I'll Take The Breath Out Of You

8 Sobre Histórias de Terror


Notas iniciais
Boa Leitura!!!

Russell

— Era uma vez...

Fui interrompida por uma vibração anormal perto da minha coxa. Sherlock obviamente sentiu também, pois se sentou e em um movimento surpreendente, ou melhor, chocante, passou a mão pela minha perna até onde eu sentia o celular antes de puxa-lo. Engoli em seco discretamente quando ele finalmente se afastou atendendo ao celular em que eu havia, despercebidamente, sentado em cima.

A ligação foi rápida. Logo ao termino da mesma, Sherlock deixou a sala sem pronunciar uma única palavra para voltar logo depois, vestido em seu terno habitual de corte perfeito, que adornava seu corpo magnifico. Sherlock só sairia a essa hora da noite por um caso nota dez, então era óbvio que havia sido Lestrade a interromper minha história. Ele estava colocando seu relógio de couro no pulso quando decidi confirmar.

— Estou certa?

Ele me olhou, claramente deduzindo qual era minha pergunta.

— Definitivamente, Russ. Lestrade me disse que eu não perderia isso por nada.

Os olhos dele voltaram-se para o fecho do relógio que parecia teimar com ele. Eu ri e me aproximei tomando o pulso dele em minhas mãos para ajuda-lo. Às vezes, Sherlock ficava tão afoito quando um caso aparecia que sua paciência para coisas simples, como um fecho de relógio, tornavam-se motivos de frustração em milésimos de segundos.

Assim que terminei de atar o relógio, fui até a porta, peguei o casaco dele do gancho na parede estendendo-o para que ele o vestisse e, por fim, passei o cachecol azul em volta de seu pescoço. Ele me fitou profundamente quando levei minhas mãos para a lapela do casaco para levanta-la.

— O quê?

Perguntei ligeiramente desconfortável pelo olhar dele.

— Essa blusa está muito fina para sair nesse frio, Russ.

Eu não queria repetir minha pergunta e parecer boba, ou deixa-lo mais frustrado ainda, mas não foi preciso nenhuma pergunta sair pelos meus lábios. Sherlock sorriu e estendeu seu braço por cima de meu ombro puxando meu casaco do gancho e o passou por meus braços. Ele me analisou por um segundo a mais antes de arrancar o cachecol e passa-lo por meu pescoço, tentei protestar, porém ele levantou sua mão calando-me.

— Você precisa mais do que eu, acredite. Agora vamos, tenho que acordar o John.

— Coitado, nem deve ter chegado a casa dele ainda, Sherlock.

— Então, neste caso, ele nem vai precisar sair do táxi.

(...) John

Fui o primeiro a chegar a ao local do crime onde esperava pela chegada de Sherlock e Mary. Eu estava prestes a sair do táxi quando Sherlock me ligou dizendo que já tínhamos outro caso; agradeci aos céus por minha esposa não me esperar acordada e eu deixei um recado pelo telefone, é claro. Lestrade me passava todo problema que se passava no local quando o detetive e sua protegida chegaram.

— Tio John.

Cumprimentou-me Mary.

— Olá, Mary.

Olhei Sherlock um tanto bravo.

— Sabe que horas são?

Ele olhou seu relógio.

— Faltam cinco minutos para meia-noite, por quê?

— Eu estava a ponto de entrar em casa quando me ligou.

— Ah, por favor, John, o crime não tem hora e salvar vidas também não, achei que estaria ciente disso, doutor.

— Eu estou.

Rosnei vendo-o dar de ombros.

— Enfim, o que houve?

— Uma garota, quatorze anos, sequestrada. Estava sozinha em casa quando foi levada. Os pais dela estavam em um jantar da empresa dele e, como o convite era para adultos, a garota não foi.

Murmurou Lestrade.

— Como sabem que foi sequestro? Quero dizer, ela pode ter fugido para ver um namorado.

Sugeriu Mary.

— Sim, foi por isso que a policia veio tão rápido: a garota ligou para eles alegando que alguém tinha entrado na casa. A atendente ficou cerca de quatro minutos com ela no telefone até ouvir um barulho alto e a garota gritar; a ligação acabou ali. Os pais estão na delegacia agora.

— A que horas eles saíram da casa?

Perguntou Mary. Começamos a caminhar em direção a entrada da casa.

— A mãe disse que saíram por volta de nove e meia.

— E a que horas foi à ligação?

— Por volta das onze horas e nove minutos. A atendente acionou uma viatura local, mas a mais próxima estava a cinco minutos da casa, nesse meio tempo, a garota foi levada.

— A atendente ficou com ela no telefone por quatro minutos inteiros?

Perguntou Sherlock, Lestrade assentiu.

— Sim.

— Hum, ele foi rápido.

Comentou admirado fazendo-me revirar os olhos por sua incrível, e estupida, observação.

— Qual era o nome dela?

— Ashley.

Mary assentiu.

— Então?

— Alguma outra interessante observação Sherlock?

Perguntei um tanto grosseiro. Ele me encarou, olhou-me de cima a baixo antes de passar seus olhos pela casa.

— Bem, porta de vidro com tranca interna; ele quebrou o vidro para abri-la, aquele edredom no sofá significa que ela estava dormindo no ali quando ouviu o barulho do vidro se quebrando. — Deduziu ao olhar para a sala. Ele fez um barulho com a boca ao seguir para a cozinha. — Ela ouviu a porta se abrindo e correu para a cozinha nos fundos. — Sherlock olhou tudo com cuidado e parou ao lado da geladeira. — Ela não podia pegar o telefone na sala, não podia subir para o quarto, pois, como a porta fica bem na frente da escada, ele estava ali. Era tarde para uma garota, que tinha prova bem cedo no dia seguinte — ele puxou um papel da geladeira, parecia um cronograma. —, estar acordada a esta hora da noite. Ele teria ido direto para o quarto dela se a TV não estivesse ligada, ela percebeu isso, por isso, saiu pelo outro lado da cozinha, passou pela sala de jantar até chegar às escadas novamente, mas não subiu antes de pegar o telefone. Temos que ver os quartos.

— Eu vou ver o quarto dela.

Anunciou Russell.

— Eu e Lestrade veremos o dos pais então.

Terminou Sherlock.

— E eu?

— O banheiro.

Guiaram-me ambos. O banheiro era grade, inteiramente trabalhado em tons claros e estava limpo. Não havia nenhum indicio de sujeira, não havia marcas de sapato, não havia lugares em que a garota pudesse ter se escondido e não havia indícios de luta também. Um grito alto me tirou de minha linha de raciocínio. Corri para fora encontrando Sherlock e Lestrade já no corredor.

— Sherlock!

Mary gritou desencadeando uma reação de pânico em todos.

— Mary!

Sherlock disparou em direção ao quarto, comigo e Lestrade bem em suas costas. Um barulho de vidro se quebrando, um baque e outro grito de Mary ecoou pela casa antes de Sherlock abrir a porta do fim do corredor recheada de adesivos. Ela estava no chão, desacordada e coberta pelo vidro da janela quebrada. Sherlock correu atravessando o quarto, olhando de relance pela janela.

— Ele está fugindo! Lestrade, atrás dele, agora!

Ordenou ele antes de se abaixar para checar Mary no chão. Aproximei-me dos dois.

— Russell?

Ele a virou de frente, havia um corte no canto da testa dela.

— Tem uma ambulância lá em baixo, vamos leva-la para lá, Sherlock.

Ele a pegou no colo correndo escada abaixo, porém não foi até a ambulância, e sim, em direção a uma viatura na qual ele entrou logo em seguida. Entrei atrás dele.

— Me leve pra casa.

— Tenho cara de motorista?

Perguntou o oficial que estava ali dentro.

— Você pode ter duas: de desempregado, se eu falar com seu superior, e de cadáver, se me irritar. Você sabe quem eu sou então não brinque comigo.

Ameaçou Sherlock em cólera, o oficial limpou a garganta.

— Muito bem.

— Rápido, ligue a sirene se for preciso.

— Sherlock, ela machucou a cabeça, precisa ir ao hospital, precisa ser examinada e monitorada por um médico.

Sussurrei olhando Mary enquanto saíamos do local do crime.

— Você é médico.

O oficial ligou a sirene.

(...)

— John, primeiros socorros, agora!

Corri para o banheiro para pegar o kit. De volta à sala, Sherlock já havia sentado Mary em cima da mesa e analisava o corte na testa dela. Mary recobrara a consciência na viatura exatamente no momento em que chegamos a Baker Street. Acordou um pouco assustada, mas assim que reconheceu Sherlock se acalmou. O detetive, no entanto, parecia nervoso e impaciente, sem nem esperar a viatura parar direito, ele já corria para 221B.

— Mary olhe para mim. — ele a chamou levantando o rosto dela pelo queixo com uma das mãos — Direi três palavras e, quando eu pedir, quero que as repita para mim, tudo bem? — Ela assentiu — Beisebol, volume, hipismo.

Era um tipo de “atividade” que se fazia em um hospital em uma emergência. Consistia em passar palavras aleatórias para o paciente para, primeiro, manter o paciente consciente e, segundo, ver se a pancada havia afetado a memória. Rezei para que Russell conseguisse se lembrar das palavras, pois, se não conseguisse, ela teria que ir para um hospital o mais depressa possível.

Aproximei-me dos dois ainda mais ao notar algo e olhei meu amigo surpreso: as mãos dele tremiam ao limpar o corte de Russell e seu rosto trazia uma frustração enorme durante o processo, principalmente quando ela soltava resmungos ou se encolhia ao sentir dor. Ele praguejou alto ao deixar o algodão cair por entre seus dedos vacilantes, porém assim que ele pegou outro e o molhou no álcool para terminar de limpar a ferida, eu o impedi.

— Sherlock, deixe-me fazer isso.

— Não.

Não ia mentir. Só vi Sherlock tremendo uma vez e foi durante o caso dos Baskerville e, embora eu não tenha dito nada na época, me preocupei porque nunca o tinha visto daquela forma e, naquele momento, eu não estava apenas preocupado. Eu estava surpreso e definitivamente curioso.

— Sherlock, deixe-me fazer isso porque você obviamente não está apto.

Tentei mais uma vez, porém sendo completamente ignorado.

— Sherlock — Mary pegou o pulso dele gentilmente afastando a mão dele de seu rosto ao falar —, deixe o John fazer isso, por favor?

— Mas Russell...

— Holmes, eu não gosto beisebol, por isso não aumento o volume da TV; prefiro hipismo, pois gosto de cavalos.

Murmurou ela com um sorriso. Ele não disse mais nada, simplesmente me passou o algodão e saiu do caminho para que eu fizesse o meu trabalho. Depois que terminei, Mary comeu algo feito pela Sra. Hudson — que claramente foi acordada por contada euforia de Sherlock —, deitou-se no sofá e caiu em um sono profundo. Eu me sentei em minha poltrona depois de ligar para minha esposa e explicar a situação para ela, Sherlock sentou-se também sem tirar seus olhos de Russell por muito tempo. Minha curiosidade voltou a inflar depois de certo tempo. O sol já havia nascido quando decidi iniciar uma conversa.

— Sherlock...

— Sim?

Hesitei incerto. Talvez eu não devesse porque muito provavelmente ele me enxotaria e tentaria mudar de assunto, por isso, procurei outra pergunta para fazer.

— Sobre o caso...

Ele me encarou e perguntei-me se ele notou que eu aquela não era minha pergunta, entretanto, se ele notou nada disse, apenas seguiu em frente.

— Sim, estou pensando também, mas quero falar com Russell antes... Ver o que ela tem a me contar.

— Mas você já deve ter pensado em algo.

— Como?

Ele estava distraído.

— Bem, você claramente deve ter alguma teoria.

Ele assentiu.

— Sim, mas ainda quero ouvi-la primeiro.

Voltamos ao silencio, todavia, não queria aturar o silencio e nem perder meu sono para a curiosidade dentro de mim. Limpei minha garganta com um ruído alto. “Aqui vou eu”, pensei.

— Ela cresceu.

— Sim.

Respondeu ele, seu tom de voz soou monótono.

— Uma mulher.

— Sim.

Repetiu.

— Está muito bonita também.

Ele suspirou alto levando os dedos as têmporas massageando-as.

— Por Deus, John, desembuche!

— Você e... Mary.

— O que tem?

— Você gosta dela?

— Vejamos. — Murmurou ele recostando-se ainda mais na cadeira e juntando as mais debaixo do queixo. — Ela é inteligente; tem tanto interesse em ouvir quanto em aprender; é observadora; ela tem aquilo que você chamaria de “um bom papo”; ela não me entedia, o que é um feito notável porque até você consegue me deixar com sono às vezes; ela tem classe e ela...

— É bonita...

Comentei casualmente. Ele apertou os olhos levemente deixando as mãos caírem nos braços de sua poltrona.

—... E ela é paciente.

Assenti.

— Tá, mas não acha ela bonita?

Ele pareceu pensar.

— Bem, de acordo com os padrões atuais referentes à beleza, tanto sociais quanto...

— Sherlock — o interrompi —, eu quero saber se, para você, ela é bonita.

— Por que esse interrogatório?

— Talvez por que você não seja você quando está perto dela?

— Isso é ridículo.

Desconversou ele.

— Você acha ou não?

Tornei a perguntar.

— Não entendi sua pergunta.

— Muito bem, então vou reformular, principalmente depois de ver você tremendo como se tivesse Parkinson para limpar uma ferida, sendo que você adora ver um cadáver: Você a acha atraente?

No entanto, antes que ele pudesse mudar de assunto novamente, meu celular tocou indicando uma mensagem. Fiz uma pequena careta ao ver quem era.

— Mycroft!

Sherlock levantou-se nem rompante de sua cadeira. A resposta para minha pergunta acabara de ser interrompida pelo governo britânico. Revirei os olhos.

“Gostaria de convidar você e sua esposa para um jantar hoje à noite.” MH

— O quê?

Verbalizei minha surpresa.

— Outro caso? Diga a ele que já tenho um que é um ótimo enigma para ser resolvido.

Antes que eu pudesse contar a meu amigo sobre o que se tratava a mensagem de seu irmão mais velho, outra mensagem seguiu a última, me calando completamente.

“Não falamos de uma pessoa na frente dela, Watson.” MH

“Como assim?” JW

Digitei em seguida ainda confuso.

“Precisamos falar sobre o Sherlock.” MH

Isso não estava cheirando bem, meu celular vibrou em minhas mãos.

“Hoje à noite, oito horas, esteja em casa.” MH

— Então?

Pensei; meu celular vibrou novamente. Dessa vez era Lestrade.

“Avise Sherlock que pegamos o cara.” GL

Limpei minha garganta e guardei o aparelho antes de falar.

— Era Lestrade; pegaram o cara.

— Ah que maravilha, os homens da Scotland Yard estão, finalmente, tornando-se mais competentes.

Um movimento nos chamou a atenção. Espreguiçando-se e bocejando alto, Russell se sentou no sofá passando os dedos pelos cabelos e olhando em volta ainda sonolenta.

— Ainda é bom dia?

Dei uma olhada em meu relógio.

— São quase dez horas.

Ela meneou com a cabeça.

— Então bom dia. Holmes?

— Bom dia, Russell. Sente-se disposta a conversar agora ou prefere tomar o café primeiro?

— Conversar.

Ele sorriu.

— Essa é minha garota. — Ela recostou-se no sofá enquanto que Sherlock sentou-se a mesa de centro na frente dela. — O que aconteceu no quarto?

— Bem, havia sinais de luta no quarto de Ashley então ela foi pega ali. O tapete estava torto e as avessas no chão, ela certamente estava escondida debaixo da cama quando foi pega; ele a puxou. Fui em direção à cama quando ele saiu do armário e me agarrou pela cintura. O cara até conseguiu me arrastar para perto da janela, mas quando eu gritei pela terceira vez, ele me agarrou pela nuca e bateu minha cabeça contra o vidro. E é só do que me lembro.

Vi Sherlock fechar os punhos com força até seus tendões ficarem pálidos pela má circulação e, quando ele os relaxou, passou as mãos pelos cabelos pousando-as em baixo do queixo em seguida.

— Sherlock?

Chamei incerto. Ele se levantou começando a andar de um lado para o outro da sala.

— Isso é um problema.

Comentou sem parar suas passadas.

— O que é um problema?

Ele parou e me encarou.

— Não é um simples pedófilo, pensei que pudesse ser, mas não é.

— Como assim?

— Pedófilos não costumam fazer esse tipo de cena; são cuidadosos, ainda mais hoje em dia, quando um simples olhar entre um adulto e uma criança pode ser tão mal interpretado. Eles rondam sua vitima, esperam pelo melhor momento, atraem e iludem-nas para que tudo aconteça da maneira mais sorrateira possível. Eles procuram situações onde eles se sintam a vontade para fazerem o que querem com a criança. Esse cara não. Ele voltou à cena do crime, a pergunta é: por quê?

— Queria algum suvenir, uma lembrança da vitima.

Sugeri dando de ombros, Sherlock me olhou como se eu fosse idiota.

— Ele cometeu um erro.

Corrigiu-me Russell recebendo um olhar satisfeito dele.

— Sim. Pedófilos mantem suvenires que suas vitimas usaram no momento do ato porque isso os ajuda a lembrar do que fizeram, por esse motivo, não fazem vitimas o tempo todo porque ficam remoendo a lembrança em suas mentes e não voltam, nunca, ao local a onde cometeram o crime. Esse cara não. Ele voltou porque deixou algo incriminador na cena do crime.

— Identificação.

Murmurei.

— Sim.

— Ele voltou e conseguiu entrar sem ser notado.

Comentou Russell.

— Mas como entrar e sair sem ser notado pela policia? A janela da garota dava para os fundos da casa, ele poderia entrar e sair de lá sem ser percebido tranquilamente. Ele conseguiu entrar, porém ele foi surpreendido na hora de ir embora. — Ele olhou para Russell. — Você não o viu, ele viu você. Um pedófilo teria ficado quieto até o momento em que você fosse embora, para não criar alarde, até porque ele já tinha o que precisava: uma garota, não precisaria de outra. Entretanto, esse é um homem desesperado, ele quer quantidade. Ele pensou que sairia no lucro com outra garota bonita por isso te agarrou sem mais nem menos. Ele é um vendedor.

Engoli a bile em minha garganta ao entender.

— Você quer dizer que...

— Ele ia sequestra-la para vendê-la no mercado negro.

Notas finais
Espero que tenham gostado, beijos e até o próximo capítulo. VickSaturn