Ilusão

3 Desespero


"Sozinho, sozinho, sozinho! Completamente sozinho!"

Os amigos não estão com ele. Nem sequer por perto. E com certeza não sairão das suas casas para prestar auxílio a alguém tão inútil.

"Eu vou falhar tudo"

A energia não chega para tudo o que há para fazer. A mente está vazia de tão cheia. A frustração, cansaço e desapontamento beiram a loucura.

"Não há nada a fazer"

A esperança do rapaz desceu até só haver desespero. Não ouve uma voz na cabeça: ouve sons. Os sons da cidade, do campo, das vozes. As vozes não dizem nada, são sons sem sentido, tão invasivo como todos os outros.

"Quero acabar com esta angústia"

Um aperto no peito que era mais forte que qualquer vontade de chorar.

Não conseguia chorar. Não conseguia aliviar o peso que sentia. Mas a qualquer momento iria rebentar. A sensação de choro vinha com as simples coisas, mas as sádicas lágrimas não queriam sair, impedindo o breve mas esperado alívio.

"Eu não sei se quero acordar amanhã"

Ele repetia com ele próprio pensando nas coisas que faltavam fazer, no futuro sem brilho e na escuridão da falta de expectativa num futuro melhor.

"Eu defenitivamente não devia acordar amanhã..."

O já habitual pensamento suicida passou pela mente dele com a naturalidade de quem pensa em almoçar.

A imagem dos amigos voltou à sua mente.

Dizer que não tinha razões para estar vivo era um exagero... Mas a situação tornava a imagem dos amigos na sua cabeça cada vez mais escura, como se uma chama a consumisse. A chama que ele próprio criou com os seus disturbios.

"Toma os teus remédios. Vai falar com os teus amigos, não penses nos trabalhos. Tu sabes que precisas deles."

As letras compunham-se numa mensagem de um técnico que o acompanhava e recomendava nestas situações.

"Eu sei. Eu vou tomar."

A resposta era simples. Tão simples que não mostrava a exaustão e loucura que se expressava nos esbugalhados olhos que vigiavam atentamente o ambiente onde estava. Como se tudo fosse um potencial perigo e o fosse atacar.

"Fala com os teus amigos."

O tal médico insistiu, percentindo e com razão que ele não pretendia fazer essa parte da receita.

"Eu não posso"

Era nítido a falta de fé e esperança na mensagem de texto. Ele queria mais do que tudo pedir socorro, pedir que o tirassem dali. Mas a imagem deles tornava-se cada vez mais uma foto comida pelo fogo e não tinha a água para o apagar.

"Eles vão notar"

O médico foi breve, quase frio, apenas fez o seu trabalho. Não tinha de o consolar ou dizer que ia tudo correr bem, até porque podia correr tudo mal, por mais que fosse o certo a fazer.

"Eu sei"

O rapaz refletiu antes de escrever o resto da mensagem. Lembrou se do que aconteceu todas as outras vezes, de todos os que o deixaram e de todos os que o iam deixar. Mentalizou a imagem dos amigos de novo. Implorou que as chamas não consumissem mais nenhuma imagem como esta... Já tinham consumido demais.

"Infelizmente, eu sei."