Domingo

Ela passou o dia todo “morgando”. O sentido da palavra se ajustava perfeitamente ao seu estado atual e permanente também. Percebeu que o dia conspirava para que ela não fizesse nada além de buscar algumas porcarias para comer, enquanto colocava suas melhores músicas num som consideravelmente alto. A porta principal do quarto (a de madeira) foi trancada e a da varanda (de vidro, que dava uma vista sensacional da cidade) totalmente aberta, para que o vento entrasse e fizesse a festa.

O domingo era usado para “morgar”, por que era um dia em que ela não conseguia produzir nada. As fotos não saiam como planejadas, as pinturas, e até os textos que ela arriscava fazer no caderno de rabiscos, nas últimas hipóteses. Acontece que seu cérebro só funcionava realmente bem, na segunda-feira, e em outros dias úteis. Vai entender, não é?

Os quadros que ela fazia com todo o amor (e até o ódio ou raiva, às vezes), eram colocados em seu quarto, na sala, ou ela presenteava Bran, que ficava felicíssimo, ou super amargo; no dia em que ela lhe desenhou e pôs todas as suas falas exageradas e sem noção. É, às vezes as pessoas não aguentam a verdade...

Como se por telepatia, no momento em que ela relembrava a infantilidade de seu amigo, o mesmo lhe ligava no celular, fazendo-a despertar das lembranças recentes.

“ – Bran, eu tô morgando.” – Antes que o garoto pudesse sequer expor o motivo da ligação, ela já alertava. O outro deve ter parecido surpreso com o toque de arrogância na voz da amiga. Não fez por mal, mas é que ele sabia que no domingo ela virara um ser humano inútil que só fazia comer batatas fritas e tomar coca-cola como se de repente todas as latinhas fossem desaparecer.

“- Ah.” – Sabe quando alguém diz uma palavra que contém vários sentimentos inclusos, mesmo que ela seja monossílaba? Foi isso mesmo que aconteceu. Um pouquinho de tristeza, um pouco de decepção e até cinismo. Como se dissesse: “Ah claro, está morgando, porque é mais importante que saber dos problemas do amigo e tentar ajudá-lo”, ou quase isso. Ele sabia que não podia ir à sua casa no domingo (para obviamente irritá-la mais sobre assuntos indevidos), mas ele parecia ter acordado com aquela injeção de baixa estima, a que a deixava triste imediatamente. Pelo amigo, quer dizer.

“ – O que foi, Bran? Dou uma pausa aqui, em meu trabalho extremamente cansativo e explorador, para ti. Pode vir, pode abrir essa sua boquinha e me contar o que está acontecendo.” – O fato de que ela prefere ouvir histórias, que contar as próprias era claro como água. Então, não teria problema nenhum em ouvir o amigo lamentando de qualquer coisa. Afinal, é para isso que servem os amigos, também.

–X-

Segunda-feira

– Ah, agora entendi. O intervalo aqui é bem esquisito. 7º ano, 9º ano e 2ª série do médio, por isso que você nunca o viu, e se viu, estava muito ocupada em saber a que velocidade a folha cai do galho, se está cheia de água. – Era tão fácil zombar da cara de Morg, que se poderia fazer isso até andando em direção à sala de aula, enquanto afaga levemente os cabelos dela, que se vê total e completamente absorta aos seus comentários maldosos. Ela realmente prestava atenção em detalhes como esse, oras.

O caminho até a sala foi curto, mas para Morgana parecia a distância de sua casa até a do Orlando Bloom. Se é que ela sabe onde ele mora. Com o carinho constante de Bran em seus pequenos fios rubros, quase dormiu andando. E claro, se manteve alheia a qualquer comentário sobre a criatura do cinema. Não, não a atendente tarada; Ralph, mesmo.

– Hm. – “Respondeu” milhares de anos depois, ao comentário indesejado de Bran, assim de repente. Ainda com os olhos fechados pelo sono e pelas mãos em seu cabelo, recostou-se ao peito do garoto, que continuava a digitar algo, olhando fixamente a tela brilhante do celular.

– Você se assemelha a um gato. – Não pôde deixar de esboçar um leve sorriso com o comentário, apesar de já estar sorrindo de satisfação com o afago em si. Com o passo um pouco mais lento, o garoto parou vagarosamente de mexer-lhe os fios, chamando sua atenção para a Terra novamente. Pareceu até um pouco tenso. Não sabia o porquê, mas... A voz lhe pareceu tão mais grave que a de seu amigo.

Por que definitivamente não era ele quem comentava.

– Acho que só presenciei um humano ronronando uma vez, e foi enquanto eu assistia à um filme. – Morg virou bruscamente, quase derrubando no chão o celular de Bran, para olhar o autor dos comentários sobre sua possível mutação com um gato.

No fim, era melhor ter continuado a andar em frente mesmo; Ralph sorria quase abertamente, fazendo com que os brilhantes olhos cor de mel fossem espremidos contra as maçãs do rosto. Uma sensação tão sem graça a invadiu, que achou de fosse desmaiar.

Lembrando que aqui só são comentadas as sensações de Morgana, de seu ponto de vista. Ou não.

Não se deu ao trabalho de cumprimentá-lo, nem quando ele praticamente sentou na mesma cadeira que ela, sem querer. Realmente, foi sem querer. Ele falava brevemente com um colega de sua sala, enquanto andava de costas para a cadeira mais próxima; que foi justamente a que ela escolheu. Era perto da janela e ela sempre, sempre, sempre senta perto da janela. Segunda coluna, na segunda fila, lado paralelo à porta de entrada. Todo mundo da face da Terra sabia disso. Menos Ralph.

Espera. Morgana, 2ª série médio. Ralph, 3ª série médio. O que diabos aquele... Diabo estava fazendo ali, calculando sentar-se em sua cadeira?

– Bom dia alunos. Sentem-se! Hm... Morgane, Ralph, algum problema? – “MORGANAAAAA, PROFESSORA, COM AAAA” Gritou em pensamento. Não adiantava o quanto ela repetisse, a professora Susanne sempre a chamaria assim. Arrumando seus materiais em cima da mesa disposta à frente dos alunos, ela começou a explicar o porquê dos alunos dessas duas séries se juntaram em uma única sala. O lugar era bastante grande, mas Morg sentiu que fosse morrer. Já não bastava estudar na mesma escola, tinha mesmo que ficar na mesma sala de aula que aquilo? Mordiscou o gesso enrolado no seu indicador esquerdo, em fúria reprimida.

“Isso é muito pra mim. Acho que desistirei da vida.” Como o drama básico não podia faltar, ela se permitiu pensar em várias formas de suicídio, enquanto a Srtª Smith explicava o atraso das aulas por causa dos Jogos Internos. Depois, ela fez piada de algo, e começou a escrever no quadro branco, crente que todos estavam escrevendo e prestando atenção ao que ela falava.

Realmente, ela não prestava atenção em nada. Os olhos focavam no quadro, mas era como se ela fosse cega. Você já sonhou que estava num lugar ótimo, cheio de café e cachoeiras de chocolate para todo lado, mas aí você é acordada ridiculamente por seu despertador?

E se, num universo paralelo, esse despertador fosse um lápis?

Aí é a hora que você acorda e olha para trás, e só enxerga um ser humano patético prendendo o riso, tentando não chamar atenção.

– Nós vamos estudar juntos por, pelo menos, duas semanas.

– Isso eu percebi. Mas você vai ficar me cutucando com esse lápis o tempo inteiro? – Perguntou o mais baixo que pôde, mas, mesmo assim a professora lhe chamou atenção. Alguns curiosos, tanto da sala da 2ª, quanto do 3ª série olharam para perto da janela, afim de ver que fofocas eles poderiam falar na hora do intervalo.

– Bem, tecnicamente.

– Tecnicamente?

– É. Por que isso aqui, tecnicamente, é uma caneta. Pelo menos até onde sei.

Aí você realmente não liga se a professora vai falar, se os alunos vão comentar; você só quer bater na pessoa, e acabou.

–X-

Segunda-feira

Em meio a uma multidão de brutamontes e gazelas saltitantes (em direção à cantina, claro), três pessoas tentavam a todo custo chegar a uma mesa fazia. E quem abria caminho? Ralph, com toda a sua beleza e simpatia, claro.

Que nada, era Morgana mesmo, com chutes e socos (e gritos, muitos gritos) nas pessoas inocentes de faces confusas, sem se importar em estar magoando o próprio dedo com essas ações. Ela estava irritada porque eles — Brandon, Morg e Ralph — passaram as primeiras aulas conversando. Entre si. Os três. E Morg queria correr, fugir, e, se lembra daquele plano que você fez quando tinha 12 anos, visando seu suicídio? Ele veio à tona novamente, enquanto Brandon e Ralph dialogavam alegremente. E o esquema-do-carrinho-de-limpeza-do-faxineiro também não fora desprezado! Era um ótimo plano, afinal.

– Não foi, Morg? – Alguém interrompeu seus pensamentos, forçando-a a balançar a cabeça e perguntar preguiçosamente:

– O que? – Essa pergunta soou tão idiota, que ela preferiu bater na própria testa e anuir novamente: — Ah, esquece. – Então caminhou vagarosamente até a mesa escolhida, sentando no primeiro banquinho que viu.

Brandon nunca forçava a barra. Ele sempre era compreensível, e tal. Mas por que ele estava fazendo isso agora? Isso era, praticamente, como se ele estivesse dizendo, ou até, berrando: Eu quero que você arranque cada dedo meu, depois corte meu pescoço em pequenos pedaços até eu não aguentar mais e morrer! – E além disso, ele estaria rindo.

Brandon, de repente, saiu da mesa (com a desculpa esfarrapada de que precisa falar com o diretor – como se a mãe dele não existisse para isso) e deixou, sozinha e desolada, Morg. Com Ralph. Que não parava de ser atrativo o suficiente para que ela parasse de fitá-lo a cada 5 minutos.

"O fato é que, quando você se estressa com uma mosquinha passeando ao seu redor, e aí você quase afunda os dedos nas têmporas afim de descansar, não quer dizer, tecnicamente que você precise que alguém faça isso por você. Massagear as têmporas, quero dizer.

Aí, quando você se dá conta de que a escola inteira está vendo você sendo manipulada por um maníaco que sabe fazer massagem em suas têmporas, é capaz de dar um salto de um quilômetro de altura do banquinho em que você se encontra confortavelmente sentada, porque isso é vergonhoso. E quando você grunhe ridiculamente, um: “a escola inteira está vendo!” — o que é mentira, porque o intervalo é separado, como já se viu -, a pessoa a sua frente diz:

– Mas é claro, porque a única deficiente visual que eu conheço faltou hoje. – E a pessoa simplesmente acha isso engraçadíssimo."

Uma notinha, só pra variar: Morg odiava, com todas as suas forças, essas respostas indesejadas na ponta da língua, que ele tinha.

Uma outra notinha: porque, é claro, Ralph tem que ficar calado e recolher sua insignificância quando ela fala um “piu”.

Depois do seu pequeno ataque de nervos (o que levou para a estratosfera a pequena massagem que Ralph fez), o menino disse:

– Seu amigo é legal. – Ah claro, porque eles tiveram muito tempo de se conhecer, já que passaram todas as aulas antes do intervalo conversando, como se suas vidas dependessem daquele papo idi... Morgana, isso é ciúmes? Hm, bom saber.

– É claro que sim. Por isso ele conseguiu ser meu amigo. — A piadinha sem graça com um toque de amargura rendeu em uma risada que sumiu em segundos. Na verdade, aquilo não podia ter sido chamado de risada.

Morgana saiu da mesa (finalmente tinha achado uma desculpa viável – e não se sabe o porquê da preocupação) em direção a cantina, para comprar um refrigerante. Voltou alguns minutos depois, e assim que sentou no banquinho novamente, Bran “retornou” da sala do diretor. Aí vocês perguntam: “tá mas, e o porquê das aspas?” Não é óbvio? O negócio de forçar a barra, e tal. Bran, simplesmente, queria que Morgana e Ralph ficassem sozinhos — na companhia das outras pessoas (?) -, mas não deu certo. Não mesmo.

Aí você compra uma latinha de Coca-cola e quem bebe tudo é a pessoa inconveniente a sua frente. O seu amigo, o fiel de todas as horas, só ri, e nem te ajuda. Você faz tipo, uma expressão super ameaçadora, mas aí a tal criatura sorri cinicamente e pergunta:– O que foi?

– Nada, só que a minha mãe me deu dinheiro para o lanche, daí eu comprei o lanche, tudo certo; mas aí um ser que, sinceramente, eu não convidei – nesse momento ela fuzilou seu amigo, Bran, com o olhar -, começa a extinguir o líquido mais precioso da face da Terra. Depois do café, claro, por que café...

Morgana parou de falar, simplesmente por que Brandon a olhava mais ou menos assim: “Menina, você tá louca ou é impressão minha?” e Ralph ria, quase engasgando-se com a Coca-cola que não era sua. Então, ela preferiu recolher o resto de dignidade que ainda sobrava, e marchou pesadamente até a sala de aula; com os dois novos “amiguinhos” tagarelando logo atrás.

“Bran olhou para mim como se eu não fosse desse jeito patético o tempo todo. Que merda foi que aquele ser colocou na cabeça do meu amiguinho?”

Quando adentrou a sala vazia, sentiu como se não tivesse colocado nada no estômago naquele dia. Mas ela tinha acabado de detonar dois sanduíches de atum e um mísero gole de Coca-cola.

“Meu estômago é maior do que eu pensava, então? Que sensação estranha.”

–X-