Illusion
9 Só precisamos esperar.
– Daniel?
Ele estava em algum lugar entre o sonho e a realidade e os sons pareciam distantes. A escuridão na qual seus pensamentos estavam mergulhados clareava gradativamente, conforme se tornava ciente dos raios solares que atravessavam a janela a sua esquerda e tocavam seu rosto.
– Daniel?
A voz estava bem ao seu lado. Podia ouvir claramente, agora que despertava. Mas o que estariam fazendo em seu quarto? E por que razãonão estava escuro como deveria estar? Alguém com certeza vai ter que se explicar, ele pensou, enquanto aspirava profundamente o ar da manhã antes de, finalmente, abrir os olhos. Assim que o fez, viu Kate.
– Bom dia, Daniel. — ela sorriu com ternura, ignorando a expressão confusa do professor. — Como você se sente?
Ele hesitou. Sua mente ainda trabalhava lentamente e demorou alguns segundos para relacionar aquele momento à noite anterior e concluir que o ambiente excessivamente branco e iluminado em que estava tinha um significado. Em seguida, foi capaz de nomear o desconforto que sentira desde que abrira os olhos: sua cabeça doía exageradamente.
– Bem. Eu acho...
Assim que ouviu a resposta, Kate deixou de sorrir, e o que antes era preocupação em seu olhar, transformou-se em repreensão. — Ótimo, Daniel! No que você estava pensando? Você tem ideia do que podia ter acontecido?
– Tenho, Kate. — Daniel suspirou. — Mas não aconteceu nada, então vamos pular a parte do drama.
Ela respirou fundo, pronta para retrucar, mas decidiu não o fazer. Apesar de tudo, Daniel estava certo. — Certo, vamos acabar logo com isso. Conte-me o que aconteceu.
Daniel contou. Descreveu tudo o que pôde se lembrar sobre a garota e sua história, e não deixou de fora do relato as impressões que teve em relação a tudo o que viu e ouviu.
– Então, de repente, nós temos um caso de tráfico de pessoas e assassinatos em nível internacional? Quais são as chances de isso tudo ser verdade?
– Existe uma chance...
– Quais são as chances de ela ser louca, Daniel? Você conversou com ela e entende do assunto.
Ele a olhou. Seu olhar a censurava, mas ignorou a indireta. — Talvez ela seja louca, mas a pergunta certa é: quais são as chances de ela convencer outras pessoas a fazerem parte da loucura dela? Isso é improvável... — o professor fez uma pausa para se concentrar nos próprios pensamentos antes de voltar a falar: — Ela não chorou.
– Como?
– Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela não chorou. E no momento seguinte, ao ouvir as sirenes que se aproximavam, as lágrimas sumiram como se nunca tivessem estado lá.
– E o que tem isso?
– Se você tivesse passado por tudo o que ela disse ter passado, se estivesse realmente se escondendo, se sua vida estivesse correndo perigo e você não tivesse nenhuma perspectiva para o futuro, como reagiria?
Kate encarou Daniel e franziu o cenho enquanto pensava. — Eu estaria em pânico, à beira de um colapso nervoso, com medo...
– Então você choraria. — ele disse, enfático. — Não conseguiria se controlar ou planejar suas ações.
– E ela não fez nada disso...
– Exatamente! O modo como ela lidou com a situação foi tão exageradamente calculado...
– Então você acha que ela está mentindo?
– Eu acho sim que alguma coisa está errada, mas ainda não posso saber exatamente o que é. São muitas coisas estranhas ao mesmo tempo... — Daniel desviou o olhar para a janela à sua esquerda que revelava, através das cortinas claras, a bela manhã de domingo lá fora. — Você teve mais alguma notícia da tal Rosie?
– Não... E não creio que ela possa ajudar em alguma coisa a essa altura da história, ela parecia mal conhecer Karin. – pausou. — Georgia. – mais uma pausa. — Tanto faz.
– Talvez ela não tenha mesmo importância. — Daniel fechou os olhos, aliviado ao sentir que a dor de cabeça diminuíra assim que o fez.
O quarto permaneceu em silêncio por um momento. Antagonicamente, suas mentes trabalhavam sem cessar. Daniel analisava as informações que possuía, procurava, em meio a todos os últimos acontecimentos, algo que pudesse elucidar qualquer aspecto que fosse de todo aquele caos. Mas eram tantos nomes, lugares e versões diferentes de uma mesma história que, exausto, não sabia no que se concentrar.
Já Kate pensava em algo diferente, mesmo que sobre o mesmo assunto. Naquela madrugada, depois de Daniel já ter sido encaminhado para o hospital, fora informar Lewicki sobre o ocorrido e, depois de garantir que o professor ficaria bem e que voltaria logo para casa, decidira procurar por Rosie: talvez a garota desaparecida houvesse reaparecido também para sua colega de quarto. Então foi até o dormitório onde, em vez de uma garota disposta a ajudar, o que encontrou foi uma porta trancada e um bilhete informando sobre uma viagem de última hora. É claro que existia a possibilidade de que nada precisasse ser explicado, mas sabia que Daniel não pensaria assim e não podia arriscar perdê-lo de vista outra vez. Então se calou. Deixaria que ele descansasse e lidaria com tudo sozinha, pelo menos até que ele ficasse bem ou acabasse descobrindo o que ela omitia, o que, conhecendo-o, uma hora ou outra aconteceria.
Ela só esperava que acontecesse depois que tudo acabasse.
– Ninguém mais viu a garota?– Daniel abria os olhos lentamente, o que revelava seu desconforto ao fazê-lo.
Kate se alarmou por um momento: como ele sabe?, pensou, antes de se dar conta de que a garota de quem ele falava não era a mesma na qual ela pensava. – Não. Eu fiquei com você e os agentes que foram atrás dela não encontraram nenhuma pista. Aparentemente ela tinha um bom plano de fuga.
O professor suspirou. — É disso que estou falando... Tudo isso parece ter saído de um roteiro bem planejado, não parecem coincidências. Nem de longe. — ele olhou a agente nos olhos. — Pode ter certeza: mais alguma coisa vai acontecer bem em breve. Não sei o que e não sei quem está à frente disso, mas vai acontecer. Só precisamos esperar.
Kate ignorou o olhar de Daniel e deu alguns passos até a janela, afastando as cortinas para poder olhar lá fora. O professor, incomodado com a claridade extra que invadiu o quarto, fechou os olhos novamente.
– Tenho certeza de que vai. — Ela disse, como se para si mesma, enquanto observava o pátio lá fora e, incerta, tentava se convencer de que agia certo ao se manter em silêncio.
Fale com o autor