAL A TODO MUNDO, CARALHO!”

–X-