Notas iniciais
Vicissitude: Pode significar uma eventualidade, acaso, problema, contingência; transformação, alteração, mudança, escolha; alternativa, opção, entre outros.

Dois Anos Depois...

Eu sinceramente esperava que meu rosto expressasse minha revolta a respeito das atitudes de Sherlock esperando deixa-lo frustrado. Mais uma vez, em tanto tempo, voltei a me deparar com a aparente falta de interesse que ele tinha para com as vítimas dos casos e esse não era diferente.

— Imagino que você esteja cogitando em me ajudar, certo? — Balancei a cabeça fincando meus pés no chão perto de minha cadeira esperando que ele entendesse que havia passado dos limites comigo mais uma vez. — Ah John, pelo amor!

— Pelo amor? Pelo amor de quê, Sherlock? Como pôde dizer aquilo para a mãe da menina? A filha dela foi sequestrada e esperava que você lhe desse alguma esperança... Uma misera informação sobre o paradeiro da menina e você me vem com essa?

Vi ele dar de ombros.

— Mas eu falei a verdade.

— Verdade?

— A filha dela pode realmente estar morta.

Minha voz subiu uma quarta.

— Mas você é mesmo um... Olhe, se Mary estivesse aqui...

— Mas eu estou aqui, tio John.

Ah, "o bom filho a casa torna". De fato, nos dois anos que se passaram Mary Russell crescerá maravilhosamente. Dois meses antes de seu aniversário de quinze anos, ela conseguiu aquilo que tanto queria: a bolsa de estudos na Universidade de Oxford.

Fiquei extremamente surpreso ao ver Sherlock bater o pé insistentemente para que ela não fosse, o vi citar uma lista de coisas para que ela simplesmente desistisse como o fato de Moriarty estar de olho nela, ou dizendo que ela era nova demais para aquela “baboseira” e então, testemunhei, embasbacado, Mycroft incentivar ela e confortar o irmão mais novo dizendo que a manteria segura.

E ele cumpriu essa parte no acordo. O que eram dois anos? Raramente notamos as mudanças que a idade provoca nas pessoas com quem convivemos muito menos em nós mesmos. Eu não saberia dizer se eu havia mudado aos olhos dela, ou Sherlock, mas ela com certeza mudou aos meus.

Estava mais alta, os cabelos estavam bem mais longos, batendo no meio de suas costelas, parecia mais magra — um fator que me preocupou um pouco. —, mas ainda assim, estava radiante. Um sorriso enorme brincava em seu rosto adornado pelos óculos que agora estava sempre presente. Ela largou as malas na porta e correu para me abraçar.

— Tio John, senti tanto sua falta!

Retribui seu abraço caloroso lançando um sorriso a Sherlock, porém ele me lançou um olhar carrancudo. Eu a soltei.

— Mas é claro, Sherlock também sentiu sua falta, não é mesmo?

Ela riu.

— Como poderia? Nos falamos praticamente o tempo todo.

Balancei a cabeça para a nova informação. Olhei meu amigo, mas eu já parecia uma carta fora do baralho. Sherlock se levantou parando em frente ela, eles fitaram-se, cúmplices, como se compartilhassem um segredo somente deles telepaticamente.

— Russell.

— Holmes.

Finalmente, Sherlock abriu um sorriso de doer o rosto e estendeu a mão para ela para um desejo de boas vindas que ela prontamente aceitou.

— Recebeu minha última mensagem, Rus? Você não respondeu.

Ela sorriu.

— Desculpe Holmes. O avião não tinha Wifi e quando vi sua mensagem já estava a caminho do aeroporto, mas eu vi e há um pequeno detalhe que não fez muito sentido para mim sobre seu último grande caso, importa-se de explicar?

Devo comentar que eles ainda não haviam soltado as mãos?

— Nem um pouco, Rus. Qual a dúvida?

"Rus?"

Os dois me olharam de supetão. Claramente meus pensamentos estavam tão ligados na cena sempre tão surreal dos dois juntos que deixei que o último saísse pelos meus lábios. Eles soltaram as mãos e ouvi Sherlock limpar a garganta com um ruído alto.

— Sim, John. Russell lembra-se? Minha protegida que chegou aqui há dois anos e está sob minha tutela desde então; a mesma que passou nos exames de Oxford e foi para lá pra cursar Teologia, um curso que eu acho extremamente desnecessário, mas que é, aparentemente, importante para ela, então não comento a respeito. Aquela que vem nos visitar em todos os feriados que são considerados importantes para a sociedade atual, como por exemplo, o natal que, por acaso, é daqui dois dias.

Eu assenti deixando claro que tinha ignorado absolutamente tudo o que ele havia acabado de dizer.

— Isso é algo novo?

Russell riu visivelmente desconfortável e mudou de assunto.

— Afinal que furdunço era esse que vocês estavam fazendo aqui?

Distração efetuada com sucesso. Minha mente se voltou para a discussão que fora interrompida por ela minutos antes. Contei o ocorrido para Russell utilizando a versão mais breve da história. Sherlock revirou os olhos e foi se sentar em sua poltrona novamente com um suspiro irritado.

—... E ele ainda tem a cara de pau de me pedir para ajuda-lo depois disso.

Terminei meu desabafo pronto para ver Mary concordar comigo e dar uma "bronca" no detetive, mas a bronca não veio, ela apenas suspirou.

— E, a mãe dessa garota podia ir dormir sem essa. Muito bem. — Ela tirou o casaco e o jogou no encosto da cadeira dos "clientes" ao sentar-se e começar a folhear os jornais. Minha boca se abriu. — O que estou procurando Sherlock?

A voz dela ficou séria. Ele não virou a cabeça para responder, apenas sacou seu celular e disse:

— Depósitos abandonados à venda.

— Classificados então.

Concluiu ela pulando as páginas até os anúncios.

— Yep.

Concordou ele estalando o "p" com os lábios. Fiquei indignado.

— Vai ajudar ele?

Ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas, seu olhar não oferecia dúvidas.

— Sim, e você também deveria ajudar. Você não está punindo Sherlock ao negar ajuda a ele, John; você está punindo a mãe da menina. Então, se quiser castiga-lo, antes tenha certeza de que ele será o único a sofrer com as consequências.

— Quase dezessete anos...

Sherlock sorriu zombeteiro deixando a frase aberta para interpretações como, “quase dezessete anos e é mais sábia que você” e outras tantas variantes dessa frase que meu cérebro conseguiu criar. Grunhi enraivecido.

— Tá bom, o que eu faço então?

— Seria bom você pegar seu computador.

Comentou Russell ao ajustar seus óculos sem tirar os olhos do jornal.

— Afinal, nem todo mundo anuncia no jornal.

Complementou Sherlock.

(...) Russell

Nunca pensei que ficaria em dúvida quanto a ir para a Universidade. Antes de conhecer Holmes, todas minhas escolhas eram mais fáceis, mas uma vez que o conheci todas minhas prioridades foram esquecidas por um tempo. Bem, até eu receber a carta de Oxford com a aprovação.

Sherlock não pareceu fazer muito caso da situação quando descobriu que eu pretendia fazer o teste de admissão, provavelmente ele também achava difícil que uma garota da minha idade conseguisse uma vaga nessa universidade. Lembro-me até hoje de sua reação quando lhe contei o que pretendia cursar. Eu sabia exatamente o que esperar, estava antecipando o desanimo dele.

— O que pretende fazer?

Eu sorri, não pude me conter.

— Teologia.

A reação dele foi violenta como eu achei que seria, mas se eu tinha certeza de algo na minha vida, era aquilo. Acho que ambos fomos pegos de surpresa por eu ter sido aprovada. Sherlock não aceitou muito bem. No momento em que meu semblante ansioso pela resposta que a carta continha mudou para um sorriso, eu e John o vimos deixar a sala e só voltar na manhã seguinte.

Depois de todo o protocolo para nos certificarmos que ele não havia passado a noite se drogando e depois de John ir embora, sentei-me aos pés dele perto de sua poltrona sem pronunciar uma palavra, esperando pacientemente.

— Você vai?

Perguntou ele depois de um tempo muito longo. Ele não me olhava.

— Sim.

Sussurrei.

— Tem certeza?

— Sim.

Repeti. Ele suspirou.

— Muito bem.

Aquilo poderia parecer um “muito bem, vá então, você tem meu total e completo apoio.”, mas não era isso. No mês que se seguiu precedente a minha ida para a Universidade, Holmes elaborou uma justificativa diferente a cada dia para que eu não fosse ou para que eu esperasse até completar 18 anos.

Mal ele sabia que cada desculpa que ele me dava era categoricamente avaliada e, por diversas vezes, pesarosamente descartadas. Minha parceria com Holmes fez-me gerar certo afeto por ele, afeto esse que me fazia lamentar minha partida a cada dia em que ela se aproximava. Cheguei a me perguntar se não o estaria abandonando-o, mas então eu criava varias desculpas para minhas queixas pessoais, como por exemplo: “Você prometeu manter contato”, “Não é como se você fosse estudar em marte” e “Você vai vir visita-lo quase o tempo todo”.

Depois de muita lamuria da minha parte, depois de John e Mycroft me pouparem da conversa longa e exaustiva para convencer Sherlock, fui para Oxford. Foi lá que eu tive meu primeiro e desastroso encontro com Verônica Beaconsfield, ou Ronnie como gostava de ser chamada. Os cabelos de Ronnie pareciam fios de cobre desencapados que me fez pensar se era por ele que ela absorvia toda aquela energia que ela possuía.

Conhecemo-nos no meio da minha primeira noite em Oxford, ela estava passando pelo corredor depois de tomar banho e correu até meu dormitório depois de ouvir minha estante se estatelar no chão por não ser capaz de comportar mais quatro grandes livros. Naquela noite ela me cansou o suficiente para que a saudade de Baker Street não ficasse me remoendo e meu descanso fosse comprometido.

Como prometido, conversava sempre com Sherlock, quase que o tempo todo para ser honesta, mas nada além de seus casos e suas experiências e prolongávamos isso. Eu até mantinha o celular no silencioso porque nossas conversas se estendiam da sala de aula até o momento de dormir. E assim, por mensagens, por dois anos nos comunicamos. Nem mesmo quando eu ia visita-lo. Às vezes, no meio da noite em Baker Street, meu celular vibrava duas vezes — eu havia personalizado a vibração especial para as mensagens dele — indicando uma nova mensagem.

Não estava surpresa com a falta de simpatia de Sherlock para com o sentimento das pessoas, mas não o culpava afinal eu mesma tinha um pouco de dificuldade para entender algumas dores como a de Verônica por seu ex-namorado. Nunca a impedi de desabafar; simplesmente tentava me policiar para que ela não visse minha cara de total falta de interesse pelo assunto.

John era quem não gostava daquela parte da personalidade do detetive talvez pelo fato de ser médico e toda aquela história de se importar com a vida. Não me surpreendi em encontra-lo brigando com Sherlock quando cheguei, todavia, mais tarde, depois que a menina já havia sido encontrada e levada até a mãe, John congratulou ele pelo bom trabalho e foi embora. Assim que John pulou em um táxi, Sherlock entrou no banheiro para tomar banho.

Sentei-me para esperar, pois ele costumava demorar um pouco, provavelmente porque seu cérebro fazia questão de incomoda-lo ali também. Antes de eu ir para Oxford, Sherlock aceitou um caso que simplesmente abusou dele. Claro que tentei fazer que ele mudasse de ideia, se surtiu efeito? Claro que não, por isso que era conhecido como uma máquina. Mas, pedi a ele que se cuidasse na minha ausência e ele jurou que o faria.

Ouvi uma porta bater e por reflexo levantei a cabeça. Logo vi Sherlock entrar na sala e começar a procurar algo na mesa da sala, o único problema é que ele estava só de toalha. Arfei audivelmente atraindo a atenção dele. Ele me olhou confuso.

— O que houve Rus?

Tratei de levantar os olhos para o falar com ele e não para seu peito nu. Sherlock era magro, dias a fio sem comer direito era, em parte, o motivo de sua forma, mas ele era visivelmente robusto, corpulento e extremamente tentador. Não que eu nunca tenha visto um homem bonito sem camisa, pelo contrario, meu tempo na Califórnia foi praticamente bombardeado por moços desnudos quando o calor ficava insuportável. Entretanto, para alguém que alegava já ter sentido um calor escaldante na pele, no momento eu estava experimentando um calor completamente diferente.

Eu já havia sentido aquele calor, mas nunca o tinha sentido tão intenso daquela forma. Claro que eu iria culpar meus hormônios adolescentes por isso mais tarde. Sherlock ainda me olhava esperando uma resposta e eu resisti ao impulso que catar algo para me abanar.

— Hm, não tem nada errado, só entediada. O que você está procurando?

Ele me analisou por um segundo um pouco longo demais. Eu sabia o que estava acontecendo comigo, não era nenhuma leiga a respeito do desejo, por isso olhei para meu celular para evitar que ele me olhasse e notasse minhas pupilas dilatadas e concentrei-me em ficar bem parada para não causar atrito na região em que eu mais sentia calor no momento para não dar pistas, nem para me envergonhar mais ainda. Ouvi-o suspirar, congelei.

— Desculpe Rus.

Meu olhar disparou para ele.

— Pelo... — parei para limpar minha garganta, pois minha voz tinha ficado rouca — Pelo quê?

— Suas visitas são tão raras e eu praticamente a ignorei hoje. Podemos conversar agora, algum assunto sobre o qual queira conversar? Você comentou esta manhã que queria saber sobre algo, o que era?

Agora eu rezava para não estar corando. “Pense rápido antes que ele note”, pensei. Porque, ao mesmo tempo em que parte de mim queria que Sherlock botasse uma roupa, o outro lado queria que ele continuasse ali em um tipo de exibição exuberante especialmente para mim e essa parte era a que gritava mais alto. Soltei essa.

— Você fez o que eu te pedi, Sherlock? — Minha voz saiu doce, quase que amável como a de uma mãe preocupada. Ele abaixou o olhar para o chão imediatamente respondendo a minha pergunta somente com aquele movimento. Sorri levemente. — Vem aqui, Sherlock.

Ele me olhou sem entender.

— O quê?

Bati minha mão levemente no lugar ao meu lado no sofá.

— Senta aqui.

Era óbvio que ele estava cogitando a ideia e o porquê do meu pedido, por fim, ele acabou por vir. Senti meu coração esquentar e cada passo dele meu coração parecia uma escola de samba. Ele se sentou esperando.

— Agora se deite.

— Mas você está sentada...

— Deite sua cabeça em meu colo. — Senti que ele contestaria. — Apenas deite, por favor.

Hesitantemente ele fez o que eu pedira. Sem nenhum aviso, pousei minhas mãos levemente em seu cabelo recém-lavado e comecei a massagear a cabeça dele leve, porém vigorosamente como se eu pudesse acalmar aquele cérebro que se recusava a descansar. Ele ainda parecia um pouco desconfortável com a situação, mas fez um barulho de satisfação,

— Isso é bom.

Comentou.

— Sim, feche os olhos e relaxe.

Senti-o relaxar completamente sob minhas mãos e ceder sem mais objeções. Permiti a mim mesma olha-lo sem medo nenhum. Meus olhos passeando por aquelas bochechas perfeitas, aquele pescoço longo no qual minha boca pedia para se colar, o peito que tanto me atiçara anteriormente. Meus lábios simplesmente queriam estar nele; estavam secos como minha garganta e a pele dele parecia refresco.

Fechei meus olhos ao tentar controlar aquela vontade absurda de puxar aqueles cachos e trazer aquele arco de cupido dos lábios dele de encontro aos meus para umedecê-los. Eu precisava me distrair.

— Sherlock?

— Sim?

— Gostaria de ouvir uma história?

Ele fez uma pequena careta ainda de olhos fechados.

— Qual seria a necessidade disso, Rus?

Eu sorri, minhas mãos acariciaram a bochecha dele sem nenhum aviso meu, mas ele não pareceu se incomodar.

— EU só quero que você relaxe e não pense em nada. Só quero que preste atenção na minha voz, pode fazer isso?

Arranhei de leve o couro cabeludo dele vendo com satisfação ele se arrepiar.

— Sim.

Aquela simples palavra foi carregada do imprevisível para mim, as possibilidades contidas naquela permissão que ele me concedera... Aquela era a escolha dele, mas as consequências seriam minhas.

Notas finais
Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo, beijocas. VickSaturn