I'm Not In Love
7 Insistência
Sábado
– Não Bran, não. – Reclamou Morg, pela milésima vez naquele dia. Bateu-lhe no ombro, e ele, para fugir de outros possíveis ataques, pulou na piscina rapidamente. – Ei, isso é golpe baixo! – Como estava ácida (pelo “encontro” da noite passada, claro), seguiu-o ferozmente na piscina, numa competição atrapalhada que durou, pelo menos, uns dez minutos.
Ela tinha acordado cedo, muito cedo. Em torno das 8hrs, o que não era usual para um sábado. Realmente não queria, mas uma área teimosa de seu cérebro (apelidada por ela de “área da vergonha profunda”) a fez despertar de uma noite sem sonhos com o menino mais irritantemente chato do mundo (em sua concepção): Ralph. Quem mais poderia ser? O garoto a encheu tanto o saco, que seu cérebro automaticamente lhe pôs a mostra a figura do mesmo, e não tinha culpa alguma nisso. Pelo contrário; ela queria jogar o cérebro fora, se o mesmo fazia papel de coração na cabeça.
Sentia dentro das entranhas o nojo de si mesma. Um grande exagero, já que levava aquele encontro tão a sério; não necessitava. Eles não eram amigos, muito menos um passo a frente disso. Eram coleguinhas... (?) que marcaram (na verdade, ele marcou e ela foi “obrigada” a aceitar) de sair para um passeio inocente, a fim de se conhecer. A reação de Brandon não podia ter sido outra, já que ele praticamente a empurrava, forçava e tentava a todo custo fazer com que a pobre e indefesa menina falasse ou até respirasse perto do outro. O que era, claro, uma coisa sem graça e totalmente fora do ponto de vista crítico de Morgana, que preferia fazer uma ronda longínqua, e não grudar no garoto como se fosse algum tipo de gosma venenosa.
Uma dica: quando for correr em direção ao amigo num lugar que esteja molhado, por favor, use chinelos antiderrapantes, sim? No contrário, a pessoa descuidada por acabar quebrando um dedo na queda.
– PUTA QUE PARIU! – Um singelo grito escapuliu horrorosamente de sua garganta, trazendo Minerva ao local as pressas.
– Menina, que palavreado mais indecente. – Ah claro, de primeira ela foi censurada pela “boca suja” e só então a mãe percebeu o nível de gravidade da situação. Foi preciso algumas horas no Pronto Socorro local para que a situação fosse amenizada. A tarde de almoço e piscina foi anulada dos horários, fazendo a menina borbulhar de raiva. E de dor também, já que o dedo entortou-se de uma força brusca, que causou ânsias de vômito tanto nela, quanto quem via.
É claro que, no corredor branco e com cheiro de remédio, Bran tagarelava incansavelmente, fazendo-a se distrair e rir às vezes. Logo foi atendida, e quando voltavam para casa, os raios do Sol poente se esgueiravam por entre as árvores no caminho, indo embora. Quase não deu para aproveitar a tarde de descanso, e tinha acabado de se lembrar que não puseram um grão de arroz na boca, desde mais cedo. O que tornou a volta para casa um rodeio chato, com barulho de buzinas nervosas para todo lado.
Responda à seguinte pergunta: quem, em sã consciência, leva uma câmera fotográfica profissional para um Pronto Socorro?
Se você respondeu “Bran!”, acertou. Ele levou uma bolsa de tamanho médio, com coisas que ela jamais pudesse imaginar que cabiam ali. Surpreendeu-se quando, do nada, ele mergulhou o pulso esquerdo na bolsa e tirou de lá a sua “filha”. A filha foi concebida (retirada ansiosamente da loja) quando ela conseguiu juntar um bom dinheiro, com um esforço surpreendente. Essa era a sua única perspectiva de vida. E quando pronunciou essa frase em voz alta, sua mãe retorquiu: “Vai querer tirar fotos da praia, e morar na praia, por exemplo?”
O ramo da fotografia era meio difícil, como essas profissões menos valorizadas. Morgana falou isso quando tinha 12 anos, calma aí. Depois que terminasse o ensino médio, tentaria a faculdade de Medicina.
O fato é que NÃO SE LEVA CÂMERAS FOTOGRÁFICAS PARA UM PRONTO SOCORRO. A não ser que você seja uma equipe de reportagem, ou algo do tipo. Mas, aquilo animou-a um pouco, e ela deixou se levar pelo desejo.
– Mãe, vamos descer no Subway? – Minerva limitou-se a olhá-la pelo retrovisor do carro parado no sinal. O restaurante fast-food ficava a poucos metros dali, e à essa hora, as janelas de vidro que iam do teto ao chão davam um ótimo visual. Perfeito para umas belas fotos, então.
Com a câmera em mãos, tirou fotos de tanta coisa que foi difícil contabilizar mais tarde, quando chegaram à casa de Morg novamente. Bran ia se preparando para ir embora, porém Morgana o prendeu por mais meia hora, fazendo nada. Ficaram conversando entre frases paradas ao meio, Morg com preguiça de continuar o assunto que em sua mente jazia morto. O suposto amolecimento dela perante a aparência e personalidade sutis do garoto, que parecia alheio aos problemas de sua sociedade atual. Essa é a opinião totalmente sem fundamento de Morg, que não media esforços para lhe atacar verbalmente. Vocês sabem o que é “íncubo”?
Enfornados em seu quarto, Morg e Bran cochilavam, sentindo o primeiro vento da noite adentrando o recinto, com suas grandes portas de vidro abertas para a cidade luminosa. Depois que despertaram do pequeno descanso, a mãe do garoto veio para buscá-lo, e ficou para uma conversa amigável com Minerva.
Enquanto Minerva e Samantha conversavam calmamente no hall de entrada da casa, o amigo importunava-a pela quinquagésima vez no dia, fazendo todo o sangue presente em seu corpo ser direcionado para a face. Com o rosto escarlate ela desceu as escadas, ainda ouvindo todo aquele blá blá blá de “como ela não agarra as chances que saltitam em sua frente” e tudo mais.
– Bran. Cala a boca. A gente se vê na segunda-feira, e nem vem com esse assunto, tá legal? Por que eu, definitivamente, não est...
– “Não está apaixonada por ele” é, eu sei, eu sei.
Odiava quando o deixava assim. Mas não podia evitar tal aborrecimento, das duas partes. Por que ninguém entendia que ela preferia remoer suas ideias sozinha, sem a opinião de alguém de fora (mesmo que esse alguém seja seu amigo de longa data) para interferi-la em suas decisões egoístas.
Depois que ele se foi, passou a refletir sobre alguns dos eventos passados, então concluiu que realmente, ela amava quando as gotas de chuva nas folhas da árvore centenária perto de sua varanda congelavam.
“Quem aí pensou que eu fosse buscar a ideia de que estou apaixonada pela pessoa mais imbecil que já conheci na vida? Afinal, as gotinhas ficam realmente lindas congeladas.”
–X-
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