I'll be Here

2 Ela nunca está


Eu realmente não sei o que será de mim a partir de agora.

Minha mãe não me disse nada sobre lá. Ela nunca fala comigo, é como se tivesse medo de mim.

" Eu estarei aqui " foi tudo oque ela disse. Mas agora eu vejo que é mentira. Ela nunca está.

Minha mãe deixou os papéis em cima da minha cama para atender o moço do carro vermelho. Suponho que seja ele quem me levará para o colégio.

Eu nunca estive em uma escola.

Minha mãe diz que isso é devido ao fato de eu ter apenas quatro anos.

" Crianças de onze anos não entram em escolas, mal alcançam suas cabeças"

E agora eu estou aqui, me preparando pra escola.

De qualquer forma eu estou animada com a ideia de conhecer outras crianças, meu pai não me deixa sair de casa e ter amigos.

Será que lá eu poderei participar de algum grupo? Tipo um "Clube de Leitores" ou grupo de fãs de algum artista ou filme... Eu espero que sim! Será que eu vou ser popular e andarei rodeada de amigos? E quando eu for adolescente, nos finais de semana, eu irei fugir de casa pela janela do meu quarto para ir em festas com bebidas e cigarros e depois fugir da polícia?

Mal percebo que estou sorrindo até ouvir minha mãe falar.

— Já está pronta, Emma? — ela diz parada na porta, oque me traz de volta a realidade. Seus cabelos ruivos despenteados contrastavam com sua pele pálida. Ela é tão linda.

— Ah, sim, eu só preciso achar a Rose.

— Seja rápida, o Paul não tem o dia inteiro.

Quando ela deixa o quarto eu procuro por minha boneca e a encontro entre os lençóis da minha cama.

Ando até a porta e me viro para trás.

— Adeus.

Não tenho certeza do que eu estou me despedindo.

A minha mãe disse que não era permitido que eu levasse nada pra lá. Nem roupas, nem Rose.

Rose, minha boneca de pano que eu ganhei ao fazer 2 anos. Minha avó me deu antes de desaparecer pra sempre. Pelo menos é oque minha mãe diz.

Ela é a minha única amiga e minha única companhia nas noites de tormenta, onde meus ouvidos apenas captam choros,lamentos,gritos e agressões. Eu a abraço e me acalmo. Sem dúvidas eu preciso dela comigo nessa jornada sem destino ou data de expedição. Minha fiel companheira. À abraço forte e saio do quarto.

Desço as escadas e vejo o mesmo moço que nesta manhã dublada da Dinamarca, pela janela do meu quarto eu o vi saindo de seu simples e belo carro vermelho.

Ele é alto e aparenta ter uns trinta e seis anos. Os fios dos seus cabelos ruivos ainda não perderam sua pigmentação. Ele não possui bigode, apenas uma barba rala. Imagino que isso o espeta.

— Paul — ele estica sua mão direita e eu vejo uma tatuagem de uma cruz em seu punho.

— Me chamo Emma. — aperto sua mão com dificuldade. A mão dele são três da minha.

— Eu sei quem você é. Já está pronta, Emma? — ele pergunta e eu assinto com um movimento. — E o seu pai ? — congelo.

— Ele precisou sair — minha mãe responde e eu à agradeço mentalmente por isso.

— Tchau, mãe — estico os braços à espera de um abraço que eu nunca recebo. Não sei por que ainda teimo em tentar.

— Tchau, Emma — minha mãe diz olhando para algo em cima de mim.

Abaixo os meus braços e volto a abraçar Rose.

— Bem, então vamos, Emma.

Segui Paul, e na hora em que a porta se abriu eu fui tomada por uma onda de frio.

Segui para fora de casa e pude ver o mesmo cenário de sempre. As casas com os telhados cobertos por um tapete de neve, da mesma forma que as árvores, pessoas andando com roupas pesadas, bicicletas encostadas em muros e o chão coberto por uma fina camada da neve que caiu noite passada. Eu odeio neve, é tão fria.

Procuro por Paul e o localizo abrindo a porta traseira do carro vermelho.

— Venha Emma, você precisa se aquecer.

Corro em sua direção e rapidamente entro no carro.

Aqui é obviamente mais quente.

— Confortável? — Paul pergunta depois de sentar no banco do motorista e pôr o cinto de segurança, que por sinal não é vermelho, oque me desapontou.

Assinto e ele sorri. Logo ele começa a dirigir e eu me sinto estranha.

Eu não quero mais.

Eu não quero isso.

Não quero ficar longe da minha mãe.

Minha visão é embaçada por minhas lágrimas.

Eu sinto fala da minha mãe.

Me movo para trás do banco do Paul para que ele não me veja chorando.

Me viro para trás rapidamente e vejo minha casa se afastando de mim. Involuntariamente eu estico os braços em uma tentativa falha de alcançar minha casa, mas minha mão apenas se choca com o vidro do carro.

Não dá.

Já é tarde demais.

Eu estou sozinha.

Sozinha com minhas lágrimas quentes, indo pra algum lugar distante da minha casa.

Mesmo com as noites e dias conturbados, é o meu lar, é tudo o que eu tenho. Ou, pelo menos, tudo o que eu tinha.

Fito mais uma vez a minha casa — a qual agora se encontrava mais distante -, esperando que minha mãe apareça, diga que me ama e que desistiu disso tudo. Desistiu de me mandar pra longe e me abandonar.

Mas isso não acontece.

Ela não está aqui.

Ela nunca está.