Illusion

8 É um festival de nomes?


A brisa fria da noite atingia o rosto de Daniel e ele pensava se havia agido certo em sair de casa àquela hora da noite mesmo sabendo que seria melhor para ele se não o fizesse. Imaginava qual seria a reação de Kate quando soubesse que, mesmo após seus esforços para mantê-lo mentalmente são – dentro de seus limites – e fora de perigo, ele havia, teimosamente, saído de casa. Talvez, naquele exato momento, Lewicki estivesse telefonando para ela e, em breve, sabia, seria repreendido como merecia.

Mal havia chegado em casa, resolvera sair após ter recebido envelope com um cartão branco simples onde, em escrita similar àquela do primeiro bilhete que recebera horas mais cedo, estavam escritas as seguintes palavras:

Encontre-me no parque à meia noite.

Estarei esperando.

Venha sozinho.

O professor não poderia ter certeza acerca da autoria do bilhete, mas, baseando-se nos últimos acontecimentos, fazia sua suposição. O parque ficava a duas quadras dali, e ele estava a apenas alguns metros de distância do arco de metal que evidenciava uma de suas muitas entradas quando avistou, como um vulto negro sentado em um dos vários bancos de madeira, a pessoa que o esperava, tinha certeza.

Aproximou-se sem pressa, concentrando-se em cada passo que dava para que não pudesse dar atenção ao nervosismo e arrependimento que cresciam dentro dele. O movimento nas ruas era mínimo, e isso, somado à significativa escuridão em que se encontravam nem tanto as ruas quanto o parque, o tornava mais apreensivo. Daniel passou pelo arco prateado sem tirar os olhos da figura que ainda se encontrava sentada, alheia a sua presença, o que mudou assim que ele atraiu sua atenção pisando em folhas secas e anunciando sua presença.

A garota se levantou e, em seguida, virou-se em direção a Daniel. Seus olhos azuis-claros o encaravam; seu olhar era sereno e nada em sua expressão demonstrava nervosismo ou apreensão. O professor rapidamente a identificou como sendo Karin, Elizabeth, Emma, ou quem quer que ela fosse – assim como suspeitara anteriormente. Ele se aproximou sem pressa e sem tirar os olhos da garota. Sua mente trabalhava rapidamente em teorias que pudessem explicar o que estava realmente acontecendo, mas sabia que, antes de se convencer de qualquer uma delas, precisava ouvir o que a garota a sua frente tinha a dizer.

– Então você está viva. — ele comentou, colocando fim ao silêncio.

– Exatamente como você suspeitava? — ela sorriu e, ouvindo sua voz pela primeira vez, Daniel percebeu seu forte sotaque, que não conseguiu identificar. — Recebeu o envelope mais cedo com os recortes? Foram de alguma ajuda?

O professor franziu o cenho, procurando pela melhor resposta e, finalmente, disse: — Não posso dizer exatamente que ajudaram, mas...

– Tudo bem. Às vezes nem eu mesma entendo. — sorriu mais uma vez, compreensiva. — E presumo que tenha encontrado o bilhete junto aos recortes?

– Sim. “Preciso de ajuda.” Acho que foi bem direta, mas preciso que seja mais clara. Cada vez que penso que estou chegando perto de uma resolução, as coisas parecem ficar mais complicadas...

Os lábios da garota loira, unidos, formavam um sorriso discreto. Ela se sentou e olhou para Daniel: um convite para que ele a acompanhasse. — Certo. Explicarei tudo a você. — olhou ao redor rapidamente, como se certificando de que ninguém podia os ouvir. O professou sentou-se a seu lado, atento ao que ela dizia. — Nasci na Alemanha. Minha vida não foi tão ruim até eu ter idade suficiente para ter consciência acerca das coisas que me aconteciam: abusos físicos, péssimas condições de vida, higiene e moradia. Enfim, não vivíamos bem. Meus pais eram ambos drogados e costumavam roubar para bancar seus vícios, mas em certo ponto estes se tornaram insustentáveis. Eles tinham uma dívida muito grande com os traficantes e nem o dinheiro dos furtos cobria os gastos. Eu tinha quinze anos nessa época, e foi quando conheci Andrew White, esse cara com quem vocês têm estado falando. Ele fingiu ser meu amigo, disse que me ajudaria a ter uma vida melhor, mas na verdade estava junto com as pessoas ruins. Planejou com meus pais a minha venda, aparentemente o que eu valia cobria as dívidas. Então eu fugi. Andrew tem me perseguido desde então e matado qualquer pessoa que se coloque em seu caminho. Você precisa me ajudar. — as lágrimas que estavam por vir traziam brilho a seus olhos, mas ela as manteve cativas.

Daniel permaneceu em silêncio por alguns segundos, atordoado. As coisas pareciam mais claras para ele, mas, ao mesmo tempo, ainda sentia que havia algo errado. — Sinto muito por tudo o que teve que passar. Mas por que ele o persegue? Não seria mais fácil procurar outra garota? Não que eu concorde com isso, mas...

– Eu descobri o plano deles e tenho provas contra o Andrew. Ele quer se certificar de que está seguro.

– Por que você está atrás dela?

– Proteção.” – ele dissera.

Então ele quer proteger a si mesmo.., Daniel pensou. — Certo. Nós podemos ajudar você. Mas terá que vir comigo. Terá que nos ajudar,...

– Geórgia. Geórgia Schäfer. — estendeu a mão, que foi apertada pelo professor, e respirou fundo, inquieta.

Daniel a olhou, perplexo. É um festival de nomes?, pensou; mas preferiu não dizer nada, afinal, de que adiantaria? Ao menos as coisas estavam, finalmente, se resolvendo. — E então? O que me diz?

Ela olhava para baixo, indecisa.

– Nada vai acontecer a você.

Ela levantou a cabeça para olhá-lo, seus lábios formaram um pequeno sorriso e, no momento em que estava preparada para dizer alguma coisa, ouviu o som de sirenes ao longe e mudou de ideia. O brilho em seus olhos se foi e seu olhar percorreu o espaço ao redor. — Eu não posso arriscar. Desculpa.

Ela se levantou rapidamente e alarmou-se ao ver um carro se aproximar, avançando, tinha certeza, em direção ao parque. — Desculpa por isso.

Geórgia empurrou Daniel com força e este, despreparado, foi lançado com força em direção ao chão. Entretanto, como se parte de uma infeliz coincidência, o assento do banco de madeira estava em seu caminho e sua cabeça o atingiu com tamanha força que o mundo escureceu antes mesmo que o professor tivesse tempo de ver para que lado a garota correu.