Ilusão
2 Pânico
"Eles não vêm"
As lágrimas corriam pelo rosto do rapaz que encarava as casas de banho naquele corredor, sem saber em qual entrar, sem saber onde pertencia."Porque eles haveriam de vir?"O desespero era nítido nos humidos olhos que já lhe enxarcavam as roupas. Mordia o lábio na ânsia de conter o choro desesperado. Ninguém viria em seu auxílio."És ridículo... Como te foste esquecer de algo tão simples?"A familiar voz na sua cabeça mexia na ferida.Na verdade, não havia nada com que se preocupar. Esqueceu-se de um material qualquer para uma aula qualquer que teria naquele dia. Mas aquela voz destrutiva fazia-o sentir-se o rapaz mais idiota do mundo."Tens plena noção que vais falhar... Devias ter vergonha de ser tão incompetente!"A sua mente ia ficando vazia e cheia a uma velocidade muito superior a qualquer batimento cardiaco. Os trabalhos por fazer que parciam intermináveis, o estudo em atrazo em que não via qualquer sentido, o quão improdutivo ele não consegue evitar ser... Tudo caia sobre ele com um peso que o deixava imóvel, cansado, sem refúgio.As pernas aos poucos deixavam de conseguir sustentar o corpo que começava a sentir espasmos involuntários. Escorregou pela parede até ao chão, quase perdendo o controlo do que o impedia de cair.Lembrou se dos amigos dentro da sala de aula da qual saiu sem dizer nada. Quanto tempo passou? Dez minutos talvez... Ninguém reparou na sua ausência.Eles sorriam, riam... E na cabeça dele, nem tinham reparado no quão de parte ele estava."Pensas-te mesmo que agora tinhas amigos?"O seu medo era insistente e doloroso, explosivo, insaciante... O choro era abafado por um enorme esforço e a angústia exprimiasse pelas unhas que cravavam a própria pele entre espasmos incontroláveis e uma sensação de pânico. Cabeça encostada para trás na procura por estabelidade."Tu estás sozinho. Como sempre estiveste... E a culpa é tua."O rapaz encostava as costas à parede e fixava os pés forte no chão na tentativa desesperada de controlar os espasmos que o atiravam contra as paredes em sua volta. A sua angústia, impedida de sair por meio de gritos e lágrimas, incentivava as unhas a irem ainda mais fundo no seu antebraço esquerdo, que por esta altura já escorria sangue."Eu preciso deles..."Pensou em como queria que os amigos se lembrassem dele. Queria que eles aparecessem e o abraçacem apenas para dizer que está tudo bem. Mas esse querer durou apenas meros segundos. Logo depois, veio a realidade em que acreditava."Eu não os posso ter... "Um sentimento misto rominava o peito do rapaz. Queria te-los ali naquele momento tão assustador em que tudo lhe parecia culminar na morte... Mas aqueles momentos eram solitários. Ninguém podia, em situação alguma, saber que aquilo estava a acontecer. Eles não podiam, de maneira nenhuma, passar por ali.Quanto tempo passou desde que ele saiu da sala? Vinte minutos? Meia hora? Não tinha mais a noção do tempo."Eu não quero estar vivo..."O rapaz levantou se sem conseguir controlar os espasmos que o faziam cambalear enquanto andava. As unhas continuavam cravadas noutra zona do mesmo braço e tanto o seu pensamento como visão estavam em formato de funil.Encostou se a uma parede junto das escadas. Ar escaço. Espasmos imensos. Nenhum sinal de raciocínio lógico naquela mente perdida. Até que ouviu ao fundo passos ritmados na sua direção.O instinto de defesa fora ativado."Estás bem?"A voz familiar perguntou quando o viu, entrava se lhe pelos ouvidos e chegava ao cérebro com um tom de preocupação. Um deles saiu da sala à sua procura. Se sentiu a falta dele ou precisava dele para o trabalho... Isso nunca saberia."Sim. Porque não estaria?"As lágrimas secaram totalmente, como se nunca tivessem escorrido. Os espasmos pararam e permitiram o sorriso charmoso típico do indivíduo."De certeza? O que fazes aqui?"Os meses de convivência fez a pessoa, ou melhor, amiga que apareceu suspeitar de tal resposta. No entanto, não havia como lhe dizer a verdade."Trabalho."Apontou para o caderno que trazia onde tinha alguns apontamentos perdidos. Esperou não parecer arrogante ter saido para trabalhar sem eles."Ah, okay... Anda, nós vamos estudar lá para baixo".Ela chamou. O rapaz seguiu-a então sem qualquer vestígio visível do que acabara de acontecer.Mas a manga do seu hoodie ensopava uma mancha densa e avermelhada que terminava de escorrer das fendas que as unhas marcaram.Ele sabia que não tinha acabado. Sabia que era uma questão de tempo até ao próximo... E aquela mancha iria lembra-lo disso.
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