Iluminados

4 Capítulo 4


No dia seguinte, depois de nossa chegada à vila, decidimos andar pela cidade e comprar mantimentos. Loren também queria conversar com os pais, que estavam hospedados na casa de um barão que morava ali. Na cidade, os rumores corriam. Já se falava da "fuga da princesa depois de uma tentativa de assassinato". Em alguns boatos, o rei me salvava bravamente, matando o culpado, com um só golpe da espada. Em outros, eu mesma matava o assassino, com uma única flecha, bem entre os olhos.

Depois de comprarmos alguns mantimentos, fomos à casa do barão Eldo, onde fomos recebidos pela esposa dele. Os pais de Loren estavam na sala tomando chá, junto com Eldo. Assim que me viram todos se levantaram.

— Vossa Alteza. — cumprimentou o pai de Loren, em uma reverência.

— Loren! Que bom que os encontrou! — disse a mãe de Loren, indo em direção ao filho e o abraçando.

Assim que Loren se livrou do abraço apertado da Sra. Renno, deu um aperto de mão em seu pai e disse:

— Pai, mãe. Quero falar para vocês o verdadeiro motivo de eu ter aceitado escoltar a princesa.

O lorde e sua esposa pareciam surpresos e confusos.

— Como assim o verdadeiro motivo? — começou Renno, tentando entender. — O principal e único motivo não era estar prestando um serviço importante ao rei?

— Sim. Esse é o principal. Mas não é a principal razão que me levou a aceitar o serviço. — respondeu Loren.

— E qual é, meu bem? — perguntou a Sra. Renno, com uma cara de preocupação.

— A principal razão… é que… bem… — Loren parecia nervoso. Não me lembro de tê-lo visto assim antes.

— Fale logo rapaz! Qual o motivo? — falou exasperado o lorde, quase que se irritando com o nervosismo do filho.

— Eu vou atrás Dela. Descobri para onde a levaram e onde Ela está. — respondeu o filho.

"Ela"? Quem seria "Ela"? Olhei para Natten, em busca de uma resposta, mas ele me olhou com a mesma pergunta estampada na cara. Por causa da cara que a mãe de Loren fez, percebi que era uma garota que estava sumida, e que, pelo visto, os pais de Loren preferiam que ela continuasse assim.

— Não é possível. Não, eu mesmo certifiquei-me de que ela não seria encontrada, nem por você, nem por ninguém! — disse Renno, claramente furioso agora.

— O quê? Como assim "certifiquei-me"? Quer dizer que… o senhor foi responsável por ela ter sumido? Quer dizer que por causa do senhor nunca mais pude vê-la? — falou Loren chocado e, ao mesmo tempo, também furioso.

— Querido, era para o seu próprio bem. E para o dela também! Quero dizer, ela era, ou melhor, é órfã, precisava de cuidados e aprender a controlar a magia que lhe foi dada. E você… tinha um destino a cumprir! Ela só seria um estorvo. — disse-lhe a mãe, cautelosa e nervosa.

— Um estorvo? Sem ela eu não era nada! E só tornei-me algo para encontrá-la algum dia. Eu sabia que se quisesse vê-la de novo, precisava fazer o que vocês mandassem, e obedecer quieto! — gritou Loren, agora com os olhos cheios de lágrimas. — Eu só fiz o que eu fiz, por ela. Eu só matei quem eu matei, por ela! Para que chegasse o dia em que eu a veria de novo. Enquanto eu fazia todos aqueles trabalhos sujos, eu estava procurando por ela, coletando informações. Agora, eu vou achá-la. E vocês não vão me impedir.

A esta altura, eu e Natten estávamos bastantes confusos e curiosos. Quem era essa garota? E o que lhe acontecera? Além dessas perguntas, outra ficara martelando na minha cabeça: o que Loren quis dizer com "matei quem eu matei"? Ele era… um assassino?

O lorde Renno e a Sra. Renno estavam quietos, olhando para o filho com uma cara que mostrava preocupação e surpresa. Loren estava com o rosto vermelho, e podia ver-se algumas lágrimas correndo. Ele então virou-se de costas para os pais e despediu-se:

— Estamos indo embora agora. Eu vou encontrá-la e quando o fizer, não irei perdê-la de novo. Adeus, lorde Renno, Sra. Renno.
Ele saiu então. Perplexos, eu e Natt despedimo-nos com a cabeça e saímos da casa de Eldo, atrás de Loren. Ele já estava apertando a barrigueira da sela do cavalo, pronto para partir. Natten caminhou até ele e perguntou, colocando a mão no ombro de Loren:

— Hey, o que foi aquilo?

— Aquilo o quê? — retrucou Loren com a voz cansada e levemente irritada.

— Aquela briga, discussão, o que queira chamar. Loren, não acha que deve algumas explicações para mim e para Kyla? — disse Natten, apontando para mim.

Loren olhou na minha direção, ficou me encarando por um tempo, como estivesse se decidindo se queria contar-nos o que ele estava escondendo ou se seria melhor deixar em segredo. Depois olhou para Natten de novo, e respondeu, com uma voz de resignação:

— Eu conto. Primeiro, vamos sair daqui. Quando pararmos para acampar, direi o que querem saber.

— Ótimo. Vamos então. Mesha! — Natten assobiou, e o pequeno cão, que estava cheirando um canteiro de flores próximo de onde os cavalos estavam, foi na direção do dono abanando o rabo.

Depois de prontos, montamos os cavalos e partimos. Não demorou muito e, assim que escureceu, arranjamos uma pequena clareira onde pudemos acampar. Em volta da fogueira, comendo o jantar (um pouco de carne seca com frutas e água), Natt e eu nos preparamos para ouvir Loren. Com a cabeça baixa, ele começou a contar sua história:

— A garota de quem eu estava falando vocês conhecem: Ceinwen. A garota que morou um tempo com a minha família.

Sim nós lembrávamos dela. Uma menina doce e encantadora; também tinha o dom para a mágica, assim como Natt. Sempre acompanhava Loren e seus pais nas visitas ao castelo. Depois de um tempo, ela parou de acompanhá-los, e eu nunca soube o porquê. Eu gostava dela, como uma irmã. Sempre brincávamos e falávamos sobre garotos e essas coisas sobre as quais garotas falam quando estão juntas. Natten continuou:

— Quando tínhamos nove anos de idade, dois representantes do clã iluminado apareceram em minha casa. Eu não entendi o motivo dele estarem ali, tudo o que eu consegui entender foi que eles queriam levar Ceinwen embora. E levaram. Quando os dois magos estavam partindo, levaram ela junto. Eu não queria que ela fosse, afinal, estava perdendo a minha melhor amiga. Meus pais não se opuseram à partida dela, pelo contrário, pareciam aliviados com isso. Depois que ela se foi, comecei meu treinamento para tornar-me o assassino particular de meu pai. Fui treinado na arte da esgrima e aprendi a usar as adagas; aprendi a me camuflar nas sombras e a não ser visto. Matava qualquer um que meu pai mandasse matar, sem questionar, na esperança que, se fizesse tudo o que era esperado e exigido de mim, encontraria Ceinwen novamente. Antes de assassinar as vítimas eu "pesquisava" sobre elas. Se conseguisse alguma informação que relaciona-se a vítima diretamente sobre o clã dos iluminados, fazia com que a pessoa falasse tudo que podia me dizer do clã antes de matá-la. Assim fui reunindo todas as informações necessárias sobre os magos iluminados e sobre Ceinwen. Alguns dos que matei sabiam quem ela era. Meus pais não sabiam dessa investigação paralela, e eu não queria que soubessem. Agora, já não importa eles saberem ou não. Eu a encontrei e vou atrás dela.

Loren parecia determinado. Acho que nunca vi ele assim… disposto ir até o fim do mundo para encontrar alguém. Nunca pensei também que ele fosse capaz de matar alguém só porque lhe foi ordenado. Olhei para Natt e vi que ele não pensava muito diferente de mim. Pude ver algo nos olhos de Natten algo que nunca pensei que ele sentiria por Loren: compaixão.

Enquanto eu e Natten pensávamos sobre o que ouvimos de Loren, Mesha começou a latir de repente. Nos viramos na direção do pequeno cachorro, mas tudo o que vimos foram árvores e nada atrás. Mesmo assim, nos levantamos quase que ao mesmo tempo e ficamos de guarda. Natten foi se aproximando devagar de Mesha:

— Hey, garoto! O que foi? O que você viu aí? — Natt assobiou e Mesha foi para atrás do dono, mas ainda olhava para as árvores e rosnava.

Mesmo não vendo, podia sentir que havia alguém ali. Não era um animal, tinha quase certeza. Natten já estava pronto para jogar uma bola de fogo ali e, quando jogou, o inimigo saiu do seu esconderijo. E nos atacou.