Illusion
10 Preciso saber o que você sabe.
– Você sabe que seria imprudente não emitir um alerta de busca imediatamente, agente Moretti. Não me obrigue a afastá-la do caso.
Kate inspirou e expirou lentamente, tentando se manter calma. — Certo, cuidarei disso. — Desligou o celular de imediato e o deixou sobre sua mesa.
Mais cedo naquela manhã, após deixar Daniel, entrara em contato com os familiares e amigos mais próximos de Rosie a fim de coletar informações que pudessem confirmar ou não a veracidade de sua viagem de última hora. Ninguém sabia de nada e o que conseguiu como resultado de uma investigação frustrada foi a preocupação dos parentes da adolescente e a responsabilidade pela emissão de um alerta de busca. Apesar de saber que adiar a tarefa certamente traria consequências irreparáveis, Kate havia tentado ganhar ao menos algumas horas quando pensou em ligar para seu superior: suspeitava que, se tivesse um pouco mais de tempo, poderia resolver as coisas e acreditava saber quem estava por trás do que acontecia, ou, pelo menos, tinha alguns palpites. Porém, a decisão mais sensata havia prevalecido, e não havia sido a dela.
Então a ligação foi feita: algumas poucas palavras, um alerta à imprensa e, em breve, teria um Daniel descontente repreendendo-a além de, muito provavelmente, dificuldades na resolução do caso, a menos, é claro, que algo acontecesse a seu favor e, certamente, o tempo que já passava depressa não a beneficiava.
Levantou-se rapidamente, pegou seus pertences e saiu dali: havia o que ser feito se ela quisesse resolver tudo aquilo de uma vez.
O departamento ficava para trás enquanto ela dirigia o mais rápido que podia nas ruas pouco movimentadas: era domingo. Dividia sua atenção entre a estrada e o rádio que havia ligado para ouvir as notícias e torcia para que não fosse mencionado aquilo que poderia atrapalhá-la. Repassando, em sua mente, as informações que possuía, seguia para o hospital: era sua chance de conversar com alguém que realmente sabia de alguma coisa e ela, definitivamente, precisava de todas as informações que pudesse coletar.
Ao chegar, notou que o estacionamento estava mais cheio do que ela esperava: provavelmente os familiares reservavam os domingos para as visitas. Estacionou seu carro o mais próximo que pôde da porta de entrada e se apressou em entrar. No balcão, havia apenas uma recepcionista que falava ao telefone e nem notou que a agente acabara de entrar. Ela, então, não se preocupou com formalidades, seguiu diretamente para o quarto onde encontrara o suposto policial nas vezes anteriores e, uma vez que ninguém a impediu, não viu motivos para que se detivesse.
Abriu prontamente a porta branca que, estranhamente, se encontrava fechada e, para sua surpresa, o quarto se encontrava vazio. Kate deu alguns passos em direção à cama arrumada e parou enquanto olhava através da janela, como se ali pudesse encontrar alguma resposta para uma de suas várias perguntas. Observando o céu claro, tentava imaginar qual seria o próximo passo. Concentrada em seus pensamentos, se assustou quando sentiu alguém tocar seu ombro. Afastou-se rapidamente de quem quer que fosse, alarmada, e, ao olhar para trás, viu aquele por quem estivera procurando.
– Procurando por mim? — ele disse, com um sorriso no rosto, o mesmo sorriso de deboche que sempre estivera ali.
Kate procurou demostrar calma, precisava de tudo o que pudesse a seu favor, inclusive o domínio – mesmo que não total ou real – da situação. — Precisamos conversar. Andrew White, não é?
Ele se aproximou. Kate se manteve alerta ao ver que ele se aproximava demais, mas em vez de a ameaçar ou agir de modo intimidador, ele se sentou na cama, olhando-a. O sorriso ainda em seu rosto. — Então você a encontrou? Bom trabalho. Me superou.
– Acho que já podemos parar com esses joguinhos e acabar logo com isso, você não acha?
Ele continuou a olhá-la por mais alguns segundos, ponderando. É claro que não o agradava cooperar com o FBI, ele tinha, sim, coisas a perder. Mas o que restaria para ele se essa oportunidade se fosse e ele nunca mais conseguisse o que queria? A garota desapareceria assim que tivesse a chance, ele sabia. E assim que isso acontecesse – se acontecesse – talvez ele nunca mais a visse novamente. – Acho que você está certa. — foi o que ele respondeu, deixando Kate um tanto quanto surpresa.
– Podemos conversar? Você está de saída?
– Estou... Estava.
– Vamos conversar em algum outro lugar. Pelo nosso histórico de conversas, esse quarto não parece ajudar muito.
Ele concordou e Kate deixou o quarto atrás de si, sabendo que o homem a seguia por entre os corredores do hospital. Ela seguia em frente, seus sapatos produziam o único som ali o que a fazia pensar no quão desconfortável era estar em um hospital praticamente vazio. No caminho para o refeitório, onde imaginou que eles teriam privacidade para uma boa conversa e ela, ao mesmo tempo, estaria segura – não podia arriscar ir para algum lugar onde estivesse vulnerável -, viu a enfermeira negra que havia encontrado durante suas visitas anteriores ao hospital. Ela cumprimentou Kate de maneira quase indiferente. Talvez fosse apenas a maneira como ela e todos os funcionários agiam. Nada pessoal.
Já no refeitório, ela se sentou, estrategicamente, em uma mesa no centro do salão, próxima o suficiente da porta para que saísse se precisasse, mas distante de modo que ninguém os pudesse ouvir; longe de paredes e janelas, as quais podiam ser perigosas se ele quisesse machucá-la e fosse rápido o suficiente para tal. Andrew se sentou a sua frente, parecia tranquilo, disposto a cooperar, e Kate esperava que sua percepção estivesse correta.
– Preciso saber o que você sabe. — ela começou, olhando-o nos olhos, transmitindo-lhe confiança. — Como você já sabe, Georgia apareceu.
– Georgia... — ele repetiu, com um pequeno sorriso desanimado no rosto. — Então vocês já sabem a história toda?
Kate, ainda em silêncio, observou o homem a sua frente, intrigada com aquela versão de sorriso que ainda não havia visto. — Sabemos uma versão da história... Agora quero ouvir a sua.
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